Da direta à esquerda: a crise diante da falta de um projeto de país

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Por Edemilson Paraná.

Poucos aspectos da política são mais incontornáveis do que sua dimensão radicalmente trágica. Como um indecifrável complexo de forças dirigido em múltiplas direções, os “destinos” inexoráveis do fazer político vão sendo caprichosamente tecidos pelos próprios protagonistas que lutam, em cada ato, para evitá-lo. O desfecho trágico advém, pois, das estruturas mais íntimas e inescapáveis de suas ações mesmas, sempre planejadas em seus mínimos detalhes, mas jamais levadas a cabo como desejado. 

Entendida em sua acepção grega “clássica”, essa forma “trágica” de entender a política (e mesmo a vida em sociedade) atravessou o tempo, fundindo-se à cosmologia cristã medieval, de onde refez-se no renascimento, culminando, mais tarde, no romantismo moderno, a partir de onde floresceriam a teoria social e o pensamento crítico tais quais conhecemos no ocidente – ao menos em algumas de suas expressões mais reconhecidas.

Em um desses momentos fundamentais, como virtú e fortuna, a política iniciou, na pena de Maquiavel, sua trajetória, talvez nunca concluída, de autonomização em relação à moral: diz-se que o poder não responde a nenhum imperativo que não a seus próprios desígnios. Nem bem, nem mau, nem certo, nem errado, apenas vencedores e perdedores. Essencialista ou não, essa forma de conceber sua luta diária é compartilhada, silenciosa ou abertamente, crítica ou acriticamente, pela quase totalidade dos políticos e políticas a quem se costuma conceder tal alcunha. 

Diante da dimensão trágica, contingente, imprevisível e incontrolável, a que papel estariam relegados os “projetos” e, em especial os projetos transformadores, na política? Reduzidos à mera instrumentalização retórica dirigida aos mais ingênuos? Ou elevados à energia transformadora das mais autênticas e revolucionárias forças políticas – cientes que são da tragédia inerente à sua própria tarefa histórica? 

Eis, pois, uma interessante chave para lermos a atual conjuntura política brasileira: a crise, dentre outros aspectos, não pode ser separada da total ausência de projetos de país entre nós. De energia impulsionadora à retórica de manutenção do poder, a simples menção a esse aspecto desvaneceu-se de parte à parte. Tal silêncio é eloquente naquilo que tem a nos dizer: das esquerdas às direitas, nenhuma força política apresenta saídas críveis e objetivas para o atoleiro em que se encontra o Brasil.

Nesse particular, pouco restaria dizer sobre o atual condomínio de governo e o partido que o dirige(?). Mesmo em suas mais contundentes mudanças, não fizeram muito mais do que administrar contingências como se fizessem revolução. Sem horizonte estratégico, e em detrimento de politização e mobilização popular, produziram, na lógica conciliadora do ganha-ganha administrada pelo andar de cima, um engenhoso sistema de gestão de acordos, como se finalmente tivessem mapeado o DNA do corpo político brasileiro. O destino trágico não tardaria a chegar. Levada ao paroxismo, a interminável repetição da mesma tática revelou finalmente a que veio, fazendo-se o quase-oposto do discurso que um dia supostamente encarnou.

A direita na oposição, por sua vez, como um espelho do não-projeto de país atualmente em desgoverno, ficou, entre perdida e paralisada. Como combater um governo que, em absoluto, poderia ser, com pequenos ajustes, antes como agora, o seu próprio? Difícil não lembrar do velho Brizola: “sua mente [a de Lula] está dentro desse modelo econômico, como a de Fernando Henrique. Só que Lula vem por baixo e Fernando Henrique vem por cima. Eles estão se acotovelando, as duas equipes, para executar o mesmo programa”. Atingindo o cume do cinismo, essa nossa velha conhecida direita conspira junto do que há de mais podre no “Reino da Dinamarca” para impedir a presidenta. O que fará de diferente com o país depois disso, naturalmente, não está em pauta. Nunca esteve.

A falta generalizada de projeto infelizmente não para por aí. Da negatividade da crítica contundente, a esquerda radical não consegue formular mais do que algumas poucas, ainda que justas e necessárias, palavras de ordem. Isolada até mesmos nas universidades, associações e sindicatos, perdida na hiper-fragmentação e no fratricismo autotélico de suas organizações, desfaz-se diante do tão esperado momento para uma possível catalização transformadora do descontentamento popular. Ora à reboque da “esquerda” no poder, ora obcecada com a necessidade de enfim expulsá-la de dentro de si mesma, essa esquerda, de modo quase geral, não apresenta uma agenda positiva, para além de uma anti-agenda que pouco convence. Falta um projeto alternativo sólido que fale diretamente às pessoas, conectado às suas vidas cotidianas e reais necessidades e, dessa forma, capaz de mobilizar suas esperanças de mudança. 

Tudo somado, muito da crise em que estamos metidos diz sobre essa grave ausência de parte à parte. Faltam projetos, ideias, soluções e coragem em sua defesa. Não é porque esteja submetido aos ditames trágicos da política que projetos políticos transformadores tornam-se acessórios. Pelo contrário, é justamente devido a tal dimensão trágica que se impõem como necessários: como aposta no imprevisível, como esforço subversivo para deslocar a arena das disputas, produzindo efeitos inesperados também em suas dimensões disruptivas, transformadoras, potencialmente revolucionárias; como ativação, em suma, de potências contra-hegemônicas sufocadas. É em momentos como esse, pois, que a coragem é chamada ao seu lugar, assumindo, paradoxalmente, a irracionalidade de lutar com inteligência contra forças aparentemente invencíveis. 

Nossa crise é política, econômica, social, mas é também – sobretudo em sua falta de propostas e apontamentos – teórica e prática. Estamos desarmados. Difícil saber se seremos capazes, a essa altura, e mesmo quanto tempo levará ou o que nos custará essa necessária reinvenção. Tentemos. Não nos resta outra opção. É que na ausência de um projeto de país, o trágico movimento de tensão entre virtú e fortuna termina refém de um conveniente acaso: aquele que tudo muda para tudo conservar. 

***

Edemilson Paraná é jornalista, mestre e doutorando em Sociologia pela Universidade de Brasília. Dele, leia também no Blog da Boitempo os artigos “O Brasil no pêndulo das elites: entre liberalismo submisso e desenvolvimentismo autoritário“, “Disputar o povão: neopentecostalismo e luta de classes“, “As raízes da escalada conservadora atual” e “Lula, o cerberus da política brasileira“.

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1 comentário em Da direta à esquerda: a crise diante da falta de um projeto de país

  1. Antonio Tadeu Meneses // 09/10/2015 às 20:49 // Responder

    Brilhante artigo, separou bem a essência dos fenômenos da crise que estamos passando e foi direto ao ponto, ou seja da causa que nos levou a atual situação.
    O que remete a duas frases, sendo a primeira de Marx:
    “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem segundo a sua livre vontade; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”.
    E a segunda no título de um artigo de Atilio A. Boron sobre os problemas da gestão de Bachelet no Chile:
    “Antipolítica + Antipartido = Governo dos Mercados”. (Nem precisa frisar tratar-se de um mercado neoliberal e dependente, como o nosso).

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