Levantem as bandeiras!

13.06.20_Levantem as bandeiras_Ruy BragaPor Ruy Braga.

Desafinando o coro dos contentes, a juventude brasileira foi às ruas. Em todo o país, massivas manifestações esparramaram-se pelas praças e avenidas das capitais. Aquilo que há apenas uma semana parecia impossível tornou-se trivial: a juventude deseja se reapropriar do espaço urbano que foi ardilosamente espoliado pelo conluio entre incorporadoras, construtoras, empresas de transporte e poder público.

Os jovens querem inventar outra metrópole e começam a vencer. Um lugar generoso onde as diferenças sejam acolhidas, os serviços públicos funcionem para as amplas maiorias e o espaço urbano não seja propriedade de uns poucos. A imagem de 100 mil pessoas caminhando por entre os prédios envidraçados dos bancos e das corporações na Faria Lima em direção à região da Berrini traduz cristalinamente esse desejo.  

Essa juventude sabe que os partidos, notoriamente o PSDB e o PT, além de seus satélites, não estão à altura desse anseio. Afinal, há décadas eles são parte de uma mesma trama que a cada eleição negocia milhões de reais de financiamento por inúmeras “maracutaias” com construtoras e empresas de ônibus. Daí a formação desse sentimento antipartidário alimentado por um instinto plebeu igualitarista compreensivelmente resistente ao pesado e desigual jogo político parlamentar.   

Trata-se de um instinto progressista que merece ser elaborado e tornado coerente pelas forças coletivas que têm animado os atuais protestos. No entanto, em meio à usual confusão que acontece quando milhares decidem agir simultaneamente, não poucos buscaram instrumentalizar esse instinto a fim de intimidar militantes do PSTU, do PSOL e do PCB. Notoriamente, alguns jovens mascarados avançaram sobre as bandeiras dos ativistas de esquerda. Isso é inadmissível.

Em primeiro lugar, pois se trata do direito elementar de manifestar publicamente opções políticas. Aqueles que enfrentam a polícia em defesa do direito à cidade não podem cercear o direito político dos que estão lutando justamente ao seu lado nas ruas. Este é o caminho que historicamente os setores mais reacionários da sociedade brasileira escolheram. O PCB passou a maior parte de sua longa existência na ilegalidade. Após o golpe de 1964, os militares substituíram todos os partidos da república populista por um único que foi dividido em duas alas, a do “sim” (MDB) e a do “sim senhor” (Arena). Em nome de um nacionalismo tosco, amordaçaram a democracia em benefício das multinacionais.

No entanto, o mais grave é que esse comportamento divide e fragiliza os protestos. Para os neófitos em passeatas, o atual movimento surgiu do vácuo. É um desatino. Alguém de fato acredita que em mais de uma dúzia de capitais centenas de milhares de jovens tenham decidido ir às ruas sem que nada existisse antes? Por exemplo, sem que o Movimento Passe Livre de São Paulo tivesse levado balas de borracha da polícia militar em várias ocasiões até que outros jovens chocados com esse tipo de repressão autoritária decidissem apoiá-lo.

Aliás, o que é o Movimento Passe Livre, senão um amálgama de bravos ativistas dos movimentos popular e estudantil, muitos deles com anos de experiência em partidos políticos de esquerda? Na realidade, existem partidos e partidos e muitos dos que hoje defendem o apartidarismo, atacando os agrupamentos identificados com a oposição de esquerda aos governos municipal, estadual e federal, esquecem-se de que votaram majoritariamente tanto no PSDB, quanto no PT.

Neste momento de avanço do movimento de massas, é necessário reconhecer que as lutas pela redução das tarifas do transporte urbano são, de fato, apartidárias. No entanto, não podemos tolerar a violência daqueles que, protegidos por máscaras, querem baixar à força as bandeiras da esquerda. Os ativistas do PSTU, do PSOL e do PCB estão nas ruas há muito tempo e seguramente não irão se furtar à responsabilidade de continuar defendendo a democracia socialista. 

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Leia também Entre a fadiga e a revolta: uma nova conjuntura, de Ruy Braga, Proposta concreta, por Vladimir SafatleAnatomia do Movimento Passe Livre e A Guerra Civil na França escritos por Lincoln Secco, e Motivos econômicos para o transporte público gratuito, na coluna de João Alexandre Peschanski.

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RiquezaII_debate e noite de autógrafos_com logos_630p

Ruy Braga participará de debate de lançamento de Riqueza e miséria do trabalho no Brasil II, com o coordenador da obra, Ricardo Antunes, na próxima sexta-feira, 21 de junho, às 16h na Sala 8 do Prédio de Ciências Sociais da FFLCH/USP. Após o debate, haverá noite de autógrafos com os autores do livro na Livraria Cortez.

Confira os detalhes e confirme presença na página do evento no Facebook!

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Confira abaixo debate entre Ruy Braga e André Singer sobre A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista, em evento de lançamento com Franscisco de Oliveira e Ricardo Musse:

Confira a versão integral do debate no canal da Boitempo no YouTube.

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Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (São Paulo, Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (São Paulo, Xamã, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista, tema abordado em seu mais novo livro, A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

8 comentários em Levantem as bandeiras!

  1. Agora vi, se os militantes do PT quiserem ir nas marchas apoiar as pautas e pressionar seus governos, devem ser vistos como inimigos??
    Os governos os PT baixaram a tarifa já o do PSOL em Macapá…vamos largar de ser ser oportunistas, fazendo análises que igualam PT e PSDB sendo que você mesmo sabem que não e igual e muito menos pior!!

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    • Com exceção dos fascistas e dos reacionários, defendo o direito de TODOS levantarem suas bandeiras. Ocorre que, até o momento, as bandeiras do PT estavam do outro lado das lutas.

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      • Marcos Fidelis // 20/06/2013 às 21:00 // Responder

        Desculpe sr. Ruy Braga, mas aqui em Campinas o primeiro a se levantar contra o aumento das passagens, inclusive analisando a planilha de custos e descobrindo varias irregularidades, foi o PT e não outro partido, esses inclusive deixaram o PT sozinho neste quesito.

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  2. Leonardo de Lucas // 20/06/2013 às 15:45 // Responder

    Esse movimento é apartidário e assim acredito que ele deva ser. Vários cartazes destacam que as pessoas estão insatisfeitas com a estrutura partidária e com o poder hierarquizado, distante dos anseios da população. As manifestações pedem uma alternativa à resolução de problemas práticos do dia a dia da vida urbana. As pessoas estão cansadas de partidos, mesmo as de esquerda (meu caso). Há de se pensar num novo meio de organizar as demandas e de propor soluções. Um meio mais participativo e no qual as pessoas tenham voz (sejam autoras da sua própria luta). Não tenho nada contra os partidos políticos, mas acho que a história irá jogá-los, aos poucos, no ostracismo (assim como os sindicatos…). E isso não vai significar falta visão de mundo, falta de organização… Vai significar falta de privilégios para os dirigentes políticos, falta de líderes carismáticos, falta de burocracia… Talvez, as pessoas estejam tentando dizer exatamente o oposto do que a esquerda atualmente constituída quer interpretar. As ideias movem o mundo, não os partidos. As pessoas querem tomar partido, querem ser parte, querem pensar com seu próprio entendimento, querem buscar informações, querem dizer o que pensam, querem decidir sobre o futuro de suas vidas…. Essa é a força política de esquerda desse fenômeno. Nesse momento, as pessoas não seguem os partidos, eles é que seguem as pessoas.

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    • E tudo o que você falou não significa que as pessoas organizadas em partidos não possam apoiar nossa causa e ter o direito de expressar sua liberdade de fazer isso. A causa é uma só.
      Querer que a juventude partidária que luta há anos enquanto muitos de vcs estavam em casa com a bunda pra cima se convença com esse argumento de “estamos cansados de partidos” é pedir demais. Imagina se os partidos de esquerda tivesse cansado do povo.. Hoje não teria nem redução de passagem, nem MPL.. Quem dirá essa “insurreição” popular.

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    • Leonardo de Lucas // 25/06/2013 às 18:47 // Responder

      A coisa realmente fugiu de controle…esse pode ser um duro golpe à esquerda. Ingenuidade minha não ter me ligado disso…é difícil crer que a coisa siga uma lógica tão distinta. É preciso dar uma outra orientação às manifestações. Ainda imagino que uma parcela significativa das manifestações (que não são televisionadas) discutem temas próprios da esquerda. O dilema está posto: continuar ou não a engrossar as manifestações? A periferia parece ser um lugar bom para essa guinada (de volta ao início).

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  3. Marcos Lima Filho // 21/06/2013 às 3:13 // Responder

    Aê Ruy Braga quis ser “tão esperto” separando os bons dos maus, só não contava que tinha gente “muito mais esperta” e fez o serviço melhor do que os trotiskitas. O “Fora PT” pegou e foi ampliado. Sempre avisei aos militantes de esquerda, quem faz aliança com Trotiskista, amanhece envenenado. Parabéns vocês venceram e agora estamos nas mãos dos fascistas. Mas o que importa é que os traidores foram pegos, o resto da realidade (capitalistas, facistas) são meros detalhes.

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  4. C@ro Marcos Lima Filho. Infelizmente, os partidos de esquerda não venceram. Estamos pagando o pato nas ruas por aquilo que o PT fez nos últimos 10 anos. A massa olha para as bandeiras do PSTU, do Psol, do PCB, da CSP-Conlutas, e enxerga as bandeiras petistas, as bandeiras da CUT… Quem venceu, na verdade, foram o Eike Batista, a Odebrecht, a Friboi, a BR Foods, a Vale, a Camargo Correa, etc. Parabéns aos verdadeiros vencedores! E com todo o apoio da Guarda Nacional em Jirau, Belo Monte, etc.

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