O sapo Gonzalo em: pôr fogo em tudo

13.07.19_Luiz Bernardo Pericás_O sapo Gonzalo em_Por fogo em tudo2Por Luiz Bernardo Pericás.

Multidões cercavam o Congresso Nacional, que ardia em chamas. Agora a polícia já não era mais suficiente para conter a turba, que se aglomerava em torno do Parlamento. Tropas suplementares não chegariam a tempo. “Sem violência!”, gritavam alguns poucos. “COM VIOLÊNCIA!!!”, vociferava a maioria dos manifestantes. A Justiça feita com sangue. A massa crescia, o ódio transbordando dos poros de cada cidadão presente ali. Guilhotinas seriam usadas desta vez. E os facínoras, finalmente decapitados.

Na paisagem escarlate, corpos inertes de políticos, pendurados em postes, balançando como pêndulos, presos por cordas, apertadas nos pescoços retorcidos. Deputados de faces pálidas e olhos esbugalhados, as línguas para fora; mãos crispadas e braços rígidos… Agora estavam na companhia de Belzebu, seu amigo de todas as horas: figurantes de uma dança macabra.

Nas imediações, a fumaça negra saía das janelas dos ministérios enegrecidos pela fuligem. Funcionários carbonizados não tinham mais motivo para gastar seus altos salários com sapatos e viagens para Miami: passariam a eternidade rastejando junto aos vermes, seus colegas de repartição. O vidro estilhaçado, espalhado no concreto das calçadas, servia como arma para retalhar a carótida dos parasitas públicos; enquanto no gramado da Esplanada, cresciam rosas blindadas.

A onda humana aumentava como um tsunami; vinha não se sabia de onde. Andavam todos sobre ossos, esqueletos dos tempos remotos, que repousavam nos jardins calcinados, pisoteados pelas botas dos agentes de segurança. Chegavam de todas as partes, jovens e velhos, estudantes e operários. Eram muitos, a tropa de choque nada mais podia fazer; impossível contê-los agora. Bombas de gás lacrimogênio, spray de pimenta e balas de borracha. A resposta das hostes populares seria dada com disparos de fuzil. Os tiros, desta vez, viriam do meio da gentarada, que não trazia apenas coquetéis molotov, paus, pedras e armas artesanais, de fabricação caseira e rudimentar. Nos bolsos, granadas; e entre os dedos, pistolas. Bazucas e lançadores de mísseis.

A mídia chamava esses enragés de “baderneiros”. Ao longo da história, os donos do poder assim denominaram os homens e mulheres que tomaram a Bastilha; os camaradas que invadiram o Palácio de Inverno em Petrogado; os rebeldes que atacaram o Quartel Moncada. Eram os “baderneiros” de seu tempo, os “vândalos”, os “terroristas”. Jacobinos, sans-culottes, bolcheviques… mudaram a história com sangue. “Pôr fogo em tudo…” Drummond, o incendiário. Talvez ele estivesse certo.

Do chão, brotavam os cadáveres da ditadura militar, que se uniam ao povo que protestava. Os guerrilheiros voltavam para lutar. Essa não era a bela “democracia” que haviam sonhado e pela qual haviam dado a vida… Eleições pagas por grandes corporações, empreiteiras, marqueteiros, candidatos “exóticos”, desvio de verbas, negociatas, lobistas, narcotraficantes, latifundiários, ruralistas, a canalha controlando o país; e junto deles, empresas de telecomunicações escolhendo quem deve ser eleito, pautando comícios, direcionando manifestações, dizendo para a população cotidianamente como agir e o que fazer durante os protestos de rua. As redes de televisão manipulando imagens, controlando as mentes… Os torturados e executados pelos generais agora emergiam incólumes do solo seco do Planalto Central. Ajudariam a defenestrar as autoridades decrépitas que os haviam traído: seu sacríficio não seria em vão.

Em seguida, chegaram os fantasmas do passado remoto, os guerreiros de Zumbi, os cabanos, os revoltosos da Coluna Prestes e os revolucionários de trinta e cinco. Espectros que voltavam para se vingar; também queriam participar; acompanhavam a gentama enfurecida.

Do céu, vinha a chuva de meteoritos flamejantes, pingando lava no meio da capital. O firmamento negro agora cintilava com milhares de gotas de fogo, que derretiam os capacetes dos soldados e o perfuravam o teto do palácio presidencial. O horizonte, rubro. O estádio Mané Garrincha permanecia silencioso. Ninguém mais se importava com a Copa do Mundo. No Museu da República, os ratos obesos faziam um banquete; em breve, tudo seria tomado pelas labaredas. Já o Supremo Tribunal Federal era consumido pelas chispas do inferno. Dentro dele, incinerados, os bandidos togados que lá “trabalhavam”. E a guilhotina, silenciosa, aguardando os deputados e senadores. Tudo era um transe completo, as pessoas hipnotizadas, sendo impelidas pela força propulsora da história. Ninguém poderia detê-los. Seguiam, seguiam…

E então invadiram o Congresso. Arrancaram as “autoridades”, uma a uma, puxadas para fora das dependências oficiais pelos cabelos ou pelas orelhas. A lâmina de aço, afiada, zunia; as cabeças rolaram! Crianças ensandecidas jogavam futebol na Praça dos Três Poderes com as cabeças descarnadas de Sarney, Renan, Alves e Feliciano. Chutavam narizes e bigodes, os crânios rachados, de pele enrugada e flácida, girando de um lado ao outro. “Gol!”, bradavam em êxtase os moleques descalços e famintos. Cabeças rolando! A comemoração era ouvida a quilômetros de distância, o povo em júbilo, se livrando da corja política com as próprias mãos.

Até que, subitamente… PLOP! Gonzalo acordou, o travesseiro empapado de suor! Mas não era possível! Afinal de contas, tudo não passara de um sonho. Não escondeu a decepção. Deu um gole na bagaceira ardida, direto da garrafa, para manter a calma. E, ansioso, fumou sete cigarros de palha simultaneamente, achando que assim seus nervos logo voltariam ao lugar.

Se o sapo esverdeado de início sentiu uma ponta de desânimo ao saber que aquilo tudo não ocorrera de verdade, esse sentimento passou rápido. Mesmo dolorido, o reumatismo e a gastrite o incomodando mais do que nunca, sabia o que tinha de fazer naquele momento. Levantou-se na mesma hora da cama de molas enferrujadas e foi, cheio de entusiasmo, para a avenida. Com uma bandeira vermelha na mão! 

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Ainda este mês a Boitempo lança seu próximo livro de intervenção Cidades Rebeldes: Passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, com textos de Slavoj Žižek, David Harvey, Mike Davis, Ermínia Maricato, Carlos Vainer, Ruy Braga, Paulo Arantes, Silvia Viana, Pedro Rocha de Oliveira, Felipe Brito, Lincoln Secco, João Alexandre Peschanski, Mauro Iasi, Raquel Rolnik, Leonardo Sakamoto, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros.

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Sobre as manifestações de junho, leia no Blog da Boitempo:

Problemas no Paraíso, por Slavoj Žižek

Levantes aqui, ali e em todo lugar, por Immanuel Wallerstein

Por que a concentração monopólica da mídia é a negação do pluralismo, por Dênis de Moraes

A potência das manifestações de rua, por Ricardo Musse

A primavera brasileira: que flores florescerão? por Carlos Eduardo Martins

As manifestações, o discurso da paz e a doutrina de segurança nacional, por Edson Teles

O inferno urbano e a política do favor, tutela e cooptação, por Marilena Chaui

A criação do mundo revisitada, de Izaías Almada

Tarifa zero e mobilização popularO futuro que passou, de Paulo Arantes

Pode ser a gota d’água: enfrentar a direita e avançar a luta socialista, de Mauro Iasi

A classe média vai ao protesto A classe média vai ao protesto (II), por Pedro Rocha de Oliveira

A direita nos protestos, por Urariano Mota

A revolta do precariado, por Giovanni Alves

O sapo Gonzalo em: todos para as ruas, de Luiz Bernardo Pericás

A guerra dos panos e Técnicas para a fabricação de um novo engodo, quando o antigo pifa, por Silvia Viana

Fim da letargia, por Ricardo Antunes

Entre a fadiga e a revolta: uma nova conjuntura e Levantem as bandeiras, de Ruy Braga

Proposta concreta, por Vladimir Safatle

Anatomia do Movimento Passe Livre e A Guerra Civil na França escritos por Lincoln Secco

Esquerda e direita no espectro do pacto de silêncioMotivos econômicos para o transporte público gratuito, por João Alexandre Peschanski

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Já estão à venda em versão eletrônica (ebook) os livros de Luiz Bernardo Pericás publicados pela Boitempo Editorial: o premiado Os cangaceiros: ensaio de interpretação histórica, e o ficcional Cansaço, a longa estação (por apenas R$13). Ambos estão disponíveis na Gato Sabido, Livraria Cultura e diversas outras lojas, custando até metade do preço do livro impresso.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Professor de história da USP, foi visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). É organizador, com Lincoln Secco, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil (título provisório), que será lançada no segundo semestre de 2013. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

3 comentários em O sapo Gonzalo em: pôr fogo em tudo

  1. “Um transe completo”, mesmo! Trata-se de romantismo a la Victor Hugo, Totem e tabu ou “A casa do girassol vermelho” de Murilo Rubião? Foi com pés no chão que os revolucionários franceses lutaram contra o despotismo monárquico e levaram a burguesia (na época, revolucionária) ao poder; os camaradas comunistas, contra o czarismo e pela instauração do comunismo; os cubanos, contra o ditador Fulgêncio Batista e por Cuba socialista; os brasileiros torturados, contra a ditadura militar e para chegar à mínima democracia que, hoje, com todas as contradições da história, permite que cheguemos às ruas! E Drummond, cujo fogo era de outra natureza, ainda pergunta: Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Realismo, Sapo Gonzalo, ou é melhor voltar a dormir, senão é só um sonho efêmero, delírio ou hipnotismo!

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  2. Caro Luiz, essa pegou pesado… Vc mudou de opinião quanto à legitimidade das manifestações?

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  3. Lucy Dutra // 19/07/2013 às 22:53 // Responder

    Luiz,acabo de ler seu artigo….Luuuiz!!!!!como vc escreve bem,menino!!!! Fiquei até arrepiada ! Lembro sempre do seu desenho,quando vc tinha 11anos : Velhice dos Super Heróis .

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