Anatomia do Movimento Passe Livre

13.06.12_Lincoln Secco_Anatomia do Movimento Passe LivrePor Lincoln Secco.*

As recentes manifestações de junho do Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo surpreenderam os donos do poder. Como a justiça da causa não podia ser questionada, as armas da crítica voltaram-se contra a crítica das armas. E sendo assim, perderam.

Ainda que as armas não fossem armas. Pneus incendiados, lixeiras como barricadas e milhares de pessoas concentradas ainda não podem ameaçar nenhum grupo estabelecido no andar de cima. Mas podem desmoralizá-lo. Diante disso a “crítica” dirigiu-se à turba, à baderna, ao “trânsito”, aos arruaceiros e aos jovens filhos de papai.

Sem resultados, os críticos descobriram os partidos. Assim, pelos jornais “sabemos” que certos partidos de “extrema esquerda” dirigiam sorrateiramente o MPL. Nada mais falso. O MPL se organiza horizontalmente, ao lado, acima (por vezes, abaixo) dos partidos políticos. Não é, portanto, uma frente de partidos. Decerto há nele militantes de partidos. Nada mais esperado e justificado. Os partidos de esquerda, revolucionários ou não, vivem sempre a expectativa de montar o cavalo já em disparada.

Eis que a grande imprensa lembrou o vandalismo. “Vândalos!”, berravam apresentadores transtornados nos telejornais sensacionalistas. Em movimentos assim, é natural que haja ações erradas, revoltas incontidas e gritos de ódio. A população que se movimenta não o faz segundo a etiqueta de parlamentares de terno, gravata, seguranças e jantares caros.

Uma ou outra vidraça se quebra porque, ao contrário dos militares que batem, atiram balas de borracha e lançam bombas de gás lacrimogêneo, os militantes das ruas ainda não se acostumaram a mirar com precisão. Eles não dispõem de dinheiro, da polícia e das leis ao seu lado. Mas segundo a contabilidade prática do movimento as lixeiras incendiadas e os prejuízos ao tráfego poderão ser descontados tranquilamente dos bilhões desviados dos cofres públicos nas licitações duvidosas de obras que visam melhorar exatamente o tráfego.

Mas alto lá, proclama um prefeito. O custo do passe livre o inviabiliza! É certo que poderíamos fazer outra conta. A tarifa zero, proposta hoje por vários partidos piratas europeus, foi pela primeira vez lançada pela própria prefeitura da cidade de São Paulo e pelo atual partido do Governo. O Partido dos Trabalhadores propôs durante a gestão de Luiza Erundina que a tarifa fosse paga por um imposto urbano progressivo. Sem apoio na época de um movimento social organizado, foi fácil para a Câmara Municipal recusar.

Hoje, desconheço os cálculos políticos que os governos fazem para se opor ao passe livre. Sei que os contábeis estão errados. E, provavelmente, os eleitorais também. Uma medida de tal impacto talvez pudesse se tornar o maior “programa social” de um partido. A economia com os gastos de cobrança e com a diminuição de automóveis nas ruas compensaria mesmo a chamada classe média.

Além disso, a população poderia se deslocar por vários serviços de saúde e educação desafogando os equipamentos públicos mais procurados. E nem precisaríamos citar os ganhos para os que frequentariam as escolas, bibliotecas, parques, praças, museus etc.

Confusos, finalmente os “críticos” dizem que se trata de um movimento comunista, anarquista, trotskista, punk, sindical, baderneiro… Mas sabemos que a finalidade do MPL não se define previamente. Apesar da evidência do motivo imediato (a livre locomoção urbana de todas as pessoas) e de ideais necessariamente vagos sobre outra sociedade, ele se define apenas como um grupo que luta. Luta por nós.

* Publicado originalmente no portal Viomundo.

***

Leia também “Motivos econômicos para o transporte público gratuito”, na coluna de João Alexandre Peschanski.

***

Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. É organizador, com Luiz Bernardo Pericás, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil (título provisório), que será lançada no segundo semestre de 2013. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente durante o ano de 2011.  A partir de 2012, tornou-se colaborador esporádico do Blog.

1 comentário em Anatomia do Movimento Passe Livre

  1. O que inviabiliza o “Passe livre” é a negação dos políticos em faze-lo. Excelente texto!

    Curtir

35 Trackbacks / Pingbacks

  1. A Guerra Civil na França | Blog da Boitempo
  2. Proposta concreta | Blog da Boitempo
  3. O que um blog de Educação Ambiental tem a ver com os protestos das passagens? |
  4. Levantem as bandeiras! | Blog da Boitempo
  5. Técnicas para a fabricação de um novo engodo, quando o antigo pifa | Blog da Boitempo
  6. O sapo Gonzalo em: todos para as ruas | Blog da Boitempo
  7. A guerra dos panos | Blog da Boitempo
  8. A revolta do precariado no Brasil | Blog da Boitempo
  9. A direita nos protestos | Blog da Boitempo
  10. A classe média vai ao protesto | Blog da Boitempo
  11. Sobre a onda de protestos e o lulismo | Blog da Boitempo
  12. Pode ser a gota d’água: enfrentar a direita avançando a luta socialista | Blog da Boitempo
  13. O futuro que passou | Blog da Boitempo
  14. A criação do mundo revisitada | Blog da Boitempo
  15. O inferno urbano e a política do favor, tutela e cooptação | Blog da Boitempo
  16. A pasteurização do protesto | Blog da Boitempo
  17. Direita e esquerda no espectro do pacto do silêncio | Blog da Boitempo
  18. Tarifa zero e mobilização popular | Blog da Boitempo
  19. A classe média vai ao protesto (II) | Blog da Boitempo
  20. Problemas no Paraíso: artigo de Slavoj Žižek sobre as manifestações que tomaram as ruas do Brasil | Blog da Boitempo
  21. As manifestações, o discurso da paz e a doutrina de segurança nacional | Blog da Boitempo
  22. A Primavera brasileira: que flores florescerão? | Blog da Boitempo
  23. A potência das manifestações de rua | Blog da Boitempo
  24. Atual conjuntura | Blog da Boitempo
  25. Levantes aqui, ali e em toda parte | Blog da Boitempo
  26. O sapo Gonzalo em: pôr fogo em tudo | Blog da Boitempo
  27. A situação da cultura diante dos protestos de rua | Blog da Boitempo
  28. HOMO SAPIENS
  29. A cura | Blog da Boitempo
  30. O vandalismo | Blog da Boitempo
  31. Manifestação do dia 20 de junho no Rio de Janeiro: Dados, percepções no fino do espelho social | Blog da Boitempo
  32. A violência que pode e a que não pode | Cama de Prego – Luciano Alvarenga
  33. O direito à violência | Blog da Boitempo
  34. A Lei é o crime | Blog da Boitempo
  35. Terrorismo oficial | Blog da Boitempo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: