A classe média vai ao protesto (II)

frm20130614064 - CópiaPor Pedro Rocha de Oliveira.*

Este artigo dá continuidade ao texto publicado em 26 de junho, disponível aqui.

Durante as manifestações da quinta-feira 20 de junho deram-se acontecimentos graves e importantes, aos quais a chamada “opinião pública” escolheu não dar muita atenção: refiro-me especificamente ao fato de que militantes de esquerda foram alvo de ataques em várias cidades do país. No Rio e em São Paulo, diante desses ataques, a multidão às vezes aplaudiu, às vezes não fez nada, às vezes gritou “sem par-ti-do!” ou “sem vio-lência!”, mas não passou disso [1]. Na prática, significa que a esquerda levou porrada sob o tácito consentimento dos manifestantes. Depois desses acontecimentos, só não voltou para casa deprimido, confuso e preocupado quem não entendeu nada, ou quem não liga.

 

Entretanto, enquanto o pessoal voltava para casa, instalou-se no Rio, come se sabe, verdadeiro toque de recolher, coisa quotidianamente produzida pelo Estado nas favelas, mas até então impensada no Centro da cidade (pelo menos desde 1985). A polícia atacou pessoas nos bares, invadiu um hospital, jogou spray de pimenta em ônibus cheios de passageiros, abordou com “armamento não-letal” gente que tinha saído com o cachorro. Diante da sensação de perigo palpável e onipresente proporcionada por um Estado policial em ação, não foi à toa que a palavra “golpe” começou a pipocar. Foi a linha de raciocínio de quem, na noite sufocante, e depois de apanhar, tentava localizar seus camaradas, manter-se em segurança, filtrar a enxurrada de notícias picotadas que chegavam de todos os lados em velocidade vertiginosa, causando uma epidemia de insônia. E por mais que, quanto ao grito de “golpe!”, a leitura mais acertada pareça ser aquela de que a elite econômica brasileira simplesmente não precisa de um golpe, visto que as máquinas burocráticas do PT/PMDB e do PSDB/DEM já fazem todo o serviço sujo possível, a sensação de derrota e de medo que acometeu a esquerda naquela noite teve uma razão de ser, e (a bem da verdade) constitui uma avaliação mais próxima do estado de coisas em que nos encontramos do que os discursos inflamados e manifestações de desejos que vêm povoando os debates e plenárias desde então. 

A agressão que a esquerda sofreu na frente de todo mundo precisa ser lida não como um horrível evento isolado, mas como acontecimento paradigmático, que encontra ressonância em outro da mesma espécie: a ação policial violentíssima – porém típica – que nos dias 24 e 25 de junho reprimiu um protesto popular no complexo de favelas da Maré, Zona Norte do Rio, e deixou um saldo de 10 mortos. Tendo sido anunciada a necessidade de evitar saques, combater o tráfico de drogas, e vingar (!) a morte de um agente do BOPE, a população da Nova Holanda foi colocada sob toque de recolher. Depois de diversas casas invadidas, e uma noite inteira sob o ronco dos helicópteros e das armas automáticas, manifestantes foram impedidos de ocupar a Avenida Brasil. A operação envolveu o sítio de uma ONG – o Observatório de Favelas – pelo BOPE, que, para atacar o prédio da entidade, usou as bombas com as quais já estamos nos acostumando. 

De um lado, a esquerda isolada leva porrada num momento fora do ordinário; do outro lado, aquele setor social que deveria constituir (e já constituiu) a base da esquerda é impedido de se manifestar politicamente pelo controle territorial armado a que está submetido ordinariamente, e contra o qual a esquerda tem sido incapaz de lutar de forma consistente (a bem da verdade, às vezes se mostra até mesmo a favor dela). Esses dois fatos são um: que a esquerda não tenha base social e que o Estado de Direito tenha deixado de existir para os pobres são um único e mesmo fenômeno. E essa unidade não pode passar despercebida. Ela conta a história do fechamento do horizonte civilizatório da sociedade burguesa, o estreitamento brutal da capacidade do capitalismo ser dirigido com fins “mais humanos” em vista, o acúmulo de uma espessa camada de constrangimentos econômicos que vêm obrigando o Estado a abandonar gradativamente as operações de compensação social que sempre consistiram no ancoramento real do projeto de transformação radical da esquerda. O ponto final dessa história é a conversão da pobreza em questão de polícia, que é coetânea à dificuldade da esquerda de formular, a partir do espaço do capitalismo contemporâneo, um caminho político que pareça interessante aos pobres, e que ao mesmo tempo aponte para a superação do capitalismo.

História antiga do novo tipo

Uma forma de estruturar essa história é olhando para a história do PT, que começa como um “partido de novo tipo” (Chauí, Sader) e termina como uma máquina burocrática de gestão da pobreza e de promoção dos miseráveis à categoria de consumidores endividados. Antigos militantes de favelas cariocas relatam como o “novo tipo” que o PT reclamava para si não era só assunto de tese de doutorado, mas descrevia um basismo real e pulsante, ancorado em experiências do antigo Partidão e da esquerda católica, e que fomentava a organização da população favelada tanto para a reivindicação de serviços públicos, quanto para o auto-aprimoramento das comunidades. As eleições eram pensadas como resultado desse processo de mobilização social, e o que estava no horizonte era a mudança qualitativa na forma de vida: desenvolvimento de laços comunitários, manutenção de relações diretas com o poder institucionalizado e crescimento gradual da capacidade do “povo” organizado de pressionar a gestão do país na direção da igualdade social plena, contra as elites econômica tradicionais, empregando os representantes políticos como mera ferramenta para este fim.

Acontece que o capitalismo e a democracia burguesa tinham outros planos. As condições ornitorrínticas do “desenvolvimento” econômico brasileiro” [2] e o lugar desse desenvolvimento no quadro da divisão internacional do trabalho necessitavam a manutenção de formas subumanas de vida social. O processo de favelização não só não foi revertido, como intensificou-se exponencialmente [3]. Nos anos 1990, completa-se a reestruturação produtiva marcada pela inovação de métodos sem inovação de produtos, insinua-se o esquema neo-liberal de angariar suporte estatal para os níveis colossais de investimento capitalista mínimo necessário e a economia dá os primeiros sinais terminais de uma madura financeirização. No Complexo do Alemão, a desindustrialização vitimou diversas fábricas do entorno, destruindo fundamentais entidades de mobilização social: os sindicatos, que dialogavam com os movimentos sociais. À galopante informalização do trabalho e empobrecimento da população somou-se uma mudança de perfil nas organizações de comércio de drogas ilícitas, em paralelo à desistência do poder público de tratar a favela como problema urbano passível de solução, e a consequente criminalização da pobreza.

Ao mesmo tempo em que ocorria tudo isso, o PT ia abandonando as organizações de base. Inviabilizado o caminho de superação política e econômica da pobreza, as demandas das comunidades deixaram de ser motivo para a organização política, e passaram a ser questão de “gestão”, na época do que Luiza Rocha (militante das antigas) chama de “mundo maravilhoso das ONGs”. De sujeito político, a população favelada se transformou em reclamante à categoria de objeto de “políticas públicas” da máquina estatal: não construiria mais o partido, mas seria convidada a votar nele em troca disso e daquilo. O “novo tipo” de partido foi para as cucuias, amarrado como estava à naufragada possibilidade de uma expansão de um “capitalismo social” no Terceiro Mundo (ou em qualquer mundo, como vem ficando demonstrado com o crescimento da pobreza e da concentração de renda por tudo quanto é lado).

A esquerda não se recuperou desse golpe e, verdade seja dita, considera o discurso a seu respeito uma coisa derrotista de mau gosto. Mas são esses os elementos que determinam a surra ordinária que a esquerda vem levando há tempos, e no contexto da qual sofreu a agressão extra-ordinária nas enormes manifestações do dia 20 de junho. A sociedade em que as pessoas foram às ruas é a sociedade onde a esquerda não obtém penetração, nem tem bases numerosas, porque não tem um projeto palpável para os pobres que são a maior parte da sociedade, e (por causa disso) nem consegue realizar as relações políticas de “novo tipo”, já velhas.

Costumes em comum

Não obstante, empregando sua obstinação característica e indispensável, a esquerda pode, ainda assim, interpretar as manifestações nas suas chaves. Trata-se de um paradoxo curioso. Como é que a esquerda que levou porrada ainda pode reclamar para si a multidão que mal notou a pancadaria, e muito menos refletiu sobre ela? A resposta é ingrata: a esquerda pode fazer isso porque, até certo ponto, seu ideário está bastante difundido entre a classe média mais ou menos bem educada que pode prová-lo na sua experiência social – já que usualmente não vive na parte das cidades que estão sob estado de sítio permanente –, e que agora vai para as ruas. Porém, essa difusão é também uma diluição. A classe média só aceita aquela parte do ideário de esquerda que é compatível com o seu lugar social: leia-se, as divisas liberais. O resto do ideário de esquerda – que é também o principal – só é conhecido pelos próprios quadros da esquerda, porque não se traduz em projetos partidários consistentes – ou pelo menos essa parece ser a opinião da massa pobre da população que, no Brasil, abandonou a esquerda há décadas, trocando-a pelo assistencialismo declarado e palpável.

É assim que a defesa da livre-circulação pela cidade (a redução das tarifas do transporte público), o direito a protestar e expressar-se sem repressão policial, o casamento gay e até as reclamações contra a corrupção (encarnação do princípio de responsabilidade do governo perante os governados) atestam a penetração do ideário de esquerda entre a classe média. No Rio, as palavras de ordem, nas manifestações do dia 17 e do dia 20 de junho (a do dia 27 não conta, porque, segundo a esquerda, foi a passeata “da esquerda”), exprimiam esses elementos em seu sentido mais diluído. A liberdade de expressão, tão importante outrora no discurso dos futuros fundadores do PT durante o processo de “abertura política” nos anos 1980, assumiu a forma dos gritos “Ei! Ca-bral! Vai-to-mar-no-cu!” e da multiplicidade de cartazes criativos que as pessoas ficavam mostrando umas para as outras ou, preferencialmente, para a imprensa interessada em fazer fotos engraçadas [4]. O nacionalismo, filiado à esquerda, via o já antiquíssimo desenvolvimentismo de substituição de importações, aparecia sob a forma do “Sou bra-si-leeeiro! Com mui-tor-guuu-lho! E mui-toa-moo-oor!”. Cânticos como esses foram muito mais populares entre a multidão carioca do que o grito de guerra pela redução das tarifas ou do passe livre, que se liga ao antigo e importante projeto da esquerda da estatização dos serviços básicos (“Olê olê, olê olá, se a passagem não abaixar, o Rio, o Rio, o Rio vai parar!”).

Cobrar da classe média ordinariamente despolitizada uma adesão mais íntegra e cognitivamente fiel aos princípios liberais obviamente não tem sentido. Sua apreensão está tão indissociavelmente ligada à realidade da sua forma de vida, ao seu nicho social de consumidores, quanto o projeto de superação definitiva e total da pobreza estava ligado à realidade da forma de vida dos favelados politicamente mobilizados, para quem aquele projeto era palpável e comensurável com o dia a dia de lutas, mutirões, greves, campanhas, conquistas. Ademais, como a experiência de classe média está determinada pela apreensão da realidade desde uma posição do privilégio cognitivo combinado à alienação social – a apreensão do espectador –, a classe média é capaz de incorporar e diluir esteticamente qualquer coisa, inclusive o próprio protesto. Assim, pode ser razoável supor que o que estamos testemunhando é, pelo menos em parte, a ingrata elevação de diversas cidades brasileiras à categoria sociocultural de “cidades de classe média”. Essa categoria encontra ampla aplicação nos chamados “países desenvolvidos”, em muitos dos quais o protesto entrou, há décadas, no cardápio existencial do jovem de classe média, junto com o vegetarianismo, a “consciência de consumidor” social e ecológica, e a tolerância à homossexualidade. Caso morbidamente curioso é o da Grécia, que já está saindo do grupo dos “desenvolvidos”, encontra-se em sublevação popular constante há quase três anos, já passou por várias greves gerais, e continua sendo regida pelos ditames da Troika.

Mas é preciso observar, por outro lado, que a classe média também vem entranhando e naturalizando o ideário clássico da direita. Tomemos um daqueles bem-comportados lemas sugeridos pela televisão e aceitos de bom-grado por grande parte dos manifestantes: o “contra a corrupção” (menos popular que o “fora Renan!” – afinal, quem são a mídia e a direita para brincar com o PMDB?). Já foi apontado o quanto esse lema está ligado à tentativa dos partidos de oposição de hoje em dia – o DEM e o PSDB, que são (talvez por falta de termo melhor) a direita brasileira – de requentar o espetáculo do julgamento do mensalão, o qual teve impactos mínimos sobre a popularidade da presidenta petista. Há algo no próprio lema “contra a corrupção”, entretanto, que faz dele um lema de direita, e essa não é sua fortuita adoção por determinados partidos. No atual contexto, “contra a corrupção” é um lema de direita porque – como também mostra a maluca presença da sutileza técnica da PEC 37 na alçada das reivindicações – está enraizado numa cultura de judicialização conservadora da política, ou de transformação da política em política de segurança: a ideia de que a sociedade tem tudo para funcionar muito bem, contanto que a gente policialescamente elimine do processo social aqueles indivíduos desviantes que perturbam a ordem através do crime.

Política → Polícia

Mas a ideia de transformar as questões políticas em questões de polícia, evidentemente, não é uma ideia sobretudo tucana. Ela está bastante bem difundida socialmente. Nas eleições – inclusive as que, de lavada, colocaram na prefeitura do Rio o Eduardo Paes, e no governo do estado o Sérgio Cabral, que tiraram um monte de fotos com Lula e ilma – as questões de “segurança pública” são extremamente privilegiadas. No que diz respeito à ocupação territorial armada promovida pelas UPPs no Rio, que coroa a substituição progressiva da “questão urbana” e do problema da pobreza por uma questão de gestão policial, é praticamente unânime a aprovação da opinião pública (a mesma que reclamou quando foi a vez do centro da cidade ser alvo de um estado de sítio na noite de quinta-feira). Como se sabe, tem gente na própria esquerda que fala da UPP em termos de “recuperação do espaço da favela pelo Estado de Direito”: mais superação policial da política numa única frase é impossível.

Vale a pena atentar um pouco mais a essa fagocitação da política pela polícia. Ela desempenhou papel fundamental num importantíssimo documento da cultura brasileira contemporânea: os filmes Tropa de Elite. No segundo filme, há duas cenas que, devido à combinação de bom-mocismo, reacionarismo extremo e naturalidade de senso comum, figuram como especialmente repulsivas e angustiantes. Uma delas é quando, depondo numa CPI na Assembleia Legislativa, o farda-negra do batalhão de operações especiais da polícia militar textualmente e com autoridade desqualifica e reprova moralmente todos os membros da casa, e a casa como um todo. A segunda é quando, imbuído da mesma superioridade moral, e na qualidade incontestável e solitária de narrador, faz insinuações semelhantes enquanto o vídeo mostra uma imagem aérea do Congresso Nacional. Indubitavelmente, uma das teses do filme é a força transformadora da superioridade moral do policial, que além de ser bonitão e ter covinha no queixo, faz rolamento pra fugir dos tiros, tem boa mira, é impetuoso, dirige bem, é incorruptível, rígido em seus valores e maleável em seus métodos, honrando tanto o “jogo de cintura” à brasileira, quanto a tradição dos super-heróis gringos a um tempo justos e brutais.

O conteúdo psíquico e político da imagem do homem fardado esculachando o Poder Legislativo é fortíssima; essa mesma imagem foi difundida como jamais nenhuma outra do cinema nacional brasileiro [5]; seu caráter próximo ao imaginário fascista [6] não foi alvo de qualquer discussão séria por parte da opinião pública. Os brasileiros foram ver filme brasileiro como nunca antes; as mães compraram miniaturas de Caveirão – o blindado do BOPE – no dia das crianças; o BOPE foi tema de ala no carnaval; o Capitão Nascimento foi quotado para garoto-propaganda de lingerie.

É difícil emitir um juízo definitivo sobre o que está na base de tamanha penetração cultural, mas tal penetração é, por um lado, inegável e, por outro, perfeitamente compatível com a realidade. Não se pode imputar ao filme ou à mídia a criação e propagação da ideia da submissão da política à polícia: ele apenas reafirma uma ideia facilmente reconhecível, amplamente propagada e – o que é mais importante – concretamente vivida.

Assim, faz-se a salada que não está servida unicamente na cabeça da classe média, ou de quem vê televisão, mas é traço objetivo do capitalismo periférico contemporâneo. É o mundo onde o “ativismo do BNDES” (Brito) e o distributivismo requentado do Bolsa Família (ao qual o PSDB e o DEM, aliás, não têm objeção de fundo) convivem com a gestão armada do território urbano através da combinação UPP na Zona Sul + milícia na periferia e a atuação da Guarda Nacional para deter greves nos campos de obra do PAC. É o mundo em que o governo do PT ajuda os miseráveis a comprar comida, abre linhas de crédito para conduzir os favelados a virarem empreendedores, financia a casa própria da classe média baixa (para gozo de incorporadoras e construtoras) e, para delírio da burguesia do Setor II, abaixa o IPI e distribui cartões com vale-eletrodoméstico. Nesse mundo, os procedimentos de direita e de esquerda, alheios às possíveis incompatibilidades ideológicas, coabitam harmonicamente os escombros formais próprios ao capitalismo tardio, e é possível tocar terror policial sem dar golpe de estado.

De modo que, se as distinções entre esquerda e direita às vezes parecem sutilezas metafísicas [7], isso não se deve apenas a que as pessoas sejam tolas e não entendam o que está se passando (essa é a interpretação da esquerda que permanece aferrada ao iluminismo). Embora ainda seja evidentemente possível, e até certo ponto necessário, distinguir entre as duas tendências através do emprego do rigor conceitual, parte dessas diferenças foram simplesmente superadas historicamente pelo processo real: elas perderam sua importância. É por isso que a televisão pode ensinar as pessoas a gritarem “Sem par-ti-do! Sem par-ti-do!”: para que isso aconteça, seu cérebro não precisa ser lavado, basta aproveitar a sujeira real que já decantou por lá. Parte dessa sujeira é uma espécie de memória genética inconsciente da infeliz trajetória do PT – de uma promessa política que era boa, não se realizou, e não descansa em paz.


[1]    Há várias indicações de que as agressões, pelo menos em parte, foram perpetradas por capangas pagos, conforme colocou o deputado estadual Marcelo Freixo em intervenção na ALERJ no dia 25 de junho de 2013.

[2]    Francisco de Oliveira, Crítica à razão dualista/O ornitorrinco, São Paulo, Boitempo, 2003.

[3]    C.f. Maurilio Lima Botelho: “Crise urbana no Rio de Janeiro: favelização e empreendedorismo dos pobres” in F. Brito e P. R. de Oliveira (orgs.): Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social, São Paulo, Boitempo, 2013.

[4]    Vale notar que, dentro do mar de cartazes individuais, estava a esquerda não-partidária e o pessoal de favela – ainda pouco numeroso no dia 20, mas mais presente que no dia 17 – com suas faixas e cartazes, também. Contudo, nesse contexto, dizer que esses grupos estavam representados na manifestação não é acertado, porque a questão da representação nem mesmo se colocou para nenhum dos participantes: as tradicionais unidades organizativas – centros acadêmicos, sindicatos, associações, e mesmo ONGs – foram enormemente subutilizadas para articulas discussões, fechar programas, gerar propostas e encontros, de modo que as (massivas) plenárias cariocas funcionaram na lógica do “cada cabeça uma sentença”.

[6]    C.f. Siegfried Kracauer. De Caligari a Hitler. Uma história psicológica do cinema alemão, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.

[7]    As vezes o são; c.f. “ontologia do trabalho”, essa curiosa síntese entre Marx e Tomás de Aquino.

***

Sobre a submissão da política à polícia e a militarização do espaço urbano, a Boitempo publicou no último mês de junho o livro Até o último homem: visões cariocas da administração armada da vida social, organizado por Pedro Rocha de Oliveira e Felip Brito.

***

Pedro Rocha de Oliveira é um dos colaboradores do livro de intervenção Cidades Rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil, organizado pela Boitempo. Com textos de David Harvey, Slavoj Žižek, Mike Davis, Ruy Braga, Ermínia Maricato, Carlos Vainer, Lincoln Secco, Silvia Viana, João Alexandre Peschanski, Raquel Rolnik, Felipe Brito e Paulo Arantes, entre outros. O livro está previsto para o final deste mês de julho.

***

Sobre as manifestações de junho, leia no Blog da Boitempo:

O inferno urbano e a política do favor, tutela e cooptação, por Marilena Chaui

A criação do mundo revisitada, de Izaías Almada

Tarifa zero e mobilização popularO futuro que passou, de Paulo Arantes

Pode ser a gota d’água: enfrentar a direita e avançar a luta socialista, de Mauro Iasi

A classe média vai ao protesto, de Pedro Rocha de Oliveira

A direita nos protestos, por Urariano Mota

A revolta do precariado, por Giovanni Alves

O sapo Gonzalo em: todos para as ruas, de Luiz Bernardo Pericás

A guerra dos panos e Técnicas para a fabricação de um novo engodo, quando o antigo pifa, por Silvia Viana

Fim da letargia, por Ricardo Antunes

Entre a fadiga e a revolta: uma nova conjuntura e Levantem as bandeiras, de Ruy Braga

Proposta concreta, por Vladimir Safatle

Anatomia do Movimento Passe Livre e A Guerra Civil na França escritos por Lincoln Secco

Esquerda e direita no espectro do pacto de silêncioMotivos econômicos para o transporte público gratuito, por João Alexandre Peschanski

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Pedro Rocha de Oliveira é professor do Departamento de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). Coorganizador, com Felipe Brtito, de Até o último homem: Visões cariocas da administração armada da vida social, publicado recentemente pela Coleção Estado de sítio, coordenada pelo filósofo Paulo Arantes e editada pela Boitempo Editorial. Colabora esporadicamente com o Blog da Boitempo.

3 comentários em A classe média vai ao protesto (II)

  1. Eu que no Brasil atual descobri fontes de esperança que perdera completamente…e após o 17 de junho sinto-me confuso e um pouco desesperado – não com os manifestantes com quem muito aprendi e com quem seguramente irei ainda mais evoluir – com muitos dos intelectuais que na blogboitempo têm escrito. Felizmente que aí no Brasil tenho o Ruy Braga (em Portugal tenho o Elíseo Estanque) que mesmo antes das manifs (movimentos) de 17/06, nos vinha prevenindo (já) dos pequenos vulcões (“caldeirinhas” em açoriano dos Açores!) trabalhando na base (e também na superfície) do dia-a-dia dos cidadãos das cidades do Brasil, dito pós-Lulista! Esperemos então que um Padre António Vieira, de preferência do Sul do Brasil, exilado interna ou externamente, se afirme e nos guie neste novo espaço público e que Emir Sader (re) leia, pelo menos, as biografias de Francisco de Xavier.

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  2. thiago brito // 05/07/2013 às 14:41 // Responder

    só um registro, ontologia do trabalho não tem nada de são tomas. só quem não leu a obra de marx com o devido cuidado comete esse impropério! pois saiba que a ontologia marxiana tem suas origens em aristóteles e hegel, mas é claro que marx não carrega nenhuma sutileza metafísica! a ontologia é do ser social e historicamente constituído e em processo de constituição!

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  3. Que malabarismo retórico pra dizer que exigir ética na política é um comportamento de direita…

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