A criação do mundo revisitada

13.06.27_Izaías Almada_A criação do mundo revisitadaPor Izaías Almada.

E no sexto dia, antes do descanso, Deus contemplava a sua obra, pensativo. De repente, girou o globo terrestre e, colocando o indicador num determinado ponto, exclamou: “Aqui será o Brasil!”

Admirou Deus por alguns momentos a beleza da sua criação e acrescentou: “Aqui, nesta terra de palmeiras, sabiás e rios piscosos, colocarei à minha direita a maioria dos inaptos. À minha esquerda, habitará a maioria dos ineptos… E no centro, bem… No centro, deixarei viver a grande maioria dos inócuos…”

E viu Deus que era bom.

Inaptos, ineptos e inócuos, aqui vivemos todos nós na expectativa de criarmos uma grande nação, de projetarmo-nos como seres humanos de primeira grandeza, de nos livrarmos de seculares mazelas impostas por um colonialismo predatório e refém de interesses além-fronteiras; de uma cultura que costuma se dividir entre a arrogância e a submissão: a arrogância do saber mal assimilado e a submissão originada pela alienação.

Nesse coquetel de desejos e frustrações, caminhamos sobre o fio da navalha e vamos trocando os papéis em consonância com nossos interesses de momento: passamos de inaptos a ineptos ou vice-versa, mas sempre com a possibilidade de continuarmos ou de nos transformarmos em inócuos.

No paraíso que nos foi destinado por vontade divina, onde oito milhões e quinhentos mil metros quadrados de verdes matas, água doce e potável, frutos os mais exóticos e saborosos, subsolo riquíssimo, há quinhentos anos ainda não sabemos organizar a casa. Tentamos, é verdade, mas o tempo que nos é dado a viver é muito curto se pensarmos que após a infância e a adolescência temos que escolher (ou nos é escolhido?) entre sermos inaptos, ineptos ou inócuos.

Um belo dia, ao comermos da árvore da sabedoria, descobrimos que inaptos, ineptos e inócuos poderíamos viver em harmonia e com isso imitamos outros povos e culturas mais antigas. Organizamos a coisa pública, a república e, consoante a boas experiências alheias, criamos parâmetros de convivência social, deixando para trás nossos antepassados colonizadores. E foi assim que estabelecemos três poderes: um para administrar, um para legislar e um terceiro para zelar pelo cumprimento das leis.

E viu Deus que era bom.

Surgiu aí o grande problema. Como distribuir pela nova república, com sabedoria e com sentido de justiça, os inaptos, os ineptos e os inócuos?

Chamando um representante de cada grupo, Deus colocou na mão de cada um deles um manual a que deu o nome de Constituição e disse: “Aqui está o caminho, a verdade e a vida. Leiam, reflitam e aí encontrareis as respostas para os desafios da vossa jornada neste paraíso por mim criado”.

Os inaptos leram, leram e não entenderam muito bem, ou fingiram que não entenderam. Os ineptos marcaram reuniões e mais reuniões e foram poucas as vezes em que conseguiram algum consenso sobre o que leram. Os inócuos, bem, os inócuos praticamente não leram. E foram todos para as ruas…

E viu Deus que era ótimo!

***

Leia também O futuro que passou, com Paulo Arantes, Pode ser a gota d’água: enfrentar a direita e avançar a luta socialista, de Mauro Iasi, A classe média vai ao protesto, de Pedro Rocha de OliveiraA direita nos protestos, por Urariano MotaA revolta do precariado, por Giovanni Alves, O sapo Gonzalo em: todos para as ruas, de Luiz Bernardo Pericás, A guerra dos panos e Técnicas para a fabricação de um novo engodo, quando o antigo pifa, por Silvia Viana, Fim da letargia, por Ricardo Antunes,  Entre a fadiga e a revolta: uma nova conjuntura e Levantem as bandeiras, de Ruy Braga, Proposta concreta, por Vladimir Safatle, Anatomia do Movimento Passe Livre e A Guerra Civil na França escritos por Lincoln Secco, e Motivos econômicos para o transporte público gratuito, na coluna de João Alexandre Peschanski.

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

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