Impeachment, corrupção, hipocrisia e terceirização

15 03 12 Souto Maior Impeachment hipocrisia terceirizaçãoPor Jorge Luiz Souto Maior.

Uma onda de patriotismo, moralismo e correção inunda o país da falta d’água. Não se quer mais corrupção e impunidade. E isso é ruim? Claro que não!

O mal é utilizar o argumento não para buscar um acerto geral e sim para alcançar maiores benefícios pessoais, ou seja, para alterar apenas aquilo que incomoda ao projeto pessoal, indo-se nem sempre em uma direção progressista das condições social e humana.

É assim, por exemplo, que pelo argumento da existência da corrupção alguns tentam chegar à justificativa para defender a diminuição dos impostos ou mesmo para não pagá-los. Muitas pessoas, mas muitas mesmo, que criticam a imoralidade na política sonegam impostos e aproveitam-se da imoralidade alheia para justificar a sua conduta ilegal. Como dito pelo jornalista Juca Kfouri, “Nós, brasileiros, somos capazes de sonegar meio trilhão de reais de Imposto de Renda só no ano passado. Como somos capazes de vender e comprar DVDs piratas, cuspir no chão, desrespeitar o sinal vermelho, andar pelo acostamento e, ainda por cima, votar no Collor, no Maluf, no Newtão Cardoso, na Roseana, no Marconi Perillo ou no Palocci.”1 

Claro que, potencialmente, quem tem a obrigação de cuidar da coisa pública e se aproveita da posição que ocupa para furtar o erário comete um erro infinitamente maior do que aquele que se vale do argumento da improbidade administrativa para se ver livre de obrigações legais. Ainda assim, um erro não justifica o outro.

Além disso, na prática de apontar os erros alheios nem sempre importa a coerência no sentido de não cometer os mesmos erros ou outros equivalentes.

Mais ainda não impera o comprometimento real, propugnando-se soluções que apenas impõem sacrifícios alheios.

Vejamos.

Se a economia vai mal, os congressistas e administradores pensam em soluções que diminuem direitos dos trabalhadores, mas não pensam em diminuir os próprios salários. Aliás, bem ao contrário, na mesma época em que se retomam as falácias do “custo Brasil”, que se reforçam com a retórica da “crise” eterna, os políticos aumentam2 os seus ganhos, sendo esta, aliás, a lógica que, necessariamente, se impôs ao Judiciário3 para impedir que sirva como “tábua de salvação” do respeito à ordem constitucional, pautada, ainda que minimamente, por uma lógica republicana destinada à realização da justiça social.

Da mesma forma, muitos empresários (mais uma vez, reproduzindo o que vêm fazendo, sistematicamente, na realidade brasileira, desde a década de 50) reivindicam redução dos custos dos direitos trabalhistas, sendo que antes o faziam sob a promessa de mais contratações de trabalhadores e agora como a necessidade imperiosa para a manutenção dos empregos, mas não anunciam redução dos ganhos de diretores, não divulgam os balanços explicitando o peso dos encargos trabalhistas no orçamento e o real efeito das reduções pretendidas, não efetivam auditoria para sanar as contas, não aceitam que os trabalhadores tenham acesso às informações sobre a administração e a saúde econômica da empresa, não admitem a institucionalização jurídica da garantia de emprego contra dispensas arbitrárias, ou seja, querem “segurança jurídica” para si, mas querem manter os trabalhadores em extrema insegurança, que não é só jurídica, mas também econômica e social, e tentam, então, utilizar o seu poder de “mandar embora” o trabalhador para aí sim, estando este já com a corda no pescoço, negociar condições de trabalho.

Fato é que se existisse uma crise econômica estrutural, qualquer solução minimamente séria somente poderia ser pensada de forma também estrutural, ou seja, atingindo a todos os setores da sociedade, ou, mais precisamente, a todas as classes da sociedade. E por incidência dos princípios da isonomia e da justiça social, atendendo ao projeto constitucional da diminuição das desigualdades, o sacrifício eventualmente necessário deveria atingir em primeiro plano aqueles que historicamente se beneficiaram dos momentos de bonança e os que ostentam as melhores condições econômicas.

A reivindicação de redução dos direitos trabalhistas, vista no contexto da realidade histórica, é uma agressão aos trabalhadores, que são, efetivamente, aqueles que produzem riquezas, e é, ao mesmo tempo, uma desconsideração de que os direitos trabalhistas surgem como conquista dos trabalhadores e como forma de regulação do próprio modelo de sociedade capitalista.

Traduzindo em palavras mais diretas, é como se o capital dissesse à classe trabalhadora: “Bom, eu te explorei durante anos e com isso acumulei riquezas, enquanto você sobreviveu com limitações. Agora, quando meu lucro tende a diminuir, eu preciso te impor mais limitações, para manter o meu padrão de vida, sendo que se não for assim não terei mais interesse em continuar te explorando…”

Pois muito bem, quando o setor econômico (com o apoio de políticos) vem a público reivindicar, abertamente, a legalização da terceirização, com ampliação irrestrita, o que está dizendo é exatamente isso, contendo, ainda, a mensagem subliminar de que não quer que os trabalhadores se percebam como classe e que tenham condições concretas de se organizar para a luta sindical.

Claro, não se fala isso expressamente. O que se diz é que “a terceirização é fruto da reengenharia da produção, necessária para a competitividade, vez que confere às empresas maior flexibilidade administrativa”, ou coisa que o valha. Tenta-se, ainda, inverter plenamente a realidade, para justificar a regulação da terceirização como forma de ampliar os direitos dos trabalhadores, garantido-lhes segurança jurídica.

Mas o que significam, de fato, essas palavras? “Flexibilidade administrativa” é o poder de contratar e descontratar mão-de-obra, sem formar vínculos pessoais e institucionais da empresa com os trabalhadores. “Maior competitividade” é reduzir custos, o que se possibilita mediante a contratação de uma empresa intermediária, de prestação de serviços, desprovida de meios de produção, à qual o capital tem ampla possibilidade de impor o valor e prazos para a execução dos serviços sem sequer considerar o mínimo que seria necessário para satisfazer os créditos trabalhistas. “Reengenharia da produção” é desvincular-se das relações coletivas com os sindicatos dos trabalhadores, fragilizados na pulverização promovida pelas subcontratações.

Que segurança jurídica se garante aos trabalhadores? Nenhuma. O trabalhador terceirizado não tem vínculos duradouros, não se socializa no ambiente de trabalho, não se vê como classe em antagonismo ao capital que o explora, até porque não o reconhece. O trabalhador terceirizado é segregado, discriminado (pelos próprios trabalhadores efetivos) e dada a debilidade econômica de seu empregador é submetido a trabalhos em condições precárias de trabalho.

Segundo números extraídos apenas das ações que tramitaram na Justiça do Trabalho, em um único ano, o de 2011, 2,8 mil trabalhadores morreram em decorrência de acidentes do trabalho, que estão, inegavelmente, relacionados a uma maior precariedade nas relações de trabalho. Aliás, em infeliz coincidência com a colocação da seleção brasileira na Copa do mundo, a precariedade das relações de trabalho conduziu o Brasil a outro quarto lugar, especificamente no que tange ao número de acidentes fatais no trabalho4 nos diversos países do mundo. E, conforme os “dados do Dieese, o risco de um empregado terceirizado morrer em decorrência de um acidente de trabalho é cinco vezes maior do que nos demais segmentos produtivos”5.

A Petrobrás, por exemplo, tem chamado a atenção da grande mídia e gerado uma enorme repulsa de parte considerável da população em razão dos casos de corrupção em que a estatal está envolvida. Mas essa mesma grande mídia não dá destaque ao fato de que o processo de terceirização iniciado na Petrobrás na década de 90 – e ampliado nas décadas seguintes – é o que tem facilitado a promiscuidade imoral e ilegal entre o público e o privado, ao mesmo tempo em que tem submetido os trabalhadores a condições de trabalho subumanas.

Lembre-se que no dia 11 de fevereiro de 2015, um acidente na cidade de São Mateus, ES, em navio-plataforma da empresa norueguesa BW Offshore, que presta serviços à Petrobrás, deixou nove trabalhadores mortos e 26 trabalhadores feridos e a questão da terceirização simplesmente passou ao largo de qualquer análise da grande mídia e da ira da população em geral.

O Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho denunciou a situação com a publicação da seguinte nota a respeito:

Terceirização

A realidade encontrada pelos Auditores-Fiscais no dia a dia da fiscalização é de que os acidentes estão ocorrendo com mais frequência entre os trabalhadores terceirizados do que com os contratados diretos das empresas, lembra Rosa Maria Campos Jorge, presidente do Sinait. “Esses acidentes estão relacionados diretamente às condições precarizadoras de trabalho impostas pela terceirização, que violam direitos, adoecem e matam trabalhadores”, denuncia. 

A afirmação é reforçada pelo diretor do Sindipetro/ES, Enéias Zanelato, que declarou que a maioria dos trabalhadores a bordo do navio-plataforma FPSO Cidade de São Mateus é terceirizada. “Os empregados do quadro são coordenadores de equipe e, os outros, são terceirizados, que atuam de maneira precarizada”. 

Enéias diz ainda que, atualmente, com as novas descobertas de petróleo no país, a demanda da Petrobras cresceu. “Há terceirização indiscriminada na atividade-fim, além de um plano de negócios e um processo de gestão que foca muito no aumento da produção”. A maneira que isso se reflete na empresa, segundo Zanelato, é o aumento no número de terceirizados que atualmente se encontra na proporção de cinco contratados para um concursado. “São 85 mil concursados para 300 mil terceirizados e o número deve se ampliar com a produção do pré-sal”. 

No entanto, segundo Enéias, o Sindipreto/ES luta para que haja uma política de concursos públicos permanentes. “Os empregados concursados não sofrem acidentes de trabalho, o que significa que há uma sobrecarga para os terceirizados que precisa acabar, e uma forma de mudar isso é por meio de concurso público”. (“Seis mortos e 12 feridos em explosão de navio-plataforma no litoral do ES“).

Assim, a onda moralista deveria, necessariamente, que se opor ao processo de terceirização, mas desse aspecto específico, das condições de trabalho dos terceirizados, pouco se fala, a não ser como semente para alimentar uma intenção privatizante. Para muitos moralistas pouco importa como os produtos chegam ao seu consumo ou como os lugares que freqüentam foram construídos ou são mantidos limpos ou mesmo que a sua exigência pelo menor preço constitua incentivo à precarização. Muitos segmentos empresariais, que vindicam o “impeachment” da Presidenta Dilma, aliás, de forma sistemática, não registram seus empregados, não recolhem FGTS, pagam salários “por fora”, não pagam horas extras etc. etc. etc.

Em suma, a onda moralista não tem uma racionalidade efetivamente corretiva da realidade, sendo, antes, oportunista e comprometida com uma lógica individualista e exploratória.

Isso não significa, por outro lado, uma absolvição do governo petista, pois se há uma lógica golpista na pregação do impeachment e uma ideologia entreguista na reivindicação de privatização da Petrobrás, é bem certo que quem deu força a esses movimentos foram, exatamente, os desmandos administrativos praticados na Petrobrás, além da forma sempre fugidia da realidade adotada pelos governistas no seu diálogo com a sociedade.

É interessante perceber o quanto o governo, ultimamente, tem se utilizado, em sua defesa, do argumento de que nas gestões anteriores também ocorreram desvios na Petrobrás ou que a mídia só dá destaques aos seus defeitos e não aos de políticos de outros partidos. Mas, da mesma forma, um erro não justifica o outro, muito embora erro muito maior seja o de, a propósito de “moralizar o país”, tentar destruir as bases democráticas.

Ainda assim vale insistir. O governo petista não deve ser simplesmente perdoado pelos desmandos administrativos cometidos em razão de se encontrarem erros iguais ou equivalentes em gestões passadas ou atuais, no âmbito estadual, ou mesmo em razão do risco de um golpe institucional, pois o que se preconizava era que “nunca antes na história desse país” uma administração teria sido tão honesta e tão social.

Aliás, muito menos se pode considerar que o governo petista tenha feito gestões efetivamente benéficas aos trabalhadores, até porque também neste aspecto a defesa do governo tem sido a do império do mal menor, tentando fazer imaginar o quanto teria sido pior se o governo fosse do PSDB.

Ocorre que em 12 (doze) anos de governo não se verificou nenhum empenho verdadeiro do governo para ampliar os direitos dos trabalhadores de forma concreta, como se daria, por exemplo, com a instituição da garantia de emprego, ao menos nos termos da Convenção 158 da OIT, tendo como parâmetro o inciso I, do art. 7º. da CF.

Não se viu, ademais, uma reversão do caminho trilhado na década de 90. Com efeito, nenhuma das reformas flexbilizadoras da legislação trabalhista implementadas no período (banco de horas e terceirização, por exemplo) foram desfeitas. Bem ao contrário, a utilização da terceirização no setor público federal foi extremamente ampliada.

Avanços, é verdade, chegaram a ocorrer, mas foram revertidos, como se verificou na lei dos motoristas e na Emenda Constitucional n. 72, de 2013, sobre o trabalho das trabalhadoras domésticas, cuja regulamentação ainda não veio, mas tudo indica que venha com graves restrições, tendo o governo e os partidos políticos cedido à forte reação advinda exatamente de muitos daqueles que agora pregam justiça e ética, mas que no aspecto da ampliação dos direitos às trabalhadoras domésticas não foram capazes de superar nossa tradição cultural escravista, racista e de opressão de gênero, a qual, inclusive, se verificou de forma explícita nas recentes ofensas pessoais feitas à Presidenta Dilma.

No percurso histórico dos últimos anos não se deve esquecer da Lei n. 11.101, da recuperação judicial, que foi um dos maiores ataques já desferidos contra os direitos dos trabalhadores, tendo retirado do crédito trabalhista (superior a 150 salários mínimos) o caráter privilegiado com relação a outros créditos, buscado eliminar a sucessão trabalhista e ter servido até hoje como forma de institucionalização do “calote” trabalhista; do advento, em março de 2007, do Projeto de Lei Complementar (PLC n. 7.272/05), que chegou a ser aprovado no Congresso Nacional, que criava a denominada “Super Receita” e trazia no seu bojo a malfadada Emenda aditiva, de autoria do Senador Ney Suassuna, apelidada de Emenda 3, que retirava o poder de fiscalização dos fiscais do trabalho; do fato de que, em junho de 2011, o PL 4.330/04, de autoria do Deputado Federal e empresário, Sandro Mabel, que visa ampliar, sem qualquer limite, a terceirização, e que estava paralisado no Congresso desde 2004, quando foi apresentado, voltou a tramitar, impulsionado pelo substitutivo do Deputado Roberto Santiago (PV-SP); do anteprojeto de lei gestado no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, filiado à CUT, propondo a institucionalização de um Acordo Coletivo Especial (ACE), que revigorava a tentativa do governo de Fernando Henrique Cardoso de implementar o negociado sobre o legislado, favorecendo, no jogo livre das forças, em uma conjunta de desemprego estrutural, aos interesses empresariais e que, em meados de 2012, foi enviado ao governo para que fosse apresentado pelo Executivo ao Congresso Nacional; do Decreto n. 8.243, também patrocinado pelo governo federal, um projeto de lei que visa a criação de um Sistema Único do Trabalho (SUT), pelo qual, de forma bastante sutil, retoma a ideia embutida na Emenda 3, de negar o caráter de indisponibilidade da legislação trabalhista.

Recorde-se, ainda, que após a reeleição de 2014, alcançada sob a promessa de preservação dos direitos trabalhistas, o governo promoveu uma reforma ministerial de índole assumidamente neoliberal, pela qual conduziu Joaquim Levy, Nelson Barbosa e Armando Monteiro Neto, respectivamente, aos Ministérios da Fazenda, do Planejamento e do Desenvolvimento, sendo que o último nome referido presidiu a CNI (Confederação Nacional da Indústria) de 2002 a 2010 e disse em seu discurso inaugural na cadeira que:

“O desafio central é promover a competitividade. O que significa reduzir custos sistêmicos e elevar a produtividade. A agenda da competitividade envolve várias áreas dentro do governo e demanda intensa articulação e coordenação. É papel primordial do Ministério do Desenvolvimento realizar essa tarefa. E colocar o tema da competitividade no centro da agenda política do país.”

Destaque-se, ainda, a nomeação pela Presidenta Dilma da Senadora Kátia Abreu, que preside a CNA (Confederação Nacional da Agricultura), como Ministra da Agricultura.

Dentro desse contexto advieram, no final de dezembro de 2014, as MPs ns. 664 e 665, que restringiram o acesso dos trabalhadores a direitos como seguro-desemprego, auxílio-reclusão e pensão por morte, além de conferirem aos empregadores o controle total sobre declaração da saúde, ou não, dos trabalhadores para efeito da continuidade da prestação de serviços.

Não é possível, por fim, deixar de debitar nas contas do governo a violenta repressão promovida nas últimas greves dos servidores federais e a forma opressora como agiu, em conjunto com as Secretarias de Segurança dos Estados, geridos por Partidos diversos, com relação às manifestações contra Copa, tendo incentivado, inclusive, a adoção de uma Lei Antiterrorismo (PL 499/13), que reproduzia conceitos da Lei de Segurança Nacional, típicos da época da ditadura, atentando, pois, contra a lógica democrática, tudo para abafar as manifestações, as quais se opunham à realização da Copa no Brasil ou que serviam como instrução para reivindicação de direitos sociais e melhorias nas condições de vida da população.

Não há, portanto, muito como defender o governo federal a partir do argumento de que tenha promovido uma defesa incondicional dos interesses da classe trabalhadora e que essa postura seja a origem da reação da direita, que estaria, assim, expressando um ódio de classe, da classe rica, frente aos benefícios concedidos pelo governo federal à classe trabalhadora.

De todo modo, tem-se pela frente a grande oportunidade de efetivar uma prova dos nove a respeito de tudo isso, vez que a reivindicação da ampliação da terceirização está nas pautas política e econômica e a classe trabalhadora, apoiada por representantes de peso do segmento jurídico trabalhista, já manifestou sua contrariedade por intermédio de uma carta enviada diretamente à Presidenta Dilma6, sendo certo que o ideal mesmo para a defesa concreta da dignidade dos trabalhadores é o fim da terceirização.

É o momento, pois, do governo, como diz o ativista Guilherme Boulos, se fazer defensável, ao menos no aspecto do seu alinhamento com a causa dos trabalhadores, promovendo a ratificação da Convenção 158, da OIT, assumindo a rejeição ao PL 4.330/04, assegurando o direito de greve e eliminando a terceirização, a começar por aquela que, inconstitucionalmente e de forma imoral, se pratica no âmbito do setor público.

De todo modo, culpar o governo é cômodo. Não compete à classe trabalhadora assistir a tudo isso como mera espectadora, cumprindo-lhe retomar o papel de protagonista da história.

A classe empresarial, aproveitando-se da fragilidade da resistência teórica e prática da esquerda, que foi sequestrada e mantida sob custódia no argumento de que não se pode desestabilizar o governo petista para não fortalecer a direita, tem avançado de forma expressa e firme sobre os direitos da classe trabalhadora, e a resistência que se vê por parte desta é bastante tímida, acuada, feita nos bastidores, com pleito limitado à manutenção da terceirização como está. Ou seja, no assunto específico da terceirização, os trabalhadores não estão nas ruas, efetivando uma ação política real, acostumada que foi, nos últimos anos, a fazer política de tratativas parlamentares e este talvez seja o maior legado negativo das gestões petistas para a classe trabalhadora.

Claro, isso está mudando bastante nos últimos anos, sobretudo após o impulso das manifestações de junho de 2013. Destaquem-se, em 2014, as greves dos garis no Rio de Janeiro, dos rodoviários em São Paulo e em Porto Alegre, dos metroviários em São Paulo, dos professores da rede pública em São Paulo, dos servidores da USP, dos bancários e dos servidores federais (no IBGE, no Judiciário Federal); e, já em 2015, dos trabalhadores da Volks e da GM e dos professores no Estado do Paraná.

O cenário, portanto, está montado, exigindo-se que as peças se encaixem nos devidos lugares de forma clara e verdadeira: que quem for moralista, que o seja por completo; que quem defender o sacrifício para solucionar a crise, que comece por si; que se o sacrifício for necessário, que atinja primeiro a quem mais tem se beneficiado historicamente desse modelo de sociedade; que se o governo quer se legitimar pelo argumento de se constituir um defensor dos interesses dos pobres e da classe trabalhadora que passe, então, a agir concretamente neste sentido; que se alguém que se reivindique de esquerda, que tenha a independência e o compromisso necessários para ver a realidade com a visão de mundo da classe trabalhadora; que as mortes de trabalhadores não restem impunes; que o projeto constitucional da justiça social, da proteção da dignidade humana, da produção real da igualdade, da eliminação de todas as formas de discriminação, do respeito aos Direitos Humanos, da função social da propriedade, do valor social do trabalho, do valor social da livre iniciativa e da melhoria da condição social dos trabalhadores seja efetivamente gerido pelo Estado, sendo essencial para tanto a eliminação da corrupção, dos favoritismos e da visualização de dividendos políticos mesquinhos e imediatos, e esteja integrado, de forma concreta, ao compromisso moral de todos, gerando a recriminação generalizada da sonegação…

Um marxista não acreditaria na eficácia desse projeto, denunciando esses preceitos jurídicos como meras estruturas necessárias às trocas de mercadorias, às quais se inseriria, inclusive, a força de trabalho, o que eliminaria por completo a possibilidade de elevação da condição social e econômica do trabalhador ao nível de uma igualdade real na sociedade capitalista.

A exemplo das questões da corrupção e do impeachment, o que se fará e mesmo o que se dirá a respeito da terceirização, posta em pauta, constituirá a resposta para todas as questões afloradas pela situação política vivenciada no país, que nenhuma hipocrisia mais dará conta de camuflar!

São Paulo, 10 de março de 2015.

NOTAS
1
 “O panelaço de barriga cheia e do ódio”, Blog do Juca (UOL).
2  “Câmara aprova aumento de benefícios para deputado“, por Wilson Lima, em: Congresso em foco.
3. “CNJ aprova pagamento de auxílio-moradia de R$ 4,3 mil para juízes“, por Nathalia Passarinho, G1.

4 “Brasil é o quarto país em número de acidentes fatais no trabalho“, Consultor jurídico.
5 “Brasil é o quarto país em número de acidentes fatais no trabalho“, Consultor jurídico.
6 “Fórum contra terceirização envia carta a Dilma“, Portal Sindicato dos Bancários.

***

Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

Princípio, meio e fim

Evolução humana[Ilustração de André Almada]

Por Izaías Almada.

O que viria antes do Big Bang inicial? Segundo vários cientistas, o nada. Mas, também segundo a ciência e outros renomados cientistas, tudo no universo tem princípio, meio e fim, o que incluiria o próprio universo.

Logo, se tudo tem princípio, meio e fim e o Big Bang é o início do universo tal qual o conhecemos (conhecemos?), o que existiria antes do Big Bang, apesar dos que contestam essa dúvida? E qual será o fim desse mesmo universo?

E nessa toada, que tenta encontrar um significado para a vida, sem que tal questão nos leve à demência prematura, não será absurdo afirmar que esse mundinho, tal qual o conhecemos, terá também o seu princípio, meio e fim.

Como será isso? Nenhum de nós tem a menor ideia a respeito, mesmo os cientistas mais estudiosos e interessados no assunto.

Distraía-me com tais “maluquices” enquanto bebericava meu cafezinho no balcão de uma cafeteria de Shopping Center e observava o vai e vem dos vários funcionários que trocavam de turno ou vinham de seus escritórios nas redondezas para o almoço, da azáfama das compras, de mães com seus filhos menores a curtir o final das férias de verão. Posto de observação privilegiado de tipos e comportamentos para quem, como eu, gosta de rabiscar algumas letras de vez em quando.

Foi quando comecei a reparar e contar o número de pessoas que passava com seus aparelhinhos eletrônicos, tablets e celulares menos ou mais sofisticados. Distraídos e pouco interessados com o que passava à sua volta, concentrados nas mensagens que liam ou escreviam, sérios ou com sorrisos iluminados, num balé impensável há dez anos, inseriam-se todos nesse novo mundo que dá também os seus primeiros passos em novas formas de comunicação. E de comportamento.

Comunicação que, paradoxalmente, começa a provocar o isolamento das pessoas. Como?

Não sei quantas vezes vi em mesas de restaurantes: famílias, casais de namorados, quatro amigas ou amigos onde a maioria, senão todos tinham celulares nas mãos e não conversavam entre si. Festas infantis onde boa parte dos adultos fica com um mini cachorro quente numa mão e o celular na outra. Porteiros e seguranças de edifícios (imaginem, seguranças) não largam seus celulares.

Já é conhecida a anedota que após uma reunião de condomínio, dois dos participantes que quase iniciaram um diálogo à saída da reunião combinaram terminar a conversa através de seus ifones. Ou trocar e-mails: o whatsapp era uma novidade.

Quantas horas o leitor passa por dia com celulares de última geração ou mesmo num iPad ou num PC caseiro à procura de saber o que se passa à sua volta, ou misturando trabalho e lazer? Tem caído consideravelmente o número de leitores de jornais diários e revistas semanais. E também a audiência de canais abertos de TV. Baixado o rendimento de funcionários em empresas mais moderninhas.

Não é por acaso que sociólogos e psicólogos e muitos estudiosos do comportamento humano investigam a causa de mudança tão brusca na forma de comunicação do homem contemporâneo.

A linguagem cifrada nas redes sociais, em particular no facebook e no twitter começa a empobrecer a escrita. Seus usuários começam a se viciar em incontáveis entradas diárias na internet e começam a ter dificuldades em comunicação verbal frente a frente. E podem ter a certeza de que não estou exagerando.

Se um de nós consegue reunir amigos e travar um diálogo olho no olho, basta a primeira dúvida surgida quanto a determinado assunto, por exemplo, e pimba, todos aos celulares para entrar no Google e procurar as respostas. A partir desse momento a maioria corre aflita para as últimas do facebook, uma das maiores fontes de narcisismo e hipocrisia criadas pelo homem. Alguém ainda se lembra de como surgiu o facebook? A motivação do seu inventor?

Calma, calma. Como toda invenção do homem, o facebook e o twitter têm também o seu lado bom, não é verdade? Como a imprensa, os aviões, a energia nuclear e muitas outras coisas que também destroem. Mas isso já é uma conversa desinteressante e para muitos, sob certos aspectos, ultrapassada.

Voltemos àquela dúvida inicial: nosso planetinha tem princípio, meio e fim. Qual seria o ponto de inflexão entre o princípio e o fim? Já foi superado e não o percebemos? Estamos entrando nele? Ainda demora?

A comunicação e principalmente a falta dela pode ser um indício. A falta de comunicação costuma gerar falta de informação ou informação propositalmente distorcida ou falsa, chegando a provocar crises, revoluções, guerras, com suas fomes, epidemias e desempregos.

O avanço da tecnologia eletrônica deixa a mundo mais informado e cada vez mais confuso, pois em segundos recebemos notícias que em outros segundos são contestadas, gerando uma “síntese”, que também pode ser contestada em segundos depois. Em quem acreditar? Em qual jornal, emissora de rádio, revistas, telejornais e reportagens sensacionalistas?  

Afinal, a informação, o conhecimento, o saber estão a serviço de quem? Da humanidade como um todo ou de alguns grupos econômicos e países que dominam e controlam a informação como querem, mesmo que possam ser contestados aqui e ali, mas sem que isso coloque em risco o domínio de 1% da população sobre os outros 99%?

E vai piorar, pois estamos apenas no início de uma lavagem cerebral, de um manipular de consciências no varejo, enquanto o poder de fato se consolida com a proteção, no atacado, dos arsenais nucleares instalados em alguns poucos países. Ou é a minha verdade ou não é a verdade de mais ninguém.

Catastrofismo? Falta de assunto? Pessimismo? Novo período de caça às bruxas?

Gostaria de ouvir opiniões mais otimistas.

A ilustração acima, contudo, é bem curiosa, não?

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Lula, o cerberus da política brasileira

15 03 11 Edemilson Paraná Lula cerberusBlog da Boitempo apresenta em seu Espaço do leitor textos inéditos escritos por nossos leitores. Quer colaborar também? Saiba como no fim deste post!

Por Edemilson Paraná.

As crises, como soube demonstrar de modo didático o velho Marx, têm a trágica dádiva de separar o real do ilusório, trazendo à superfície o que estava encoberto sob a aparência de normalidade. Se já não esteve suficientemente evidente ao longo de sua trajetória política, em especial nos últimos 13 anos, o momento difícil pelo qual passa o país atualmente, desnuda com especial clareza o papel de um importante ator na cena política brasileira: Lula. 

Poucas dúvidas restam quanto à sua disposição para voltar ao centro da disputa eleitoral em 2018. E não se trata apenas de vontade pessoal. Seu partido não tem outra opção. Emparedado pela conjuntura, tendo de gestar à duras penas um pacto político-social que desmorona; apenas assentado no incomparável carisma, influência e habilidade política de seu líder histórico, o Partido dos Trabalhadores tem alguma chance de concorrer de modo competitivo à Presidência. Pudera. Em volta do ex-presidente nada, nenhuma alternativa real, pode de fato surgir e florescer no interior do PT. É a própria monumentalidade de Lula – como gestor habilidoso de interesses hegemônicos – que também impede a produção do novo em seu interior. 

Eis a maldição do bonapartismo lulista: se é verdade que o PT não pode ser concebido atualmente sem ele, é igualmente verdadeiro que tudo em que o ex-presidente toca acaba por morrer cedo ou tarde. Em seu nome – que ao longo dos anos deixou de ser meio para se tornar o próprio fim da política petista, como metonímia da busca pela manutenção do poder à qualquer custo, tombaram quadros históricos, e é sobretudo em seu entorno que se articula a blindagem que ora assistimos no âmbito da Operação Lava Jato. Aponta-se, dessa forma, uma amarga contradição: como sinônimo de sua salvação, Lula é o maior agente da atual desgraça petista. 

Nos últimos meses, sua condição de cerberus da política brasileira desnudou-se com eloquência. De modo veloz, quase ansioso, nas mil rotações por minuto que exigem a gestão de qualquer crise, Lula se fez tricéfalo. Como generoso agente da banca, enquanto silenciava sobre a criminosa evasão de divisas de ricaços brasileiros no HSBC suíço – muitos deles financiadores de campanhas eleitorais, “enquadrou” seu partido para que aceitasse, sem grita, as medidas de ajuste e austeridade levadas à cabo pelo “Chicago boy” e ex-FMI Joaquim Levy. Não é demais lembrar que, nas últimas eleições, entre os agitadores do “volta Lula” nos bastidores estiveram proeminentes representantes de grandes instituições financeiras. Igualmente, como interlocutor junto ao mais atrelado ao Estado dos setores da indústria produtiva no Brasil, achegou-se das empreiteiras, em especial da Odebrecht, nos jatinhos de quem, sabemos, o ex-presidente é presença cativa. Por fim, posou em abraço com Guilherme Boulos do MTST na entrega de casas do programa Minha Casa Minha Vida, subiu em palanques com sindicalistas em “defesa” da Petrobras e convocou o MST – o “exército de João Pedro Stédile” – para a “guerra”.

Em nome de quem combate o cerberus Lula? De que lado está? Dos bancos, do capital produtivo e das empreiteiras, ou dos movimentos sociais? Talvez acredite, como antes, ser possível agradar a todos. Há, no entanto, evidentes contradições de interesses entre tais setores, especialmente agora. Em tempos de aperto, de recrudescimento dos antagonismos econômicos, políticos e sociais, em quais saídas apostará realmente? Qual de suas cabeças diz a verdade, por meio de qual delas mente e confunde?

Por mais curioso que pareça, a resposta não pode ser outra: em todas e em nenhuma delas. É  justamente essa aparente “ambiguidade” que faz de Lula e do PT o que são: o encantamento fatal, como um pêndulo, do mito em torno da eterna e irremediável “contradição”, da figura, do partido e do governo para sempre “em disputa”, ainda que mantendo, ao fim e ao cabo, e de modo indefinido, intocada a grave estrutura econômica e social do país. É, pois, falando, ao mesmo tempo, para todos esses setores e para nenhum deles que Lula habilmente mantém-se como o coringa da política brasileira, a carta na manga a ser utilizada no momento necessário.

O plano, como metonímia da própria trajetória dos governos petistas anteriores, está traçado: dois anos de duro ajuste econômico e concessões à banca, dois anos de acenos ao setor produtivo e movimentos sociais. Aumento de popularidade. Manutenção no poder. Tudo muda para permanecer exatamente como antes. Mas os tempos são outros. Nenhuma fórmula é eterna e o mar não está para peixe. Pouca coisa indica que tal aposta será bem-sucedida novamente. Em tempos extremos, alguém terá de ceder. É também por isso que a cabeça (ou as cabeças) de Lula é o prêmio mais desejado pela oposição à direita, tão bem vocalizada nos microfones na mídia oligopolista. Por mais previsível que a aposta pareça a se julgar pelo passado recente, ninguém quer aceitar mais o risco de pagar para ver. A verdade é que, ainda que isso as tenha favorecido de modo notável, as elites brasileiras, em especial a financeira, cansaram-se de conversar com um bicho de três cabeças, querem uma cabeça só: a sua própria cabeça.

Diante desse emparedamento, algo parece claro: desejando-as genuinamente ou não, Lula e o PT já mostraram que estão dispostos a sacrificar pouco ou quase nada pelas ditas “reformas estruturais”, tão necessárias para o superar o círculo vicioso de dependência, vulnerabilidade e subdesenvolvimento em que historicamente estamos aprisionados. A “Frente de lutas pelas reformas estruturais”, salutar iniciativa que ora se desenha com a participação de partidos de esquerda, sindicados e movimentos sociais corre, portanto, sério risco de ser capturada, simbólica ou faticamente, como trincheira de defesa de um governo desgastado ou como mais um palanque para promessas eleitorais vazias, novamente traídas. É o que quer o lulismo.

Quanto aos rumos da esquerda de fato diante dessa eterna espera por Godot, o outro lado do Atlântico tem fornecido algumas boas dicas: “que se vayan todos”. Já cruzamos o limite do absurdo. A direita neoliberal, e as velhas “esquerdas” que, no governo, aplicam de modo análogo seu pacote de maldades devem ser tratadas igualmente e não como diferentes faces de um “mal menor” nas bordas do atual arranjo de poder. Precisamos, com diálogo verdadeiro e sem sectarismos, mostrar à sociedade brasileira que há saídas reais, concretas e sólidas à esquerda da ordem para o atoleiro em que estamos metidos, alternativas que coloquem as pessoas e as necessidades sociais em seu centro, que façam os que tem muito retornar o que obtiverem da sociedade em prol dos quem tem menos e que, ao contrário daqueles, sempre pagam a conta dos “momentos difíceis” do país desde o seu início. Por mais que um suposto senso de “responsabilidade histórica” tenha eventualmente nos colocado no mesmo palanque de cerberus quaisquer, neste momento a política e a população  brasileira pedem distinções claras. Já passou da hora de sermos apenas uma voz, forte e uníssona: a voz dissonante.

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Edemilson Paraná é jornalista, mestre e doutorando em Sociologia pela Universidade de Brasília.

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O Espaço do leitor é destinado à publicação de textos inéditos de nossos leitores, que dialoguem com as publicações da Boitempo Editorial, seu Blog e obras de seus autores. Interessados devem enviar textos de 1 a 10 laudas, que não tenham sido anteriormente publicados, para o e-mail blog@boitempoeditorial.com.br (sujeito a aprovação pela editoria do Blog).

Lançamento Boitempo: Rap e política

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Acaba de sair do forno Rap e política: percepções da vida social brasileira, de Roberto Camargos. Analisando os versos e as trajetórias sincopadas de algumas das mais expressivas figuras que fazem do rap sua forma de interrogar o mundo, livro traz as vivências sociais, culturais e políticas de quem faz e experimenta o rap em seu cotidiano. Sobre a importância do livro no estudo deste fenômeno que insiste em reafirmar, nestes tempos de desorientação ideológica, a fundamental indissociabilidade entre cultura e política, o cientista político Adalberto Paranhos é categórico: “De hoje em diante não haverá como enveredar pelo mundo e pelo submundo do rap sem reportar-se a esta obra”.

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Batalha das “pistas” / Itinerário Rap, Mauá-SP / 28 maio. 2014 / A imagem integra o ensaio fotográfico do livro Rap e política, assinado pelo fotógrafo Thiago Nascimento.

Leia abaixo a orelha do livro, escrita por Pedro Alexandre Sanches

Tudo é política. Não há sinais de vida fora do planeta Política. O apoliticismo é uma forma de participação pela omissão. A periferia respira política. São afirmações que perpassam, não necessariamente nessas palavras, toda a extensão deste Rap e política, de Roberto Camargos. O fazer musical é político, trate-se da música alienada de Roberto Carlos ou a música engajada dos rappers brasileiros. Rap e política analisa o exercício político cotidiano desses últimos, que formam uma comunidade musical ainda hoje marginalizada por inúmeras razões, entre elas a consciência e a autoafirmação constante de seu engajamento, para além dos ditames da indústria cultural, que apregoa a música como mero entretenimento, ou da indústria informativa, que repele qualquer forma de engajamento como chatice panfletária.

Interessado em observar o mundo “de baixo para cima” e não dos mesmos postos de poder de sempre, Roberto Camargos explica com sutileza por que é que o rap, entre tantos outros gêneros musicais, digamos, populares, incomoda tanta gente, irrita tanta sensibilidade, exaspera tanto crítico musical e insulta tanto senso comum “de cima para baixo” – mesmo hoje, 2015, depois de décadas de acúmulo histórico e de adventos fora-e-dentro da indústria cultural, como os dos ícones pop Criolo e Emicida.

Se tudo é política e todos nós fazemos política 24 horas por dia, o autor de Rap e política não haveria de constituir exceção à regra. Assim como seu objeto de estudo, também a obra de Roberto é 100% política. Isso transparece exemplarmente na seleção de amostras musicais que ele recolhe e analisa, usando olhos e ouvidos independentes e alheios aos lobbies e vícios institucionais dos parques industriais da música e do jornalismo. Racionais MC’s, Thaíde, MV Bill, Rappin’ Hood e Marcelo D2 estão aqui, mas o que destaca e enriquece a análise de Roberto é a profusão de vozes polifônicas – sistematicamente ignoradas por nossas instituições culturais, orientadas “de cima para baixo” – de rappers maranhenses, goianos, baianos, mato-grossenses, gaúchos, pernambucanos, paulistas, mineiros, catarinenses, brasilienses… O autor quer compreender não o rap de acordo com fulano ou sicrana, mas sim os raps brasileiros, assim com S, no plural. E isso também é política (e rap), no sentido mais nobre do termo.

Pedro Alexandre Sanches

Rap e política, de Roberto Camargos, no Instagram da Boitempo

Cultura inútil: Sobre dinheiro, trabalho e coisas que se dizem afins

15 03 10 Mouzar Benedito Dinheiro Trabalho[Adoniran Barbosa: “Chega de homenagens. Eu quero é dinheiro!”]

Por Mouzar Benedito.

“O trabalho dignifica e enobrece o homem”, diz um velho ditado que logicamente foi criado por quem não trabalhava, mas certamente por um explorador do trabalho alheio que queria convencer esse alheio que ele estava fazendo o melhor.

Mas alguns que trabalham à revelia (como eu), só por necessidade, não porque gostam ou porque acreditam em frases edificantes sobre o trabalho, logo adaptaram o ditado: “O trabalho empobrece e danifica o homem”.

Os que ganham enquanto os outros trabalham procuram nos convencer também que estamos todos juntos, “na mesma canoa”. Para esses, fiz uma imitação de haicai:

Na mesma canoa
Uns remam
Outros ficam à toa

O certo é que sempre se fala do trabalho como algo realizador, divino até. Todas as riquezas são criadas pelo trabalho. Concordo. Pena que essas riquezas não fiquem com quem as criou, os que fizeram o trabalho.

Fiz uma seleção de ditados e de frases ditas por celebridades (ou não), sobre riqueza, ricos, bancos, dinheiro… e muito pouco sobre trabalho e trabalhador, porque, se há muito cinismo em ditos sobre o dinheiro e seus donos, há um cinismo que acho mais perverso nas frases pronunciadas em tom elogioso sobre o trabalho. É um cinismo diferente, que acho inútil reproduzir aqui.

Mas antes desses ditados e dessas frases, começo por coisas da minha própria lavra, ditos meus, em forma de frases ou de haicais meio tronchos sobre dinheiro, trabalho e coisas afins (mas não semelhantes). Vamos lá.

O QUE EU DISSE:

O inferno é aqui na terra mesmo, mas só para os pobres. Para os ricos, aqui é um céu.

* * *

Em terra de endividados, quem tem um banco é rei.

* * *

Banqueiro dos bons
Não morre de amores
Por ladrões amadores

* * *

Há situações em que rico é que não vai pra frente. Na guerra, por exemplo.

* * *

Nas mãos de maconheiro, dinheiro vira fumaça; nas mãos de viciado em cocaína, vira pó.

* * *

Quem tem capital
Tem seguidores
Adeptos do capetal

* * *

Tá certo que o dinheiro não traz felicidade. Mas e a miséria, traz?

* * *

Dizem que o trabalho enobrece o homem, mas quem já viu alguém que virou nobre por ter trabalhado?

* * *

Criminoso rico não vai preso: foge de carro, enquanto o castigo anda a cavalo.

* * *

Ficou rico,
Subiu na vida!
Mas que ridico!

* * *

Algumas profissões no Brasil precisam ser redefinidas: metalúrgico é quem leva ferro; carpinteiro é o que leva pau; fumageiro é o que leva fumo; barbeiro é o que leva na cabeça e banqueiro é quem banca tudo isso.

* * *

Banqueiros alegres, povo triste!

* * *

Os capitalistas querem sim preservar a natureza… desde que isso lhes dê lucro, claro!

* * *

Num sistema com péssima distribuição de renda, todo pecado é capital.

* * *

Capitalista xucro!
Não vive a vida,
Só pensa no lucro

* * *

Os comentaristas econômicos de rádio, TV, jornais e revistas, em sua grande maioria, não são nada econômicos em elogios ao capital.

* * *

A União Soviética podia ser uma merda para quem morava lá, mas seu fim foi uma merda para os trabalhadores do resto do mundo: temos agora o capitalismo de rédea solta, sem medo de revoluções.

* * *

Há assaltos que são feitos dentro da lei: o imposto de renda descontado nos salários, por exemplo.

* * *

Economista de mão cheia!
Economiza muito
A renda alheia

* * *

Jornais e revistas jornalísticas são muito importantes para denunciar as mutretas que são feitas fora das suas respectivas empresas.

* * *

No Brasil, os velhos ditados devem ser adaptados: aqui, todos os caminhos levam ao brejo.

O QUE DISSERAM:

Truman Capote: “O dinheiro não tem a mínima importância, desde que a gente tenha muito”.

* * *

Vão Gogo (pseudônimo de Millôr Fernandes): “Quando chegar a hora dos humildes herdarem o Reino do Céu, o imposto de renda vai ficar com mais da metade”.

* * *

Millôr Fernandes: “Ser pobre não é crime, mas ajuda muito a chegar lá”.

* * *

Anita Garibaldi: “Bendita pobreza que me liberta”.

* * *

José Américo: “Hoje em dia não se guarda mais na cabeça, só se deve guardar nas algibeiras”.

* * *

Um tio meu, Joãozinho, há muitos e muitos anos, quando foi criticado por andar mal vestido: “O que vale é algibeira empanturrada”.

* * *

Eça de Queiroz: “Onde aparece o ouro, o terrível ouro, imediatamente os homens ao redor se olham com rancor e levam as mãos às facas”.

* * *

Raquel de Queiroz: “O dinheiro é um instrumento de felicidade e grandeza, e tem aquela inimitável capacidade de comprar poder.”

* * *

Steven Spielberg: “Para que pagar um dólar por um marcador de livro? Por que não usar o dólar como marcador de livro?”.

* * *

Friedrich Nietzsche: “Todos vós que amais o trabalho desenfreado, o vosso labor é maldição e desejo de esquecerdes quem sois”.

* * *

Aristóteles Onassis: “A partir de um certo ponto, o dinheiro deixa de ser o objeto. O interessante é o jogo”.

* * *

Dito caipira: “Alegria de roceiro é dinheiro, mulher e bicho de pé, porque, o que adianta dinheiro e mulher se o ‘bicho’ não ficar de pé?”

* * *

Camilo Castello Branco: “O melhor amigo é o dinheiro. Conselhos, os melhores, é o dinheiro que os dá”.

* * *

Marilyn Monroe: “Eu não estou interessada em dinheiro. Só quero ser maravilhosa”.

* * *

De novo, Marilyn Monroe: “Uma atriz não é uma máquina, mas lhe tratam como se fosse uma. Uma máquina de dinheiro”.

* * *

Padre Antônio Vieira: “Muitos são parentes da fortuna, não da pessoa”.

* * *

Voltaire: “Quando se trata de dinheiro, todos têm a mesma religião”.

* * *

Lampião: “Dinheiro eu tenho que só bosta de cabra em chiqueiro velho”.

* * *

Oswaldo Aranha: “O capital, exercendo atuação marginal, é nocivo ao bem estar coletivo e irradia germes inflacionários”.

* * *

Machado de Assis: “Se achares três mil-réis, leva-os à polícia; se achares três contos, leva-os a um banco”.

* * *

Guerra Junqueiro: “No cofre do banqueiro dormem pobrezas metalizadas”.

* * *

Adão Myszak: “O dinheiro é o veículo da vaidade e autor de todas as servidões e desigualdades”.

* * *

William Jennings Bryan: “Ninguém consegue ganhar um milhão de dólares honestamente”.

* * *

Sophia Loren: “Minha vida foi um conto de fadas maravilhoso, uma história de guerra, fome e pobreza”.

* * *

Edwared Estling Cummings: “Eu vivo tão além do meu salário que podemos dizer que vivemos separados”.

* * *

Honoré de Balzac: “Atrás de toda grande fortuna existe algum crime”.

* * *

Carlos Drummond de Andrade: “O cofre do banco contém apenas dinheiro. Frustrar-se-á quem pensar que nele encontrará riqueza”.

* * *

Abraham Lincoln: “Nosso Senhor ama os pobres, por isso fez tantos”.

* * *

Joãosinho Trinta: “O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual”.

* * *

Fausto Silva: “Hemorróidas e dinheiro, quem tem não diz”.

* * *

Xiquote: “Quem é maior: Deus ou o dinheiro? Respondem os ingleses que Gold (ouro) tem uma letra a mais do que God (Deus)”.

* * *

Clarice Lispector: “Quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa mais preciosa do que ouro – existe a quem falte o delicado essencial…”.

* * *

Tom Jobim: “O dinheiro não é tudo. Não se esqueça também do ouro, dos diamantes, da platina e das propriedades”.

* * *

Elias Beadle: “Metade do trabalho realizado neste mundo é para fazer as coisas parecerem o que não são”.

* * *

Gino Meneghetti: “Jamais roubei um pobre. Só me interessava tirar dos ricos, e tirar joias, que são bens supérfluos que só servem para alimentar a sua vaidade”.

* * *

Carlos Imperial: “Prefiro ser vaiado no meu Mercury Cougar do que aplaudido num ônibus”.

* * *

Deng Xiaoping: “Pobreza não é socialismo. Ser rico é glorioso”.

* * *

Carlito Maia: “Quando a esquerda começa a contar dinheiro, converte-se em direita”.

* * *

Jean Paul Getty: “Quando não se tem dinheiro, pensa-se sempre nele. Quando se tem, se pensa somente nele”.

* * *

Afrânio Peixoto: “Um idiota pobre é um idiota; um idiota rico é um rico”.

* * *

Herbert de Souza: “A tecnologia moderna é capaz de realizar a produção sem emprego. O diabo é que a economia moderna não consegue inventar o consumo sem salário”.

* * *

Adoniran Barbosa: “Chega de homenagens. Eu quero dinheiro”.

* * *

Marlon Brando: “Tudo o que fazemos está ligado ao dinheiro. Eu sou uma mercadoria e tenho plena consciência disso”.

* * *

Anônimo: “Se o dinheiro fala, o meu sempre diz adeus”

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Delfim Netto: “Ponho meu dinheiro em caderneta de poupança. Para quem não entende de economia, é a melhor coisa. Agora, quem entende tem outros lugares para perder”.

* * *

Bob Hope: “Um banco é um lugar que te empresta dinheiro se conseguires provar que não necessitas dele”.

* * *

Karl Marx: “O aumento dos salários não é nada mais do que o pagamento de salários melhores a escravos, e não conquista pra o operário seu destino e sua dignidade humana”.

* * *

Malcolm Forbes: “Se você tem um emprego sem chateações, você não tem um emprego”.

* * *

Grouxo Marx: “Há tantas coisas na vida mais importantes que o dinheiro! Mas custam tanto!”.

* * *

Schopenhauer: “Dinheiro é como água do mar: quanto mais você toma, maior é sua sede. O mesmo se aplica à fama”.

* * *

Don Herold: “O trabalho é a coisa mais importante do mundo. Por isso, devemos sempre deixar um pouco para o dia seguinte”.

* * *

William Shakespeare: “É estranho que, sem ser forçado, saia alguém em busca de trabalho”.

* * *

George Best: “Gastei muito dinheiro com bebidas, mulheres e carros. O resto eu desperdicei”.

ASSIM DISSE O BARÃO DE ITARARÉ

O dinheiro é a causa de todas as desgraças, quando não se lh’o tem.

* * *

O dinheiro é representado na mitologia pelo Minotauro, o monstro que habitava um labirinto da ilha de Creta e, portanto, era um cretino.

* * *

Banqueiro é um cavalheiro que nos empresta o guarda-chuva quando brilha o sol e no-lo pede de volta quando começa a chover.

* * *

Devo tanto que se chamar alguém de meu bem o banco toma.

* * *

A natureza, que, com a idade, nos põe tanta prata nos cabelos, bem que podia ter a gentileza de nos meter algumas no bolso.

* * *

O avarento não é dono do dinheiro. O dinheiro é dono do avarento.

* * *

O herdeiro universal é um sujeito que come de colher, sozinho, a galinha morta que foi criada, engordada e assada pelos outros.

* * *

Tempo é dinheiro. Paguemos, portanto, as nossas dívidas com o tempo.

 

DIZ O DITO POPULAR

Sobre dinheiro não há companheiro,

* * *

Trabalha o feio, pro bonito comer.

* * *

Não há amigo nem irmão, não havendo dinheiro na mão.

* * *

Dinheiro é chave que destranca toda porta.

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Dinheiro muito, fartura de poucos.

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Com dinheiro na mão, em toda parte há função.

* * *

Dinheiro emprestaste, inimigo criaste.

* * *

Com dinheiro, língua e latim, vai-se do mundo até o fim.

* * *

Boa conta, má conta, tudo é conta.

* * *

Dinheiro emprestado parte rindo, e volta chorando.

* * *

Defunto rico, defunto chorado.

* * *

De dinheiro e santidade, metade da metade.

* * *

Esperdício de rico é economia de pobre.

* * *

Pobre com rica casado, mais que marido é criado.

* * *

Dinheiro não tem cheiro.

* * *

Administrar dinheiro é fácil. Difícil é administrar a falta dele.

* * *

Rico em casa de pobre é perdição de galinha.

* * *

Viúva rica, com um olho chora e com outro repinica.

* * *

Viúva rica casada fica.

* * *

O que o dinheiro não fizer neste mundo, nada mais faz.

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Bolsa vazia afugenta amigos.

* * *

Ladrão endinheirado não morre enforcado.

* * *

Lágrimas de herdeiro são sorrisos disfarçados.

* * *

Dinheiro e estrume só presta espalhado.

* * *

Dinheiro não traz felicidade.

* * *

Adaptação: Dinheiro não traz felicidade, manda buscar.

* * *

O dinheiro será teu senhor, se não for teu escravo.

* * *

De janeiro a janeiro, o dinheiro é do banqueiro.

* * *

Neste mundo, só o que se deve dar desgraça é bom dia.

* * *

Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira cinco dedos.

* * *

Em casa de pobre, ao meio-dia mosca faz samba debaixo da panela.

* * *

Pobre só vai pra frente quando tropeça.

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Deus é bom trabalhador, mas gosta que o ajudem.

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Quem sabe de luta, luta. Quem não sabe, labuta.

E PARA TERMINAR:

“Vintém poupado, vintém ganho”, dizem certos ricos que “não abrem a mão nem pra dar bom dia”, ou que “parece que têm escorpião no bolso”.

São geralmente avarentos, agiotas. Muitos sinônimos identificam as pessoas obcecadas por acumular dinheiro. Um cara desses diz que é “econômico” ou “seguro”, mas os outros usam outras palavras. Por exemplo: pão-duro, fominha, filárgiro, munheca, mão de vaca, ridico (corruptela de ridículo), vinagre, casca, socranca, somítico, gaveteiro, sovina, forra-gaitas, muquirana, mofino, usureiro, morrinha, avaro, cobiçoso, unha de fome, miserável, mão fechada, mesquinho, sórdido, munheca de samambaia, sovelão, resmelengo, fuinha, morto de fome, tacanho, sovina, unhaca, tranca, mão-de-vaca…

Lembro-me de um sujeito desses que morava numa pequena cidade do litoral paulista. Na época, existia o hábito de um dia por semana os mendigos irem de porta em porta pedindo esmola. Pulavam a casa dele, porque sabiam que dali não sairia nada.

Um dia, apareceu lá um mendigo de fora, que não sabia da fama do dito cujo. Bateu na porta da casa dele e o sujeito gritou lá de dentro:

― Quem é?

O mendigo falou com voz sofrida:

― Esmola…

A resposta que veio lá de dentro:

― Pode colocar por baixo da porta.

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Gostou? Clique aqui, para ver todas as outras colunas da série “Cultura inútil”, de Mouzar Benedito, no Blog da Boitempo!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Panelaço: não existe contradição alguma

Panelaço - Thaisa BuraniPor Thaisa Burani.

Colaboração integra o especial Feminismo e política do Blog da Boitempo.

Deixemos de lado, por alguns instantes, o golpismo orquestrado pela mídia que há por trás do panelaço ocorrido ontem em diversas capitais do país durante o discurso da presidenta Dilma Rousseff. Tampouco tentemos defender o discurso conservador da presidenta e sua desesperada insistência em se aliar ao setor privado e às classes políticas que só querem ver o que resta do Partido dos Trabalhadores bem morto e enterrado.

O que se viu ontem deve ser visto também (quiçá, sobretudo) como uma aula prática e bastante didática sobre o machismo da nossa sociedade.

Antes de tudo, deve-se colocar aqui que existe uma diferença crucial entre machismo e misoginia: a misoginia é o ódio generalizado ao gênero feminino, ao passo que o machismo é o ódio direcionado. Isto é, dentro da lógica machista, existe um tipo de mulher, um único tipo, que merece ser respeitado. Os exemplos para caracterizá-lo são muitos, mas todos nós sabemos resumi-lo numa frase: trata-se das mulheres que se colocam no seu “devido lugar”. O resto – as vadias, as comunistas, as sapatonas – simplesmente não é gente.

O discurso machista enaltece o primeiro grupo. Romantiza, dá flor, faz poema. Vai da garota de Ipanema que enche o mundo de graça à mãe guerreira e trabalhadora, de vida honrosa e comportamento afável. Mas desce, literalmente, porrada no “resto”: no Brasil, uma mulher é estuprada a cada 12 segundos, e a violência doméstica é considerada a segunda causa de morte de mulheres no país. E aí, quando as piadas sobre estupro corretivo geram uma reação polvorosa nas redes sociais, são as feminazis que não têm senso de humor.

Assim, não é nem um pouco contraditório que o cara que postou de manhã uma imagem de uma rosa dedicada às mulheres maravilhosas de sua vida, que enchem seu mundo de beleza, amor, compreensão e cuecas limpas, à noite valeu-se de panelas que ele não lavou para xingar uma figura pública de “vaca”, “gorda” e “vagabunda”.

Essa sintomática escolha do léxico, que pode parecer risível e desprovida de conteúdo num primeiro momento (afinal, para uma figura pública, muito mais ofensivo seria chamar de “desonesta”, “mal-caráter”, “corrupta”), revela-se portadora de coisa muito mais nefasta: numa sociedade machista, não há nada pior para uma mulher do que ser vaca, gorda e vagabunda, uma vez que isso a inclui instantaneamente no segundo grupo, o das mulheres “resto”, a mulher-coisa que não é gente e não merece nem rosa nem bombom. Pior: se for estuprada e morta, “fez por merecer”.

Não existe, portanto, contradição alguma em ofender publicamente uma senhora, mãe e avó, em pleno 8 de março com xingamentos que aprendemos lá na quarta série. Isto é, senhoras e senhores, só mais um dentre os infinitos exemplos do machismo, esse discurso-fenômeno tão arraigado em nosso cotidiano.

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Thaisa Burani trabalha no departamento editorial da Boitempo.

O feminismo político do século XX

15 03 09 Feminismo político XX Maria Lygia Quartim de MoraesPor Maria Lygia Quartim de Moraes.

Este artigo integra revista semestral Margem Esquerda – ensaios marxistas, número 9, é publicado aqui, no Blog da Boitempo, no contexto do especial “Dia da mulher, dia da luta feminista“. Clique aqui para ler o artigo na diagramação da publicação impressa. Além de reflexões diárias no Blog, a Boitempo disponibliza ao longo da semana de 2.3.2015–9.3.2015 todos seus títulos escritos por mulheres e todos seus livros de temática feminista a preços especiais de desconto. Saiba mais aqui.

* * *

Um novo feminismo

Pertenço à geração de mulheres para as quais os livros de Simone de Beauvoir, especialmente O segundo sexo1 e Memórias de uma moça bem comportada, tiveram uma importância decisiva: ajudaram a nomear um mal-estar difuso e a entender a situação da mulher como produto da história e da sociedade. Mais do que isso, a experiência de Simone e seu pacto amoroso com Sartre exerceram um fascínio extraordinário. Simone não queria ter filhos, nem criar família, tampouco viver como uma burguesa acomodada.

É um desses casos em que vida e obra se encontram, porque, ao adotar o existencialismo filosófico, ela fez de seu projeto de vida – produzir uma obra de valor universal – o objeto de suas reflexões e de seu trabalho teórico. Sua biografia remete aos personagens de seus romances e estes aludem às experiências reais de Simone – ela na intimidade, Sartre, a relação entre ambos –, rompendo com convenções burguesas e apresentando um estilo de vida pouco convencional.

Como deixar de admirar a ousadia dessa mulher que vivia num quarto de hotel – distante das atividades familiares típicas das mulheres de classe média –, da intelectual que gerou uma rica produção de romances, autobiografias, biografia de Sartre, ensaios filosóficos? Em O balanço final, escrito aos 63 anos, Simone comenta: “Viver sem tempos mortos: esse é um dos slogans de maio de 1968 que mais me tocaram, porque o adotei desde minha infância”2.

Ninguém nasce mulher

O impacto do Segundo sexo foi extraordinário. A versão norte-americana vendeu cerca de 750 mil exemplares e Simone transformou-se na referência do feminismo do século XX. No entanto, vinte anos depois, a própria autora reconhecerá os limites de seu trabalho que, embora útil às militantes, “não era um livro militante”. Além disso, naquele momento ela ainda acreditava que a condição feminina evoluiria com o tempo e por isso lhe pareciam justas as críticas das feministas americanas dos anos 1970:

Que a mulher seja fabricada pela civilização, e não biologicamente determinada, é um ponto que nenhuma feminista coloca em dúvida. Elas [as norte-americanas] se afastam de meu livro no plano prático: recusam-se a confiar no futuro, querem desde já dirigir seus destinos. Foi nesse ponto que mudei: dou-lhes razão.3

A partir dessa autocrítica, Simone afirma que feminismo é lutar por reivindicações propriamente femininas, paralelamente à luta de classes, e se declara feminista: “Em resumo, no passado achava que a luta de classes deveria ter prioridade sobre a luta dos sexos. Hoje considero que as duas devem ser travadas ao mesmo tempo”4.

Com essas palavras, Simone define a novidade do feminismo dos anos 1970: uma nova concepção política da questão do poder e o repúdio à crença ingênua na marcha da humanidade para um crescente progresso – mais do que tudo, um feminismo militante. Simone de Beauvoir foi o ponto de partida de toda uma geração de feminista, mas ela não era, nem se propunha a ser uma militante feminista; era uma intelectual ligada a Sartre e ao projeto editorial da revista Les Temps Modernes.

A geração política

Em entrevista concedida em 1970, Hannah Arendt exprimiu sua admiração pelas revoltas estudantis de 1968 nos seguintes termos:

Abstraindo as diferenças nacionais, que naturalmente são muito grandes, e levando em conta somente que se trata de um movimento global – algo que nunca aconteceu nesta forma antes – e considerando (…) o que realmente diferencia esta geração em todos os países das gerações anteriores, (…) é sua determinação para agir, sua alegria em agir, e certeza de poder mudar as coisas pelos seus próprios esforços.

[…]

Esta geração descobriu o que o século XVIII chamou de “felicidade pública”, que significa que quando o homem toma parte na vida pública abre para si uma dimensão de experiência humana que de outra forma lhe ficaria impedida e que de certa maneira constitui parte da “felicidade” completa.5

Vinte anos depois, Immanuel Wallerstein, no discurso de abertura do seminário 1968 as a Global Event6, afirmou que 1968 foi uma revolução no sistema mundial e uma revolução desse próprio sistema. Concordando com Arendt, o autor aponta para a novidade do que acontecia naquele momento, e vai além, ao afirmar que 1968 foi um momento de ruptura histórica, que criou um “antes” e um “depois”. Após 1968, ficava difícil afirmar que o proletariado ainda era a única vanguarda revolucionária. Nesse sentido, os grupos “minoritários”, cujos interesses eram desconsiderados em nome da revolução proletária que aboliria todas as formas de opressão, decidiram não mais esperar pela “salvação” no futuro. Assim, “a importância real da revolução de 1968 deve-se menos à sua crítica ao passado do que às questões que levantou para o futuro”7.

Essa é a novidade: o aparecimento, em várias partes do mundo ocidental, de uma juventude extremamente politizada e militante, unida na mesma recusa ao imperialismo norte-americano, ao “aparelhismo” e burocratismo dos partidos comunistas, aos graves equívocos políticos do socialismo soviético e aos valores burgueses e conservadores. Os jovens defendem os direitos civis das mulheres e dos negros, lêem Marcuse e professam uma profunda admiração por Ernesto Che Guevara. Em sua maioria, estudantes secundaristas e universitários foram os novos atores coletivos dos anos 1960 e 1970 e as principais vítimas da repressão político-militar das ditaduras na América Latina.

Ditaduras militares e a presença das mulheres na resistência armada

No Brasil, a Nova Esquerda forma-se na crítica ao imobilismo político dos comunistas e na oposição radical ao golpe militar de 1964, o primeiro na sucessão de golpes e ditaduras militares que assombraram os países do Cone Sul. As condições políticas em que se dá o rompimento da legalidade democrática no Brasil (1964) e no Chile (1973) são assemelhadas: em ambas, governos legitimamente eleitos, cujos atos não feriam os pressupostos constitucionais, conheceram uma polarização social fortíssima e o boicote norte-americano. É importante assinalar que em ambos os países amadureciam processos de desenvolvimento dos movimentos sociais, como foi o caso das Ligas Camponesas dos anos 1960, um atuante movimento de trabalhadores rurais. Os movimentos estudantis também já estavam em ebulição, como ocorreu na longa greve em torno do aumento da participação estudantil nos órgãos de poder da universidade, ocorrida na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antonia, em 19628.

Para a juventude que aspirava a maior liberdade na vida pessoal, a ditadura foi um duro golpe. A agitação e a efervescência entre os anos 1965 e 1969, com seus festivais de música e de cinema e os grandes encontros estudantis, foram substituídas pelo medo da atuação impune do terrorismo de Estado contra os “subversivos”. A moral cristã era tão onipresente que, nas invasões realizadas pela polícia no Crusp (residência estudantil da USP) as pílulas anticoncepcionais e as bombas molotov constituíam, com o mesmo status, prova incriminadora. Uma estudante em cuja bolsa fossem encontradas pílulas era considerada puta. Essa é uma dimensão de gênero que tem sido deixada de lado na produção acadêmica sobre o tema das revoltas estudantis contra a ditadura militar.

No Brasil dos anos 1960 e 1970, a presença das mulheres na luta armada representou uma profunda transgressão ao que era designado como próprio ao sexo feminino. Mesmo sem formular uma proposta feminista deliberada, as militantes “comportaram-se como homens”: pegaram em armas e assumiram um comportamento sexual que punha em questão a virgindade e a instituição do casamento, transformando-se, como apontou Garcia9, “em um instrumento em si de emancipação”. A transgressão de gênero teve, na repressão e na tortura, uma dimensão punitiva específica.

A radicalidade da experiência da luta armada deixou marcas profundas nos jovens de ambos os sexos. A mudança dos códigos instaurou uma nova ordem de relação entre homens e mulheres. Insisto na dimensão da juventude e no fato de a grande maioria ser constituída por solteiros. Foi no exílio que muitos criaram família e onde se acirrou a contradição de gêneros. As queixas das ex-guerrilheiras não se diferenciavam muito do normal das mulheres, especialmente no tocante às tarefas domésticas e aos cuidados com os filhos. Por outro lado, ante o machismo reinante nas concepções dos partidos comunistas oficiais, a participação das mulheres na luta armada foi uma enorme ruptura com relação às lutas e movimentos sociais anteriores, nos quais predominavam os homens.

O feminismo e a experiência do exílio

A partir de 1973, o golpe de estado no Chile, o acirramento da repressão política na Argentina e a permanência da ditadura militar brasileira, em plena prosperidade do “milagre brasileiro”, concentraram em Paris centenas de fugitivos. Além dos exilados, o clima de terror e a repressão política reinantes no Cone Sul estimulavam a saída de universitários para pós-graduações na Europa. A França se tornou o epicentro do asilo político, reforçando os laços entre a esquerda francesa e os militantes políticos. Na época, o Partido Comunista Francês era uma organização respeitada, com forte composição operária, presença sindical e atuação ideológica.

Para mim, como para muitos outros que viveram em Paris nos anos 1970/1980, o sentido da palavra “republicano” ganhou um significado muito forte de educação, saúde e cultura para todos. Passamos a enxergar com outros olhos a experiência de uma bem-sucedida medicina socializada e de escolas públicas com qualidade. Com o crescimento eleitoral, a esquerda francesa estava no auge e a França tornou-se o grande centro irradiador do feminismo europeu.

O país vivia uma ebulição social e a liberalização do aborto era uma reivindicação nacional, encabeçada pelas feministas com o apoio dos partidos comunistas e socialistas. A esquerda mantinha uma atitude de solidariedade para com os exilados políticos: estudantes e exiladas foram acolhidas pelos movimentos de libertação da mulher e puderam participar do debate no interior das esquerdas.

O feminismo do Debate e do Coletivo

Os brasileiros exilados na França organizaram-se em vários grupos políticos, divididos entre as diversas tendências da esquerda brasileira, dos marxistas-leninistas aos maoístas, passando pelos guevaristas. No final dos anos 1960, um pequeno grupo, sob a liderança intelectual de João Quartim, criou a revista Debate, que adquiriu um grande prestígio e permaneceu ativa até 1979, constituindo uma etapa importante para que as feministas brasileiras ligadas ao Debate percebessem a necessidade de uma militância direcionada para a questão da mulher.

O discurso da militância no exterior visava, inicialmente, o conjunto dos exilados. Disso não destoava a publicação do grupo Debate, que se posicionava a serviço da “reorganização dos comunistas” de forma geral. Uma parte considerável das militantes do grupo não tinha qualquer vocação feminista e os artigos sobre “opressão” remetiam à literatura dos clássicos marxistas e se apropriavam das análises da New Left Review. O empenho teórico do Debate gerou uma grande quantidade de textos que propunham uma análise marxista do trabalho feminino e da família, mas as questões sobre sexualidade eram descartadas, uma temática que a maioria não considerava importante tampouco passível de discussão.

Ao mesmo tempo, a liberdade oferecida pela cidade permitiu um estilo e vida que colocou as condições para o confronto de gênero. Nesse contexto, não é de estranhar o desencanto de muitas militantes, desiludidas com os grupos políticos dominados por questiúnculas e personalismos, que buscaram outras alternativas de participação política, aproximando-se dos grupos feministas. Assim surgiu o Coletivo de mulheres no exterior ou Ciclo de mulheres brasileiras, cujas participantes, muito jovens e a maioria sem filhos, haviam sido direta ou indiretamente ligadas à luta armada. Aos poucos, o Coletivo de mulheres transformou-se na mais dinâmica, atuante e influente organização no exterior.

A importância dos grupos feministas formados no exílio europeu também é ressaltada por Ana Maria Araujo, exilada uruguaia na França10, para quem o movimento de mulheres latino-americano, não obstante seus laços com o feminismo europeu e norte-americano, “à medida que se consolidava como movimento social enraizado na realidade nacional e continental, adquiria – de forma muito mais profunda que a esquerda, sua própria especificidade latino-americana”.11 Para Araujo, um dos mais importantes grupos de mulheres latino-americanas organizados no exterior foi o Círculo de Mulheres Brasileiras, que defendia, ao mesmo tempo, um feminismo de esquerda (favorável ao aborto) e de “massa” (propondo políticas públicas de Estado).

A imprensa alternativa feminista

As restrições impostas pela ditadura militar ao direito de organização política e sindical forçaram a oposição a limitar seus objetivos a questões locais, entre outros movimentos contra o custo de vida, clubes de mães e associações de vizinhos, movimentos por creches e postos de saúde. Assim, uma das principais características assumidas pela resistência popular foi a criação de novos tipos de organização. O contato direto entre militantes políticos e movimentos populares e sua interpenetração transformaram a prática política no país.

Nos anos em que a repressão militar liquidava, fisicamente, muitos oponentes12, o movimento feminista apareceu comprometido com a luta pelas “liberdades democráticas”, exercendo um papel ativo na campanha nacional pela anistia desde 1975. Durante esse ano, que marca o início da Década da Mulher da Organização das Nações Unidas, as feministas organizaram reuniões com mulheres de diferentes setores sociais, especialmente nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, para discutir seus problemas específicos. Dadas as profundas diferenças culturais e sociais da sociedade brasileira, o alcance do movimento de mulheres variou enormemente, concentrando-se nos principais centros urbanos.

A partir de 1974, as primeiras feministas do Debate retornaram ao Brasil e participaram do primeiro grupo feminista em território nacional, o Nós mulheres. Uma vez articuladas, deram início a uma dupla produção: a prática de discussão de “textos de formação”, de bibliografia marxista, e a publicação de textos jornalísticos para “as massas”. O primeiro editorial do jornal Nós Mulheres, escrito por duas ex-militantes do Debate, trata da dupla jornada de trabalho (em casa e fora dela) e propõe uma série de reivindicações, nas quais as políticas de Estado aparecem como solução.

A produção do Nós Mulheres e do Brasil Mulher, que reunia militantes de origem maoísta, esteve marcada pela permanência das teses marxistas, que tinham a economia e a política como eixos, segundo o duplo princípio: a) a importância da infra-estrutura econômica, isto é, a centralidade da luta anticapitalista; b) a importância da atuação na esfera pública (mas numa organização menos hierarquizada). Isso faz sentido na medida em que, numa sociedade com o grau de desigualdade social como a brasileira, toda e qualquer reivindicação de melhoria de vida passa pela dimensão econômica. Nesse sentido, o marxismo, enquanto teoria das classes sociais, torna-se uma referência permanente. Ao mesmo tempo, as posições do Nós Mulheres sobre sexualidade, família e relações de gênero eram muito mais avançadas, em termos de feminismo, do que as das demais publicações de mulheres naquele momento.13

O processo de redemocratização fortaleceu os grupos ativistas dos direitos sociais e políticos e promoveu algumas vitórias sensíveis com respeito aos direitos da mulher. Campanhas nacionais denunciando a morte de mulheres por crimes “de honra”, a denúncia do sexismo dos livros escolares, as campanhas contra o assédio sexual são algumas das conquistas que marcaram o final da Década da Mulher. Como veremos adiante, a transformação do contexto político resultante destas novas militâncias – em que o feminismo marcou presença – ampliou o cenário do embate político e a relação dos movimentos sociais com o Estado.

A visibilidade e a capacidade de mobilização do feminismo político nos anos 1970, de certa forma, reordenaram o espaço político. É importante, historicamente, reviver a importância da imprensa alternativa e o lugar privilegiado que ocupou na reorganização da esquerda e na própria fundação do PT. Nesse sentido, o jornal Em Tempo constitui o melhor exemplo.

O Em Tempo era uma frente de esquerda que reunia militantes da APML [Ação Popular Marxista-Leninista], do MR8 [Movimento Revolucionário 8 de Outubro], do MEP [Movimento pela Emancipaçao do Proletariado], da Polop [Política Operária], de diferentes grupos de inspiração trotskista e grupos independentes. Comum a todos eles, a perspectiva crítica em relação aos dois partidos comunistas mais tradicionais do Brasil: o PCB e o PCdoB. O objetivo era construir uma frente legal chamada “Esquerda Revolucionária” (o número 0 saiu em fins de 1977). Em Tempo dava uma dimensão pública e legal para posições políticas definidas no interior das organizações ainda clandestinas, divulgando a luta pelas liberdades democráticas e a campanha pela anistia e apoiando o movimento estudantil.14

No mesmo texto em que desenvolve a tese da importância da imprensa alternativa na luta política contra a ditadura militar, Maria Paula Nascimento Araújo destaca a presença ativa dos jornais feministas. A autora comenta que o jornal Em Tempo, “pressionado pela imprensa feminista, de grande vigor na época”, realizou a cobertura de encontros sindicais de mulheres em 1978 e, em matéria de página inteira, “como organizar as mulheres”. Em Tempo dialogava com os principais jornais feministas da época: o Brasil Mulher e Nós Mulheres.15

Por uma lógica cruel, o próprio potencial político do movimento de mulheres em São Paulo provocou uma nova fase de disputas políticas entre as diferentes correntes da esquerda (entre outras, MR8, PCdoB) em oposição às feministas independentes. A luta pelo controle político do movimento de mulheres afastou as feministas do Nós Mulheres das comemorações políticas do 8 de março, ocasião em que eram realizados concorridos encontros de mulheres. Paulatinamente, o feminismo político dos anos 1970 foi sendo substituído por uma nova geração de feministas homossexuais que privilegiavam a questão da violência contra a mulher, dando origem ao SOS-Mulher. Esse deslocamento, entre outras conseqüências, instituiu o lugar da “vítimas indefesas da violência masculina”, deixando de considerar, por exemplo, a violência doméstica em que a agressora é uma mulher.

A institucionalização progressiva: ongs, conselhos, etc.

Entre outras, a experiência institucional realizada através da Fundação Ford serviu de paradigma para a institucionalização de grupos e militantes feministas e para a introdução da ideologia e das práticas das organizações não-governamentais (ONGs). Outra financiadora importante tem sido a holandesa Netherlands Organisation for International Development Cooperation (Novib), que atua até hoje. A constituição das ONGs foi o primeiro passo da institucionalização de uma série de grupos e propostas de trabalho e a fixação de uma agenda comum, no início ditada pelo movimento e, paulatinamente, passando ser influenciada pelas organizações financiadoras internacionais.

Nas primeiras eleições livres, em 1982, a oposição ganhou o governo do estado de São Paulo e foi criado o primeiro Conselho da Condição Feminina, inspirado no similar francês. Esse é o ponto de inflexão, que abre um campo de atuação dentro do aparelho de Estado, criando, em várias cidades do Brasil, delegacias especiais para mulheres, serviços de atendimento às vítimas de violência e programas de saúde das mulheres. Ao mesmo tempo, os conselhos da condição feminina foram perdendo sua autonomia e se transformando em órgãos diretamente subordinados às políticas do governador em exercício, o que, via de regra, significou sua despolitização e perda de eficácia. A relativa despolitização do movimento correspondeu ao seu enquadramento às regras jurídicas e ao “mercado financiador” monopolizado pelas Fundações Ford, Rockefeller e MacArthur diante de uma oferta cada vez maior de serviços para a mulher, transformando parcela das feministas em profissionais competentes de políticas sociais.

A vitória de Fernando Henrique Cardoso (presidente do Brasil de 1995-2002) e a criação da Comunidade Solidária possibilitaram o surgimento de novos postos de trabalho e novas teias de interesse entre governos e conselhos de mulheres no âmbito federal, estadual e municipal. A mesma trajetória – dos pequenos grupos heroicos do feminismo dos anos 1970, sua “deriva” para formação das ONGs e a luta pelo poder dentro aparelhos de Estado – ocorreu em todos os países latino-americanos, à medida os movimentos sociais conquistaram maior espaço, conhecem as contraditórias conseqüências de “ser governo”. Anette Goldberg (1989) faz análise semelhante, assinalando a opção “participacionista-liberal”, segundo a qual parte da esquerda, “que se havia formado em torno da idéia de “revolução” e de “socialismo”, foi sendo paulatinamente reconduzida e redirecionada.16

As palavras de ordem de autonomia e novos métodos de fazer política foram esquecidos e os grupos “minoritários” transformaram as ONGs em alternativas de trabalho, em estratégias de sobrevivência – um meio de vida. A internacionalização da pauta feminista sob a hegemonia do modelo norte-americano implicou (o que não deixava de ser um dado político) na despolitização crescente do feminismo organizado, um enquadramento que alimentou disputas intelectuais estéreis (igualdade versus diferença) extremamente dependentes dos interesses estratégicos norte-americanos, no qual a luta contra os “fundamentalismos” deixa de fora o capitalismo e o cristianismo.

Extraindo as consequências

O objetivo principal da produção teórica feminista foi deslocar o debate da inferioridade social da mulher do âmbito da biologia (mulher “inferior” fisiologicamente, devido ao tamanho do cérebro ou à diferença hormonal) para o âmbito da sociedade e das relações de poder. Por essa razão, muitas feministas insistiam na importância dos grupos exclusivamente de mulheres, segundo o princípio da “não-mixidade”. Intimidadas com a presença dos homens e cansadas de ser manipuladas em assembleias, as mulheres preferiam grupos menores, relações mais pessoais, e tiraram proveito do aprendizado com o Movimento de Libertação das Mulheres (MLF) francês. O curto tempo de vida dos grupos refletia a lógica de evitar a consolidação de lideranças.

Ora, com o processo de reorganização partidária dos anos 1980, grande parte das feministas atuantes entraram no PT, outras no PCdoB. Assim, a questão das cotas mínimas de mulheres nos partidos políticos foi de tamanha ineficácia que ninguém fala mais nisso – seria esse um sinal de menor participação das mulheres? Depende do que seja considerada atividade política. Quem trabalha com temas ligados aos movimentos sociais sabe da importância do ativismo feminino. O problema não reside aí e sim no fato de que o contexto mundial mudou. As mulheres que foram a força do feminismo na década de 1970 eram jovens, estudantes, artistas, intelectuais, num mundo altamente politizado. Como vimos, a profissionalização do feminismo via “eficiência de gestão em iniciativas” redundou na sua despolitização, preço ideológico de troca por verbas e financiamentos.

A condição da mulher transformou-se profundamente na maior parte dos países do mundo ocidental. As mulheres vivem cada vez mais, com menor número de filhos, com maior leque de possibilidades e opções sexoafetivas. No Brasil contemporâneo, aumenta o número de pessoas vivendo sós; as famílias consideradas “normais” (pai, mãe e filhos) constituem apenas metade dos arranjos familiares; cerca de 30% das famílias são uniparentais; as famílias homossexuais e as crianças nascidas de inseminação artificial fazem parte da “desordem da família”.

Ao mesmo tempo, apesar das conquistas jurídicas obtidas nos lugares do mundo ocidental onde o feminismo foi atuante, as mudanças se dão nos limites das sociedades de classe e, numa sociedade tão desigual quanto a brasileira, as oportunidades e possibilidades são limitadas, transformando o sonho de ser modelo ou esportista de sucesso no grande ideal dos adolescentes. Outra conseqüência do fundamentalismo do mercado são as crescentes taxas de desemprego disfarçado ou subemprego. A maior pobreza das mulheres implica, entre outras coisas, que elas sejam as mais atingidas pela (falta de) qualidade dos serviços públicos; mais desfavorecidas pela incompetência da Justiça (atrasos nas pensões, etc.). Vale dizer, a questão estratégica dos direitos de seguridade social afeta principalmente as mulheres pobres.

Ausência de uma cultura laica e republicana

O que acontece quando a sociedade não consegue criar nem compartilhar dos mesmos valores morais? Mais ainda, quando os valores morais dependem das religiões, na ausência de valores laicos e republicanos? Quais as conseqüências da ausência de valores morais laicos, tendo em vista o convívio público educado, respeitoso, baseado nas regras de uma cidadania republicana? O fato de que as lutas políticas assumam, hoje, também a forma de lutas religiosas tem como pressuposto a inexistência de sistemas morais alternativos aos religiosos. O recrudescimento do islamismo é acompanhado pela expansão de seitas religiosas que, apesar de concorrerem com igrejas instituídas há mais tempo, permanecem na mesma ideologia da “vontade divina”. Assim, permanecemos na esfera do pecado, dos crimes cometidos contra a vontade divina. A instituição religiosa continua sendo a matriz da moralidade pública. Nesse contexto, não há que se estranhar o interdito da legalização do aborto em toda a América Latina, com exceção de Cuba.

Um exemplo melancólico de submissão aos ditames da Igreja Católica é o do ex-líder sandinista, Daniel Ortega, recém-eleito presidente da Nicarágua, declarar-se cristão e contra o aborto, comprovando os limites de projetos revolucionários atados ao moralismo cristão e os limites que o machismo e o tradicionalismo impõem aos movimentos de libertação nacional na América Central.

Na Itália, nos anos 1970, a esquerda uniu-se, apoiou as feministas, enfrentou o papa e venceu. Divórcio e aborto foram legalizados. No Brasil, um ditador protestante impôs o divórcio em 1977! Permanecem as restrições legais ao aborto; por outro lado, temos uma próspera indústria de aborto pago, policiais corruptos que fecham os olhos e a pior parte cabendo às mulheres pobres, clientela preferencial dessas mesmas igrejas…

Mesmo o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) – o primeiro que tentou modificar as relações de gênero na prática, com comissões mistas em todos os níveis – também esbarrou nos limites das agremiações em que o catolicismo é a ideologia dominante. E aqui temos o círculo vicioso: as igrejas são as fontes de moral diante do abandono do Estado; e as igrejas são contra o aborto, que as mulheres pobres fazem em piores condições e ainda pedem perdão ao padre. Poucas feministas têm a coragem de enfrentar as igrejas, dada sua presença nos movimentos sociais. Nesse sentido, é necessário questionar o fiasco latino-americano ao enfrentar o poder da Igreja e ressaltar a importância das virtudes republicanas, do sentido da coisa pública.

Sujeito do desejo ou vítima do destino?

Diferentemente de outras revoluções, a de 1968 tinha como objetivo mudar o mundo e não tomar o poder, no sentido de apropriar-se do poder de Estado. Em certo sentido, fomos a geração do contrapoder – contra o poder da Igreja, do Estado, da Família, do Homem Branco, etc. Retornando ao elogio de Arendt aos jovens de 1968 por sua “determinação para agir, alegria em agir e certeza de poder mudar as coisas pelos seus próprios esforços”, vemos como essas características desaparecem quando o “sujeito” da reivindicação torna-se o sujeito dependente da caridade e de políticas compensatórias. De fato, do ponto de vista subjetivo, a característica mais forte do movimento de 1968 foi a afirmação de desejo de toda uma geração. Como sujeitos de seus desejos, sofreram as conseqüências de seus atos e os riscos que deles decorriam. Não o fizeram por um impulso suicida, mas porque se opunham, moral e eticamente, a um regime que instaurou o terrorismo de Estado. Nesse sentido, faço minhas as considerações da psicanalista Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes:

No Brasil dos anos 1960, o militante é alguém que se consolidou como sujeito de seu desejo, isto é, alguém que decidiu apostar no que achou que valia a pena. Não sabia, contudo qual era a pena nem supôs o quanto valia sua aposta. Juntou suas energias, na alvorada da vida adulta, e, instigado pelos ideais externos de liberdade, de autonomia política e de independência nacional, aliados aos ideais internos de compromisso com o novo e com o pleno, se pôs ombro a ombro com os que, como ele, faziam o mesmo. (…)

Foi assim que, pela vida psíquica, a necessidade do novo, do revolucionário, do radical e do risco permanente encontrou fértil acolhida no militante que apostou na vida a serviço de uma ideia, a serviço de um projeto que não fosse individual e que servisse a muitos e a seu país.17

Em contraposição a essa posição de sujeito desejante, a política do vitimismo, hoje predominante no contexto das políticas compensatórias, reflete-se na baixa cidadania dos programas assistenciais. As mulheres são submetidas à humilhação de terem de provar que são pobres e infelizes para convencer a atendente de que necessitam do Bolsa-Família. Também se presenciam cenas de humilhação nas iniciativas filantrópicas em que uma cesta básica vem acompanhada de um sermão e de regras de conduta. São formas de tutelagem e de infantilização incompatíveis com a ideia de autonomia e responsabilidade. O que deu exemplaridade à França foi exatamente a universalidade dos direitos à saúde e educação que desenvolvem o sentido de cidadania. A maior parte das políticas sociais facultativas termina por colocar o usuário num lugar subalterno, negando as bandeiras da via republicana e da eficácia dos direitos.

* Agradeço ao CNPq e à Capes pelo apoio à pesquisa Trinta anos de feminismo, cujos resultados são apresentados no presente texto.

NOTAS

1 Simone de Beauvoir, O segundo sexo, 2 vols. (São Paulo, Difusão Européia do Livro, 1960).
2 Simone de Beauvoir, Balanço final (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), p. 40.
3 Idem, ibidem, p. 493.
4 Idem, ibidem, p. 492.
5 Hannah Arendt, Crises da República (São Paulo, Perspectiva, 2006), p. 174-175.
6 Immanuel Wallerstein, “Révolution dans le systéme mondial”, Les Temps Modernes, nos 514-5, maio-junho de 1989, p. 165.
7 Idem, ibidem, p. 176.
Alfred Stepan, estudioso do tema, aponta que cerca de 20% dos oficiais brasileiros foram atingidos por expurgos após o golpe de 1964. João Quartim de Moraes, Liberalismo e ditadura no Cone Sul (Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, 2001).
9 Marco Aurélio Garcia, “O gênero na militância: notas sobre as possibilidades de uma outra história da ação política”, Cadernos Pagu nos 8-9, Núcleo de Estudos de Gênero Pagu/Unicamp, 1997.
10 Ana María Araujo comenta que: “Seguramente es el ‘Círculo de mujeres brasileñas’ el primer grupo consolidado de mujeres latinoamericanas en Francia. (…) El regreso de estas mujeres a su patria después de la amnistía de 1979, la profundidad de sus planteos y la práctica social adquirida como grupo de mujeres brasileñas en Europa, representan un aporte importante en la construcción del movimiento de mujeres en Brasil”. Ana María Araujo, “Hacia una identidad latinoamericana: los movimientos de mujeres en Europa y América Latina”, Nueva Sociedad, no 78 Caracas, Venezuela, julho-agosto de 1985.
11 Idem, ibidem, p. 90.
12 Em 1976, ademais das mortes ocorridas no quadro da Operação Condor, várias militantes do PCdoB foram assassinadas no episódio que ficou conhecido como “a chacina da Lapa”, nome do bairro em que se encontrava o local da reunião, na cidade de São Paulo, além do assassinato da estilista Zuzu Angel no Rio de Janeiro. Nos anos 1970, o filho de Zuzu Angel – Stuart, ativista contra o regime militar –, foi preso e morto nas dependências do DOI-Codi. A partir daí, Zuzu entraria em uma guerra contra o regime pela recuperação do corpo de seu filho, envolvendo até os Estados Unidos, país de seu ex-marido e pai de Stuart. Essa luta só terminou com o seu assassinato em 1976 por integrantes do regime militar, forjado como acidente automobilístico no Rio de Janeiro, no túnel que leva hoje seu nome.
13 Rosalina Santa Cruz, em sua tese de doutoramento que tem a imprensa feminista como objeto, conclui que a maior diferença entre o Brasil Mulher e o Nós Mulheres residia na questão da autonomia do movimento das mulheres, independentemente dos partidos políticos, defendida com exclusividade pelo Nós Mulheres, que surge, afirmando-se como um jornal feminista, defendendo um feminismo que prioriza a diferença entre homens e mulheres, autônomo e independente dos grupos e partidos políticos. Na prática, a semelhança entre os dois jornais está no conteúdo das matérias, na matriz teórica marxista e no público para o qual foram dirigidos os dois jornais”.
14 Maria Paula Nascimento Araújo, “A luta democrática contra o regime militar na década de 1970”, em A. R. Reis, M. Ridenti e R. P. S. Motta (orgs.), O golpe e a ditadura militar 40 anos depois (1964-2004) (Bauru, Edusc, 2004), p. 172.
15 Idem, ibidem.
16 Anette Goldberg, “Feminismo no Brasil contemporâneo: o percurso intelectual de um ideário político”, Boletim Bibliografico de Ciências Sociais (BIB), no 28, Rio de Janeiro, 1989.
17 Maria Auxiliadora de Almeida Cunha Arantes, A subversão do eu, disponível em http://www.estadosgerais.org/historia/subversao.ahtml.

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_________ (org.). “Desdobramentos do feminismo”. Cadernos Pagu (16), Núcleo de Estudos de Gênero Pagu/Unicamp, 2001.
RIDENTI, Marcelo. O fantasma da revolução brasileira. São Paulo: Unesp/Fapesp, 1993.
ROUDINESCO, E. Dicionário de psicanálise. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998.
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SARTI, Cynthia. “Feminismo e contexto: lições do caso brasileiro”. Cadernos Pagu (16), Núcleo de Estudos de Gênero Pagu/Unicamp, 2001.
_________. “O feminismo brasileiro desde os anos 1970: revisitando uma trajetória”. Revista de Estudos Feministas, vol. 12, no 2, ago. 2004.
WALLERSTEIN, I. 1969, “Révolution dans le systéme mondial”. Les Temps Modernes, nos 514-5, maio-jun. 1989.

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Maria Lygia Quartim de Moraes é Professora do Departamento de Sociologia do IFCH e pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero – Pagu, ambos da UNIVAMP. É autora (com Rubens Naves) do livro Advocacia pro bono em defesa da mulher vítima da violência (Campinas/São Paulo, Editora da Unicamp/Imprensa Oficial, 2002), e ministrou, no primeiro Curso Livre Marx-Engels, a aula de introdução ao livro Sobre o suicídio, de Karl Marx,

Feliz dia da viradora emergente

15 03 08 Ludmila Abílio Dia da viradora emergente[Débora Maria da Silva, fundadora do movimento Mães de Maio.]

Por Ludmila Abílio.

Quando Jurema escutou os tiros no escadão, quase desmaiou. Não precisava ver para saber que sua intuição de mãe não havia falhado. Ela era faxineira; trabalhou anos para a mesma empresa, que resolveu aderir ao cooperativismo. De funcionária passou a cooperativada, terceirizada, subcontratada. Durante toda aquela última jornada de trabalho outrora formal, a trabalhadora de 40 anos sentiu o frio na barriga que em realidade sempre acompanha as mães das periferias. Com o assassinato de seu filho de 20 anos, Jurema quase morreu de depressão, largou o emprego; mas sobreviveu, cuidou de si e do marido alcoólatra.

Após o falecimento do companheiro, seguiu, vivendo de bicos que nem ela mesma conseguia elencar; o principal foi o que lhe proporcionou sua moradia: cuidava de um casal de idosos que viviam num casebre e, quando ambos morreram, por lá ficou. Foi assim que, no inicio dos anos 2000, Jurema ingressou nos cadastros dos programas sociais: tornou-se beneficiária do programa “Começar de novo” da gestão petista da prefeitura de São Paulo. O recomeço oferecido pelo Estado envolvia a participação obrigatória em um programa de geração de renda voltado para a formação de cooperativas. Então Jurema adentraria uma rede que envolvia ONGs, incubadoras de cooperativas, poder público e financiamentos internacionais. Conheceu Marileide, mulher vinda da Bahia. Jurema veio do Ceará – o que para ela explicaria o jeito arretado com que peitou o corretor imobiliário que queria colocar o barracão a venda – “avisa aí que quem comprar vai levar junto uma mulher com dois filhos”.

Com auxilio dos capacitadores do programa, as duas montaram uma cooperativa de arranjos artesanais. A iniciativa não durou muito: no final, os arranjos se tornaram lembrancinhas para os mais chegados. Marileide voltou ao papel de dona de casa. Jurema partiu para a próxima tentativa: entrou numa cooperativa de marmitex, formada por evangélicos determinados a perseverar. Perseveraram; no jargão da cidadania, diríamos que o empreendimento se consolidou, ela se tornou cozinheira de marmitex. A renda era escassa, dividir os ganhos em seis não dava muita coisa. Mas como me resumiu um dos integrantes (ex-trabalhador da construção civil, vendedor de algodão doce, ex-cozinheiro do centro empresarial de Santo Amaro), “não estamos aqui pelo dinheiro, mas pelo trabalho”. Ter local de trabalho definido, reconhecimento do estatuto de trabalhador, uniforme e horário de trabalho pode valer mais do que o próprio salário no universo da viração. Passados quinze anos petistas, hoje Jurema e Marinalva têm um novo estatuto. Tornaram-se mulheres da classe média – não qualquer classe média, a nova classe média brasileira.

Empregadas domésticas, peões da construção civil, cortadores de cana… classe média? Somos vanguarda neste novo fenômeno mundial. Para o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), entre 1990 e 2010, a participação dos países do Sul na composição da classe média mundial cresceu de 26% para 58%. Entretanto, para o PNUD, a classe média inclui os que auferem ou despendem entre 10 e 100 dólares por dia.1 No Brasil, a nova classe média, segundo critérios do governo federal de 2012, é definida pela renda familiar per capita entre R$291 e R$1091.2 Mulheres como Jurema, se ganharem com seus bicos mais do que meio salário mínimo, forem portadoras de cartões de crédito com limites duas vezes maiores que sua renda e compuserem os cadastros dos programas sociais, já podem se considerar parte dessa classe, definida a cada ano sobre as disputas dos centavos que determinarão as linhas de pobreza e os índices dos progressos sociais.

Hoje as mulheres estão na linha de frente do dito desenvolvimento social brasileiro, ou, no bom jargão, são seu principal ‘público-alvo’. “As mulheres canalizam melhor os benefícios dos programas sociais” disse em 2010 o presidente Lula na Conferência Regional sobre a mulher da América Latina e do Caribe.3  “As mulheres são mais escolarizadas que os homens da mesma classe, chefiam mais famílias que as mulheres de elite, contribuem mais para a renda familiar do que as mulheres no topo da pirâmide, administram o orçamento doméstico e decidem a maior parte dos gastos e compras da família”, sintetiza a apresentação do Data Popular, instituto de pesquisa voltado para o novo filão de ouro do mercado consumidor.4 Mas nem só de cartões de crédito e benefícios vivem as mulheres da ‘nova classe média’. A ralação permanece a mesma, se é que não se intensificou. Quanto a isso sabemos muito pouco. Celebramos o crescimento das taxas de trabalho formal, a redução do desemprego, o aumento real do salário mínimo. A questão da extensão do tempo de trabalho e de sua intensificação está ao mesmo tempo evidente – de baixo ao alto sentimos todos na pele – e nebulosa: a crítica bambeia em suas formas, referências e potencialidades políticas frente às transformações do trabalho e da acumulação.

Mas não se trata apenas dos desafios da reestruturação produtiva; trata-se do intricado lugar que o trabalho informal e antigas ocupações desde sempre precárias ocupam no pensamento brasileiro. Enquanto o sonho da consolidação da produtividade do proletariado alemão não se realiza por aqui, nos debatemos com a invisibilidade social e o lugar que a “ralé”5, o “subproletariado”6, o “precariado”7 ocupam na modernização e acumulação brasileiras. Recorrentemente postos pela própria esquerda às margens do progresso, são classificados como os trabalhadores e trabalhadoras serviçais, das ocupações extremamente precárias, os que têm apenas sua energia muscular a vender, são os trabalhadores improdutivos que não integram os circuitos globais da produção. Vivem nos nebulosos “confins” do Brasil. Em um perigoso encontro entre biopolítica, inovação tecnológica e irrelevância do trabalho informal e de baixa qualificação, são facilmente reconhecidos como os descartáveis, desimportantes para a acumulação, reduzidos a objetos da nova gestão do social. Entretanto, nesta década ganharam novos estatutos: como eleitores que garantem o pacto lulista e como os novos consumidores que garantem a expansão do mercado consumidor interno e o sucesso da economia brasileira. Enquanto isso, operários da construção civil dão o sangue e despencam dos estádios dos megaeventos, morrem na ampliação das estradas do desenvolvimento, caem dos espigões da cidade global. Cortadores de cana morrem de exaustão enquanto garantem a produção do etanol. Trabalhadoras e trabalhadores perdem o braço nos frigoríficos das gigantes brasileiras. Operadoras de telemarketing hoje materializam o novo operariado, com suas doenças que vão da depressão à cistite. Dar – literalmente – a vida pelo trabalho é parte de sua sobrevivência.

Os serviçais também se modernizaram: vigilantes, manicures, faxineiras, cuidadoras, motoboys, entre tantas outras ocupações, hoje têm seu trabalho subsumido em empresas terceirizadas extremamente eficientes em gerenciar-lhes a produtividade e se apropriar de seu tempo de trabalho não pago, tais como as ‘furasóio express’, como bem me resume um trabalhador de motofrete. Beneficiárias costureiras de fundo de quintal pregam os botões das empresas transnacionais, integrando o mercado da cidadania e das cadeias produtivas globais ao mesmo tempo. Na casa delas tudo se cruza e se funde em um novo desenho da questão/gestão social, que é também um desenho atualizado da centralidade do trabalho socialmente invisível para a modernidade brasileira.

Mas, em se tratando de mulheres e modernização, também podemos podemos ir além da ‘nova classe média’, para ver como as formas contemporâneas de exploração do trabalho têm em seu cerne uma atualização das antigas e permanentes características do trabalho feminino. Dentre as ocupações tipicamente femininas, hoje o Brasil conta com 4,5 milhões de revendedoras – a maioria são mulheres – pelo sistema de vendas diretas. Esse setor movimenta hoje mais de R$40 bilhões.8 Uma das empresas-símbolo do desenvolvimento nacional tem hoje com um milhão de revendedoras. As ‘consultoras’ são responsáveis pela venda e distribuição dos produtos por todo o território nacional; conciliam suas ocupações em postos formais com a venda dos produtos, desempenham seu papel de donas de casa, vendendo sem “sair para trabalhar”. Outras vendem para as patroas, outras fazem desta sua ocupação principal.  Analisando de perto, esse trabalho sem forma-trabalho, tem tamanha flexibilidade que se combina e se entrelaça com as mais diversas ocupações e situações sociais. Concretamente e de modo incalculável, realiza-se como extensão do tempo de trabalho e preenche os poros de não-trabalho nas jornadas de secretárias, professoras, recepcionistas, enfermeiras, entre muitas outras profissionais. Também se realiza como transferência de riscos da comercialização e de estocagem dos produtos. Um trabalho espraiado e disperso – realizado por um milhão de pessoas – muito bem amarrado para o lado de dentro da fábrica e de sua produção. Uma consultora de RH me resume o imbróglio, “a consultora Natura é o que há de ultramoderno no mercado”. Indistinção entre tempo de trabalho e de não-trabalho, polivalência precária, ausência de direitos, indefinições sobre o que é e o que não é trabalho são características que fundam o trabalho em domicilio, o trabalho doméstico e o emprego doméstico – ou seja, indistinções que permeiam o trabalho e a vida das mulheres. São estas características que hoje se generalizam pelas relações de trabalho. Some-se a elas transferências de riscos e custos para o trabalhador e está definida a espinha dorsal da flexibilização do trabalho.

No caso das revendedoras, a empresa é extremamente bem sucedida em combinar as características do trabalho feminino com empreendedorismo e expansão do mercado consumidor. A Natura é um ‘exemplo de brasilidade’, me afirma a revendedora da elite paulistana, que hoje integra o seleto setor Crystal, o qual garante a distinção entre mulheres de classe alta e revendedoras da ‘nova classe média’. Sua definição cai como uma luva para a empresa que hoje se alimenta ao mesmo tempo da viração feminina generalizada e do crescimento exponencial do setor de higiene e cosméticos, fomentado pelas consumidoras da classe C, que se tornam então também revendedoras, mostrando que nem só de consumo vive o mercado brasileiro.

Saindo do trabalho que não é reconhecido como trabalho e voltando à invisibilidade social das viradoras brasileiras, confirmando o destino das mulheres da periferia, Débora Maria da Silva também teve seu filho assassinado. Edson Rogério Silva dos Santos era gari – outra profissão-símbolo da invisibilidade social, como demonstrou a pesquisa de mestrado de Fernando Braga da Costa,9 até que formaram um exército negro vestido de laranja que explicitou não só o fedor da exploração no Rio de Janeiro, mas também que a “ralé” faz política. Juntamente com mais de 600 pessoas, Edson foi vítima da matança promovida por grupos de extermínio e agentes do Estado naquele tenebroso mês de maio de 2006. Débora, juntamente com outras mães, politizou a dor do encontro entre exploração e extermínio dos debaixo, fundando o movimento das Mães de Maio. Atualmente a Comissão da Verdade Estadual Marcelo Rubens Paiva está sendo transformada em Comissão da Verdade da Democracia “Mães de Maio”. A memória dos Edsons, regra e exceção, se encontram finalmente. O estribilho “quem é essa mulher” teria de ser agora atualizado nas linhas de um rap que nos evidenciasse a luta permanente – e sua força também política – das mulheres que carregam nas costas o país do futuro sem futuro.

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Sem maquiagem: o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos, de Ludmila Abílio é um dos títulos da promoção Dia da mulher, dia da luta feminista“, e está com desconto especial junto com todos os títulos da Boitempo escritos por mulheres e/ou com temática feminista. Não perca, a promoção  vale só até amanhã (9 de março)! Saiba mais abaixo:

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NOTAS

1 PNUD. Relatório do desenvolvimento humano 2013. A ascensão do Sul: Progresso humano num mundo diversificado. PNUD, 2013.
2 “Perguntas e respostas sobre a definição da classe média“. Site SAE. Acesso em 03.03.2015.
3 “Mulheres canalizam melhor os benefícios dos programas sociais“. Site da CEPAL.
4 Data Popular, Apresentação “Brasil Emergente: valores, visão de mundo e perspectiva de consumo“.
5 SOUZA, J. A ralé brasileira: quem é e como vive. Belo Horizonte: UFMG, 2009.
6 SINGER, A. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Cia das Letras, 2012.
7 BRAGA, R. A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. São Paulo: Boitempo, 2012.
8 “Vendas Diretas ultrapassam R$ 40 bilhões em volume de negócios em 2013“. Site ABEVD. Acesso em 04.03.2015
9 COSTA, F. Garis: um estudo de psicologia sobre a invisibilidade pública. Dissertação de mestrado, Instituto de Psicologia, USP, São Paulo, 2002.


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Ludmilla Costhek Abílio é Doutora em Ciências Sociais pela UNICAMP. Possui graduação em Ciências Sociais pela FFLCH-USP (2001) e mestrado em Sociologia pela mesma instituição (2005). Atualmente faz seu Pós-doutorado na FEA-USP sobre a constituição da chamada nova classe média brasileira. É autora do premiado Sem maquiagem: o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos (Boitempo, 2014).

O Oito de Março e a legalização do aborto

15 03 06 Luis Felipe Miguel[Cartaz soviético elaborado para o Dia Internacional da Mulher, em 1914.]

Por Luis Felipe Miguel.*

A comemoração do Dia Internacional da Mulher chama uma reflexão sobre as conquistas do feminismo em sua história. Nos mais de cem anos que nos separam de quando a militante comunista Clara Zetkin propôs uma data para as lutas das mulheres de todo o mundo, houve um enorme avanço na concessão de direitos e na obtenção da igualdade legal, na maior parte dos países ocidentais. Em primeiro lugar, a conquista do voto, que foi a bandeira mais visível das mulheres nas primeiras décadas de sua mobilização política. Também se obteve o acesso à educação e, hoje, elas são a maioria entre os estudantes do ensino superior. As mulheres ganharam acesso legal à propriedade, podendo dispor de seus próprios bens. De maneira mais vagarosa, caiu também a maior parte dos dispositivos jurídicos que garantiam ao homem a autoridade maior dentro da família.

Há, assim, uma progressão rumo à igualdade de direitos, que é em si impoprtante, ainda que, como veremos, incompleta. A ela correspondem avanços bem mais lentos e ambíguos nas condições reais de vida das mulheres – o que, aliás, faz parte do registro “típico” da ordem liberal em sua relação com os grupos subalternos.

A família é um exemplo perfeito. A responsabilidade pela gestão da vida doméstica recai quase exclusivamente sobre as mulheres, o que implica em fadiga, menos tempo livre e piores condições no mercado de trabalho, seja para as profissionais, que não podem se dedicar à carreira da forma como os homens o fazem, seja para as menos especializadas, que não têm como fazer horas extras e precisam faltar quando os filhos ficam doentes ou a escola entra em greve. Isso leva a uma situação de maior vulnerabilidade no matrimônio para as mulheres, em particular porque sua dissolução em geral ocasiona uma significativa queda de status e renda, levando-as a uma tolerância maior a relações insatisfatórias e mesmo violentas.

A manifestação do Dia Internacional da Mulher, 1917, em Pitsburgo na Rússia, marcou o início da Revolução de Fevereiro. A foto integra o caderno de imagens do livro Mulher, Estado e Revolução, de Wendy Goldman.

Essa assimetria na conjugalidade espelha também a sobrevivência da dupla moral sexual. As transformações aceleradas na vivência da sexualidade por mulheres e por homens, nas últimas décadas, não anula o fato de que um comportamento considerado aceitável para eles pode significar uma nódoa para elas – um simples passeio pelo universo mental dos internautas confirma essa impressão. A apreciação prioritária pela aparência e a aceitação compulsória dos padrões imperantes de beleza ainda fazem parte da experiência vivida de grande parte das mulheres. E a violência sexual continua presente, nas periferias como nas universidades de elite, sendo legitimada, ou ao menos tratada como pouco séria, por um discurso machista difuso. Além das vítimas diretas que produz, ela interdita o acesso das mulheres a inúmeros espaços e gera, em todas, um temor constante de agressão.

O Estado concede uma atenção limitada às demandas próprias das mulheres. Por um lado, muitas de suas políticas simplesmente tomam como pressuposto os arranjos familiares tradicionais, com o homem provedor e a mulher responsável pelo lar, sem levar em conta nem que a perpetuação de tal arranjo é prejudicial para as mulheres, nem que um número crescente de famílias não se organiza desta maneira. Com isso, equipamentos públicos tão cruciais para a efetiva emancipação feminina, como creches e pré-escolas, ainda são escassos em países como o Brasil.

No  campo político, embora mulheres tenham se destacado e hoje ocupem, por exemplo, a presidência de Brasil, Argentina e Chile (para ficar apenas no Cone Sul), permanece uma nítida divisão do trabalho. Para mulheres, é mais fácil ingressar na política se associando às temáticas “femininas”, vinculadas à proteção social. Mas essas temáticas são também aquelas que menos agregam capital político e menos propiciam acesso às posições centrais no campo. Como em todas as outras atividades profissionais, na política as mulheres também se defrontam com dificuldades maiores para conciliar carreira e vida familiar, o que é mais um entre os elementos centrais para sua menor presença nos círculos mais elevados de poder – e as que lá chegam tendem a ser, em número desproporcional, solteiras, divorciadas ou viúvas, indício poderoso de que o matrimônio, que é um apoio para eles, é um estorvo para elas.

Por fim – sem pretender que a lista seja exaustiva – é possível observar a manutenção das desigualdades no espaço do trabalho. O salário das mulheres ainda é, em média, menor que o de homens que realizam trabalho similar. Elas são promovidas com menos frequência e raramente alcançam cargos mais elevados. As mulheres estão concentradas nas ocupações menos especializadas e sobretudo, como a literatura que cruza sociologia do trabalho com gênero vem mostrando há décadas, atividades que exigem uma expertise vista socialmente como típica das mulheres não são entendidas como trabalho qualificado. Operar um torno aparece como exigindo mais qualificação do que operar uma máquina de costura. O próprio movimento sindical, nas categorias com forte presença de mão de obra de ambos os sexos, tende a priorizar as demandas dos homens, aceitas como “universais”, ao passo que as necessidades das mulheres são lidas como se fossem localizadas e específicas.

A denúncia do descompasso entre igualdade legal e desigualdade real, que não se tornou menos verdadeira por ser tão antiga, vale assim para as mulheres como para trabalhadoras/es e negras/os. No caso delas, porém, cabe observar que, mesmo entre os direitos legais, em muitos mais países (incluindo o Brasil) ainda falta um: o direito ao aborto. No debate sobre o tema, a legalização do aborto é muitas vezes – e por bons motivos – justificada como necessidade de saúde pública. Afinal, a ilegalidade da interrupção voluntária da gravidez é uma das principais causas de internamento hospitalar de mulheres em idade fértil e também de mortalidade materna. A difusão dos métodos de abortamento químico, com uso do misoprostol, reduz os riscos para as mulheres, mas a proibição de seu uso as coloca à mercê do tráfico de medicamentos, por vezes de procedência insegura, e da utilização inadequada.

Mas, para além da questão de saúde, a legalização do aborto é também parte das condições necessárias para o acesso pleno das mulheres à cidadania. Não é preciso ir longe: na tradição liberal, a autonomia sobre si – e mesmo sobre o próprio corpo – é entendida como sendo a condição básica para o usufruto dos direitos. Para as mulheres, porém, tal prerrogativa é condicional. No momento em que engravidam, deixam de exercer autonomia sobre si mesmas. A mesma sociedade que não é capaz de amparar de forma eficaz as mães que escolhem sê-lo impõe um tipo de maternidade compulsória àquelas que engravidam sem desejar.

Ao negar às mulheres a capacidade de decidir se prosseguem ou não com a gestação, a proibição de aborto também recusa a elas o reconhecimento como agentes capazes de escolha moral. Faz delas indivíduos tutelados, que precisam do Estado – quando não da igreja – para tomar decisões sobre suas próprias vidas. Assim, o que está em questão, quando se coloca em pauta o direito ao aborto, é o acesso de metade da população aos direitos de cidadania em condição de igualdade com a outra metade. Por isso, entre tantas lutas importantes que o Oito de Março evoca, a defesa do direito ao aborto possui um estatuto especial. Sua negação é uma das últimas sobrevivências, na letra da lei, da afirmação expressa da desigualdade entre os sexos e da tutela sobre as mulheres.

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Feminismo e política: uma introdução, de Flávia Biroli e Luis Felipe Miguel, participa da promoção Dia da mulher, dia da luta feminista“, e está com desconto especial junto com todos os títulos da Boitempo escritos por mulheres e/ou com temática feminista. Não perca, a promoção  vale só até o dia 9 de março! Saiba mais abaixo:

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Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde edita a Revista Brasileira de Ciência Política e coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê, que mantém o Blog do Demodê, onde escreve regularmente. Autor, entre outros, de Democracia e representação: territórias em disputa (Editora Unesp, 2014), e,  junto com Flávia Biroli, de Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014). Ambos colaboram com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

Michael Löwy: Marx contra a opressão das mulheres

15 03 05 Michael Löwy Marx Mulher

Por Michael Löwy.*

Com efeito, Sobre o suicídio de Marx é uma das mais poderosas peças de acusação à opressão contra as mulheres já publicadas. Três dos quatro casos de suicídio mencionados nos extratos se referem a mulheres vítimas do patriarcado ou, nas palavras de Marx, da tirania familiar, uma forma de poder arbitrário que não foi derrubada pela Revolução Francesa (Somente uma das quatro histórias de suicídio selecionadas por Marx concerne a um homem – um desempregado, ex-membro da Guarda Real). Entre elas, duas são mulheres “burguesas” e a outra, de origem popular, filha de um alfaiate. Mas o destino delas fora selado mais pelo seu gênero do que por sua classe social.

No primeiro caso uma jovem é levada ao suicídio por seus pais, ilustrando a brutal autoridade do pater – e da materfamilias; Marx denuncia com veemência a covarde vingança dos indivíduos habitualmente forçados à submissão na sociedade burguesa, contra os ainda mais fracos que eles.

O segundo exemplo – o de uma jovem mulher da Martinica, trancada entre as quatro paredes da casa por seu marido ciumento, até que o desespero a leva ao suicídio – é de longe o mais importante, tanto por sua extensão como pelos ácidos comentários do jovem Marx a respeito. Aos seus olhos, o caso parece paradigmático do poder patriarcal absoluto dos homens contra suas esposas e de sua atitude de possuidores zelosos de uma propriedade privada.

Nas observações indignadas de Marx, o marido tirânico é comparado a um senhor de escravos. Graças às condições sociais que ignoram o amor verdadeiro e livre, e à natureza patriarcal tanto do Código Civil como das leis de propriedade, o macho opressor pode tratar sua mulher como um avarento trata o cofre de ouro, a sete chaves: como uma coisa, “uma parte de seu inventário”. A reificação capitalista e a dominação patriarcal são associadas por Marx nessa acusação radical contra as modernas relações da família burguesa, fundadas sobre o poder masculino.

O terceiro caso refere-se a um problema que se tornou uma das principais bandeiras do movimento feminista depois de 1968: o direito ao aborto. Trata-se de uma jovem que entra em conflito com as sacrossantas regras da família patriarcal e que é levada ao suicídio pela hipocrisia social, pela ética reacionária
e pelas leis burguesas que proíbem a interrupção voluntária da gravidez.

O tratamento dado a esses três casos em Sobre o suicídio constitui um protesto apaixonado contra o patriarcado, a sujeição das mulheres – incluídas as “burguesas” – e a natureza opressiva da família burguesa. Com raras exceções, não há nada comparável nos escritos posteriores de Marx.

Não obstante seus limites evidentes, esta pequena e quase esquecida obra é uma preciosa contribuição a uma compreensão mais rica das injustiças sociais da moderna sociedade burguesa, do sofrimento que suas estruturas familiares patriarcais inflingem às mulheres e do amplo e universal objetivo emancipador do socialismo.

* Texto extraído do prefácio “Um Marx insólito” que integra a edição brasileira de Sobre o suicídio, de Marx, publicada em 2006 pela coleção Marx-Engels da Boitempo.

Sobre o suicídio, de Marx, está participando da promoção Dia da mulher, dia da luta feminista“, e está com desconto especial junto com todos os títulos da Boitempo escritos por mulheres e/ou com temática feminista. Não perca, a promoção  vale só até o dia 9 de março! Saiba mais abaixo:

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Confira a aula de Maria Lygia Quartim de Moraes sobre a obra Sobre o suicídio, de Karl Marx, no primeiro Curso Livre Marx-Engels da Boitempo:


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Michael Löwy, sociólogo, é nascido no Brasil, formado em Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, e vive em Paris desde 1969. Diretor emérito de pesquisas do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS). Homenageado, em 1994, com a medalha de prata do CNRS em Ciências Sociais, é autor de Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005), Lucien Goldmann ou a dialética da totalidade (2009), A teoria da revolução no jovem Marx (2012), A jaula de aço: Max Weber e o marxismo weberiano (2014) e organizador de Revoluções (2009) e Capitalismo como religião (2013), de Walter Benjamin, além de coordenar, junto com Leandro Konder, a coleção Marxismo e literatura da Boitempo. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.