Bastidores do novo livro de Harvey sobre Marx

Para entender O Capital Livro 2 Capa.indd

Capa de “Para entender O Capital: Livros II e III”, de David Harvey

Já está em gráfica, o volume final do guia de leitura de David Harvey para a obra máxima de Karl Marx, O capital. Enquanto o livro não fica pronto, o Blog da Boitempo brinda seus leitores com um post descontraído, mostrando um pouco dos bastidores da capa de Para entender O Capital: Livros II e III, que levou um processo bem especial.

O artista plástico Marcio Fidelis fez um boneco inédito do barbudão. Escultor, pós-graduado pela UNESP, além de desenvolver projetos de intervenção urbana, Fidelis também é especializado em “toy art”, um processo bastante artesanal de confecção de brinquedos. Na série de fotos abaixo podemos acompanhar as diversas etapas do trabalho, da modelagem tridimensional em plastilina aos retoques finais de tinta e roupa, passando pelo molde em gesso, a fusão do látex e a aplicação do poliuretano (espuma expandida). Confira!

MONTAGEM BLOG_1_alta

O primeiro a desfrutar da companhia do pequeno Karl foi nosso ilustre Antonio Kehl, capista e diagramador do Para entender O Capital: Livros II e III. Os dois conversaram sobre a decepção com o eleitorado paulista, enquanto Kehl terminava os últimos retoques na reforma da mobília. Ele também nos disse que o autor da crítica da economia política é fã de Gil.


10708006_10203506446476545_774360_n

Para entender O Capital: Livros II e III, de David Harvey chega às livrarias ainda em outubro, seguido da aguardada edição da Boitempo do livro II d’O capital, de Karl Marx. Em novembro, o geógrafo marxista virá ao Brasil para debater o livro no ciclo de conferênciasA economia política da urbanização. Entre os dias 13 e 19 de novembro, Harvey passa pelas cidades de Brasília, Recife, Fortaleza, Curitiba e São Paulo, onde ele receberá da Boitempo a miniatura de Marx!

10706513_10203506482157437_1283194917_n

O som de Junho

14.10.09_Lincoln Secco_O som de junhoPor Lincoln Secco.

Junho não marcou apenas um novo ciclo político no Brasil. Decerto ele também terá seus reflexos artísticos, comportamentais e literários. O novo vocabulário político, a gíria e o jargão se consolidaram (os “coxinhas” que o digam). As inovações táticas das lutas de rua e, para desprezo de velhos esquerdistas, até mesmo o anarquismo (que já renascia na literatura e nas ações editoriais bem antes), retomaram um espaço que há muito não possuía.

Entre os sons de junho, houve a retomada de uma antiga forma de conteúdo sempre contestador. Mau, o antigo vocalista da banda de punk rock mais lendária do ABC paulista (Garotos Podres) uniu-se a bons músicos (Kaká Saffiotti, Shu e Uel) para criar “O satânico Doutor Mao e os espiões secretos”.

No primeiro CD a referência a Junho é evidente na faixa “Repressão Policial”. Curiosamente, as jornadas juninas não racharam somente grupos políticos. Pouco antes os Garotos Podres já estavam acabando por motivos ideológicos. O vocalista ficou cada vez mais isolado na defesa de posições de esquerda contra os que aderiram às teses neoliberais e neofascistas, seguindo músicos como Lobão e Roger, outrora “contestadores” quando isso era moda nos anos 1980.

O CD do Satânico Dr. Mao não rompe com seu passado, mas se compromete com as lutas do presente. Uma das características dele sempre foi o humor e, particularmente, uma auto-ironia que desconstrói seu radicalismo estético no exato momento em que o afirma.

Mas aqui se mostra a sua inteligência artística e política (indissociáveis): ao ironizar a fórmula secreta para uma bomba ou imaginar uma improvável destruição da Casa Branca, o que se nos revela é o caráter ridículo da auto-propaganda dos Estados Unidos e de seus porta vozes midiáticos. Afinal, se todo mundo foi obrigado a ouvir a falsa acusação de que Sadam Hussein possuía o que não tinha, qual o problema de defendermos a “democratização das armas de destruição em massa”? Para isso, basta ouvir Mao a ensinar um pouco de termodinâmica…

Até mesmo o humor com uma batida respeitável (faixa “Espião Secreto”) não deixa de fazer eco à espionagem internacional denunciada por Assange, Snowden e outros.

É claro que não faltaram ao CD as tradicionais “homenagens” políticas. Mao gravou “Avante Camarada”, hino do Partido Comunista Português e SAM Song, uma música irlandesa dedicada ao IRA cuja Gaita cromática de Kaká Safiotti a torna irrecusável. Também a clássica Guantanamera aparece neste CD de forma inesperada: a voz do vocalista, “envelhecida” e mais rouca deixa a canção muito melhor.

Por fim, a participação de João Gordo (Ratos do Porão) com sua voz gutural na música clássica do punk cruspiano dos anos 1980 (Hospício) fecha um disco digno das Jornadas de Junho.

***

Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

***

Lincoln Secco é professor de História Contemporânea na USP. Publicou pela Boitempo a biografia de Caio Prado Júnior (2008), pela Coleção Pauliceia. É organizador, com Luiz Bernardo Pericás, da coletânea de ensaios inéditos Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, e um dos autores do livro de intervenção da Boitempo inspirado em Junho Cidades rebeldes: passe livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil. Colaborou para o Blog da Boitempo mensalmente durante o ano de 2011. A partir de 2012, tornou-se colaborador esporádico do Blog.

A vanguarda do atraso

14.10.09_Izaías Almada_Vanguarda do atraPor Izaías Almada.

A reeleição do governador Geraldo Alckmin, a eleição do senador José Serra, a expressiva votação de Aécio Neves e Marina Silva no último domingo, o número de votos obtidos pelos deputados Russomano e Feliciano (a lista desse apagão anti-humanista é extensa e enfadonha), embora confirmem o ‘exercício da democracia’, confirmam também que o estado de São Paulo se torna de fato o representante legítimo da vanguarda do atraso brasileiro.

Uma espécie de ‘volume morto’ do conservadorismo onde, na falta de ideias progressistas na superfície, o país pode se abastecer no subsolo da mediocridade. No esgoto da intolerância e do preconceito. As declarações do imortal sociólogo carioca após a apuração de votos apontam nesta triste direção.

Paira sobre São Paulo o ectoplasma de 1932 quando naquele ano se tentou resistir ao avanço industrializante da Revolução de 1930 sob as bombachas de Getúlio Vargas. Personagem que deveria ser esquecido pelos brasileiros na opinião do mesmo imortal sociólogo acima lembrado.

Ectoplasma que sempre se manifesta, aliás, quando o país toma rumos que desagradam àquilo que se convencionou chamar de elite brasileira: homens, mulheres e instituições que vivem sob o guarda chuva de um capitalismo também ele atrasado em muitos de seus aspectos, quando ainda se pode – invocando perverso exemplo – encontrar o trabalho escravo em fazendas ou empresas espalhadas pelo país.

Ou quando se manifestam aqui e ali algumas idéias econômicas e suas contrapartidas sociais eivadas de um rançoso dejà vu, cuja insistência na prática de seus fundamentos tem deixado várias das principais economias mundiais em apuros significativos.

Há que insistir e alertar as novas gerações, ao pessoal do “é muito mais que vinte centavos”, à desorganizada “voz das ruas que é contra tudo o que está aí” que sem consciência política e conhecimento histórico, a direita come o mingau pela beirada. Ou tenta fazê-lo… Dentro ou fora da lei, é bom que não se esqueça esse importante pormenor, nessa caminhada para o segundo turno. Pior ainda quando a extrema direita arreganha os dentes…

A manipulação e as mentiras da imprensa foram de tal ordem nos últimos anos que até a esquerda, ou parte dela pelo menos, encheu-se de dúvidas sobre si mesma não sabendo se apoiava ou criticava o governo.

Muitos, inclusive, caíram na rede do “mensalão” e aderiram ao coro cotidiano da direita insuflado pela mídia e de um judiciário irresponsável, que criou um cordão de isolamento entre os desmandos, a impunidade e a verdadeira corrupção praticada há quinhentos anos em nosso país, sobretudo nos recentes governos tucanos, hipocrisia essa que ajudou a difundir a mística de que a política está dividida entre os honestos e os desonestos. Qualquer coisa minimamente semelhante a céu e inferno… Cinismo, má fé e pobreza intelectual a um só tempo.

Foi assim com Getúlio Vargas, com Juscelino em 1955 (ocasião em que um general de exército nacionalista deu um basta nos golpistas de direita que tentaram impedir a posse de Juscelino), com João Goulart. E tem sido assim com Lula e Dilma há doze anos.

Em todos esses momentos de crises e definições como agora com as eleições presidenciais, São Paulo colocou-se ao lado do mais nefasto reacionarismo, contribuindo com seu peso econômico para comprar, por conta própria ou com ajuda internacional, a lei e a ordem.

Estão aí as gordas verbas publicitárias, sobretudo de empresas transnacionais e dos governos federal, estadual e municipal, a fazer a alegria de jornalões, revistões e televisões para mais uma vez comprovar a tese. Sem contar com a presença de algumas ONGs espalhadas pelo país que não se sabe muito bem o que fazem e de onde recebem dinheiro para atuar em solo brasileiro. E contra os brasileiros.

Contudo, a obsessão costuma ser inimiga do discernimento e a mentira costuma se transformar em mãe de crises políticas e sociais profundas. A História está repleta de exemplos nesse sentido. E de surpresas também, é bom que se diga como a do general nacionalista em 1955.

A comemoração pela votação obtida por Aécio Neves no primeiro turno abriu a boca de um dragão cujo hálito recende a fascismo, a intolerância, a vingança e ao ódio contra as camadas mais pobres da população. Contra a soberania e o progresso brasileiros.

A direita e sua nova geração de militantes digitais, apoiados e insuflados por velhas raposas da política nacional agitam bandeiras perigosas para um Brasil pós monárquico que, até esse início de século XXI, jamais dormiu vinte e cinco anos seguidos no berço esplendido da democracia. Repito: vinte e cinco anos seguidos.

A quem interessa o ódio e o preconceito? O que fariam no governo aqueles que já quebraram o país três vezes, cuja noção de soberania e independência não cabe numa caixa de fósforos, arautos subservientes da dependência e do servilismo, dilapidadores do patrimônio nacional, sucateadores das Forças Armadas, cáftens da brasilidade e da alma nacional?

No próximo dia 26 o Brasil escolhe se avança mais um passo na direção de se tornar uma grande nação, soberana e desenvolvida, ou se escolhe alinhar-se com a vanguarda do atraso.

***

Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

***

Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Cultura inútil: Moderninho, mas nem tanto

14.10.08_Mouzar Benedito_Moderninho mas nem tantoPor Mouzar Benedito.

Pedro, o Grande, querendo modernizar os costumes na Rússia, fez coisas malucas como baixar um decreto proibindo a barba, em 1698, pois na Europa o costume de andar barbudo já tinha sido abolido. Quem insistisse em manter a barba tinha que pagar um imposto altíssimo, e muitos homens fugiram do país. Mas o czar não era tão moderno assim, em outras coisas. Quando descobriu que a mulher tinha um amante, mandou decapitar o dito-cujo e colocou sua cabeça numa jarra com álcool. A mulher foi obrigada a conservar essa jarra com a cabeça em seu quarto.

***

Assim falou Graciliano Ramos: “O que eu acho é que deputados e senadores são inúteis e comem demais”.

***

Paquete era um tipo de navio que transportava cargas, correio e passageiros. No século XIX, uma companhia inglesa de paquetes fez um contrato pelo qual uma vez por mês um navio trazia mercadorias da Inglaterra para o Rio de Janeiro. Os paquetes ingleses tinham mesmo pontualidade britânica. Todo mês chegava um paquete na data certa, no Rio. Se não chegasse, era sinal que houve alguma “encrenca” no caminho. Os cariocas logo o associaram à menstruação…

***

Entre as datas comemorativas, 30 de setembro é Dia Mundial do Tradutor. O santo do dia, desta data, é São Jerônimo. Não é coincidência: São Jerônimo é patrono dos tradutores. Ele viveu de 340 a 420 d.C. e ficou conhecido como “Doutor Máximo das Escrituras”, porque era grande estudioso da Bíblia e a traduziu para o latim clássico,

***

Angenor de Oliveira (1908-1980) nasceu no bairro do Catete, no Rio de Janeiro. Teve várias profissões, inclusive a de pedreiro. Nesta profissão, usava sempre um chapéu para que não caísse tinta na sua cabeça. Por isso ganhou o apelido Cartola. Sambista da maior qualidade, foi um dos fundadores da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Ele propôs a adoção das cores verde e rosa para ela. Quando criticavam essas cores, dizendo que elas não combinavam, Cartola respondia: “Como não combinam as cores da esperança e do amor?”.

***

A palavra fulano vem do árabe, fulan, que significa “um certo” ou “tal”, quando se refere a um indivíduo sem citar o nome dele. Beltrano é uma adaptação do francês, Beltrand, nome que aparecia muito nas novelas de cavaleiros. Cicrano tem origem desconhecida.

***

Os portugueses tentaram implantar o cristianismo no Japão, mas foram expulsos. Das décadas que passaram lá, acabaram influenciando na criação de algumas palavras. Arigatô, por exemplo, deriva de “obrigado”. Os japoneses não tinham uma palavra para agradecimento. Mais recentemente, a língua que influencia mais os japoneses é, logicamente, o inglês. Não tinham, por exemplo, uma frase para declarar amor. Agora falam algo que soa como “aróviú”, derivado de I love you.

***

As bactérias podem se reproduzir sexualmente.

***

Tem sido muito comum usar a expressão “sopa no mel” para falar de algum acontecimento muito bom. Parece esquisito, não é? A expressão surgiu no século XVII, em Portugal. Sopa, no caso não era líquida. Era um pedaço de pão umedecido em água em que se cozinhou qualquer coisa. Um pouco de mel nessa fatia de pão melhorava muito o sabor e o valor nutritivo. Por falar nisso, sopa, no Paraguai também não é líquida, é uma espécie de torta de milho.

***

Provérbio chinês: “A única porta bem fechada é a que se pode deixar aberta”.

***

No interior, quando alguém engana alguém num negócio, diz que “passou manta” nele. Acredita-se que essa expressão vem da crença que o diabo usava uma manta para se passar por santo, enganando as pessoas.

***

Em alguns lugares do Nordeste, acredita-se que dando água de chocalho para um bebê, ele aprende a falar mais rápido. Daí, quando alguém fala demais, é tagarela, dizem que “bebeu água de chocalho”.

***

O primeiro manifesto feminista de que se tem notícia foi em 1792, na Inglaterra: foi o livro Uma defesa dos direitos das mulheres, publicado pela professora Mary Wolltonecraft. Ela exigia que as mulheres tivessem o direito de estudar e que participassem do governo.

***

Para quem acredita em Adão e Eva, aí vai a divisão de “eras” segundo a Bíblia: a Primeira Idade, que vai de Adão até o dilúvio teve 1.656 anos; a Segunda Idade, do dilúvio até o reino do patriarca Abraão, durou 427 anos; a Terceira Idade, de Abraão até a entrega da Tábua de Mandamentos a Moisés, durou 430 anos; a Quarta Idade, da entrega dos mandamentos a Moisés até a construção do Templo de Salomão, durou 488 anos; a Quinta Idade, da construção do Templo até sua destruição, foi de 467 anos; a Sexta Idade, que vai da destruição do Templo de Salomão até o nascimento de Jesus, durou 536 anos. Somando tudo, de Adão ao nascimento de Jesus foram 4.004 anos. Então, com mais dois mil e poucos anos de lá pra cá, o mundo tem pouco mais de 6 mil anos.

***

Assim falou Mário Quintana: “Despertador é bom para a gente se virar para o outro lado e dormir de novo”.

***

Quando uma pessoa é cheia de regras, controlada, e segue tudo quanto é regulamento, a gente diz que ela é “cheia de nove horas”. A expressão vem do século XIX, quando nove horas da noite era o limite para um monte de coisas. As visitas tinham que ir embora às nove horas. Depois desse horário, quem andasse pelas ruas estava sujeito a ser revistado pela polícia, como suspeito de qualquer coisa. Até as casas de jogos de baralho encerravam suas atividades às nove horas da noite. Então, a vida de quem era certinho era mesmo cheia de nove horas.

***

Na Tasmânia tem (ou tinha, estava em extinção) um animal feroz conhecido como “diabo da tasmânia”, pela sua brabeza. Pois no Acre muita gente acredita que na Floresta Amazônica existe um bicho parecido, a que chamam “gogó de sola”. Parece um cachorro do mato, mas tem no pescoço uma mancha amarela que parece sola (couro curtido) muito dura. Ele anda feito doido pela mata e ataca qualquer coisa que veja, é feroz mesmo. Lenda para alguns, há quem até tenha uma descrição precisa dele: tem até 65cm, mais um rabo de 15cm.

***

Assim falou Roberto das Neves: “Os socialistas ingleses são assim: socialistas por fora, ingleses por dentro”.

***

Sòzinho, cafèzinho, afàvelmente, sòmente, tôda, govêrno, apêrto… Estas palavras estão escritas erradas, com acentos que não existem? Sim, depois de 19/01/72, estão. Mas esses acentos existiam antes, deixaram de existir nesta data por um acordo assinado pelos governos de Brasil e Portugal, no ano anterior. Por esse acordo, caíram acentos diferenciais como em aperto (aperto sem acento era a conjugação do verbo apertar, primeira pessoa do presente: eu aperto, tu apertas… ― o ato ou efeito de apertar, era escrito apêrto, com acento). No caso de tôda, o acento era para diferenciar de uma ave portuguesa chamada toda (pronuncia-se tóda). Mas permaneceram algumas palavras com acento diferencial, como pólo, pêlo e pêra, que cairiam na reforma de 2009 (assim como o trema, utilíssimo). O acento grave (como o da crase) era usado em palavras derivadas de outras que levavam acento agudo: café, com o diminutivo zinho, virava cafezinho: só, e afável com o sufixo mente. Essas sílabas com acento grave eram chamadas de subtônicas;

***

Lady, palavra que significa dama em inglês, quando escrita com L maiúsculo é um título de nobreza. Mas a origem da palavra não tem nada a ver com essa frescura toda: no inglês antigo significava amassador de pão.

***

Uma festa muito famosa de Feira de Santana acabou se espalhando pelo Brasil todo, a partir dos anos 1990: o carnaval fora de época. Tem um nome curioso: micareta. De onde vem isso? De mi-carêne, que em francês significa “meio da quaresma”. Desde o século XVI existe na França essa espécie de carnaval no meio da quaresma, que também é conhecido como “festa das lavadeiras”. Ao que tudo indica foram elas que iniciaram essas festividades, com a participação de vendedores de carvão e de água. Em Feira de Santana, o nome micareta foi oficializado em 1937, depois de um “plebiscito” feito pelo jornal A Tarde. Mas moradores da também baiana Jacobina reivindicam prioridade nisso: segundo eles, desde 1912 há na cidade um carnaval no meio da quaresma, e o nome micareta foi oficializado lá em 1935. Hoje, o carnaval fora de época que acontece em muitas cidades não se restringe ao período da quaresma, podem ser em qualquer época do ano.

***

Segundo Câmara Cascudo, a micareta surgiu mesmo em 1937, em Feira de Santana, porque houve uma chuvarada muito forte no Carnaval, que não permitiu o festejo. Então, transferiram a festa para depois da quaresma (na época era pecado pra lá de mortal fazer festas desse tipo na quaresma). Micareta não seria simplesmente uma adaptação de mi-carême, e sim uma “mistura” de mi-carême com careta, já que os foliões saíam fantasiados.

***

O nome da cidade de Jacobina, na Bahia, parece ser bíblico, derivado de Jacob ou qualquer coisa que o valha, não? Mas não tem nada disso. É tupi. A grafia antiga era Jacuabina, corruptela de já-cuã-apina, que significa “o que tem cascalho limpo”. Lá ocorreu a primeira descoberta de ouro pelo invasor europeu na Bahia.

***

A peruca é originária do Egito ou da Assíria, e era usada como símbolo de autoridade na era dos faraós. Foi difundida na França no século XIV e depois foi levada para a Inglaterra por um rei da França, Carlos II, que era careca.

***

Tabu: algo proibido, que não se pode nem discutir. Essa é a ideia que a palavra passa. É uma influência, acreditem, da Polinésia na cultura universal. Os indígenas de lá consideravam algumas coisas proibidas ou intocáveis, por serem sagradas ou malditas. Em português, escrevemos tabu, em inglês é taboo e em francês tabou.

***

No Rio de Janeiro havia muitas negras escravas ou libertas que vendiam quitandas e doces nas ruas, em tabuleiros. De vez em quando algum moleque sem dinheiro tentava roubar doce, e o preferido deles era um feito de rapadura derretida com amendoim moído. Quando a mulher flagrava o menino fazendo isso, dava-lhe uma bronca, dizia: “Pede, moleque”. Se pedisse ela dava. Essa é uma das histórias da origem do nome do doce chamado pé-de-moleque. Outros acreditam que a cor do doce se parece com a de um pé descalço sujo…

***

A frase “tempo é dinheiro” (time is money, no original) foi criada por Benjamin Franklin, um dos fundadores dos Estados Unidos e inventor do para-raios. A frase faz parte de seus escritos sob o título Conselhos a um jovem negociante.

***

Quando uma águia pega uma tartaruga com as garras, ela a leva para o alto e solta em cima de uma rocha, para quebrar seu casco duro. Aconteceu na Grécia Antiga: uma águia teria confundido a careca de Ésquilo com uma rocha e soltou uma tartaruga na cabeça dele. Matou o dramaturgo.

 ***

Johnny Weissmuller, ator que ficou célebre como Tarzã, era um grande atleta da natação. Num só dia, em 5 de abril de 1927, ele bateu três recordes.

***

Henry Ford, o badalado industrial dos Estados Unidos, era simpatizante do nazismo. Para escrever a “bíblia” do nazismo, Mein Kampf, Hitler usou ideias antissemitas de Ford. E o industrial gringo ainda dava uma boa grana para o movimento nazista. Hitler mantinha uma foto de Henry Ford sobre sua mesa… e Ford mantinha uma de Hitler na sua.

***

O que diferencia a mandioca brava da mandioca mansa? A quantidade de ácido cianídrico (HCN) que ela contém. A mandioca mansa, também chamada de aipim e de macaxeira, tem no máximo 50 ppm de HCN, as bravas chegam a ter 300 ppm. A mandioca brava é usada para fazer farinha, não é consumida como a outra. Pode causar até a morte.

***

Em 1964, um pé de brócolis colhido na Inglaterra pesou 13,1 kg. Também na Inglaterra, um repolho colhido em 1865 tinha 6,57 m de circunferência e pesava 55,8 kg. Na Austrália, uma cenoura colhida em 1967 pesou 4,9 kg. Um pepino colhido no Texas (EUA) em 1978, pesou 5,9 kg, mas em comprimento ele perdia para um de variedade vietnamita colhido na Hungria em 1976, com 1,82 m. Em 1980, foi colhida nos EUA uma melancia com 90,7 kg.

***

Geronte, na Grécia Antiga, era como chamavam o membro de uma Gerúsia (conselho de anciãos). Nas comédias clássicas italianas, passou a ser um tipo de velho meio ridículo, moralista. Molière e outros autores de teatro dos séculos XVII e XVIII retomaram o nome, com o mesmo sentido. Só que sempre era enganado. Numa peça, um falso médico é usado para enganar o personagem Geronte. Gerontologia é hoje o ramo da medicina que estuda as causas da velhice, trata dos problemas relacionados à pessoa idosa. Bom… Hoje chamam a velhice de “melhor idade”. Só Geronte para acreditar, não é?

***

Um ditado: “Nesta vida os prazeres são por quilos e os pesares por toneladas”.

***

Assim falou Gino Meneghetti, ladrão assumido: “Sempre detestei homens que malbaratam o dinheiro público”.

***

Leia todas as outras versões da Cultura Inútil clicando aqui, para ver todos de uma só vez!

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

A Associação Internacional dos Trabalhadores, 150 anos depois

14.09.30_AIT_Ricardo AntunesPor Ricardo Antunes.

Em 28 de setembro de 1864, há 150 anos, ocorreu a fundação do mais importante empreendimento internacional do trabalho: nascia em Londres a Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), à qual Marx e um magistral conjunto de militantes e intelectuais comunistas, socialistas e anarquistas, dentre tantas variantes que compreendiam o ideário e a prática anticapitalista, dedicaram parte importante de suas vidas.

Se a história da AIT não foi longa, tendo durado pouco mais de uma década (até 1876), sua experiência foi marcante. Era preciso aglutinar os múltiplos e variados experimentos de lutas operárias em diversas partes do mundo, a fim de dar-lhes a possibilidade de partilhar suas experiências e tecer os laços de solidariedade e fraternidade nas ações de classe, em uma era de constituição do mercado mundial, conforme Marx e Engels afirmaram no Manifesto Comunista (1848). Se o capital e suas forças começavam a ganhar contornos crescentemente mundializados, era vital superar a lógica vigente do movimento operário, que ainda se mantinha de forma predominante no espaço nacional. Urgia conferir-lhe potência e organicidade internacionais, ainda que respeitando as singularidades e particularidades de cada país.

Na mensagem inaugural da AIT, após enfatizar que durante os anos 1848-1864 ocorrera simultaneamente uma grande expansão econômica à custa do aumento dos níveis de miserabilidade da classe trabalhadora, reconhecia-se a necessidade imperiosa de avançar na construção de uma economia política do trabalho. E assim reafirmava-se a célebre consigna: a emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos próprios trabalhadores.  

Cento e cinquenta anos depois, o que significa pensar internacionalmente a classe trabalhadora? Teriam suas bandeiras mais gerais perdido o sentido ou seriam hoje ainda mais atuais? A classe trabalhadora contemporânea necessita organizar-se internacionalmente? É possível derrotar o sistema do capital com ações e formas de luta e confrontação social que se atenham ao espaço nacional? Ou, ao contrário, dada a conformação cada vez mais mundializada do capitalismo, a retomada de um novo projeto contemporâneo de organização internacional dos trabalhadores e das trabalhadoras (e essa adição de gênero é decisiva) torna-se imperiosa?

Os textos de Marcello Musto e Michael Löwy escritos para a #23 edição da revista Margem Esquerda são um convite para uma retomada desse tema crucial de nosso tempo. Estão diretamente vinculados ao encontro internacional “AIT: 150 anos depois”, realizado entre 29 de outubro e 3 de novembro de 2014 em várias universidades brasileiras, com o objetivo de possibilitar uma discussão ampla e profunda sobre a importância da AIT e seu legado.

* Este texto de Ricardo Antunes abre o dossiê especial
150 da AIT na revista
Margem Esquerda #23.

***

Leia uma prévia dos textos de Michael Löwy e de Marcello Musto no Blog da Boitempo. Ambos participam do encontro internacional “AIT, 150 anos depois”, a ser realizado entre outubro e novembro de 2014, em oito cidades brasileiras. O encontro marca o lançamento de Trabalhadores uni-vos: antologia política da I Internacional, com intervenções inéditas de Marx, Engels e Bakunin, entre outros. O evento reúne, além de Löwy, Musto e Antunes, alguns dos mais importantes estudiosos do comunismo e da classe trabalhadora no Brasil e afora. Confira a programação completa do evento aqui.

I INTERNACIONAL_FB

***

Ricardo Antunes é professor titular de sociologia do trabalho na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador da coleção Mundo do Trabalho, da Boitempo Editorial. Organizou os livros Riqueza e miséria do trabalho no Brasil (2007), Riqueza e miséria do trabalho no Brasil II (2013) e Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual (2009), ambos publicados pela Boitempo. É autor, entre outros, de Adeus ao trabalho? (Cortez), Os sentidos do trabalho (1999) e O caracol e sua concha (2005), além de O continente do labor, esses três últimos também pela Boitempo Editorial.

***

Dos livros de Ricardo Antunes, a Boitempo publicou dois em versão eletrônica (ebook): Infoproletários: a degradação real do trabalho virtual e O continente do labor, além de diversos títulos da Coleção Mundo do Trabalho. Ambos custam menos da metade dos livros impressos e podem ser adquiridos nas livrarias Cultura, Saraiva e Gato Sabido, dentre outras.

O fim da CLT?

14.10.06_Ruy Braga_Fim da CLT[Aécio Neves (esq.) e Benjamin Steinbruch (dir.). Às vésperas das eleições, o presidente da Fiesp e dono da CSN que até então demostrara simpatia pela candidata do PSB afirmava: "Não sei em quem vou votar ainda. Posso até 'dilmar". Desde que atendidas algumas mudanças"]

Por Ruy Braga.

Um espectro ronda o mundo do trabalho no Brasil – o espectro do fim da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Políticos e organizações patronais uniram-se em uma Santa Aliança para pressionar o Congresso pela aprovação do Projeto de Lei no. 4330/2004 do deputado e empresário do setor de alimentos, Sandro Mabel (PMDB-GO). Este projeto autoriza a terceirização de qualquer função nas empresas. Na mesma direção, o Supremo Tribunal Federal (STF) aprecia o recurso da fabricante de celulose Cenibra condenada em todas as instâncias por terceirizar trabalhadores em suas atividades-fim. O relator, ministro Luiz Fux, acolheu o recurso da indústria e o processo aguarda parecer da Procuradoria-Geral da República. Uma eventual vitória da Cenibra afetaria toda a regulação jurídica das relações de trabalho no país.

A ofensiva patronal sobre os direitos trabalhistas não tardou a repercutir no debate eleitoral. No programa de governo da candidata Marina Silva, por exemplo, pôde-se ler: “Existe hoje no Brasil um número elevado de disputas jurídicas sobre a terceirização de serviços com o argumento de que as atividades terceirizadas são atividades-fim das empresas. Isso gera perda de eficiência do setor (comércio e serviços), reduzindo os ganhos de produtividade e privilegiando segmentos profissionais mais especializados e de maior renda.” Resta saber como a candidata pretende “disciplinar a terceirização” e, ao mesmo tempo “assegurar o respeito às regras de proteção do trabalho”?  

Simpatizante da candidata pessebista, o empresário Benjamin Steinbruch decidiu fustigar a CLT em uma entrevista concedida à Folha de S. Paulo no início da semana passada. Após entoar a indefectível cantilena sobre o elevado custo do emprego no Brasil, o dono da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) reivindicou “um país leve na lei trabalhista”, isto é, com jornada mais flexível, idade legal diminuída e horário de almoço encurtado: “[...] Não precisa de uma hora [de almoço]. Se você vai numa empresa nos EUA, você vê [o trabalhador] comendo o sanduíche com a mão esquerda e operando a máquina com a mão direita. Tem 15 minutos para o almoço.”

Se implementada, a proposta de Steinbruch de substituição do legislado pelo negociado nas relações trabalhistas implicaria no fim da CLT. De quebra, ameaçaria o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), o vale-transporte e o vale-alimentação. Em um país com altas taxas de rotatividade, onde o valor do salário do recém-contratado tende a ser menor do que o do demitido, alguém acredita que a “redução pela metade dos direitos (trabalhistas)” iria realmente parar no “bolso do trabalhador”?

Ao tomar conhecimento das opiniões do atual presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), um desavisado concluiria que o Brasil é o paraíso da proteção trabalhista, onde demitir é praticamente impossível, os salários são altos, as relações contratuais são rígidas e não há terceirização. Na realidade, o percentual médio do trabalho informal no ano passado ainda era de 33% da População Economicamente Ativa (PEA). Dados do DIEESE indicam que a taxa de rotatividade, especialmente saliente entre os jovens, os que recebem até dois salários mínimos e os ocupados no setor de serviços, cresceu, entre 2003 e 2012, de 52% para 64%. Esta taxa atinge 53% dos trabalhadores em vários setores da indústria de transformação.

A respeito da terceirização, o quadro permanece desalentador. De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), nos últimos três anos, cerca de 70% das indústrias brasileiras contrataram empresas terceirizadas. Dos 50 milhões de trabalhadores com carteira assinada do país, 12 milhões são terceirizados, recebendo, em média, salários 30% inferiores em relação aos contratados diretamente. Além disso, eles são mais vulneráveis tanto aos acidentes de trabalho, quanto às condições análogas à escravidão. Caso fosse levada adiante, a agenda advogada por Steinbruch deterioraria ainda mais uma condição social já calamitosa.

Ao contrário do que muitos imaginam, a CLT não foi uma dádiva de Vargas aos pobres. Antes, ela resultou de duas décadas e meia de lutas sociais e da institucionalização de direitos trabalhistas contra os abusos de uma classe empresarial herdeira do éthos escravocrata. Além disso, a CLT atraiu milhares de trabalhadores rurais para os grandes centros urbanos em busca de oportunidades e de proteção social. Assim, a legislação trabalhista ajudou a criar a classe operária necessária à expansão do moderno parque industrial brasileiro cujo marco foi a própria CSN – vendida, em 1993, ao empresário Benjamin Steinbruch.   

Em suma, a ameaça à CLT não expressa o embate das forças vanguardistas da globalização econômica contra o que restou do atrasado poder corporativo dos sindicatos. Na verdade, testemunhamos a desforra de organizações empresariais passadistas pela ousadia do subalterno de apropriar-se da linguagem dos direitos sociais. O que o Projeto de Lei no. 4330/2004, o recurso da Cenibra ao STF, o programa de governo marinista e a agenda de Steinbruch buscam ocultar é a incompetência histórica de uma classe empresarial retrógrada que, a fim ampliar suas margens de lucro, ao invés de alcançar ganhos de produtividade investindo em inovação tecnológica, contenta-se em investir contra os direitos dos trabalhadores.

***

Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo.

***

***

Ruy Braga, professor do Departamento de Sociologia da USP e ex-diretor do Centro de Estudos dos Direitos da Cidadania (Cenedic) da USP, é autor, entre outros livros, de Por uma sociologia pública (São Paulo, Alameda, 2009), em coautoria com Michael Burawoy, e A nostalgia do fordismo: modernização e crise na teoria da sociedade salarial (São Paulo, Xamã, 2003). Na Boitempo, coorganizou as coletâneas de ensaios Infoproletários – Degradação real do trabalho virtual (com Ricardo Antunes, 2009) e Hegemonia às avessas (com Francisco de Oliveira e Cibele Rizek, 2010), sobre a hegemonia lulista, tema abordado em seu mais novo livro, A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.

Dilma, o mal menor

14.10.06_Miguel Urbano Rodrigues_DilmaPor Miguel Urbano Rodrigues
e editores de ODiário.info

A vitória de Dilma Roussef na primeira volta das eleições presidenciais brasileiras era esperada. Mas a vantagem de 8 pontos obtida sobre Aécio Neves não é suficientemente ampla para garantir a sua reeleição a 26 deste mês.

A campanha eleitoral, inspirada no modelo norte-americano, foi deprimente.

Três semanas foram suficientes para destruir a imagem de Marina Silva que, após a morte do socialista Eduardo Campos, surgira como favorita.

De candidata da “esperança” que anunciava mudanças drásticas, a pastora da Assembleia de Deus, próspera igreja evangelista, passou rapidamente a demagoga oportunista comprometida com o grande capital.

O eleitorado acabou por lhe infligir uma derrota esmagadora.

A surpresa foi a grande votação obtida por Aécio, um político de direita, ex-governador de Minas Gerais, o candidato do Partido da Social Democracia Brasileira-PSDB (na realidade um partido neoliberal, fundado e liderado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso).

Dilma venceu em 15 estados; Aécio superou-a em 9, nomeadamente em São Paulo.

Qualquer previsão sobre o choque entre Dilma e Aécio seria no momento especulativa. Marina Silva, a grande derrotada, declarou-se disposta a apoiar Aécio na segunda volta. A soma dos votos da oposição, 57 milhões, é muito superior à dos atribuídos a Dilma, 43 milhões. Mas influentes observadores políticos admitem que a maioria dos 19 milhões de votos obtidos pela pastora evangélica não é transferível para Aécio.

Seria uma ilusão romântica esperar que Dilma altere, se for reeleita, a estratégia do seu primeiro mandato de clara tendência neoliberal que ela tentou disfarçar com um ténue verniz progressista. A sua política econômica favoreceu as transnacionais, a banca e as grandes empresas brasileiras. Significativamente, contou com o apoio de Barack Obama e da finança internacional. Mas na segunda volta Aécio é o candidato preferido por Washington e pela grande burguesia brasileira. Esse apoio não será provavelmente suficiente para lhe abrir as portas da Presidência.

Nas eleições para a Câmara dos Deputados, para o Senado e para governadores dos 26 Estados da Federação, os resultados não foram favoráveis ao PT, partido de Dilma Roussef.

***

Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo.

***

Miguel Urbano Rodrigues é um jornalista e historiador português. Nascido em Moura, em 1925, passou 20 anos exilado no Brasil entre as décadas de 50 e 70. Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

A alternativa está à direita

14.10.03_Emir Sader_A alternativa está à direita__Por Emir Sader.

As peripécias desta campanha eleitoral brasileira confirmam a tendência nos governos progressistas latino-americanos, desde o seu surgimento: as alternativas a eles se constituem à sua direita e não à sua esquerda.

São governos que apresentam avanços inquestionáveis, tanto nas suas políticas sociais, quanto nas suas políticas externas e no resgate do papel do Estado, entre tantos outros avanços, que permitiram a conquista de imensos apoios populares e sua continuidade no tempo. Especialmente se levamos em conta que são governos que receberam heranças muito pesadas dos governos neoliberais que os precederam.

Essa herança pesada é responsável por parte importante das fraquezas desses governos como, por exemplo, os processos de desindustrialização, que promovem papel importante da exportação de produtos primários. O enfraquecimento dos Estados, o monopólio dos meios de comunicação, o peso do agronegócio, o do capital financeiro, entre outros problemas.

As críticas a esses governos vêm da direita e da esquerda, às vezes sem distinção entre uma e outra. São os governos de maior apoio popular que esses países tiveram, devido sobretudo às suas políticas sociais, no continente que apresenta a maior desigualdade no mundo. Ocupam o campo da esquerda no espectro político de tal maneira que as alternativas a eles estão sempre na direita.

A extrema esquerda, em nenhum dos países de governos progressistas da América Latina, conseguiu se constituir em força política com uma mínima representação popular. São sempre organizações propagandistas, que têm espaço par se manifestar nas campanhas eleitorais, mas não apresentam propostas alternativas concretas.

Seria possível dar exemplos concretos da Bolívia, da Argentina, do Uruguai, do Equador, da Venezuela, mas aqui mesmo isso é evidente. Partidos ou políticos que romperam com o governo, foram sempre para a direita, de que os casos da Marina Silva e do PSB, são exemplos evidentes.

Significa que a esquerda, social e política, se encontra agrupada nos processos pós-neoliberais, em torno dos únicos projetos concretos de superação do neoliberalismo. Ocupa o lugar da esquerda e resta o espaço de oposição da direita. Tem sido assim em todos esses países: a oposição vem da direita, de onde surge o risco de interrupção desses processos, para formas de restauração conservadora.

Na era neoliberal, a esquerda é antes de tudo pós-neoliberal, a partir de cuja postura se agrupam as forças democráticas e populares.

***

Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

***

Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

Lançamento Boitempo: “Sem maquiagem”, de Ludmilla Costhek Abílio

Capa_Maquiagem_provisoria1

A Boitempo acaba de lançar Sem maquiagem: o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos, da socióloga Ludmila Costhek Abílio. O livro parte de um estudo de campo de um exército de aproximadamente 1 milhão de revendedoras (equivalente à população da cidade de Campinas-SP), responsável pelo sucesso comercial de uma das mais importantes e reconhecidas empresas de cosméticos do país, a Natura. 

A pesquisa é base para uma das mais originais reflexões sobre os contornos do mundo do trabalho hoje – a indistinção entre tempo de trabalho e de não trabalho, as formas atuais de envolvimento subjetivo do trabalhador e o embaralhamento das fronteiras entre produção e consumo –, e sua inserção no contexto social e cultural mais amplo da atualidade. A opinião é de Ursula Huws, professora da London Metropolitan University e referência internacional para a sociologia do trabalho, que assina a orelha do livro (leia abaixo). O prefácio é da economista Leda Paulani.

Apresentada como tese de doutorado, sob orientação da professora Angela Carneiro Araújo e co-orientação de Paulo Arantes, a pesquisa foi vencedora do prêmio Mundos do Trabalho, da Associação Brasileira de Estudos do Trabalho (Abet) e do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e sai pela coleção Mundo do trabalho, coordenada por Ricardo Antunes, na Boitempo. Considerados dois dos mais interessantes pensadores brasileiros da atualidade, Arantes e Antunes participarão do debate de lançamento no dia 20 de outubro, na Livraria Martins Fontes. Mais informações ao final deste post.

Leia, abaixo o texto de orelha, assinada por Ursula Huws

A publicação de Sem maquiagem: o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos constitui um momento importante na economia política da nova organização global do trabalho. Ludmila Abílio traz uma análise inovadora sobre uma não tão recente forma de trabalho – a revenda de cosméticos para uma das mais importantes e eticamente reconhecidas companhias brasileiras e, ao fazê-lo, une diversas questões cruciais para a compreensão da nova economia global.

Seu estudo abre uma perspectiva sobre as novas formas em que os empregadores transferem riscos para seus trabalhadores, não lhes dando garantia de rendimento, ao mesmo tempo que os encorajam a investir em estoques que podem nem ser vendidos. Essa análise contribui para os debates internacionais sobre o trabalho precário e a possibilidade de estar em ato a emergência de um precariado global. Assim, seu livro colabora para uma atualização da ideia de informalidade e para o desenvolvimento de novas teorias sobre a economia informal e seu papel no desenvolvimento econômico.

A pesquisa também lança luz sobre o embaralhamento das fronteiras entre produção e consumo e como ele se realiza numa fusão inseparável entre forças econômicas, sociais e culturais. Tendo uma identidade dual como consumidoras dos produtos e suas vendedoras, as revendedoras são envolvidas em uma identificação com os valores éticos “politicamente corretos” da empresa, incentivadas a tornarem-se propagandas vivas dos produtos, entregando seu capital social pessoal como meio para alavancar os lucros da companhia. Nesse processo, o poder da marca tem um papel central; a reflexão da autora sobre esse fenômeno constitui uma importante contribuição para a análise do capitalismo contemporâneo.

Embasada num profundo entendimento da complexidade das inter-relações entre classe e gênero, ela também mostra como a feminilidade está implicada na construção de novas formas de trabalho, que apelam para as identidades comuns de gênero e ao mesmo tempo diferenciam marcadamente as classes sociais: em uma ponta da escala, vendedoras da classe trabalhadora garantem as vendas para consumidoras da mesma classe, ao passo que vendedoras de alta classe do “Setor Crystal”, por exemplo, alcançam consumidoras da elite paulistana.

Até agora, o tipo de trabalho aqui estudado havia sido em grande parte ignorado por pesquisadores – embora possa muito bem se tornar familiar no futuro. Entretanto, a originalidade desta pesquisa reside não só no tema, mas também na forma como amarra esses tópicos tão diversos, cada qual na vanguarda dos debates internacionais sobre o futuro do trabalho e a natureza da sociedade no contexto neoliberal da globalização cultural e econômica, a divisão sexual do trabalho e a transformação dos mercados. Para os que estiverem voltados para essas questões é uma leitura indispensável.

Ursula Huws

A Boitempo convida a todos para a noite de autógrafos de Sem maquiagem, no dia 9 de outubro, no Canto Madalena, em São Paulo. Na compra de um livro, o leitor ganha, além de um autógrafo da autora, um chope! No dia 20 de outubro, às vésperas do segundo turno das eleições, o sociólogo Ricardo Antunes (Unicamp) e o filósofo Paulo Arantes (USP) se reúnem para o debate de lançamento de Sem maquiagem, com Ludmilla Costhek Abílio, na livraria Martins Fontes da Avenida Paulista. Mais informações aqui.

O Brasil não é mais aquele

14.10.02_Flávio Aguiar_O Brasil não é mais aquelePor Flávio Aguiar.

Nesta quarta-feira, 1º. de outubro, vou participar de um debate na livraria Livraria (este é o nome), em Berlim, sobre “Do Real à Real: O Brasil hoje”, ao lado do professor Sérgio Costa, do Instituto Latino-Americano da Universidade Livre de Berlim, e do escritor Rafael Cardoso. Apresento aos leitores do blog da Boitempo a linha geral de minha intervenção:

1.
A equação Brasil no nosso imaginário mudou.

2.
O Brasil mudou de de dimensão, de equação e de lugar.

3. Dimensão
Estamos acostumados com a projeção de Mercator, da geografia escolar, no mapa-múndi, com foco na altura do Trópico de Câncer, no Hemisfério Norte. O Brasil ali é diminuto, menor do que o Alasca e a Groenlândia. A projeção agora terá de ser outra. De repente o Brasil aparece com seu tamanho “verdadeiro”: oito mil quilômetros de comprido por outros oito mil de largura. De fato, um gigante.

3. Equação
O Brasil não é mais a equação onde predominam os pobretões, os miseráveis, os absolutamente despossuídos, as favelas abandonadas, as crianças esquálidas, etc. Ao contrário: a infância no Brasil hoje enfrenta o problema da obesidade precoce. A “classe média”, do ponto de vista do consumo, é maioria no país.

4. Ainda a Equação
O Brasil foi e ainda é um dos campeões da desigualdade. Mas a desigualdade diminuiu. Isto é um fato, atestado por inúmeros índices. Os resultados são interessantes, mas problemáticos. Desde a década de 70 as cidades brasileiras foram planejadas para o automóvel. Mas não para que tantas pessoas pudessem comprar automóveis ao mesmo tempo. A economia foi planejada, mas não para que tantas pessoas tivessem emprego ao mesmo tempo: era necessário manter um exército industrial de reserva, leia-se, de desempregados, grande, para “baixar o custo Brasil”, leia-se, comprimir os salários. Isto acabou. Resultado: muito mais pessoas se deslocam nas cidades brasileiras. Idem graças à inclusão educacional, e a de saúde. Resultado: as cidades estão congestionadas.

5. Ainda a Equação (ii)
O Brasil foi planejado para co-existirem, nos condomínios, duas entradas, a “social” e a de “serviço”. Isto não acabou, mas a expressão “de serviço” deixou de ser discriminatória, e passou a ser de fato, “de serviço”, isto é, reservada para mudanças, deslocamento de malas, grandes volumes, etc. Também: o Brasil não fora planejado para as empregadas domésticas terem carteira assinada obrigatoriamente, nem receberem pelo menos o salário mínimo – e um salário mínimo em ascensão.

6. Ainda a Equação (iii)
O Estado moderno, desde os espasmos das Grandes Guerras, foi planejado para garantir direitos e administrar privilégios. Administrar = garantir, mas reduzir, embora nunca eliminar. Isto valia para os dois lados do muro de Berlim. Em países como o Brasil, a Equação era a de o Estado garantir privilégios e administrar (a redução de) direitos. Este termo da equação de desequilibrou, ou melhor se equilibrou, talvez tenha até se invertido. Um pouco, mas invertido.

7. Lugar
O Brasil era o grande – importância do termo “grande” – devedor do FMI e do G-7 (não 8, Rússia excluída) na América Latina. Hoje o Brasil é credor do FMI e da União Europeia quebrada, mantendo ações humanitárias na África, na Ásia, na América Central, e com uma relação de igual para igual na América do Sul e na América do Norte. Participa da criação de um Banco de Desenvolvimento Internacional Alternativo ao FMI, ao Banco Mundial, ao BID.

8. Tudo isto desestabiliza o nosso imaginário
Há quem veja nisto o caos, a confusão, a desorganização do mundo. Há quem veja nisto a ascensão, o acesso ao que nunca teve. Há quem veja nisto a concorrência em espaços antes “reservados” ou “garantidos”, como nas universidades ou na busca de emprego. Tudo isto gera ansiedade. Inclusive na Europa, onde os Estados hoje administram a redução de direitos e garantem privilégios. Diante da ansiedade, a primeira resultante é a tentativa, ainda que fantasiosa, de restabelecer a equação anterior.

9. A tentativa de restabelecer a Equação Brasil anterior não é privilégio apenas das oposições nesta eleição que se avizinha dramaticamente. Assisti ontem um documentário do canal internacional Arte sobre o tema “Brasil, rumo a uma grande potência?”. O documentário foi feito no ano passado, ainda no embalo das manifestações de junho e na campanha para declarar que o Brasil não tinha a menor condição de organizar uma Copa do Mundo. Visivelmente, ele foi feito para a rede francesa do Arte, e adaptado para a rede alemã, que fez-lhe uma cabeça e um encerramento atualizado. Mas o clima ainda era o anti-copa. O resultado foi surpreendente. A apresentadora, dirigindo-se diretamente à presidenta Dilma, dizia que esta era otimista quando à imagem do Brasil, mas que agora chegara a “hora da verdade”, e de verificar a “catástrofe” que era o Brasil. Assisti uma hora de programa, até o fim, esperando a tal da catástrofe, e ela não veio. O que veio foi a exposição de um “work in progress” chamado Brasil, com problemas e conquistas. Havia depoimentos tocantes de pessoas moradoras na favela sobre como sua vida tinha mudado. De catastrófico, havia o depoimento do líder do Greenpeace, dizendo que as plataformas do pré-sal vão inundar o oceano com manchas de óleo (parece a BP britânica) e o depoimento de uma manifestante de julho, que não provinha de favelas ou pobreza, entoando aquela ladainha de que no Brasil nada funciona. Ficou a impressão forte de que os editores da versão alemã do programa sequer se deram ao trabalho de assistir o vídeo previamente. Azar o deles.

***

Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

***

Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.