Jardim dos sonhos

13.05.10_Jardim dos sonhos_Roniwalter JatobáPor Roniwalter Jatobá.

Já morei em muitos lugares de São Paulo. Na Rua Raquela Sinopoli, em São Miguel Paulista, vivi três anos duros, mas felizes. Conhecia os arredores como o quintal de minha antiga casa rural e nem tinha receio de caminhar no meio das ruelas nas madrugadas frias. Volto sempre ali, àquele pedaço do bairro que parece submerso pela sombra da fábrica de química. Anos se passaram e tudo permanece igual. A única grande diferença é apenas o calçamento da rua, que recebeu uma camada fina de asfalto, protegendo seus moradores da poeira ou da lama. A casa onde dormia também recebeu uma camada de tinta amarela, fizeram um galpão escondendo a pequena sala, eliminando de mim pequenas nostalgias.

Fui também um feliz habitante da Bela Vista, nas imediações da Santo Antônio, embora a cidade do lado de cá tivesse outro ritmo. Anos atrás, havia do outro lado da minha rua um grande terreno baldio, cheio de mato. Numa manhã, porém, chegaram caminhões, tratores e operários. Cercaram tudo. Por algum tempo, fiquei sem ver o que faziam, apenas ouvia o enervante barulho de uma possível construção.

Tudo despertava minha curiosidade. Aí, na imaginação de gente interiorana, pensei no melhor. Talvez estivessem querendo fazer um jardim e esse pensamento me deixava muito contente. Sim, um jardim ficaria bem naquele local, principalmente se fossem plantadas muitas árvores, flores e grama. Sim, uma praça que pudesse acomodar os habitantes de tantos prédios que se ergueram ao redor. Pensava ainda que era preciso construir vários bancos para os indispensáveis casais de namorados.

Toda noite, após cumprir as horas profissionais – naquela época na Editora Abril –, começava a sonhar com o jardim. Solitário na metrópole, trazia à mente a primeira namorada, Edna, uma professora de olhos claros. Mais velha e naturalmente carinhosa, em sua companhia descansava na grama verde e macia, mãos entrelaçadas, olhos nos olhos, como noites escuras da Rua do Cais, na longínqua cidade de Campo Formoso.

– Vou ensinar para você tudo o que aprendi na minha rica infância – eu dizia para ela no sublime silêncio noturno do jardim –  Mostrarei todas as coisas simples que aprendi quando era menino, quando tudo à minha volta era árvore e flor e grama. Já subiu numa mangueira agarrando os longos galhos quase pousados no chão? Você vai aprender, pois tudo se aprende.

Toda noite sonhava com o jardim. Acreditava até que, pelas grandes dimensões do terreno, ainda haveria lugar para pequenos lagos e, sobre eles, pontes ingênuas e românticas. Sobre elas, os visitantes urbanos poderiam ver cardumes com movimentos ágeis, gulosas e coloridas carpas espelhando na quietude da água cristalina.

Juro que, por muito tempo, já podia ver as crianças do bairro, dos prédios em frente, soltando nos lagos pequenos barcos de brinquedo ou de papel. Já podia até ver mães alegres e despreocupadas com filhos, que corriam nos campos de areia ou de futebol de salão. Imaginava outra a luz do sol, plantas fechadas em seus silêncios.

Numa noite fria, recebo uma querida amiga em meu apartamento. Bebemos vinho e alegria. No silêncio da noite, falamos de coisas agradáveis. Na cama, ela pergunta porque ando tão alegre. Digo que, nos últimos tempos, tenho visto a cidade com outros olhares. Falo de um jardim, que espero em breve nascer quase ao lado do prédio residencial.

– Não acredito que você está falando daquele terreno do outro lado da rua, aqui em frente? – ela pergunta.

– Sim, aquele mesmo.

– Você é tão inocente – ela acaricia meus cabelos.

– Por quê?

– Ali não vai ter jardim nenhum. Ali, tenho certeza, vão erguer oito prédios de apartamentos – e ri da minha tola esperança.

– Tem certeza? – ainda duvido.

– Sinto muito, meu querido, mas a vida é assim – ela afirma depois de beber um gole da bebida.

Bebo também mais um pouco de vinho. Cubro a amiga com o cobertor, enquanto acaricio seu corpo. Naquela noite, ao adormecer ao lado de Lúcia, o cronista havia prometido acreditar por mais algum tempo no jardim dos sonhos, embora me sentisse, naquela hora, bestamente sentimental. 

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Roniwalter Jatobá nasceu em Campanário, Minas Gerais, em 1949. Vive em São Paulo desde 1970. Entre outros livros, publicou Sabor de química (Prêmio Escrita de Literatura 1976); Crônicas da vida operária (finalista do Prêmio Casa das Américas 1978); O pavão misterioso (finalista do Prêmio Jabuti 2000); Paragens (edidado pela Boitempo, finalista do Prêmio Jabuti 2005); O jovem Che Guevara (2004), O jovem JK (2005), O jovem Fidel Castro (2008) e Contos Antológicos (2009). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

“A obra mais importante do pensamento político marxista nas últimas décadas”: Slavoj Žižek escreve sobre “Estado e forma política”

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A Boitempo Editorial lançou esta semana (na abertura do IV Curso Livre Marx Engels) o livro Estado e forma política, escrito pelo jurista e filósofo do direito Alysson Leandro MascaroO livro chega às livrarias a partir da próxima semana e será lançado em breve em versão eletrônica (ebook).

Leia resenha crítica do sociólogo João Alexandre Peschanski (editor-adjunto da Boitempo), clicando aqui

Leia abaixo texto entusiasmado do filósofo Slavoj Žižek, escrito para a quarta capa do livro:

Marx disse que o segredo da mercadoria não reside em algum conteúdo escondido sob sua forma, mas em sua própria forma. Estado e forma política, de Alysson Leandro Mascaro, não aponta na mesma direção?

Muito se escreve hoje em dia sobre a mudança do papel do Estado: daqueles que o consideram como um instrumento de regulação dos excessos do neoliberalismo àqueles que o descartam, vendo-o como um instrumento de dominação e opressão a ser superado por alguma forma de democracia direta. No entanto, todas essas abordagens caem na armadilha fetichista de lidar com diferentes funções e usos do Estado, desconsiderando as suas implicações fundamentais como uma forma política, ou seja, como a forma-Estado em si, para além de seu conteúdo (os interesses que representa etc.), tem implicações políticas fundamentais.

O livro de Mascaro foca-se precisamente nessa dimensão crucial e, por isso, é simplesmente a obra mais importante do pensamento político marxista nas últimas décadas — um trabalho que fornece a estrutura conceitual básica para lidar com o tema do Estado. Um trabalho histórico que mudará todo o seu campo de estudo e estabelecerá seus próprios padrões!

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Sobre o autor

Alysson Leandro Mascaro, jurista e filósofo do direito brasileiro, nasceu na cidade de Catanduva (SP), em 1976. É doutor e livre-docente em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo (Largo São Francisco/USP), professor da tradicional Faculdade de Direito da USP e da Pós-Graduação em Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, além de fundador e professor emérito de muitas instituições de ensino superior. Publicou, dentre outros livros, Filosofia do direitoIntrodução ao estudo do direito, pela editora Atlas, e Utopia e direito: Ernst Bloch e a ontologia jurídica da utopia, pela editora Quartier Latin. É o prefaciador da edição brasileira de Em defesa das causas perdidas, de Slavoj Žižek, e da nova edição de Crítica da filosofia do direito de Hegel, de Karl Marx, ambos lançados pela Boitempo.

Filósofo do direito especialista na obra marxiana, Alysson Leandro Mascaro apresentou aulas em todas as edições do Curso Livre Marx Engels, organizados pela Boitempo. Confira abaixo as aulas da primeira (2008, PUC-SP) e terceira (2012, Sindicato dos Bancários de São Paulo) edição do curso.

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IV Curso Livre Marx Engels: ainda há vagas!

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Os interessados que não se inscreveram ainda podem acompanhar as últimas aulas do IV Curso Livre Marx Engels, que vai até a quarta-feira dia 15 de maio. Para se inscrever no Curso, basta comparecer ao Teatro Paulo Autran (R. Paes Leme, 195 – próximo à estação Pinheiros do metrô) a partir das 14h de terça-feira (14/05).

Conheça a programação completa e saiba mais no site do projeto Marx: a criação destruidora.

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Debate de lançamento de Estado e forma política no Sindicato dos Bancários

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Será realizado no sábado 18 de maio, às 10h30, debate de lançamento de Estado e forma política no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região (Rua São Bento, 413 – próximo à estação de metrô São Bento). Confirme sua presença na página do evento no Facebook!

Balanço dos governos neoliberais no Brasil

Internas.inddPor Emir Sader.

Sai na próxima semana o livro 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. Eu organizei o livro com 22 artigos de alguns dos melhores pensadores brasileiros, mais uma longa entrevista do Lula de balanço do seu governo, como forma de incentivar a reflexão sobre as transformações que o Brasil viveu nesses dez anos, assim como sobre os obstáculos e as perspectivas postas por esse imenso processo de democratização social.

Acreditamos que balanços desse tipo são indispensáveis para inserir os processos políticos numa ótica de mais longo prazo, em função dos seus objetivos estratégicos. Estamos incentivando a realização de balanços similares pela esquerda argentina – já se cumpriram dez anos dos governos dos Kirchner – e da uruguaia – logo se cumprirá uma década de governos da Frente Ampla.

É normal que seja assim. A esquerda tem que ter consciência dos passos que deu, dos que está dando e das dificuldades que enfrenta.

Não é o caso dos governos neoliberais. Tanto aqui, quanto na Argentina, no Uruguai e nos outros países da região, não se conhece balanços dos seus governos, feitos pelos que o dirigiram ou pelas forças que os apoiaram ou por pensadores – jornalistas ou intelectuais – que os elogiaram durante a totalidade de suas durações.

Foram governos que saíram derrotados – alguns dos seus presidentes foram parar na cadeia, outros mais também mereciam esse destino –, ficaram definitivamente rejeitados pelo povo desses países, mas nunca fizeram o balanço do que fizeram e do que o povo impediu que fizessem. Vergonha? Incapacidade de dar conta do seu fracasso?

No caso do Brasil, tivemos um governo presidido por um sociólogo, com enorme quantidade de obras e artigos publicados na mídia, loquaz e de palavra fácil. Contou também com outros intelectuais (ou ex-), com livros publicados – que depois abandonaram essa atividade, provavelmente sem ter o que dizer dos governos de que participaram.

Economistas que quebraram o país três vezes e que o entregaram ao Lula em meio à mais prolongada e profunda recessão que o Brasil tinha conhecido em muito tempo, ficam escrevendo nos jornais e revistas, falando nas rádios e TVs, ditando cátedra do que o país deveria fazer, mas nunca escreveram o balanço do que eles fizeram com o país. Da mesma forma que o presidente que os escolheu e que comandou a quebra do Brasil.

Por quê? Eles têm à disposição um montão de editoras, revistas, outros meios de comunicação, mas o país foi privado das explicações do fracasso dos governos neoliberais no Brasil. Não sabemos se eles acham que foram um sucesso ou não tem coragem de confessar que fracassaram. E nem tem os argumentos para explicar o fracasso, porque continuam a propor as mesmas políticas do seu fracasso, que alimentam também a candidatura presidencial tucana.

Teriam que confessar que a centralidade do mercado, o Estado mínimo, a abertura acelerada da economia, as privatizações, a promoção da hegemonia do capital especulativo, a política de precarização das relações de trabalho, a política externa de livre comércio e de subordinação a Washington – foram as causas do fracasso dos governos Collor, Itamar e FHC. E da razão pela qual o país não quis nunca mais voltar a tê-los na direção do Brasil.

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Não perca o debate de lançamento de 10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil, na próxima segunda feira, dia 13, às 19h. O evento contará com a presença de Marilena Chaui, Marcio Pochmann, Emir Sader e o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva, todos colaboradores do livro. Aberto ao público, o evento é gratuito e não requer inscrição. Senhas para entrada serão distribuídas a partir das 18h, no local do evento.

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Serviço

Debate de lançamento de
10 anos de governos pós-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma

com Lula, Marilena Chaui, Marcio Pochmann e Emir Sader
13/05 | Segunda-feira | 19h
CCSP | Centro Cultural São Paulo
Rua Vergueiro, 1000 | Liberdade | São Paulo | SP 
Retirada de senhas para entrada a partir das 18h, no local.

  

O livro estará a venda com preço especial no evento e, a partir da segunda quinzena de maio, disponibilizado gratuitamente em versão eletrônica (ebook). Saiba mais sobre o livro aqui.

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A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana é o primeiro livro de Emir Sader pela Boitempo a ganhar versão eletrônica (ebook), já à venda por apenas R$20 na Gato Sabido, Livraria da Travessa e iba, dentre outras.

As armas da crítica: antologia do pensamento de esquerda, organizado por Emir Sader e Ivana Jinkings, já está disponível por apenas R$18 na Gato Sabido, Livraria da Travessa, iba e muitas outras!

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Emir Sader nasceu em São Paulo, em 1943. Formado em Filosofia pela Universidade de São Paulo, é cientista político e professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). É secretário-executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso) e coordenador-geral do Laboratório de Políticas Públicas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Coordena a coleção Pauliceia, publicada pela Boitempo, e organizou ao lado de Ivana Jinkings, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile a Latinoamericana – enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe (São Paulo, Boitempo, 2006), vencedora do 49º Prêmio Jabuti, na categoria Livro de não-ficção do ano. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quartas.

A tirania da velocidade e da inovação para o lucro

13.05.08_A tirania da velocidade e da inovação para o lucro_Dênis de MoraesPor Dênis de Moraes.*

Uma das verdades mais incômodas e flagrantes sobre o mundo atual chega-nos pela ótica de um magnífico escritor, John Berger: “É um espaço sem horizonte. Tampouco há continuidade entre as ações, nem pausas, nem atalhos, nem linhas, nem passado nem futuro. Vemos apenas o clamor de um presente desigual e fragmentário. Está cheio de surpresas e sensações, mas em lugar algum aparecem suas consequências ou seus resultados.” (1)

Hoje com 87 anos e cada vez mais lúcido, Berger vivenciou, em décadas passadas, tempos infinitamente menos desvairados. Tempos em que as sofreguidões suaves lhe permitiam contemplar o primeiro pôr-do-sol de primavera em uma praia europeia para dividir com uma tela a óleo o que a pintura lhe indicava ser a necessária proximidade com as fagulhas incendiárias do amor.

Vivemos uma época de velocidade implacável, em que tudo parece atropelado pela urgência dos milésimos. A existência dilui-se e restabelece-se sem direito a intervalos. As pausas para respirar parecem insolentes ou extemporâneas. E dizem-nos que assim deve ser porque desfrutamos da conectividade permanente, viabilizada por tecnologias avançadas. Qualquer atraso pode implicar um curto-circuito com a realidade imediata, ou revelar incapacidade de antecipar-se ao futuro fugaz.

A aceleração tecnológica – “velocidade crescente na tradução de saberes múltiplos para sua aplicação no ámbito da produção”, conforme René Armand Dreifuss (2) – lubrifica as engrenagens do capitalismo. O sistema tecnológico, em processos de revisão, superação e retroalimentação contínuas, se incumbe astuciosamente de controlar o repertório de conhecimentos e inovação em circulação na sociedade. O que confere à racionalidade tecnológica o poder de intervir em várias dimensões da vida social e também de induzir a um conjunto de modificações e realinhamentos nos sistemas, métodos e instrumentos de produção, gestão e organização empresarial. (3)

O modo de produção hegemônico necessita azeitar sua capacidade inovadora e reativar permanentemente a cadeia de valor que reforça a acumulação de capital numa economia de interconexões eletrônicas. Cada novo bem ou serviço ambiciona monopolizar a última geração, para estar à frente, suplantar o concorrente. Peter Drucker, velho guru da gestão empresarial, não deixa dúvida quanto às vantagens conferidas pela primazia no ciclo perpétuo da inovação, numa frase já clássica: “A melhor maneira de se prevenir para o futuro é criá-lo.” A velocidade das ações e os meios mais rápidos de mobilidade chegaram à posição de “principal ferramenta do poder e da dominação”, ressalta Zygmunt Bauman (4). Uma ferramenta já livre de resistências do espaço físico e territorial; agora é virtual, móvel, leve, ubíqua, desenraizada.

As mensagens publicitárias sustentam que o que perdemos em durabilidade ganhamos na intensidade dos impulsos. O prazer deve ter breve duração, permitindo que, com a descontinuidade, ressurjam modos de alcançá-lo, especialmente através de objetos de reposição imediata. Regula-se a relação entre desejo, necessidade e satisfação, removendo-se aquilo que retarde o ímpeto de consumir. O parâmetro de avaliação modificou-se: tende a prevalecer o que produz frisson, em detrimento da profundidade das impressões

Volto a dialogar com  Zygmunt Bauman quando observa que a velocidade das inovações está em perfeita sintonia com o mundo fluido, incerto e instável da “modernidade líquida”, avesso a planejamentos e investimento de longo prazo (5). A conexão com a pressa imoderada fundamenta iniciativas inovadoras que interferem nos modelos de negócios, processos operacionais, práticas de propriedade intelectual, estratégias de relacionamento com o cliente, tempo de resposta ao mercado e campanhas publicitárias. A opção pela inovação tem a ver, na lógica dos gestores estratégicos, com a conquista de dividendos competitivos, viabilizando reestruturações dos sistema tecnoprodutivos e gerenciais.

Analisando as formas de domínio das inovações, David Harvey sublinha a ênfase permanente do capitalismo na obtenção do “rendimento monopólico”, que implica o controle da singularidade, da exclusividade e das qualidades de um determinado objeto, de modo a assegurar receitas permanentes e ampliadas (6). Para preservar poderes monopólicos, as corporações recorrem a duas manobras principais: “uma ampla centralização do capital, que busca o domínio por meio do poder financeiro, economias de escala e posição de mercado, e a ávida proteção das vantagens tecnológicas (…) por meio de direitos de patente, leis de licenciamento e direitos de propriedade intelectual” (7).

Significa concentrar nas mesmas mãos todas as etapas e consequências rentáveis dos processos tecnoprodutivos, com vistas a garantir o maior domínio possível sobre a cadeia de fabricação, processamento, comercialização e distribuição dos produtos e serviços. Em cenários assim, às pequenas e médias firmas restam nichos mercadológicos ou o fornecimento de insumos e serviços especializados, sempre que é mais vantajoso para as grandes companhias terceirizar a produção ou adquirir itens cuja fabricação seria dispendiosa. Tudo isso beneficiado pela desregulamentação dos mercados e por legislações omissas ou complacentes diante da força esmagadora dos megagrupos.

A concentração monopólica trabalha para validar o regime de substituição precoce das mercadorias em circulação exigido pela escala da rentabilidade. Entre as matrizes conceituais da obsolescência programada, está a célebre teoria da “destruição criativa” que Joseph Schumpeter elaborou na primeira metade do século XX. Ao analisar os avanços tecnológicos a partir da Revolução Industrial, ele discerniu que o ciclo evolutivo do capitalismo “decorre dos novos bens de consumo, dos novos métodos de produção ou transporte, dos novos mercados, das novas formas de organização industrial que a empresa capitalista cria” (8). O economista austríaco define a destruição criativa como um processo em que antigos objetos e estruturas são substituídos, sequencialmente, por novos, acelerando o ritmo da economia e aumentando a acumulação de renda pelas empresas que operam em tal paradigma, ao mesmo tempo em que asseguraria outros níveis de bem-estar social. A seu ver, o caráter determinante da concorrência não se cinge à fixação de preços competitivos e se projeta na inovação, que acaba por estabelecer as linhas de supremacia competitiva no interior do modo de produção. “O empreendedor é o agente do processo de destruição criativa. É o impulso fundamental que aciona e mantém em marcha o motor capitalista, constantemente criando novos produtos, novos mercados e, implacavelmente, sobrepondo-se aos antigos métodos menos eficientes e mais caros” (9). Com base nessas premissas, Schumpeter advoga que “todos os elementos da estratégia de negócios” sejam concebidos “sob o vento perene da destruição criativa”, não podendo ser compreendidos “sob a hipótese de que existe eterna calmaria” (10).

Gary Hamel e Robert Tucker partem das teses de Schumpeter para classificar a inovação como “combustível para o crescimento das empresas” e como estratégia eficaz para que uma organização possa sobrepujar a concorrente na busca de “receitas de primeira linha”, com rapidez inaudita. Os dois consultores calculam que cada crescimento percentual de 10% no portfólio de novos produtos equivalem a 2,5% no crescimento consistente das receitas e dos retornos para os acionistas (11).

A inovação converte-se, por conseguinte, em requisito valioso numa época em que os bens disponíveis criam problemas e expectativas que somente se equacionam mediante novas demandas e soluções tecnológicas. Como as soluções dependem de lastro financeiro, tecnologias de ponta, know how gerencial e desembaraço logístico-operacional, instaura-se um círculo vicioso: a cadeia de descobertas, transferências e imitações de tecnologias gravita em torno de um rol restrito de corporações que acumulam diferenciais inacessíveis a organizações de menor porte.

Uma das fórmulas para sedimentar dividendos competitivos é suplantar o que acaba de ser lançado. Até 2005, Motorola, Nokia, Samsung e LG conseguiam colocar nas mãos dos clientes um modelo novo de celular a cada 18 meses. Tal prazo agora é considerado uma eternidade. A média caiu para nove meses. Em alguns casos, o lançamento demora seis meses. Outra fórmula é descobrir o que deverá ser inovação daqui a cinco, dez, quinze anos. A Intel trabalha simultaneamente em três gerações de microprocessadores: enquanto prepara a segunda geração, avança no desenho da terceira. São exemplos, entre tantos outros, da subordinação de decisões de investimentos a um padrão de velocidade inédito para que se mantenha (ou venha a alterar-se) a pirâmide da feroz concorrência estabelecida em setores condicionados por tecnologias de ponta.

O quadro acima descrito realça a urgência da crítica à cultura tecnológica que respalda a apoteose da velocidade e a tirania da inovação para o lucro. Se recusarmos a glorificação dos cotidianos conectados sem causa digna, não será difícil enxergar o outro lado da aceleração incontrolável. Ao mesmo tempo em que amplia as nossas capacidades de conhecer, imaginar e interagir, o delírio  tecnológico não desfaz desigualdades socioeconômicas, repõe tensões sociais e, não raro, se presta ao fim último de mercantilizar a vida.

Ainda que os processos não sejam lineares e comportem variações, as tecnologias estão longe de equacionar desníveis nos acessos a informações e inovações. A brecha digital também ocasiona descompassos na produtividade e no desempenho em atividades que não podem prescindir de sistemas e ferramentas tecnológicos. Como assinala Martín Hopenhayn: “Quem não está conectado estará excluído de maneira cada vez mais intensa e variada. A brecha acirra os contrastes entre regiões, países e grupos sociais. Países menos digitalizados vão sendo confinados ao quintal da globalização em termos de intercâmbio cultural, protagonismo político, crescimento econômico e, em consequência de tudo isso, bem-estar social.” Inversamente, acentua Hopenhayn, quanto mais se consegue diminuir a brecha, mais se distinguem no horizonte as possibilidades de integração social, diversificação comunicacional e igualdade de oportunidades produtivas, tanto dentro dos países quanto entre eles (12).

Esses descompassos estão ligados aos vácuos tecnológicos, ao baixo poder aquisitivo, aos altos preços de bens e serviços teleinformáticos, à ausência de políticas públicas de ciência e tecnologia que priorizem a inclusão social e os direitos da cidadania. Os custos de utilização de tecnologias de informação em mercados de baixa renda também inibem investimentos e projetos em países periféricos, constituindo entrave ao desenvolvimento das telecomunicações e adicionando agravantes ao histórico de estratificações entre sociedades, povos e nações.

A evolução técnica deveria ampliar o conhecimento das sociedades e dos homens. Mas, na prática, ocorre uma perversa inversão: as técnicas avançadas são apropriadas por elites e atores privilegiados em função de objetivos determinados. A explosão inovadora não representa um bem comum, nem uma conquista repartida pela maioria das sociedades. Depende, muitas vezes, de estágios tecnológicos e condições aquisitivas marcadamente desiguais. Grandes empresas e instituições hegemônicas detêm a prerrogativa de utilizá-la em função de ambições particulares. São elas que dispõem de poderio financeiro, influência política, capacidade industrial e esquemas de distribuição pelos continentes.

Não estou defendendo a ideia ingênua de que a aceleração tecnológica só produz embaraços e efeitos negativos. Sem dúvida as tecnologias facultam novos modos de sociabilidade, informação, acesso a serviços públicos, metodologias educativas, pesquisas científicas, entretenimento e intervenção política, entre outras potencialidades. Mas esta percepção não autoriza desconsiderar os domínios monopólicos, as competências desiguais para lidar com as tecnologias e as exclusões daí decorrentes.

Se contestamos a velocidade como virtude e desejamos superar o amálgama entre velocidades fortuitas e mercantilização – que alimenta os ciclos de expansão planetária do capital –, devemos rejeitar a idolatria do mercado como síntese de organização social; descartar a velocidade como emblema atávico de evolução sociotécnica; questionar  euforias tecnológicas (sem que isso se confunda com tecnofobia); reverter a comercialização desenfreada da informação; e empenhar forças na longa luta por alternativas socioeconômicas inclusivas e democratizadoras. Penso que essa reação incisiva poderia nos fornecer a chave de resposta, numa perspectiva de humanização da existência e de partilhas equânimes dos benefícios do progresso tecnocientífico, à inquietante pergunta de Jeremy Rifkin: “Quando até o próprio tempo é comprado e vendido, e quando nossa vida é pouco mais que uma série de transações comerciais sustentadas por contratos e instrumentos financeiros, o que acontece com as relações recíprocas de tipo tradicional que surgem do afeto, do amor e da lealdade?” (13)

Notas:

(1) John Berger. El tamaño de una bolsa. Buenos Aires: Taurus, 2004, p. 218.

(2) René Armand Dreifuss. Transformações: matrizes do século XXI. Petrópolis: Vozes, 2004, p. 266.

(3) René Armand Dreifuss, ob. cit., p. 266-267.

(4) Zygmunt Bauman. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 16-18.

(5) Zygmunt Bauman. Vida de consumo. Buenos Aires: Fondo de Cultura Económica, 2007, p. 51.

(6) David Harvey, “A arte de lucrar: globalização, monopólio e exploração da cultura”, em MORAES, Dênis de (org.). Por uma outra comunicação: mídia, mundialização e poder. Rio de Janeiro: Record, 2003, p. 165-167.

(7) David Harvey. O novo imperialismo. São Paulo: Loyola, 2004, p. 85.

(8) Joseph A. Schumpeter. Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1984, p. 112.

(9) Ibidem, p. 114

(10) Ibidem, p. 113

(11) Robert Tucker e Gary Hame citados por Sandro Marques e Marcelo Torres, “Inovação, crescimento e sustentabilidade”, Revista da ESPM, vol. 3, ano 12, nº 3, maio-junho de 2006, p. 39.

(12) Martín Hopenhayn, “Educación y cultura en Iberoamérica: situación, cruces y perspectivas”, em CANCLINI, Néstor García (org.). Iberoamérica 2002: diagnóstico y propuestas para el desarrollo cultural. México: Santillana, 2002, p. 328.

(13) Jeremy Rifkin. La era del acceso: la revolución de la nueva economía. Barcelona: Paidós, 2000, p 157.

* Este artigo é uma versão condensada e revista do meu texto contemplado no Premio Internacional de Ensayo Pensar a Contracorriente, concedido em 2010 pelo Ministerio de Cultura de Cuba e pelo Instituto Cubano del Libro, e incluído no livro Pensar a Contracorriente VII (La Habana: Editorial de Ciencias Sociales, 2011, p. 79-105).

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Dênis de Moraes lançou no último mês a coletânea de textos, com Ignacio Ramonet e Pascual Serrano, Mídia, poder e contrapoder: da concentração monopólica à democratização da informação. Leia o texto de orelha do livro clicando aqui. Já nas livrarias!

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A versão eletrônica (ebook) de O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos, de Dênis de Moraes, já está disponível por metade do preço do impresso na Gato Sabido e na Livraria da Travessa!

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Dênis de Moraes é doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ, pós-doutor pelo Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales (CLACSO, Argentina) e professor associado do Departamento de Estudos Culturais e Mídia da UFF. É também pesquisador do CNPq e Cientista do Nosso Estado da FAPERJ. Autor de mais de 20 livros publicados no Brasil, na Espanha, na Argentina e em Cuba, entre os quais Vozes abertas da América Latina (2011), La cruzada de los medios en América Latina (2011), Mutaciones de lo visible: comunicación y procesos culturales en la era digital (2010), A batalha da mídia (2009), Cultura mediática y poder mundial (2006), Sociedade midiatizada (2006) e Por uma outra comunicação (2003). Pela Boitempo, publicou O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos (2012) e Mídia, poder e contrapoder: da concentração monopólica à democratização da informação (2013), em parceria com Ignacio Ramonet e Pascual Serrano. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

De bar em bar XXIV: Ferro’s Bar

13.05.07_MouzarBenedito_FerrosBarPor Mouzar Benedito.

Eu já morava em São Paulo em 1964, mas era ainda um molecão, não frequentava botecos. Nem tinha dinheiro pra isso. Mas sei que nessa época, antes do golpe militar de 31 de março, os militantes comunistas frequentavam regularmente dois bares aqui: o Riviera, na esquina da Consolação com a Paulista, e o Ferro’s, na rua Martinho Prado, em frente à sinagoga.

Com o golpe, a repressão baixou nesses bares e os comunistas se afastaram, e eles passaram a ser frequentados por outro tipo de gente. O Riviera virou ponto da contracultura, dos grupos underground, de artistas e de uma esquerda estudantil meio festiva. Ficou famoso, entre outras coisas, por seus garçons antigos, íntimos de todo mundo, que até bebiam com os fregueses. Muitas revoluções de boteco foram discutidas nas madrugadas que – já nesse tempo “alternativo” – a gente varava lá.

O Ferro’s Bar passou a ser ocupado pelas lésbicas. Em 1967, quando eu me mudei para a avenida 9 de Julho, ali pertinho, suas mesas eram ocupadas por casais de mulheres ou por grupos de lésbicas. A comida era de ótima qualidade e barata, e o bar ficava aberto a noite toda. Virou um ponto da minha turma.

Dois personagens me vêm à memória quando me lembro do Ferro’s. Um era o Doce e o outro era a Joana (nome fictício). O Doce tinha uma cara imberbe e atraente para as mulheres das lésbicas. Era só a gente chegar ao Ferro’s e ocupar uma mesa que logo ele começava a ser paquerado por alguma delas. E a parceira da paqueradora logo ficava brava, começava a rodear a nossa mesa olhando fixo na cara dele e dando murros na própria mão. Não o atacava porque sempre tinha amigos dele na mesma mesa.

A Joana eu encontrava no Ferro’s por volta de 1975 ou 76, quando eu estudava jornalismo, morando de novo no mesmo apartamento da 9 de Julho. A primeira vez que a vi lá foi num sábado de madrugada, voltando pra casa, a pé, com fome, e parei no Ferro’s pra tomar uma cerveja e jantar. Dei de cara com ela, minha colega da faculdade, no maior amasso com outra mulher.

Ao me ver, ela ficou meio incomodada e eu fui pra uma mesa lá no fundo, pra evitar constrangimentos. Na faculdade, a Joana passou a me cumprimentar meio ansiosa. Percebi que ela tinha receio que eu contasse pros colegas. Como não falei nada, ela pegou confiança em mim. Aí, todas as sextas-feiras me chamava no final das aulas:

— Vamos pegar umas mulheres num bar aí?

Às vezes eu ia, mas quem pegava mulher era só ela, pois os bares a que me levava eram sempre o Ferro’s ou outros pontos de mulheres que só apreciavam outras mulheres. Serviu, entre outras coisas, pra eu descobrir um monte de lugares de São Paulo frequentados apenas por lésbicas. Não imaginava que eram tantos.

Outra coisa que me lembro daquele bar, que infelizmente fechou há alguns anos, é que gostava de sacanear mocinhas ingênuas, principalmente as recém-chegadas do interior, levando-as ao Ferro’s. Elas ficavam de olhos arregalados vendo moças se amassarem, assustavam-se ao serem paqueradas por mulheres.

Fora isso de assustar mocinhas, muitas vezes parava com alguma namorada ali para beber uma cerveja antes de chegar em casa, sem nenhuma intenção de chocar. Numa dessas vezes, eu tinha começado a namorar uma judia e estávamos indo pra casa. Resolvemos dar uma paradinha no Ferro’s. Logo chegou o Ricardinho e ocupou uma cadeira na nossa mesa. Percebeu que a moça era judia e perguntou se ela sabia o que estava escrito em hebraico no portal da sinagoga ali em frente.

A moça olhou, olhou, disse que não se lembrava. O Ricardinho, brincou:

— Pô, eu que não sou judeu sei o que é.

— O que é, então? — perguntou ela, e ele gozou:

— Agradecemos a preferência.

Ela levantou brava, foi embora e eu, que não tinha nada a ver com a brincadeira do Ricardinho, fiquei chupando o dedo. Perdi a namorada.

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Lançamento Boitempo: Estado e forma política, de Alysson Leandro Mascaro

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A Boitempo Editorial lança hoje (na abertura do IV Curso Livre Marx Engels) o extraordinário Estado e forma política, do jurista e filósofo do direito Alysson Leandro Mascaro. Após a aula de Mascaro, haverá sessão de autógrafos (mais informações abaixo).

O livro, voltado tanto ao público geral como a estudiosos do direito, modifica o estudo da teoria do Estado e da ciência política. Convidado a escrever o texto de capa, o filósofo esloveno Slavoj Žižek não só aceitou a missão, como encontrou o que considera “simplesmente a obra mais importante do pensamento político marxista nas últimas décadas” [leia o texto completo de Žižek clicando aqui].

O livro chega às livrarias a partir da próxima semana e será lançado em breve em versão eletrônica (ebook).

Leia resenha crítica do sociólogo João Alexandre Peschanski (editor-adjunto da Boitempo), clicando aqui

Sobre o livro

Estado e forma política surge e se afirma como obra referencial do pensamento político crítico contemporâneo. Superando análises dominantes no direito e na ciência política — conservadoras, liberais e institucionais —, o jurista e filósofo do direito Alysson Leandro Mascaro empreende uma aprofundada redefinição do Estado e da política, tomando-os a partir de uma perspectiva marxista.

Ao investigar a totalidade social a fundo, a partir das relações de produção, Mascaro revela um campo político necessariamente atrelado às formas sociais do capitalismo, nas suas múltiplas relações e contradições. A interpretação do Estado, portanto, se dá com base nas categorias da mercadoria, do valor e das formas sociais capitalistas, permeadas por conflitos e lutas de classes.

Mascaro opera tanto no nível dos conceitos mais tradicionais da teoria política e do Estado, forjando-lhes uma nova constituição, quanto avança para temas fundamentais da política contemporânea, como o sistema internacional de Estados, os debates da regulação econômica e as crises do capitalismo. Estado e forma política, obra inovadora e, na apreciação de Slavoj Žižek, incontornável, desponta como grande marco teórico para o estabelecimento de uma leitura transformadora, crítica e radical do Estado e da política nos nossos tempos.

Sobre o autor

Alysson Leandro Mascaro, jurista e filósofo do direito brasileiro, nasceu na cidade de Catanduva (SP), em 1976. É doutor e livre-docente em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo (Largo São Francisco/USP), professor da tradicional Faculdade de Direito da USP e da Pós-Graduação em Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie, além de fundador e professor emérito de muitas instituições de ensino superior. Publicou, dentre outros livros, Filosofia do direitoIntrodução ao estudo do direito, pela editora Atlas, e Utopia e direito: Ernst Bloch e a ontologia jurídica da utopia, pela editora Quartier Latin. É o prefaciador da edição brasileira de Em defesa das causas perdidas, de Slavoj Žižek, e da nova edição de Crítica da filosofia do direito de Hegel, de Karl Marx, ambos lançados pela Boitempo.

Filósofo do direito especialista na obra marxiana, Alysson Leandro Mascaro apresentou aulas em todas as edições do Curso Livre Marx Engels, organizados pela Boitempo. Confira abaixo as aulas da primeira (2008, PUC-SP) e terceira (2012, Sindicato dos Bancários de São Paulo) edição do curso.

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IV Curso Livre Marx Engels: ainda há vagas!

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Alysson Leandro Mascaro inaugura hoje (07/05, às 15h30) o IV Curso Livre Marx Engels, no SESC Pinheiros, com a aula “A crítica do Estado e direito: forma política e forma jurídica”. Após a aula, será realizada sessão de autógrafos de lançamento de Estado e forma política. Os interessados que ainda não se inscreveram no Curso podem comparecer ao Teatro Paulo Autran (R. Paes Leme, 195 – próximo à estação Pinheiros do metrô) a partir das 14h.

Saiba mais no site do projeto Marx: a criação destruidora.

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Debate de lançamento de Estado e forma política no Sindicato dos Bancários

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Será realizado no sábado 18 de maio, às 10h30, debate de lançamento de Estado e forma política no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região (Rua São Bento, 413 – próximo à estação de metrô São Bento). Confirme sua presença na página do evento no Facebook!

Forma-mercadoria, história e forma política: comentários sobre “Estado e forma política”, de Alysson Leandro Mascaro

Recorte de fotografia “Populares sobre cobertura do palácio do Congresso Nacional no dia da inauguração de Brasília” (1960), de Thomaz Farkas (Acervo Instituto Moreira Salles), utilizada na capa de "Estado e forma política", de Alysson Mascaro

Recorte de fotografia “Populares sobre cobertura do palácio do Congresso Nacional
no dia da inauguração de Brasília” (1960), de Thomaz Farkas (Acervo Instituto Moreira Salles), utilizada na capa de Estado e forma política, de Alysson Leandro Mascaro

Por João Alexandre Peschanski.

Estado e forma política, de Alysson Leandro Mascaro, recém publicado pela Boitempo, é surpreendente – ou, mais exatamente, uma leitura de surpresas. A primeira surpresa diz respeito à forma do texto: clara, analítica, didática. Por mais que o tema seja difícil – os mecanismos de compatibilização da política às relações de produção, especificamente no capitalismo – e que o leitor muitas vezes tenha de reler trechos inteiros para realmente apreender o conteúdo, as ideias são precisas e organizadas. Elaborado em cinco grandes capítulos – “Estado e forma política”, “Estado e sociedade”, “Política do Estado”, “Pluralidade de Estados” e “Estado e regulação” –, cada qual dividido em vários tópicos, o livro apresenta cuidadosamente os conceitos que emprega, justifica em variados níveis de abstração os argumentos, dá visibilidade às teorias e aos debates nos quais se insere e que rejeita, retoma o encadeamento lógico da argumentação quando alguma ideia de impacto é avançada.

A segunda surpresa é a ambição do argumento de Mascaro. Professor de Direito na Universidade de São Paulo e no Mackenzie, ele faz uma defesa explícita da análise marxista do Estado – que “reconfigura totalmente o âmbito do político e do estatal, atrelando-o à totalidade da reprodução social capitalista”. A perspectiva marxista escancara a insuficiência das outras teorias, mais em voga no Direito, que se fundamentam em “mistificações metafísicas como a de que o Estado é o bem comum ou legítimo” ou que são apenas parcialmente críticas. Estado e forma política apresenta, portanto, um debate novo, baseado em problemáticas novas, tomando a sério funções e estruturas no processo de reprodução social e suas contradições.

A terceira surpresa é, para além da rejeição às teorias em voga no Direito, a contribuição positiva do livro. Mascaro se apropria de uma literatura altamente controversa no marxismo, pejorativamente conhecida como formal-funcionalista. A referência é explicitada no capítulo onde se dá a contribuição mais original do livro, o quinto (sobre Estado, crise e regulação). É um trecho complexo da obra, a ser lido após estudo das partes anteriores – que constroem o arcabouço conceitual para realmente  ter claro seu argumento. A ideia central desse capítulo é que, na medida em que se entende a forma política como derivação da forma-mercadoria (de onde emana o Estado capitalista), isto é, na medida em que a acumulação de capital pressupõe a construção do Estado, a atuação do Estado depende – ou se entende – a partir das variações na ordem da acumulação do capital. O desenvolvimento do Estado depende, por exemplo, das disputas de classe, dos rearranjos produtivos, do ordenamento global da acumulação e das múltiplas crises do modo de produção capitalista. Assim, mesmo quando o capital parece fluir solto, a ideia errônea que alguns analistas ainda têm da situação neoliberal, o Estado organiza o ordenamento e as possibilidades conjunturais para que esse fluxo se dê.

A ideia central do quinto capítulo, a retomada com mais intensidade do derivacionismo e por mais que o termo seja carregado do funcionalismo na tradição marxista, se dá a partir da própria atualização das propostas dessa linha de análise. A grande objeção aos derivacionistas (as investigações de Hirsch pelo menos até 1973, em específico) é que se mantêm a-históricos, trabalhando em níveis de abstração que nunca chegam ao concreto. Nos acalorados debates da segunda metade do século XX, rendeu aos autores que se engajavam nesse tipo de análise todos os impropérios, especialmente porque colocavam que uma reordenação do Estado sem mudanças estruturais na acumulação do capital era simplesmente variar sobre o mesmo tom, ou seja, variar sobre como o capitalismo se manifestava. Aos que viam a tomada do Estado como uma possibilidade real de transformação – que pressupunham que o aparato estatal era minimamente neutro, ou seja, podia ser guiado contra os interesses da reprodução do capitalismo – o derivacionismo era inaceitável e, por isso, foi castigado.

A análise de Mascaro justamente coloca a forma política, ainda derivada da forma-mercadoria, dentro de sua trajetória histórica, que a diferencia do pré-capitalismo e se diferencia nos vários processos de implementação da lógica de acumulação do capital e compatibilizações da forma política. Eventuais considerações sobre a permanência da forma são fundamentadas de maneira histórica. Estado e forma política vai e vem nos níveis de abstração, e o concreto não é mera ilustração de uma teorização fantasiosa, mas a chave analítica que se descobre central para entender o Estado e a forma política.

Não é surpresa, com tudo isso, que o autor da quarta-capa, ninguém menos do que Slavoj Žižek, tenha se entusiasmado com o livro. E isso a ponto de declarar que se trata da principal contribuição marxista das últimas décadas. De fato, trata-se de uma contribuição real à análise do capitalismo – o que também me surpreendeu, pois em conversa particular com o autor este me disse que preparava um “manual” – e, em tempos de vacas magras da teoria anticapitalista, se torna uma joia rara.

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IV Curso Livre Marx Engels: ainda há vagas!

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Alysson Leandro Mascaro inaugura amanhã (07/05, às 15h30) o IV Curso Livre Marx Engels, no SESC Pinheiros, com a aula “A crítica do Estado e direito: forma política e forma jurídica”. Após a aula, será realizada sessão de autógrafos de lançamento de Estado e forma política. Os interessados que ainda não se inscreveram no Curso podem comparecer ao Teatro Paulo Autran (R. Paes Leme, 195 – próximo à estação Pinheiros do metrô) a partir das 14h.

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Debate de lançamento de Estado e forma política no Sindicato dos Bancários

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Será realizado no sábado 18 de maio, às 10h30, debate de lançamento de Estado e forma política no Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região (Rua São Bento, 413 – próximo à estação de metrô São Bento). Confirme sua presença na página do evento no Facebook!

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João Alexandre Peschanski é sociólogo, editor-adjunto da Boitempo, coorganizador da coletânea de textos As utopias de Michael Löwy (Boitempo, 2007) e integrante do comitê de redação da revista Margem Esquerda: Ensaios Marxistas. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às segundas.