A comemoração

14.07.17_Flávio Aguiar_A comemoração[Charge de Ziraldo publicada na revista Visão durante a Copa de 1970]

Por Flávio Aguiar.

Dois municípios se digladiavam no interior do Rio Grande do Sul: Xurumela e Novo Säugling. A rixa era antiga. Novo Säugling, como diz o nome, era predominantemente germânico. Já Xurumela tinha mais de tudo: até alguns dissidentes de Novo Säugling que preferiram se misturar, em priscas eras, aos xurumélios. O contrário também era verdade: muitos xurumenses, sabe-se lá por que, tinham preferido passar para o lado dos säuglinguenses.

A rixa, porém, era antiga. Por exemplo: no tempo da Guerra, alguns säuglingos aderiram ao Terceiro Reich. Não eram a maioria: mas pelo barulho, deram o seu perfil ao município. Marchavam pelas ruas imitando a Wehrmacht, a passo de ganso.

Depois, quando perceberam que isto podia pegar mal, aderiram aos integralistas, camisa verde e tudo o mais. Gritavam Anauê com a mão levantada, no melhor estilo então dominante em Berlim. Isto valeu o apelido a todos os säuglingóis, de “boches” – nome herdado, na verdade, dos filmes americanos sobre a guerra, em que os alemães sempre pareciam gorilas perfilados que falavam um inglês estropiado e gutural.

Já em Novo Säugling os xurumeses tinham fama de vagabundos, que detestavam trabalhar, só pensavam em ir se deitar nas praias do rio Taquari e ficar vadiando. Tudo isto porque muitos xurumelianos adoravam fazer exatamente isto, embora trabalhassem pacas o dia e o mês inteiros. Daí se criou em Novo Säugling a expressão “xurumico” – que servia para designar os vira-latas, os cães vadios, que, aliás, a prefeitura local expulsava sempre para o município vizinho.

Mas havia entre ambas uma sociedade secreta, que se auto-chamava “Os Condestáveis”. Eram grandes empresários de um lado e do outro, que governavam as duas cidades, pois financiavam sempre os candidatos a prefeito e a maioria dos vereadores que eram eleitos. Na verdade, eles, os “Condestáveis”, se julgavam “os eleitos”. Mas preferiam governar na sombra.

Eram sempre muito racionais, embora às vezes surgissem propostas abstrusas entre eles. Por exemplo, um condestável do lado “sing”, preocupado com o excesso de xurumeios que procuravam os bordéis de Säugling”, sugeriu que se construísse um muro na divisa entre as duas cidades, para controlar a passagem. O presidente do Conselho dos Condestáveis se opôs: “logo agora que o muro lá em Berlim caiu?”. Ao que o proponente retrucou: “pois é, a gente podia aproveitar as pedras do de lá pra construir o de cá; sairia barato”.

Mas felizmente a ideia não prosperou. Porque entre as duas cidades havia uma troca intensa, por debaixo da rivalidade. Os condestáveis de Xurumela produziam muito couro e cadarços. Já os de Säugling produziam sapatos. Muitos xurumicos trabalhavam nas fábricas dos boches. E todos – os condestáveis, naturalmente – ganhavam muuuito dinheiro com isto.

Mas aí veio o grande dia do futebol. Alguém teve a ideia de promover um campeonato entre as seleções das duas cidades, em melhor de três. Era para promover a integração, mas logo começaram a surgir as piadas, de que os “boches” jogariam que nem postes e, do outro lado, que os “xurumicos” derreteriam ao sofrer o primeiro gol.

Veio o grande dia. Bandeiras agitadas, feito asas num pombal. Camisetas distendidas em corpos, como num varal. E no campo – cujas arquibancadas estavam lotadas, até com o governador do estado presente – foi um vareio: Xurumela 7 x Singóilingue 1. Uma vergonha. O povo siringóide clamava por vingança. Mas veio a segunda partida, mais sofrida. Mas depois de pênaltis não marcados, expulsões, muito sangue, suor e lágrimas, acabou com a vitória Xuru por 1 x 0.

Daí alguém xurumelo teve a ideia. Vamos fazer uma comemoração.

E fizeram. Era um desfile. Ruas cheias, povo com bandeirinhas xurumélicas na rua. E aí na frente vinha uma linha de jogadores do time xurúquico, de botas, capacete nazi, uniforme, em passo de ganso, cantando: “assim caminham os boches”. A seguir, num passe de mágica, despiam os uniformes, os capacetes, as botas, ficavam de bermuda e chinelo de dedo, entrava uma batucada, e eles a sambar gritavam: “assim caminham os xurumelos!”.

Em Zingoriunga foi um desmanche. “Racismo”, gritavam os mais exaltados. “Desrespeito pelos vencidos”, os menos. “Vergonha”, gritavam todos. “Vingança”, rugiam as ruas.

Alguém teve a ideia: vamos organizar uma dança contrária! A gente começa caminhando de cócoras, cabeça meio baixa, gritando: “assim caminham os xurumicos!”. Depois se alevanta, caminha de pé, e grita: “assim caminha a humanidade!”. Continuava a argumentação: “é o nome de um filme famoso. A gente pode dizer que é um velho costume germânico, de origem medieval – coisa que aliás estes xurumicos não têm – e assim ninguém poderá nos acusar de racismo”. Mas a ideia foi descartada pelo presidente sirigóide dos Condestáveis, temendo que o caso atraísse a atenção das autoridades do estado e até de Brasília. “Ainda mais nestes tempos que lá em Brasília e aqui no estado reinam estes comunas”, ele contou depois à mulher, no jantar.

Mas o caso deflagrou debates candentes de ambos os lados da divisa. Gente contra e a favor, gente que escrevia artigos candentes de um lado exigindo – de ambos os lados – o sangue e a cabeça dos que escreviam pelo outro lado. Grandes confusões de aprontavam no horizonte. Um dos xurumicos, que era amigo de um dos boches, observou para este: “a coisa é feia e vem se debruçando”.

Mas daí alguém – um outro alguém – teve uma ideia – uma outra ideia. Não se sabe muito bem como foi, mas o fato é que num domingo, na praça que marcava a divisa entre as duas cidades, apareceu uma banda. É, uma bandinha, destas do interior. Metade xurumicos, metade boches. Só que os xurumicos vestiam aqueles calçõezinhos de couro da Baviera, com o chapeuzinho verde de peninha em riste. E os boches vestiam de tudo: camiseta listada com sandália de dedo, bombacha de gaúcho, tinha um até vestido de baiana. Por que não?

E desandaram a tocar na manhã ensolarada. Tocavam de tudo. Rancheira, xote, baião, polca, Heimatlandmusik, yodeldideldum suíço, valsa de Viena, rocão, funk, punk, pós-jazz, tudo de tudo. Mas foi na hora do sambão que a coisa começou. Um xurumelo – que tinha uma paixão secreta – não aguentou e tirou-a pra dançar. Só que ela era do lado boche. Mas topou e caiu no samba. Daí subiu a locura. Todo mundo começou a dançar e sambaram até a Kleinenachtmusik do Mozart.

Começou assim a verdadeira comemoração. Diz que durou um mês. Ninguém trabalhou neste tempo. Todo mundo compartilhava tudo: Wurst, picanha, acarajé, cerveja, vinho, refri, água. E caía no samba. Um mês depois, foram dormir, que ninguém é de ferro.

A vida voltou ao normal. Mas nunca mais o normal foi normal. Toda a semana, tem uma festa em algum local, com a bandinha dos aloprados. Tem gente que fala até em fundir os dois municípios. E há uma nova expressão no pedaço, dirigida às novas gerações, capitaneadas por aquele casal que começou a dança: “xuruboche”, e dita com muita honra.

Por seu turno, a Associação Secreta dos Condestáveis registrou aquele mês como perdas e danos. E pediu mais isenção de impostos.

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros! Para aprofundar o debate sobre o legado da Copa e das Olimpíadas para o Brasil, a Boitempo lança às vésperas da Copa o livro de intervenção Brasil em jogo, em debates simultâneos em São Paulo e no Rio de Janeiro:

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Flávio Aguiar nasceu em Porto Alegre (RS), em 1947, e reside atualmente na Alemanha, onde atua como correspondente para publicações brasileiras. Pesquisador e professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, tem mais de trinta livros de crítica literária, ficção e poesia publicados. Ganhou por três vezes o prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro, sendo um deles com o romance Anita (1999), publicado pela Boitempo Editorial. Também pela Boitempo, publicou a coletânea de textos que tematizam a escola e o aprendizado, A escola e a letra (2009), finalista do Prêmio Jabuti, Crônicas do mundo ao revés (2011) e o recente lançamento A Bíblia segundo Beliel. Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

Moral da Copa: a fantasia clama pela racionalidade

14.07.17_Jorge Luiz Souto Maior_Moral da CopaPor Jorge Luiz Souto Maior.

Peço desculpas pelo tamanho do texto, mas a complexidade do contexto em que vivemos exige que as ideias sejam apresentadas por inteiro, ainda que de forma resumida.

O que pretendo com este ensaio, que nesta visão mostra-se até bastante pequeno, é, sobretudo, advertir sobre os problemas que decorrem da perda da racionalidade, o que não significa dizer que as posições aqui assumidas sejam as corretas. Penso que o único erro que se pode cometer é o de evitar as análises sob o pressuposto de que qualquer tipo de problematização seja uma forma de derrotismo ou de conspiração.

A ocorrência da Copa e o advento das eleições estão obstando a realização de análises comprometidas apenas com os fatos, tais como se apresentam, e isso tem gerado um definhamento na capacidade crítica e reflexiva. As pessoas não querem ouvir e têm medo de falar.

O que proponho, portanto, é apenas que retomemos o diálogo franco e aberto sobre os problemas sociais do país, passando por cima de interesses estritamente eleitorais, estabelecidos em lógica maniqueísta, e de propósitos comerciais.

Nessa perspectiva é que lhes convido a perder parte do valioso tempo de suas vidas com a presente leitura.

1. “Toca de tatu”1

Em entrevista após o 7 a 1 contra Alemanha, Neymar, refutando algumas críticas à seleção brasileira, falou que “é muito fácil falar depois que as coisas acontecem”…

Entendo o que o craque e cidadão Neymar disse. Pretendeu explicitar que antes da partida ninguém diria que aquele resultado ocorreria e mesmo os críticos não manifestariam uma visão tão negativa da seleção quanto a que os gols da Alemanha lhes permitiram expressar. Além disso, após um resultado acachapante como aquele passou a ser muito fácil para os críticos apontarem problemas e mais problemas sem receio de objeções, em razão do dado objetivo, irrespondível, da goleada sofrida pela seleção.

Mas se há alguma verdade na justa observação de Neymar, não é possível deixar de reconhecer que também fica muito fácil recusar as críticas a partir desse argumento, incorrendo-se em erro ainda mais grave que é o de fingir que o resultado não ocorreu, como se verificou, posteriormente, na postura da comissão técnica da seleção brasileira.

Claro que diante de um 7 a 1 é preciso mesmo muito cuidado para fazer a crítica, como adverte Juca Kfouri, para não perder a mão e sair por aí destruindo moralmente as pessoas.

Creio que os jogadores fizeram a sua parte. Jogaram o que podiam, sobretudo diante da carga emocional que indevidamente recaiu sobre suas cabeças. A comissão técnica trabalhou de forma intensa e, por óbvio, fez o trabalho que considerava ser o melhor que podia fazer. Em suma, é preciso respeitar os profissionais que atuaram na seleção, vendo-os como trabalhadores, ainda que muitos deles não se vejam como tal.

Muito menos se pode dizer, a partir do 7 a 1, que a Copa em si não teve muitos pontos positivos tanto no aspecto da qualidade dos jogos quanto no que tange à organização.

Mas daí a dizer, como disseram os membros da comissão técnica, que o 7 a 1 foi fruto de um apagão de 6 minutos e que não tem uma explicação, tendo sido meramente obra da magia do futebol, negando-se a reconhecer algum erro na formação e no treinamento da seleção, vai uma distância muito grande, que alimenta uma atitude dissimulada, em desprezo pleno da realidade.

Essa atitude, ademais, de negar as evidências, foi a que proporcionou que a seleção cometesse os mesmos erros no jogo contra a Holanda, promovendo novo resultado negativo, nem tanto pelo número de gols, mas pela própria forma equivocada de atuação.

Portanto, bem ao contrário do que a frase do Neymar, literalmente interpretada, sugere, não é nada fácil falar sobre a performance da seleção brasileira na Copa depois dos fatos ocorridos, até porque há vários riscos envolvidos ao se entrar no pêndulo impreciso entre a dramatização e a banalização.

2. “Diz um diz que viu”

Sei que, em tese, é só futebol. Sei também que se trata de um esporte cuja dinâmica permite que os resultados possam não ser aqueles que se imaginava devessem racionalmente ocorrer. Mas quem transformou a Copa em algo mais representativo que o próprio jogo não fui eu. De fato, criou-se uma fantasia em torno da Copa, que fora tomada como instrumento para abafar a contestação política ao governo. E agora que o time dentro de campo não funcionou não é mais possível vir a público para dizer que é “só futebol”.

Vale lembrar que a influência política, apoiada no apelo de uma comoção midiática, proporcionou uma preparação da seleção para a Copa completamente alheia a uma avaliação crítica mais contundente. A seleção se formou a partir de uma espécie de consenso, sem ser de fato testada, tudo a partir do argumento objetivo de ter se sagrado campeã da Copa das Confederações, evento que se realizou no olho do furacão das manifestações de junho de 2013 e cujo título serviu para criar o artifício de uma coesa contraposição patriótica à contestação política.

E lá foi a seleção, “que nem marquês de Pombal”, blindada com a marca de salvadora da pátria. Isso já ia mal!

Envolvida na própria fantasia criada, que se alimentava da comoção de entoar o “hino a capella”, que rapidamente foi assimilada como uma marca da seleção, a comissão técnica se viu na contingência de ter que manter os jogadores que participaram daquele torneio, um torneio que, todos sabem, não tem um valor efetivo. Mas, enfim, a fantasia já estava arraigada aos corações e mentes de todos. Resultado: chegou-se à Copa do Mundo com uma seleção com deficiência técnica no conjunto, sem estrutura de jogo e sem opções para reagir diante de adversidades criadas por rivais preparados sem esse fardo.

Com raras exceções, como, por exemplo, a do craque Neto, que reiteradamente insistia em dizer que o Luis Fabiano deveria ser o reserva do Fred, foram pouquíssimas as vozes dissonantes com relação à convocação.

Sem a influência da fantasia seria óbvio perceber que o Neymar não poderia ser o líder da equipe e que faltava alguém – um menos “bom moço” – que assumisse a responsabilidade em campo de arrumar o time e outros que pudessem dividir com o Neymar o peso de decidir os jogos. Não se está dizendo que jogadores com essas características existiam e cobrando nomes. Mas a mera ausência já exigia uma preparação diferente.

Claro que neste aspecto a crítica de Neymar, inicialmente reproduzida, toma corpo, exatamente no sentido de que agora fica fácil falar isso… Mas o que estou pontuando não é qual a convocação deveria ter sido feita e sim que a fantasia criada em torno da Copa das Confederações impediu que se pudesse ter visto as deficiências, no conjunto, do time, indo, aliás, muito além disso, pois a conquista chegou a conferir aos jogadores o excessivo patamar de “pop stars”, o que, claro, foi incentivado por patrocinadores, como forma de alavancar negócios.

3. “Um pega lá no toma-lá-dá-cá”

Consciente de que tinha nas mãos a equipe talhada para ser campeã, na perspectiva do governo o que restava era apenas garantir que a Copa ocorresse sem transtornos, pois o título viria como a cereja do bolo que anularia qualquer crítica à realização do evento.

As manifestações de junho foram violentamente rechaçadas em nome da Copa das Confederações e o sucesso atingido conferiu o direcionamento: impedir que as contestações populares ao evento tivessem lugar. E se visualizou a “Copa das tropas”.

A fantasia já criada em torno da seleção foi transportada para o campo administrativo e político. A Lei Geral da Copa estabeleceu um Estado de Exceção na ordem constitucional brasileira, mas a população foi levada a crer que isso de fato não ocorria e que todos os que apresentavam argumentos com alguma racionalidade objetiva estavam apenas tentando inviabilizar o evento e querendo abalar a estabilidade política do governo.

Por mais que estivessem claros os absurdos jurídicos cometidos na preparação para a Copa com: a) as remoções de famílias; b) a criação de um “local oficial de competição” reservado à FIFA e suas parceiras para comercialização exclusiva; c) a institucionalização do trabalho voluntário na realização de serviços ligados a um empreendimento econômico; d) o permissivo da exploração do trabalho infantil nas atividades ligadas aos jogos, incluindo a de gandula; e) a liberdade conferida à FIFA para atuar no mercado, sem qualquer intervenção do Estado, podendo, inclusive, fixar o preço dos ingressos como bem lhe aprouvesse e mesmo assim a entidade ainda se viu envolvida na formação de um mercado paralelo de ingressos; f) a eliminação do direito à meia-entrada; g) o afastamento da aplicação do Código de Defesa do Consumidor; h) a ausência de fiscalização efetiva das condições de trabalho nas obras dos estádios, das quais decorreram oito mortes e inúmeros acidentes (não contabilizados); i) a isenção tributária à FIFA; j) a restrição à atividade dos ambulantes; l) o incentivo à formação de relações de trabalho por intermédio da terceirização; a fantasia falava cada vez mais alto.

Assim, para atender o compromisso de realizar aquela que se passou a anunciar como a “Copa das Copas” e permitir a curtição do futebol nos estádios, no Fan Fest, em bares, no sofá da sala ou no churrasco com amigos, regado a muita “birita”, era preciso difundir a ideia de que nenhum problema de fato estava ocorrendo, fazendo acreditar que ser brasileiro era necessariamente torcer para a seleção e que tudo o mais não importava naquele momento, impulsionando, desse modo, um espírito de massa, próprio aos regimes totalitários, que se legitimam no Estado de Exceção.

A fantasia em favor da comoção e do ópio tinha, ainda, que desqualificar todos que falavam dos problemas da Copa, mesmo que apenas quisessem, como ocorria a muitos, firmar sua posição quanto à impropriedade de se ter destinado dinheiro público para realizar a Copa exatamente no momento em que a população tinha ido às ruas para pleitear melhorias nos serviços públicos ligados aos direitos sociais e no que se refere aos riscos a que se submetia toda a população com a abertura às práticas policialescas e de supressão de direitos democráticos, notabilizando-se o prejuízo histórico à classe trabalhadora.

Na perspectiva das manifestações populares, essa “derrota” foi imposta pelo uso da força policial, promovendo-se um grave retrocesso na forma democrática de encarar as mobilizações, isso se tomarmos como referência o padrão atingido em junho de 2013. Chegou-se mesmo a estabelecer uma associação entre a União e os diversos Estados da Federação, independente de filiação partidária, para instituição de uma “política federativa de segurança”, conforme assumiu a Presidenta Dilma2. Tudo para abafar as mobilizações populares, tendo se chegado ao ponto da total supressão do direito de manifestação e de reunião, como se deu no primeiro dia da Copa em São Paulo, quando uma manifestação foi impedida de iniciar, e no dia 1º. de julho, em ato realizado, também em São Paulo, na Praça Roosevelt, que restou sitiada por um contingente de policiais no mínimo três vezes superior ao número de participantes. A repressão foi acompanhada da tática de criminalização, que vitimou em São Paulo, os estudantes Murilo Magalhães e Fábio Hideki Harano e o professor Rafael Marques, estes últimos dois presos desde o dia 23 de junho, e instigou, no Rio de Janeiro, a prisão preventiva de 19 ativistas, um dia antes do último jogo da Copa, diante da iminência da ocorrência de manifestações.

A associação política foi acompanhada de um ajuste tácito em torno dos potenciais benefícios econômicos da Copa, fazendo com que vários meios de comunicação, que antes davam destaque aos problemas na preparação para a Copa, com a proximidade do evento, passassem a retirar esses questionamentos do noticiário como se nunca tivessem ocorrido.

4. “Rola a bola”

E quando rolou a bola a fantasia rolou solta. A cada chute, a cada drible, a cada gol, a cada virada, mídia e governo exaltavam a beleza da “Copa das Copas”… E como os estádios ficaram prontos, os aeroportos não ficaram entulhados, as manifestações foram abafadas e se esqueceram os problemas que envolveram a preparação para o evento, foi o momento de atacar os “pessimistas”, afirmando-se que os críticos que tinham feito apostas contra a capacidade do Brasil de organizar um evento dessa envergadura tinham perdido.

Verdade que muitas das premonições contra a Copa, como as que diziam respeito às deficiências de infra-estrutura, eram mesmo exageradas, embora não de todo despropositadas, vez que muitas obras foram concluídas no último instante e tantas outras sequer foram acabadas. De todo modo, problemas na preparação para a Copa existiram e mesmo que ainda estivessem produzindo efeitos concretos, sobretudo no que tange à exceção do Estado Constitucional, a fantasia criada em torno do evento buscava fazer com que os problemas fossem transformados em abstrações de conspiradores, vez que, em concreto, o que se via – como se queria ver – eram torcedores, de várias nacionalidades, entrando e saindo felizes dos estádios, deliciando-se com jogos emocionantes.

5. “Água de benzê, linha de passe e chimarrão”

E a seleção brasileira? Bem, a seleção brasileira foi a representação perfeita dos perigos de tentar viver no mundo da fantasia e dos efeitos deletérios da perda da racionalidade humana.

Transportando para a Copa do Mundo a fantasia da Copa das Confederações, os jogadores da seleção brasileira entraram em campo no primeiro jogo assumindo o papel de “salvadores da pátria”, da pátria com chuteiras. E dá-lhe hino a capella!

Convencidos pela força midiática de que eram super heróis, super craques e símbolos máximos do sucesso econômico do futebol, entoados por uma forte emoção social e carregados do peso insuportável de sufocar os problemas do país, os jogadores se viram na contingência de se encontrarem com seus limites humanos e viram abaladas as suas próprias forças e habilidades.

A seleção, que já possuía, no conjunto, limitações técnicas e deficiência tática, experimentou ainda maiores dificuldades e jogou mal o primeiro jogo, embora tenha vencido.

Mas, claro, a fantasia continuou imperando e foi como se o jogo não tivesse ocorrido. “Tocou Neymar é gol!”

A empolgação com a seleção continuou sendo fortemente incentivada pela grande mídia, exceção feita – nos limites do que tive a possibilidade de ver e ouvir – aos profissionais da ESPN.

No segundo jogo, outro susto. Empate com o México e a seleção novamente não se viu bem. No entanto, comissão técnica e jogadores pareciam estar em um universo paralelo. Para eles, tudo estava sob controle…

Depois, vitória sobre Camarões!!! E na visão fantasiada a seleção tinha encontrado o rumo definitivo dos bons resultados.

Os três jogos já demonstravam claramente que a seleção não estava bem e que corria muitos riscos no jogo contra o Chile. Mas os prognósticos eram: o Brasil passa, com certeza.

Passou, mas por muita, muita sorte, além, é claro, por conta da incompetência dos atacantes do Chile e bastante em razão da habilidade do goleiro Júlio César em pegar pênaltis.

Naquele instante já era possível vislumbrar a situação da seleção brasileira como a daquele time que no campeonato brasileiro fica quase todas as rodadas na zona de rebaixamento e que, faltando poucas rodadas para o término da competição, ainda tem chances matemáticas de não ser rebaixado, bastando para tanto que conquiste 12 nos últimos 15 pontos em disputa. Ora, ainda que matematicamente isso seja possível, não é muito razoável supor que um time que tem, por exemplo, cinco vitórias em todo o campeonato possa vencer quatro adversários nos últimos cinco jogos.

Os analistas profissionais da ESPN, por isso mesmo, continuavam fazendo suas advertências quanto à fragilidade coletiva e tática da seleção brasileira, mas no império do mundo da fantasia eram tachados de negativistas. O Brasil estava jogando mal e não era razoável supor que passasse a jogar bem de uma hora para outra, ainda mais porque entre os convocados não havia quem pudesse ser utilizado para mudar, radicalmente, a forma de jogar, que continuava sendo, “tocou Neymar é gol”.

Foi então que a fantasia da Copa se aliou à realidade totalitária e alguns jornalistas críticos da seleção foram chamados para uma conversa privada, na qual se tentou convencê-los de que não era conveniente que continuassem expressando suas compreensões. A reunião, segundo se relatou, foi amistosa e, em concreto, não repercutiu na postura dos jornalistas. De todo modo, ocorreu e só isso demonstra o quanto o mundo da fantasia se incomoda com racionalidades.

O jogo contra o Chile foi o fundo do poço e a forma como os jogadores desabaram ao final da partida impunha que a comissão técnica reconhecesse o exagero de todo o artificialismo em que a seleção estava envolvida.

Quando se esperava que um pouco de racionalidade fosse produzida, nova fantasia foi criada para manter a euforia em torno da seleção e blindar a comissão técnica: tudo não passava de problemas emocionais; nada que um trabalho psicológico de dois dias não resolvesse.

Com a vitória sobre a Colômbia por 2 a 1 a fantasia se consagrou de vez. A euforia não permitiu que se percebesse, no entanto, o quanto a Colômbia, naquele jogo específico, deixou a desejar.

Mesmo a perda trágica do Neymar, por contusão, do ponto de vista do efeito na seleção, foi minimizada, sendo transformada, por nova fantasia, em alimento para uma comoção social e para a extração de mais energia dos demais jogadores.

Em paralelo, a morte de duas pessoas e o ferimento de outras vinte e três no dia 03 de julho, um dia antes do jogo contra a Colômbia, em Belo Horizonte, decorrentes do desabamento de um viaduto, obra inacabada que seria destinada à mobilidade para a Copa, financiada pelo PAC da Copa, sob a responsabilidade do governo municipal e realizada por grandes empreiteiras, algumas já envolvidas em questões ligadas à falta de segurança dos trabalhadores, como atesta ação civil pública movida pelo Ministério Público do Trabalho na Bahia (Vara do Trabalho de Ipiaú)3, foram igualmente conduzidos ao plano da abstração, não atingindo a comoção social devida (bem ao contrário do que se deu com a contusão do Neymar, que foi, por certo, muito triste), até porque não era o momento de expor questionamentos que pudessem abalar a performance da seleção em campo. A realidade dos problemas da preparação para a Copa se fazia presente, mas em nome da fantasia era desconsiderada.

6. “Não tem, vai pão com pão”

No plano do futebol, até então, concretamente, a seleção brasileira não havida jogado nenhuma partida de forma convincente e sem Neymar findou-se a única tática existente do “tocou Neymar é gol”. Além disso, sem Thiago Silva a “melhor defesa do mundo” já não seria igual. Era fácil saber, portanto, que o jogo contra a Alemanha seria uma parada duríssima e que o prognóstico mais próximo da realidade era o da derrota da seleção brasileira. Claro que no futebol tudo é possível, mas mesmo o imponderável tem limites e o jogo, de fato, se resolve em campo pela somatória de atuações e a estratégia utilizada. Não basta empolgação, raça ou força de vontade. Mas na fantasia alimentada a seleção era a melhor do mundo e seria ainda melhor sem o Neymar porque os demais jogadores, mesmo extenuados por terem tido que jogar carregando 200 milhões de brasileiros nas costas e por terem tido que fazer valer os compromissos comerciais assumidos pela CBF, jogariam pelo Neymar…

A comissão técnica não apenas foi envolvida neste clima como o incentivou. Ora, na qualidade de uma “comissão técnica” cumpria-lhe ter tido a percepção de que a situação punha a seleção brasileira em uma condição de inferioridade frente à seleção alemã. Mas não, mesmo tendo colocado em campo um “catado” que nunca havia atuado junto, armou a seleção indo para cima dos alemães, que jogam juntos há vários anos não só na seleção mas no próprio campeonato alemão, e mesmo levando um gol aos dez minutos, quando já era possível prever uma goleada, manteve a mesma forma de jogar: desesperada no ataque e atabalhoada na defesa.

Dir-se-á: agora é fácil falar! A questão é que a fantasia em que todos estavam envolvidos não permitia que a totalidade da situação fosse examinada, até porque naquela altura os interesses políticos e econômicos já se davam por satisfeitos e mesmo a derrota poderia ser alimento para novas fantasias…

Aliás, antes da partida contra a Alemanha foi sentenciado: independente do resultado do jogo, “o Brasil já se sente vitorioso!”

7. “Rabada com angu”

Só que a fantasia do futebol de tanto ser utilizada se vingou e resolveu trazer a realidade à tona: Alemanha 7, Brasil 1.

Em concreto, a soberba, a deficiência técnica, a falta de organização e o excessivo envolvimento do futebol com política e relações comerciais acabaram por expor a seleção brasileira a um vexame histórico, mas que acabou sendo necessário, pois somente uma hecatombe poderia extrair o Brasil do local mais profundo da irracionalidade em que se encontrava.

A goleada de 7 a 1 traduziu, exatamente, a distância na preparação que separava as duas seleções.

Na preparação, enquanto a seleção brasileira sofreu das conseqüências do artificialismo, incluindo a infantilização a que foram submetidos os jogadores, que serviram, também, todo o tempo, como garotos-propaganda de algumas marcas e de uma rede de televisão, a Alemanha se postou como uma seleção focada a um objetivo específico: jogar bola.

Naquele instante a análise já seria bastante óbvia, sem possibilidades de digressões. A fragilidade da seleção brasileira ficou à mostra, assim como a superioridade técnica da Alemanha.

8. “Um som bordão bordando o som, dedão, violação”

Era hora, pois, de trazer os problemas à tona, assumi-los e pensar sobre eles. Mas após tanto tempo no mundo da fantasia não apenas ficou definhada a capacidade de raciocinar, como se perdeu mesmo a vergonha de ofender a inteligência alheia.

Depois do jogo cheguei a rascunhar um artigo com o título, “enfim a razão”, supondo que diante das obviedades extraídas da partida não se teria mais lugar para fantasias.

Qual não foi a surpresa quando a comissão técnica veio a público para dizer que a preparação da seleção não teve nenhum erro e que no jogo com a Alemanha o que aconteceu foi apenas um apagão de 06 minutos, tendo sido o resultado final fruto do inexplicável e do acaso…

Neste instante fui invadido de extrema perplexidade e me lembrei de uma conversa que tive no começo desse ano com alguns alunos na Faculdade, quando falávamos sobre o quanto 2014 submeteria a nossa condição humana a testes extremos, isso porque já se podia verificar uma escalada da irracionalidade sobre diversos assuntos e diante da Copa e das eleições tal situação tenderia a se aprofundar.

Mas não foi só. Também o governo que se valeu da seleção e da Copa para abafar as mobilizações populares, passou a adotar uma postura de se desvincular do futebol, destacando apenas o seu papel de organizador do evento. Mas, para não perder a oportunidade de criar nova fantasia, exaltou a capacidade do povo brasileiro de superar a derrota: “Ser capaz de superar a derrota, eu acho que é a característica e marca de uma grande seleção e de um grande país”, disse a Presidenta, deixando a entender que as ausências de Neymar e Thiago Silva foram os fatores determinantes da derrota4.

E, deslocando-se, plenamente, do resultado, preconizou que a Copa foi uma “das melhores” já realizadas, “e isso é em grande parte devido à capacidade do povo brasileiro para oferecer hospitalidade e receber bem torcedores  de todo o mundo”5.

Ou seja, mesmo com o histórico 7 a 1, o que se verificou foi a produção de novas irracionalidades, desenvolvidas no mundo da fantasia, para gerar a sensação de que a goleada simplesmente não havia ocorrido ou que não estivesse ligada a algum problema na formação, preparação e treinamento da seleção.

9. “Naco de peru”

Convencida da própria versão e com o alimento retórico de “Dona Lúcia”, a comissão técnica, que não viu nenhum erro na atuação do Brasil e que foi prestigiada pela CBF, muito rapidamente recuperou o “alto astral”. Foi para o jogo contra a Holanda como se estivesse indo para uma festa cívica, alimentada por novas fantasias, como a de reintegrar o Neymar à delegação e até conduzi-lo ao banco de reservas, para atrair a simpatia do público.

Assim, a seleção brasileira entrou em campo contra a Holanda como se nada tivesse ocorrido e mesmo a torcida foi induzida a acreditar que as coisas voltariam à normalidade artificialmente construída, recuperando a esperança em torno da realização de uma partida técnica e plasticamente perfeita da seleção.

No entanto, conforme já denunciava o 7 a 1, a realidade era a de que seleção brasileira, independente da qualidade individual e da dedicação dos jogadores, no conjunto estava mal.

E a fantasia do futebol se rebelou novamente: 3 a 0.

10. “Sereno e pé no chão”

Com 10 a 1 na conta (somados os dois jogos) não é mais possível deixar de reconhecer que a própria fantasia está exigindo que se recobre a razão a partir de postulados da realidade e é preciso que isso se faça urgentemente, ainda que de forma serena, com pé no chão.

Por conta da derrota no futebol, não me parece devido fazer divagações acerca do caráter nacional, ou coisa que o valha, fazendo alusões a um suposto “complexo de vira-lata”. Talvez o mais apropriado seja tentar identificar os problemas das entidades responsáveis pela organização do futebol, que atingem outras instituições brasileiras, e para tanto cumpre dar destaque à leitura sociológica que aponta os efeitos negativos da ausência de uma revolução social. Lembre-se que sequer uma revolução burguesa em sua forma clássica se produziu entre nós, conferindo-nos um capitalismo dependente, que nega a existência da sociedade de classes e que está envolto em formas de conciliação com o passado6, gerando um legado de preservação e acúmulo de lógicas escravistas, oligárquicas e anti-democráticas, além de práticas de corolenismo, clientelismo e fisiologismo. Essa situação, aliás, teria conferido um caráter autocrático à burguesia brasileira e o apego a um liberalismo dissimulado, que se vale da estrutura repressiva de poder para manter as desigualdades e impor submissão e acomodamento diante das adversidades à classe dominada, à qual se apresenta apenas o refúgio e a retórica de identidade, assim como a “liberdade”, nos eventos festivas7, também como forma de abafar as tragédias cotidianas.

Isso não quer dizer que o povo tenha assistido a tudo bestializado8 ou também que não tenham havido no Brasil inúmeras lutas sociais, sobretudo no âmbito da classe trabalhadora, o que é suficiente, inclusive, para negar a suposta apatia do povo brasileiro, mas não a alienação, obviamente, que é típica no capitalismo. Essas lutas, ademais, têm se intensificado nos últimos anos, sobretudo a partir de junho do ano passado, fazendo com que, neste aspecto, o Brasil esteja bem melhor que a seleção.

Fato é que não dá para continuar vivendo na fantasia. Mas mesmo com o 10 a 1 sair dela não é um passo muito simples, como se possa supor. Após o 10 a 1, o indignado Mauro Cezar Pereira desabafou: “agora só falta alguém dizer que a campanha do Brasil foi a melhor desde 2002”. E como ressaltou o próprio jornalista em questão: “e não é que o Felipão disse isso!”

Essa forma de análise, que nega os fatos, é uma agressão à inteligência de todos e serve para, mais uma vez, mascarar a realidade, fazendo pouco caso da vida em si. Ora, a seleção brasileira, seguramente, embora tenha passado por Chile e Colômbia, teve uma das piores performances entre todas as equipes do campeonato, tendo batido várias marcas negativas…

E cabe aqui uma advertência, que considero muito importante: tratar do assunto Copa e da performance da seleção brasileira exige o cuidado de não se deixar reconduzir ao mundo da fantasia, ainda que se esteja buscando uma racionalidade interna.

Assim, o primeiro passo que se deve dar para sair das amarras da fantasia é devolver o futebol ao limite de sua importância. Não é mais possível sustentar uma nação sobre a fantasia do futebol. Futebol é bom e a gente gosta, como se dá, ademais, em diversos outros países, não sendo, pois, um privilégio, para o bem e para o mal, do Brasil. Mas essa história de que o Brasil é o país do futebol é um estereótipo que nega a sua própria razão de ser como nação. Aliás, a diversidade de nações, visualizadas em posições contrapostas, é um elemento cultural, político e econômico a ser superado.

É importante perceber, também, o quanto o futebol se tornou uma fonte de sustento do modelo capitalista, produzindo riquezas para alguns poucos e entretenimento entorpecente para tantos outros.

Claro que não se pode desprezar a força do futebol, até porque o resultado positivo em campo acaba sendo utilizado para reforçar fetiches e mascarar os problemas sociais, assim como o resultado negativo na Copa pode servir como alimento para superar os obstáculos ao raciocínio, somando-se, ainda, o quanto a postura política dos jogadores pode auxiliar nas mobilizações sociais, como se deu com o jogador Sócrates na campanha pela democratização do país.

11. “É sola, esfola, cola, é pau a pau”

No presente momento é de suma importância ter a capacidade de se afastar da fantasia da Copa. Temos, agora, a grande oportunidade de voltar à realidade na busca de, enfim, construir uma sociedade efetivamente justa.

Claro que o péssimo resultado futebolístico na Copa, que reflete problemas estruturais, impõe que se pense nas necessárias mudanças no futebol, que envolvem, também, o reconhecimento dos direitos dos atletas, a superação da lógica autoritária dos clubes, a fixação de uma concreta responsabilidade fiscal no setor, o respeito aos direitos dos consumidores etc. Mas o assunto principal que nos deve impulsionar neste momento não é este. Principalmente, não devemos nos limitar a esse debate, vez que isso apenas nos condenaria a viver na fantasia, alastrando-a até a outra Copa daqui a quatro anos.

Reitero: são importantes as reivindicações do Bom Senso Futebol Clube quanto aos direitos dos jogadores e à democratização da administração do futebol e é mesmo relevante a postura do Estado em estimular as práticas atléticas, tanto no futebol quanto em outros esportes. Mas essa não pode ser a prioridade brasileira neste instante. Ou, pelo menos não deve ser a única preocupação.

Ultrapassado o grande risco da supressão plena da racionalidade que o período da Copa representou, a prioridade agora só pode ser a do esforço concentrado – que o país tem condições de assumir, como se viu, afinal, no momento de preparação para a Copa – em torno da efetivação dos direitos sociais, sobretudo no que se refere à moradia, à educação pública e gratuita de qualidade, à saúde pública, ao transporte gratuito para todos, ao trabalho digno, ao acesso à cultura, acompanhada de uma política concreta de melhor distribuição da riqueza produzida e da ampliação e concretização das práticas democráticas, notadamente no que se refere à participação nos entes deliberativos e às formas públicas de reivindicação.

É preciso, além disso, ficar muito atento, pois neste período pós Copa há também o grande risco de se tentar manter a sociedade envolvida com as artificialidades da Copa, que podem até gerar novos gastos para a promoção de outros grandes eventos nos estádios que foram construídos exatamente para não incorrer na crítica da ausência de um legado com os estádios, dificultando e atrasando ainda mais a obra em torno daquilo que prioritariamente deve interessar à sociedade brasileira.

É emergencial, sobretudo, retomar a vigência do Estado Democrático de Direito, a começar pela libertação de todos os presos políticos, que foram conduzidos a tal situação durante o Estado de Exceção da Copa, valendo lembrar que o legado autoritário de 21 anos de ditadura ainda está estruturado em muitas de nossas instituições.

É essencial, também, reparar os danos já gerados a vários cidadãos brasileiros no período da preparação para a Copa, especialmente no que se refere às famílias removidas; às vítimas dos acidentes do trabalho e da pressão na execução das obras; aos trabalhadores ambulantes etc.

Aos trabalhadores em geral, enfim, cumpre que não permitir que se promova um aprofundamento dos erros já iniciados no momento de preparação para a Copa, sobretudo no que tange às deteriorações das condições de trabalho (com pressão para a realização dos serviços e intensificação do trabalho em horas extras), à negação ao direito de greve e ao incentivo à terceirização.

Nunca é demais lembrar que o governo federal, ao se ver envolvido com o desafio de organizar a Copa, acabou por se associar à FIFA (e suas parceiras econômicas) e como condição para a realização do evento se viu na contingência de patrocinar uma excepcionalidade na ordem jurídica constitucional, sobretudo em favor de alguns segmentos do setor econômico, do que se originou, inclusive, a malfadada “Lei Geral da Copa”.

Para a construção dos estádios em tempo recorde fez-se vista grossa à forma de atuação de empreiteiras no processo produtivo. Essa situação provocou um retrocesso na luta que vinha sendo travada contra a terceirização na construção civil, sendo bastante oportuno lembrar que as empreiteiras são grandes financiadoras de campanhas eleitorais, de diversos partidos políticos9.

Essa aproximação do governo com o setor econômico gerou uma conta, que está sendo paga com a adoção de uma política repressiva, institucional e midiaticamente organizada, contra o direito de greve, sendo seguida do anúncio de medidas de precarização das relações de trabalho, como forma de favorecer ao novo ciclo da “competitividade produtiva”, conforme anunciou a Presidenta Dilma10.

Na linha das iniciativas precarizantes projetam-se a ampliação da terceirização e o incentivo à negociação coletiva, além da instituição de formas não estatais de solução dos conflitos trabalhistas. É possível verificar esse direcionamento no Projeto de Lei recentemente apresentado pelo governo, que visa à criação do SUT – Sistema Único do Trabalho, no qual as figuras em questão ganham destaque.

No que tange à terceirização especificamente, o governo, diante da pressão sofrida pelo meio sindical, deixou de lado a defesa que vinha fazendo abertamente do Projeto de Lei. 4.330, que ampliava a terceirização, tendo sido a questão encampada pelo Supremo Tribunal Federal, que reconheceu, no Recurso Extraordinário com Agravo (ARE) 713211, a repercussão geral de um julgamento que envolve a definição acerca da amplitude jurídica do fenômeno econômico da terceirização.

Os trabalhadores, a Justiça do Trabalho e os defensores dos direitos dos trabalhadores em geral devem perceber o contexto de retração de direitos que foi iniciado no período de preparação para a Copa, que se reforçou durante o evento e que tende a se consolidar e até a se ampliar no momento posterior, que, ademais, está atrelado à preparação para as Olimpíadas de 2016. E já adiantando um debate necessário a respeito das Olimpíadas, cumpre registrar que após vários anos da definição de que o Brasil sediaria o evento, não se implementou uma política efetiva de formação de atletas, sendo os jovens brasileiros ainda conduzidos ao triste dilema entre estudar ou treinar, pois o esporte não está atrelado à educação, como se dá, por exemplo, nos Estados Unidos.

Voltando ao aspecto dos direitos trabalhistas, cumpre reconhecer que a triste realidade dos trabalhadores no Brasil não é uma novidade ou mesmo uma exclusividade determinada pela Copa, até porque o histórico brasileiro é o do desrespeito reiterado aos direitos trabalhistas e do massacre cultural à relevância desses direitos. Mas as circunstâncias atuais são preocupantes, visto que o entorpecimento favorecido pela Copa e pela proximidade das eleições tende a dificultar as compreensões sobre o fenômeno da precarização, obstando as ações de resistência.

Cumpre destacar que em infeliz coincidência, a precariedade das relações de trabalho conduziu o Brasil a outro quarto lugar. Esse quarto lugar, no entanto, envergonha muito mais do que o da Copa. De fato, o Brasil tornou-se o quarto país do mundo em número de acidentes fatais no trabalho11.

Interessante que os trabalhadores mais suscetíveis a acidentes são os motoristas, os agentes de segurança, os trabalhadores da construção civil e os trabalhadores rurais e as reformas jurídicas que estão sendo preconizadas direcionam-se, exatamente, para reforçar a precariedade nestes setores.

A terceirização é utilizada em larga escala nos serviços de segurança, na construção civil e no transporte e “segundo dados do Dieese, o risco de um empregado terceirizado morrer em decorrência de um acidente de trabalho é cinco vezes maior do que nos demais segmentos produtivos”12. A ampliação vislumbrada, ademais, faz supor que também o meio rural será atingido por uma terceirização mais intensa, valendo acrescentar que no meio rural a atuação da fiscalização do trabalho é bem menos efetiva.

Por oportuno, lembre-se que também tramita no Congresso Nacional um projeto de lei para revogar a lei que limitou a jornada de trabalho dos motoristas.

Outra conta cobrada pelo setor econômico foi a suspensão, já autorizada pelo Ministério do Trabalho, da aplicação da NR12, que regulamenta a forma das atividades produtivas com máquinas. Só que em 2013, “apenas 11 tipos de máquinas e equipamentos (como serras, prensas, tornos, frezadoras, laminadoras, calandras, máquina de embalar) provocaram 55.118 infortúnios, o que representa mais de 10% do total de 546.014 acidentes típicos comunicados pelas empresas no Brasil”13.

Essa tendência de precarização não é fantasia e caso se consolide anula por completo qualquer efeito benéfico que se queira vislumbrar com a realização da Copa, ainda mais quando se lembra de todos os problemas havidos na preparação para o evento. A situação é concreta e sem o entorpecente da Copa não se a pode eliminar com artificialismos retóricos. Assim, a única forma concreta para que o governo do Partido dos Trabalhadores não se veja relacionado a ela é vir a público rechaçá-la, assumindo uma política de rejeição a todas as formas de redução dos direitos trabalhistas e de repressão à mobilização de classe dos trabalhadores, indo, aliás, em sentido inverso, implementando as condições materiais necessárias para uma atuação efetiva da fiscalização do trabalho e impulsionando a adoção de novas formas jurídicas de proteção aos trabalhadores, notabilizando-se a co-gestão de empresas por seus empregados e a proibição de dispensas socialmente injustificadas, para falar de dois exemplos extraídos da realidade alemã.

O que não dá é que:

“…fique na banheira, ou jogue pra torcida
Feliz da vida!”

Notas

[1]. Os subtítulos foram extraídos da belíssima música, Linha de Passe, de João Bosco e Aldir Blanc, de 1979, como forma de prestar uma homenagem aos protagonistas do programa Linha de Passe da ESPN Brasil, por terem trazido racionalidade ao obscurantismo da Copa, e também para lembrar que o Brasil é bem mais que futebol.

[2]. http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/07/1484968-dilma-diz-que-seu-governo-sera-marcado-pelo-investimento-em-infraestrutura.shtml

[3]. http://www.bahianoticias.com.br/noticia/157170-empresas-responsaveis-por-viaduto-que-desabou-em-bh-participam-de-obras-de-ferrovia-na-bahia.html

[4]. http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/07/dilma-diz-que-brasil-vai-superar-dor-relata-jornalista-da-cnn-no-twitter.html

[5]. http://g1.globo.com/politica/noticia/2014/07/dilma-diz-que-brasil-vai-superar-dor-relata-jornalista-da-cnn-no-twitter.html

[6]. FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaios de interpretação sociológica. São Paulo: Ed. Globo, 2006.

[7]. CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[8]. CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[9]. A empresa envolvida no desabamento do viaduto em Belo Horizonte, Construtora Cowan S/A, repassou R$ 2,8 milhões para campanhas eleições em 2012, ocupando a 73ª posição em relação às empresas que mais doaram para campanhas eleitorais naquele ano. A lista de doações é liderada pela Andrade Gutierrez (R$ 81,2 milhões), Queiroz Galvão (R$ 52,1 milhões) e OAS S.A. (R$ 44,1 milhões). http://www.contasabertas.com.br/website/arquivos/8943#sthash.qpqYf2fw.dpuf.

[10]. http://www1.folha.uol.com.br/poder/2014/07/1484968-dilma-diz-que-seu-governo-sera-marcado-pelo-investimento-em-infraestrutura.shtml

[11]. http://www.conjur.com.br/2014-jul-04/brasil-quarto-pais-numero-acidentes-fatais-trabalho

[12]. http://www.conjur.com.br/2014-jul-04/brasil-quarto-pais-numero-acidentes-fatais-trabalho

[13]. Cf. Alessandro da Silva e Vitor Araújo Filgueiras, in: http://reporterbrasil.org.br/2014/07/mais-de-55-mil-trabalhadores-sofreram-acidentes-com-maquinas-em-2013/

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Capa site_altaJorge Luiz Souto Maior é um dos autores do livro de intervenção Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?, junto com Andrew Jennings, Carlos Vainer, Ermínia Maricato, Raquel Rolnik, Antonio Lassance, MTST, Jose Sérgio Leite Lopes, Luis Fernandes, Nelma Gusmão de Oliveira, João Sette Whitaker Ferreira, Gilberto Maringoni e Juca Kfouri! Confira, abaixo, o debate de lançamento em São Paulo, do qual Souto Maior participou:

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Jorge Luiz Souto Maior é juiz do trabalho e professor livre-docente da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP). Autor de Relação de emprego e direito do trabalho (2007) e O direito do trabalho como instrumento de justiça social (2000), pela LTr, e colabora com os livros de intervenção Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil (Boitempo, 2013) e Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às segundas.

Onde o rato sumiu? Músicas com letras que me marcaram

15.07.14_Mouzar Benedito_LupcínioPor Mouzar Benedito.

Quando o governo Costa e Silva resolveu baixar o Ato Institucional número 5, o famigerado AI-5, só um membro do governo teve reação contrária: o vice-presidente Pedro Aleixo disse temer o resultado dele.

Alguém, acho que o próprio ministro da Justiça, Gama e Silva, autor do texto, ficou bravo e perguntou: “Você não confia nos nossos generais?”.

Pedro Aleixo respondeu: “Nos generais, eu confio. O que eu não confio é no guarda da esquina”. Bom, eu não confiaria nem nos generais nem nos guardas da esquina, mas realmente, com o endurecimento da ditadura, tudo quanto é “guarda da esquina” passou a se sentir uma grande “otoridade” e cometer abusos de todos os tipos. Porteiro de prédio, por exemplo, se julgava imperador do condomínio, se sentia com poderes para ameaçar quem quer fosse, de visitas a moradores.

Um exemplo que me lembro bem dessas “otoridades” é de um motorista de ônibus. Eu estudava Geografia na USP e muitos dos meus colegas gostavam muito de cantar. No ônibus da Cidade Universitária para o centro, no final das aulas, lá pelas onze da noite, o pessoal já entrava cantando, mas não era coisa barulhenta. Eram músicas bonitas, cantadas baixinho. Não chegava nem a incomodar quem estivesse conversando com outro passageiro.

Um dia, quando o pessoal foi entrando no ônibus, o motorista gritou: “Se cantar eu levo direto pra delegacia”.

Um dos meus colegas perguntou: “E falar, pode?”. O motorista ameaçou ficar bravo: “Tá me gozando?”. “Pode ou não pode?” “Claro que pode”. Aí esse colega começou a falar: “Meu coração, quando te vê, bate feliz, não sei porquê…”, e foi acompanhado por todo mundo “falando” a letra da música Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro.

A mais admirada do poeta

Lembrando dessa história e da música Carinhoso, vieram ao meu pensamento algumas letras maravilhosas da música popular brasileira. O poeta Manuel Bandeira disse certa vez que, se se fizesse um concurso para escolher “o verso mais bonito da nossa língua”, provavelmente votaria naquele que diz: “Tu pisavas nos astros distraída”, referindo-se à música Chão de Estrelas, de Orestes Barbosa e Sílvio Caldas. É uma música com letra inteira muito bonita, e esse verso faz parte da estrofe que diz:

A porta do barraco era sem trinco
e a lua furando nosso zinco
salpicava de estrelas o nosso chão .

E tu pisavas nos astros distraída,
sem saber que a ventura desta vida
é a cabrocha, o luar e o violão…

Acho bonito também. É uma letra muito poética. Fico admirado pensando não só nas maravilhas feitas por compositores bem formados, mas também por pessoas que tiveram uma vida dura e pouca formação escolar, como Cartola e Nelson Cavaquinho. Eles e muitos outros faziam letras muito elaboradas, até sofisticadas.

Mas gosto também de lembrar de outros estilos, do humor aos xingamentos.

Pobre, mas estiloso

De humor, nem vale lembrar Noel Rosa, um mestre. Cito João da Baiana, no samba Cabide de Molambo, que tem um trecho assim:

Meu Deus, meu Deus eu ando com sapato furado,
tenho a mania de andar engravatado.
A minha cama é um pedaço de esteira
e uma lata velha que me serve de cadeira.

Minha camisa foi encontrada na praia,
a gravata foi achada na ilha da Sapucaia;
meu terno branco parece casca de alho,
foi a deixa de um cadáver num acidente de trabalho…

Agora vejam uma sacada genial de Adoniran Barbosa, na música Tocar na Banda:

Num relógio é quatro e vinte,
no outro é quatro e meia;
é que de um relógio pra outro
as horas vareia.

Mestres das imprecações

Lupicínio Rodrigues, autor de músicas belíssimas, é mais lembrado por algumas no estilo dor de cotovelo e outras cheias de imprecações. Tinha cada samba-canção que deixava a gente com sensação de quase pavor. A música Vingança, por exemplo, diz no início:

Eu gostei tanto, tanto, quando me contaram
que lhe encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar…

No fim dela mesma, tem esses versos: 

Mas, enquanto houver força em meu peito
eu não quero mais nada:

Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar
Você há de rolar como as pedras
que rolam na estrada,
sem ter nunca um cantinho de seu
pra poder descansar.

Falando de imprecações, não poderia deixar o tango de lado. Certo, tango é argentino, não é brasileiro. Mas houve uma época em que era comum aqui, tinha inclusive bons compositores brasileiros dedicados ao gênero. E, para o meu gosto, um dos maiores cantores de tango de todos os tempos era o brasileiro Nelson Gonçalves, mais conhecido como intérprete de sambas-canções, mas que não deixava nada a desejar interpretando tangos, compostos aqui mesmo ou traduzidos.

Preciso lembrar aqui que tango, no início, na Argentina, não era música de tragédias. Foi criado por negros e suas letras eram alegres, até que foi assumido pelos brancos de classe média, aí sim virou uma coisa tão trágica que quando alguém tinha uma vida cheia de sofrimentos, aqui no Brasil, dizia: “Minha vida dá um tango”.

Embora lembrando de alguns tangos brasileiros, vou citar aqui um argentino que, acredito, foi o maior mestre das letras arrebatadoras e arrebentadoras. Seu nome é Enrique Santos Discépolo. Basta lembrar a letra de Cambalache, tango proibido na Argentina na época da ditadura. Aqui, ele foi cantado (em castelhano mesmo) por Caetano Veloso e fez o maior sucesso. Mas na linha das imprecações, um tango arrasador, de autoria de Discépolo, é Esta noche me emborracho, traduzido para o português (Esta noite me embriago) e cantado por Nelson Gonçalves. Falando de uma ex-amada, ele começa assim:

Triste, sozinha desprezada
a vi de madrugada sair de um cabaré.
Fraca, mostrando que a sorte
destruiu todo seu porte
sem lhe dar vez.

Magra, vestida sem aprumo
a exibir sem rumo sua nudez
fez de si um quadro sem valor
mostrando sem pudor
seu corpo sem calor…

Ex-namorada, por sinal, é tema de muitas letras malvadas, e não é só em tango que Nelson Gonçalves desanca uma. O samba-canção Revolta, dele e Raul Sampaio, tem um trecho assim:

É meu consolo acreditar que estás sofrendo
e em sua vida de prazeres vives louca…

Nessas imprecações, às vezes era preciso encontrar formas elaboradas para descrever a decadência de uma pessoa. Não valia dizer que “minha ‘ex’ virou puta e foi pra zona. Paguei pra transar com ela”. Vejam uma forma Adelino Moreira encontrou pra dizer isso, no samba-canção A flor do meu bairro, cantado por Nelson Gonçalves:

Hoje, depois de alguns anos,
Eu encontrei-me com ela
Na rua dos desenganos,
Menos ingênua e mais bela.

Ela fingindo desejo,
a boca me ofereceu.

E eu paguei por um beijo
que no passado foi meu.

Bronca e tristeza

Nestes tempos em que é “politicamente correto” tentar controlar a vida alheia, com um “bom-mocismo” esquisito, como o que tenta proibir as pessoas de fumarem (“é para o bem delas”, dizem os cínicos), se eu tivesse bom ritmo e boa voz, sairia cantando bem alto:

Se eu quiser fumar eu fumo,
se eu quiser beber eu bebo,
não interessa a ninguém.

Ah, o fim dessa estrofe é assim:

Se o meu passado foi lama
hoje quem me difama
viveu na lama também.

Noel Rosa, em seu samba Último Desejo, também falando de uma “ex”, dá seu recado aos desafetos:

Às pessoas que eu detesto
diga sempre que eu não presto,
que meu lar é um botequim.

Que eu arruinei sua vida,
que eu não mereço a comida
que você pagou pra mim.

Agora, um estilo que acho muito bonito é o de Batatinha, compositor baiano que quase caiu no ostracismo, e uma das pessoas que não deixaram acontecer isso, cantando suas músicas maravilhosas, é Maria Bethânia. Batatinha compunha músicas alegres, mas algumas com letras tristes, que pareciam não combinar com elas. Mas combinava, de maneira provocante e bonita. É o caso de O Circo, que começa assim:

Todo mundo vai ao circo,
menos eu, menos eu.

Por não poder pagar ingresso
fico de fora escutando as gargalhadas…

Para terminar, safadezas

Ah, as músicas com letras safadas… Escutei muitas por aí. E lembro de uma ouvida em Minas. Mas antes de falar dela, aí vai o motivo por que me lembrei da dita cuja: uma vez, numa véspera de Natal com a família quase toda reunida na chácara de um dos meus irmãos, os três filhos dele, meninos que, se me lembro bem, tinham respectivamente 8, 6 e 4 anos de idade, estavam numa fase de cantar e de vez em quando pediam a todos que os ouvissem interpretando musiquinhas infantis.

Chamei os três de lado e falei que ia ensinar uma música a eles. O mais velho falou: “Não, a mamãe falou que você só ensina bobagem pra gente”. Pensei: “Ah, é? Eu ia ensinar uma música bonitinha, mas agora vou mudar”. E falei: “É a música do Lelê. Pergunte pra sua mãe se lelê é palavrão ou bobagem”.

Ele foi e perguntou: “Mamãe, lelê é palavrão?”. Ela disse que não e ele falou: “Então o Mouzar vai ensinar pra nós a música do lelê”. Ela permitiu.

Eu ensinei, eles puseram todo mundo a postos para ouvi-los e cantaram pomposos, deixando a mãe furiosa:

Subiu um rato na perna da comadre,
veio o compadre pra ver o que aconteceu.
Tirou a roupa da comadre e sacudiu,
mas ninguém sabe, ninguém viu
onde o rato se escondeu.
Foi no lelê que o rato sumiu,
foi no lelê que o rato sumiu.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

Juca Kfouri: o que fica pro futebol brasileiro?

Juca_blogPor Juca Kfouri.*

O que é pior, o vira-latismo ou o puxa-saquismo? Se o primeiro se confundir com espírito crítico certamente o segundo é pior, porque mera bajulação. Comecemos pelo começo: a imagem do Brasil depois da Copa é muito melhor do que, com carradas de motivos, se imaginava antes dela. Fez-se, em resumo, um bom anúncio do país. Porque houve a festa que se imaginava que haveria nos estádios e não houve a tensão prevista fora dele.

Por incrível que possa parecer, Joseph Blatter, o poderoso chefão da Fifa, tinha razão: a sedução do futebol falou mais alto, ainda mais porque, paradoxalmente, se a Copa não apresentou nenhuma seleção inesquecível, mostrou jogos formidáveis, como uma homenagem ao país que já foi o do jogo bonito. Repita-se para suavizar o que virá a seguir: o Brasil ganhou a 20a Copa do Mundo da Fifa e ainda por cima prendeu gente dela que há décadas atenta contra a economia popular, um legado inestimável, exemplar, digno de ser aplaudido de pé assim como a hospitalidade nacional.

Tamanhas vitórias não escondem as derrotas e aqui não se fará nenhuma menção, além desta, à goleada alemã. Por falar nisso, em alemães, nossa Copa foi muito melhor que a da África do Sul, mas não foi, como organização, melhor que a de 2006. Claro, da Alemanha se espera perfeição e a Alemanha esteve perto disso. Do Brasil esperava-se uma catástrofe e o Brasil ficou longe disso. Contudo, na Alemanha não foram construídos elefantes brancos como os de Manaus, Cuiabá, Natal e Brasília, cujas contas jamais serão pagas a não ser que ocorra mais um milagre brasileiro.

Lá não morreram tantos trabalhadores, nem caiu viaduto com duas mortes, nem se desalojou tantas famílias, nem nada custou tanto a ponto de a nossa Copa ter superado o custo dos três últimos torneios e nenhum estádio foi invadido por torcedores como o Maracanã pelos chilenos. Tampouco faltou luz no jogo de abertura. Esquecer tais fatos em nome da imagem externa é que é o verdadeiro vira-latismo, como se a aprovação estrangeira nos bastasse.

É verdade sim que o governo federal, um mês antes de a Copa começar, partiu em busca de empatar um jogo que perdia por 4 a 0 e que conseguiu vencer, digamos,por 6 a 5 — o que exige elogios ao ataque assim como críticas à defesa. Ocorre que há quem queira fazer apenas elogios e outros que só desejam criticar, todos movidos ou por cegueira partidária ou por outros interesses.

Não se trata de negar o sucesso da Copa, mas de dizer que poderia ser melhor. Tudo, aliás, sempre pode ser melhor, por melhor que tenha sido. Trata-se de não esquecer o quanto custou em vidas e dinheiro, em desalojamentos e atrasos, em remendos de última hora, uma porção de coisas para as quais os estrangeiros não estão nem aí, mas que devem preocupar os que estão aqui e que, enfim, pagarão a conta. Porque outro legado da Copa é a consciência de que megaeventos são muito bons para quem os promove e para as celebridades que gravitam em torno,mas não são necessariamente bons para quem os recebe, razão pela qual será excelente se os próximos forem submetidos à consulta popular.

O turista que veio não se hospedou nos melhores hotéis nem comeu nos melhores restaurantes, preferiu albergues ou sambódromos, lanchonetes ou churrasquinhos de gato. Até mesmo os aeroportos inconclusos (o de Brasília é simplesmente espetacular, registre-se) suportaram bem a carga,entre outras razões porque o movimento foi menor que o normal neste período.

Em resumo: o Brasil ganhou a Copa de virada e o resultado pode ser considerado excepcional, digno de comemoração para irritação dos vira-latistas. Mas não foi de goleada como bimbalham os puxa-sacos. Além do mais, se o jogo acabou para o mundo, segue correndo no nosso campo. A um custo que ainda será mais bem apurado.

Democratizar o futebol brasileiro

O resultado em campo e a eliminação do Brasil não alteram, em nada, a minha opinião sobre a crise existencial que arrasa o futebol brasileiro há mais de uma década. O buraco é muito mais embaixo. Os que dirigem o futebol nacional não deram as caras, se esconderam em ambas oportunidades. Como de costume, evitaram e evitarão ao máximo falar sobre as propostas para o futuro pois não entendem bulhufas do que deve ser feito. Entendem de política, de se manter no poder, de explorar o futebol, de mamar nas tetas da vaca. E como disse o senhor José Maria Marin na primeira reunião do Bom Senso na CBF: “Posso afirmar que não temos nada a aprender com ninguém de fora, principalmente no futebol. Sempre tivemos os melhores do mundo no Brasil. Já vencemos cinco vezes a Copa”.

Ninguém tem necessidade daquilo que desconhece. “Coitado”, ele e seus pares achavam que tudo ia muito bem e que o talento bruto resolveria a questão. Não fazem ideia de que a Seleção Brasileira é o menor, apenas a ponta do iceberg (incrível dizer isso depois de tomar de 7), dos problemas do nosso futebol. Devemos aceitar esta derrota como mais uma das muitas importantes lições que a Copa nos trouxe até aqui. Se a procura por um legado era apenas para justificar o excesso dos gastos públicos, agora passou a ser o último lampejo de dignidade. Então proponho uma solução ao caos, DEMOCRATIZEM A CBF e salvem o futebol brasileiro.

Campeões, Bicampeões, Tricampeões, Tetracampeões, Pentacampeões, vocês que construíram o futebol brasileiro dentro de campo, estão convocados. Precisamos de vocês, precisamos ainda mais dos que já provaram sua capacidade fora de campo, gerindo, planejando, vivenciando o que há de melhor no futebol contemporâneo mundial.

Leonardo, Raí, Cafu, Juninho Pernambucano, Kaká, Ricardo Gomes, Roque Junior, Edmilson, Juninho Paulista, Vagner Mancini, Tite, Paulo Autuori e tantos outros, venham, passou da hora de discutirmos um plano de desenvolvimento nacional do futebol, de criarmos regras e licenças para capacitar os novos treinadores, de formar melhor as nossas jovens promessas, de desenvolver ou resgatar o estilo de jogo brasileiro, de proteger as boas práticas de gestão, de punir os infratores, de trazer a família de volta aos estádios de futebol, etc…

Se a CBF não promove esse debate, montemos a nossa Seleção fora dos gramados para desbancar a paralisia da entidade e desatar os nós das amarras políticas que impedem o desenvolvimento, a transparência e a democracia do nosso futebol.

Não os queremos apenas para que deem a cara e tenham a imagem explorada como aconteceu com alguns de nossos companheiros nos últimos anos. Queremos sua experiência, sua paixão pelo esporte, sua alma vencedora e incansável para concretizar mudanças significativas a longo prazo. Acadêmicos, cientistas, estudiosos também são bem vindos, o conhecimento de vocês é fundamental na construção de um novo rumo.

À imprensa e ao torcedor, digo: Não esperem milagres, não acreditem em soluções mágicas como uma simples troca de comissão técnica ou o aparecimento de um novo Neymar. Se o planejamento e o trabalho forem executados por pessoas competentes, apaixonadas e com conhecimento técnico em cada uma das diversas dimensões do futebol, ainda assim, levaremos pelo menos 10 anos para chegar lá. Uma caminhada de mil milhas começa com um simples primeiro passo.

Dilma e Aécio

A presidenta Dilma Rousseff está convocando o Bom Senso FC para uma reunião na sexta-feira da semana que vem para dar prosseguimento à conversa iniciada no último dia 26 de maio, quando se manifestou solidária com o movimento e convencida de que o legado da Copa do Mundo para o futebol brasileiro deve ser a urgente reforma de seus métodos de gestão e a correspondente democratização de suas práticas.

“Agora que temos os estádios, como fazer para mantê-los lotados?”, pergunta a presidenta ao mesmo tempo em que responde: “A grande lição da Copa é a necessidade de reformar o futebol brasileiro”.

Aécio Neves é amigo de José Maria Marin e o homenageou, escondido, no Mineirão. Deu-se mal porque o que escondeu em sua página na internet, Marin mandou publicar na da CBF. Aécio também é velho amigo de baladas de Ricardo Teixeira e acaba de dizer que o país não precisa de uma “Futebras”, coisa que ninguém propôs e que passa ao largo, por exemplo, das propostas do Bom Senso FC.

Uma agência reguladora do Esporte seria bem-vinda e é uma das questões que devem surgir neste momento em que se impõe um amplo debate sobre o futuro de nosso humilhado, depauperado e corrompido futebol. Mas Aécio é amigo de quem o mantém do jeito que está. Não está nem aí para os que reduziram nosso futebol a pó.

* Este artigo é uma compilação de textos extraídos do Blog do Juca Kfouri.

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Juca Kfouri assina a quarta-capa do livro de intervenção Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Novo título da coleção Tinta Vermelha da Boitempo, o livro está à venda por apenas R$ 10,00, em versão impressa, e R$ 5,00, em versão eletrônica (ebook). Baixe uma amostra grátis do livro clicando aqui.

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BRASIL EM JOGO500

Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Bernardo Buarque de Hollanda, Mike Davis, Ricardo Gozzi, Pier Paolo Pasolini, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Juca Kfouri é formado em ciências sociais pela USP, colunista da Folha de S.Paulo e apresentador na rede CBN de rádio e no canal televisivo ESPN-Brasil. Com extensa carreira no jornalismo esportivo, foi diretor das revistas Placar e comentarista esportivo do SBT, da Rede Globo e da TV Cultura. Assina a quarta-capa do livro Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?  (Boitempo, 2014) e o prefácio do livro Democracia corintiana: a utopia em jogo (Boitempo, 2002), de Sócrates Brasileiro e Ricardo Gozzi.

Žižek: Liberdade, democracia e TISA

14.07.14_Slavoj Zizek_Liberdade democracia e TISAPor Slavoj Žižek.*

No dia 19 de junho, segundo aniversário do confinamento de Julian Assange na embaixada equatoriana em Londres, o WikiLeaks tornou pública a minuta secreta do anexo sobre serviços financeiros do Acordo sobre Comércio de Serviços (TISA). Esta minuta, resultado da última rodada de discussões do TISA realizada entre 28 de abril e 2 de maio em Genebra, abrange cinquenta países e boa parte do comércio de serviços do mundo. Ela estabelece regras que auxiliariam a expansão de multinacionais financeiras no interior de outras nações através da prevenção de barreiras regulatórias. Ela proíbe, enfim, que haja mais regulação de serviços financeiros apesar do fato do colapso financeiro de 2007-8 ser geralmente tido como resultado justamente da falta de regulação. Ademais, o documento ainda revela que os EUA estão particularmente interessados em impulsionar o fluxo de dados transfronteiriço – tanto dados financeiros quanto pessoais.

Este documento teria sido mantido na confidencialidade não apenas durante as negociações do TISA, mas por mais outros cinco anos depois de sua implementação efetiva. Apesar das negociações do TISA não terem sido francamente censuradas, elas praticamente não foram mencionadas em nossa mídia – uma marginalização e um sigilo que estão em gritante descompasso com a histórica importância mundial de um acordo como o TISA: se implementado, ele terá consequências globais, servindo efetivamente como uma espécie de espinha dorsal jurídica para a reestruturação de todo o mercado mundial. O TISA irá atar governos futuros, independemente de quem ganhar as eleições e do que os tribunais disserem. Ele irá impor um quadro restritivo aos serviços públicos, tanto ao promover o desenvolvimento de novos serviços, quanto protegendo outros já existentes.

Mas essa conexão entre importância político-econômica e sigilo é realmente algo que deveria nos surpreender? Não seria mais uma indicação, triste porém precisa, de nosso lugar – nós que vivemos em países ocidentais ditos democrático-liberais – em relação à democracia? Um século e meio atrás, em seu O capital, Karl Marx caracterizou a troca, na esfera mercantil, entre trabalhador e capitalista como “um verdadeiro Éden dos direitos inatos do homem, [...] o reino exclusivo da liberdade, da igualdade, da propriedade e de Bentham.” (O capital, Livro I, p.250). Ao incluir ironicamente o nome de Jeremy Bentham, o filósofo do utilitarismo egotista, Marx fornece a chave para o que liberdade e igualdade efetivamente significam no interior da sociedade capitalista – para citar o Manifesto comunista: “Por liberdade, nas atuais relações burguesas de produção, compreende-se a liberdade de comércio, a liberdade de comprar e vender.” (p.53) E por igualdade, compreende-se a igualdade legal formal entre comprador e vendedor, mesmo que um dos dois seja forçado a vender sua força de trabalho sob quaisquer condições (como os trabalhadores precários de hoje). Hoje, podemos dizer que temos liberdade, democracia e TISA. Nesta fórmula, liberdade significa o livre fluxo de capital, bem como de dados financeiros e pessoais (ambos os fluxos garantidos pelo TISA). Mas e democracia?

Os principais responsáveis pelo colapso financeiro de 2008 agora se impõem como os experts que poderão nos guiar pelo doloroso caminho da recuperação financeira, e cujos conselhos devem portanto falar mais alto que a política parlamentar, ou, como Mario Monti colocou: “Aqueles que governam não devem se ater aos parlamentares”. Qual é, então, essa força mais alta cuja autoridade pode suspender as decisões dos representantes democraticamente eleitos pelo povo? A resposta foi dada já em 1998 por Hans Tietmeyer, então presidente do Deutsches Bundesbank, quando elogiou os governos nacionais por preferirem “o plebiscito permanente de mercados globais” ao “plebiscito das urnas”. Note a retórica desta declaração obscena: os mercados globais são mais democráticos que as eleições parlamentares pois neles o processo de votação é permanente (e está permanentemente refletido nas flutuações do mercado) e se realiza em nível global, não apenas a cada quatro anos e dentro dos limites de um estado-nação. A ideia por trás disso é de que, desprovidas desse controle mais alto dos mercados (e de seus experts), as decisões parlamentares-democráticas são “irresponsáveis”. A democracia é portanto a democracia dos mercados, o plebiscito permanente das flutuações do mercado.

Esse é o nosso lugar no que diz respeito à democracia, e o acordo do TISA é um exemplo perfeito desse estado de coisas. As decisões chave da nossa economia são negociadas e implementadas sigilosamente, fora de nossa vista, sem debate público, e elas determinam as coordenadas para a livre dominação do capital. Dessa forma, o espaço para as decisões dos agentes políticos democraticamente eleitos fica severamente limitado, e o processo político passa a lidar predominantemente com questões para as quais o capital é indiferente (como guerras culturais). É por isso que a publicação da minuta do TISA marca um novo estágio na estratégia do WikiLeaks: até agora, sua atividade se focava em tornar público como nossas vidas são monitoradas e reguladas por agências de inteligência do Estado – o tema liberal básico dos indivíduos ameaçados por aparatos estatais opressivos. Agora, outra força controladora aparece – o capital – que ameaça nossa liberdade de uma forma muito mais elaborada: pervertendo nossa própria sensação de liberdade.

Com a livre escolha elevada, em nossa sociedade, a um valor supremo, o controle e a dominação social não podem aparecer como infringências à liberdade dos sujeitos – eles têm de aparecer na forma da própria auto-experiência dos indivíduos como livre. Há várias maneiras pelas quais essa falta de liberdade aparece disfarçada de seu oposto: quando somos privados de planos de saúde universais, nos dizem que na verdade fomos dotados de uma nova liberdade de escolha (a de escolher nosso fornecedor de plano de saúde); quando não podemos mais depender de um emprego formal de longo-prazo e somos obrigados a buscar uma nova forma de trabalho precário a cada um ou dois anos, nos dizem que fomos concedidos a oportunidade de nos re-inventar e de descobrir novos e inesperados potenciais criativos que se encontravam escondidos em nossa personalidade; quando somos obrigados a pagar pela educação de nossas crianças, nos dizem que agora nos tornamos “empreendedores do self”, agindo como capitalistas que têm de escolher livremente como investir os recursos que possuem (ou que pegaram emprestado) – em educação, cultura, turismo… Constantemente bombardeados pela imposição dessas “livres escolhas”, forçados a tomarmos decisões para as quais geralmente nem somos adequadamente qualificados (ou informados), cada vez mais vivenciamos nossa liberdade como ela efetivamente é: um fardo que nos priva da verdadeira escolha de mudança.

Quem sabe esse paradoxo também não nos permite jogar nova luz sobre nossa obsessão com os atuais acontecimentos na Ucrânia e mesmo com a emergência do ISIS no Iraque, ambos extensamente cobertos pela mídia (em evidente contraste com o silêncio sobre o TISA). O que nos fascina, nós do ocidente, não é o fato de que pessoas em Kiev se ergueram pela miragem do modo de vida europeu, mas que eles (ao que parecia, pelo menos) simplesmente se ergueram e tentaram tomar seu destino nas próprias mãos. Desempenharam um papel de agentes políticos impondo uma mudança radical – algo que, como as negociações do TISA demonstram, nós no ocidente não temos mais a escolha para fazer.

* Tradução de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.

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17.02.14_SZizek_O que é um autêntico evento políticoLeia também, de Slavoj Žižek, no Blog da Boitempo: “2 anos de prisão de Assange: Como o Wikileaks abriu nossos olhos para a ilusão da liberdade“, “O que é um autêntico evento político” (sobre a visita do esloveno a Assange na embaixada equatoriana em Londres) e “A contradição principal da Nova Ordem Mundial“.

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violencia_capa_site_altaA Boitempo acaba de lançar Violência: seis reflexões laterais, o novo livro de Slavoj Žižek sobre o fenômeno moderno da violência, entre as explosões contraditórias das ruas e a opressão silenciosa de nosso sistema político e econômico. A edição conta ainda com um prefácio inédito, de Žižek, e um posfácio, de Mauro Iasi, situando a discussão no contexto das manifestações que tomaram as ruas do Brasil em junho de 2013!

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Todos os títulos de Slavoj Žižek publicados no Brasil pela Boitempo já estão disponíveis em ebooks, com preços até metade do preço do livro impresso. Confira:

Alguém disse totalitarismo? Cincon intervenções no (mau) uso de uma noção * ePub (Amazon | Gato Sabido) 

Às portas da revolução: escritos de Lenin de 1917 * ePub (Amazon |Gato Sabido)

A visão em paralaxe * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Bem-vindo ao deserto do Real! (edição ilustrada) * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Em defesa das causas perdidas * ePub  (Amazon | Gato Sabido)

Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético * ePub (Amazon | Gato Sabido)

O ano em que sonhamos perigosamente * ePub (Amazon | Gato Sabido)

Primeiro como tragédia, depois como farsa * PDF (Livraria Cultura | Gato Sabido)

Vivendo no fim dos tempos * ePub (Amazon | Gato Sabido)

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Plínio… presente!

14.07.10_Mauro Iasi_Plínio PresentePor Mauro Iasi. 

Sob uma chuva fina e um frio ameno, o corpo do companheiro Plínio de Arruda Sampaio encontrou a terra que tanto defendeu. Seus companheiros cantaram a Internacional para que a música o acompanhasse enquanto gritávamos seu nome para que ficasse para sempre conosco.

Por um momento o mundo congelou como em uma foto em branco e preto. Os rostos de seus companheiros de luta, inevitavelmente tristes, estavam calmos. Aquele que partia tinha uma estranha capacidade de aglutinar, virtude que se destaca em tempos de fragmentação e serialidade. Sua família, seus amigos, seus colegas de partido, seus companheiros de luta. Querido pelos seus, respeitado por seus adversários. São poucos aqueles que podemos descrever desta forma.

Nas palavras de Valdemar Rossi, um de seus mais antigos amigos, Plínio era um semeador e talvez isso o descreva de forma mais cabal. Já em 1962 quando foi eleito deputado pelo PDC e participou da Comissão de Política Agrícola do Congresso, elaborando o plano de reforma Agrária que comporia as Reformas de Base do presidente Goulart. Quando trabalhou para a FAO em exílio no Chile depois de cassado, quando apresentou a ideia de núcleos de base ao recém criado Partido dos Trabalhadores ao qual viria a aderir e ajudar a construir, Plínio estava semeando.

No entanto, o que semeava de melhor eram ideias. Militante cristão, partilhava seu pão e seu vinho, vivificando sonhos de emancipação e solidariedade. Cativava com sua forma simples, seu humor, sua convicção profunda, suas dúvidas criativas, sementes das respostas que abriam caminhos novos, novos frutos, novas sementes.

Contava-nos uma história de quando estava em um avião com Lula e lhe disse que, talvez, o maior legado de uma campanha era plantar a ideia do socialismo. Como todo agricultor sabe, nem toda semente vinga. O que nos leva a outra característica de nosso companheiro: a persistência.

São raros aqueles que persistem tanto e por tanto tempo. Plínio nasceu na elite, com família tradicional, nome grande, propriedade. Jovem talhado para a política tradicional das classes dominantes, advogado, subchefe da Casa Civil do governo de Carvalho Pinto em São Paulo no final dos anos 50, e deputado com a benção da Igreja Católica que a esta época queria salvar os pobres da ameaça comunista.

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Sua trajetória é algo singular. Primeiro, sai do PDC para uma versão radical da democracia cristã no Chile. Em seu retorno do exílio tenta formar um Partido Social Democrático Popular junto com Francisco Weffort, Almino Afonso, Fernando Henrique e outros, para depois participar da construção do PT. Para seu espanto, como ele mesmo gostava de dizer, ele, um moderado, vai ficando à esquerda no PT que pegava o caminho da conciliação. Por fim, rompe com o PT e participa da construção do PSOL.

Plínio era surpreendente, mas sua trajetória desenha uma clara e coerente linha de princípios que o acompanhou por toda a vida e se expressa ao final como um militante cristão e socialista. Uma coisa fica clara: enquanto a maioria tende a se acomodar e assumir posições mais moderadas, nosso amigo originalmente moderado ia cada vez mais para a esquerda.

Uma vez, na campanha ao governo do Estado de São Paulo em 2006 quando o acompanhei como seu vice (e não era nada fácil acompanhar seu ritmo e vitalidade), Plínio nos convidou à sua casa para um jantar que receberia o então candidato humanista à presidência do Chile, Tomás Hirsch. Fui eu e o Didi do PSTU, assim um pouco deslocados. Em determinado momento, nos chamam para nos acercarmos do chileno e Plínio lhe pergunta diretamente: “queria entender uma coisa desse humanismo que você propõe, como fica a questão da violência?” Didi e eu nos entreolhamos como que dizendo “vai sobrar para nós”. Logo em seguida arremata: “porque sou cristão, comigo é na espada!”

14.07.10_Mauro Iasi_Plínio Presente_1

São poucos nossos prazeres nesta vida, são raras as chances de vitória contra esta elite política asquerosa, poderosa e arrogante. Vendo as pessoas que acompanhavam Plínio em seu último adeus, principalmente as pessoas simples, trabalhadores, jovens e velhos, companheiros, camaradas, me veio uma súbita sensação de regozijo… Plínio nos escolheu, ele é nosso, dos fodidos, dos proletários, dos camponeses, dos pobres, ele poderia ter escolhido ser um deles com tudo que isso lhe renderia de poder e prestígio, e decidiu ser mais um dos nossos. Comer nosso pão, beber de nosso sofrimento, nos abraçar em nossas derrotas, sorver o sal de nossas lágrimas.

Plínio é nosso. Morram de inveja. Não é pouco. Pequenas são nossas diferenças e discordâncias colocadas diante desta perspectiva. O generoso coração de nossa classe lhe recebeu com um abraço fraterno e terá nosso reconhecimento eterno.

Seu corpo agora foi semeado. O céu cinza chora calmo e nós seguimos por nossos diferentes caminhos. Atrás de uma árvore posso ouvir Brecht dizer, como disse uma vez sobre Rosa, em um sussurro: “aqui jaz Plínio… enterrai vossas desavenças!”

Vai aqui, deste amigo ateu, o poema que fiz para meus irmãos da pastoral metropolitana de São Paulo, não como uma forma de despedida, mas como um convite a todos que continuam esta caminhada. Companheiro Plínio de Arruda Sampaio… presente. Agora… e sempre!

Transcendências
(para os camaradas e irmãos da PO metropolitana de São Paulo)

Na massa universal
da matéria de nossos corpos
seja luz etérea de estrelas,
carne mineral de planetas,

ou fogo, ou água
ou planta, ou bicho
não vejo alma além daquela
que no movimento
se apresenta a vida.

Aprendi que a religião
é o sol em torno do qual
gira o ser humano
antes de ver em si mesmo
o sol de sua existência.

Ordem do tempo
inimiga do novo
dona da culpa
ópio do povo
organização racional da tristeza
carrasco do meu desejo
árbitro dos castigos aplicados por nós
contra nós mesmos.

Assim, feuerbachianamente,
me tornei ateu.

Mas, quando os vejo…
com seu amor aos pobres,

com seu compromisso com a vida
na teia indissolúvel da solidariedade…

Quando os vejo
subindo as “sierras” de nossa América
com seus terços e fuzis
com sua fé e bravura…

Quando os vejo
na madrugadas fabris
nas estradas acampados
repartindo o pouco pão…

Quando os vejo
reinventando a comunhão
renascendo a cada dia
fazendo da morte ressurreição… 

Quando nos abraçamos
sobre nossa bandeira vermelha

chorando lágrimas de raiva,
alegria ou emoção…

Da inexistência de minha alma
chego a desejar
que esta vida se supere em outra
para abraçar mais uma vez
os nossos mortos.

E no calor vivo de nossas batalhas
onde construímos a cada dia
a aurora contra a noite que persiste 

consigo ver, nitidamente,
entre a sombra e o escuro,

o rosto sereno de um deus
que não existe.

(Mauro Iasi)

14.07.10_Mauro Iasi_Plínio Presente_3

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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

Jennings: Será o fim de Blatter?

Andrew Jennings_será o fim de Sepp Blatter[Escoltado pela polícia: Raymond Whelan, CEO da Match, associada da Fifa que tem exclusividade de venda de ingressos, "vai ter que abrir o bico"]

Por Andrew Jennings.*

A queda, quase impossível de assimilar, está na expressão perplexa de Ray Whelan. Em apenas alguns minutos, ele despencou do luxuoso Hotel Copacabana, onde desfrutava da companhia agradável dos que mandam no futebol, a um carro de polícia – “Venha por aqui, senhor” – e dali para uma noite em uma cela na 18ª Delegacia de Polícia. Os próximos passos serão um interrogatório, em breve, e quem sabe um julgamento seguido de anos em uma das terríveis prisões brasileiras.

“Ray” Whelan vai ter que abrir o bico. Ele sabe tudo o que se pode saber sobre a gangue dos ingressos da Copa do Mundo. Ele sabe qual dos dirigentes do futebol recebe as pilhas de ingressos para revender no mercado negro. Ele está no coração desse negócio há quase duas décadas.

E Ray terá que falar sobre a relação íntima entre o presidente da Fifa, Sepp Blatter, e a empresa familiar, controlada pelos irmãos mexicanos Jaime e Enrique Byrom em seu escritório em Manchester, na Inglaterra, que mais uma vez ganharam os contratos para controlar a venda absoluta e exclusiva de todos os 3 milhões de ingressos para os 64 jogos da Copa.

A decisão crucial de quem fica com esse contrato é de Blatter, que gerencia a Fifa desde 1981 – primeiro como secretário geral e a partir de 1998 como presidente. Ele domina o Comitê Executivo e é fartamente recompensado pelo seu trabalho. Tudo que ele decide, eles assinam embaixo. Nos últimos três anos, sete deles tiveram que sair sob denúncias de corrupção. A reputação da Fifa nunca esteve tão suja.

Os irmãos, ambos nos seus 60 anos, recebem as ordens, decidem quem são os sortudos da vez, e dividem grandes lotes de ingressos entre os aliados de Blatter e seus clientes no mercado negro. Daí a Fifa anuncia que ela é “a polícia” dos ingressos, e que vai investigar as vendas “não autorizadas”.

Ray, que completou 64 no ano passado, vive com a irmã dos Byrom, Ivy, na cidade de Stockport, em Manchester. Ray sabe como eles compraram a Match, que vende os ingressos para aquelas caríssimas salas envidraçadas VIPs em todos os estádios “Padrão Fifa”. E o Ray sabe muito bem por que – e como – uma parcela da parte mais lucrativa do negócio foi desviada para o bolso do sobrinho de Blatter, Philippe, que tem 5% das ações da Match.

Por ironia Ray foi preso no mesmo hotel que já encantou Rita Hayworth e Marilyn Monroe, a princesa Diana e Mick Jagger!

Para ajudar os Byrom Brothers e Ray a garantir os serviços de acomodação da Copa, a Fifa lhes deu um empréstimo de cerca de US$ 10 milhões, sem juros, para ser pago em janeiro do próximo ano.

Os investigadores da polícia vão querer saber tudo sobre isso. Não são os mesmo policiais brutais que estão nas ruas do Rio prontos para jogar bombas de gás lacrimogêneo e bater naqueles que protestam contra os gastos da Copa e a corrupção. São trabalhadores sofisticados, investigadores de fraudes, que passaram três meses monitorando a venda de ingressos, interceptando legalmente ligações telefônicas e agora estão expondo a corrupção intrínseca que mancha a Fifa. A prisão de Ray pode ter acontecido porque ele fez alguns telefonemas a mais…

Fabio Barucke, o delegado da Polícia Civil do Rio que está liderando a investigação da ligação entre os dirigentes da Fifa, os distribuidores oficiais de ingressos e as vendas no mercado negro, disse que a Fifa distribui enormes quantidades de ingressos para seus patrocinadores e parceiros, garantindo a escassez de ingressos para o público e incentivando os cambistas. “Só uma pequena parte foi destinada ao povo“, o delegador afirmou em uma coletiva de imprensa na última semana.

Ray Whelan se une agora aos outros 11 detidos na semana passada. O líder Mohamadou Lamine Fofana, de 57 anos, suspeito de liderar a quadrilha desde a Copa de 2002, exibe orgulhosamente uma foto sua com Sepp Blatter no seu site.

Ray não estava ainda no esquema quando os irmãos Byrom entraram no negócio dos ingressos na Copa de 1986 no México. Eles foram favorecidos pelo ex-presidente da FIFA, João Havelange, e o negócio decolou. Estabeleceram uma empresa na Ilha de Mann, e contas bancárias internacionais. Anos depois, Ray se envolveu com a irmã Ivy Byrom, e então se tornou o “terceiro irmão” nessa pequena empresa.

Em 2003, apesar dos problemas em Copas anteriores, Sepp Blatter deu aos mexicanos Jaime e Enrique o contrato para vender ingressos para a Copa do Mundo no Brasil. Eles separaram 450.000 dos melhores ingressos para vender em pacotes de hospitalidade através da famigerada Match para os torcedores endinheirados, incluindo 24 mil para as partidas das Semifinais e 12 mil para a Final.

As regras da própria Fifa proíbem a revenda de ingressos com ágio – o cambismo. Mas nesta semana, ingressos dos pacotes de hospitalidade para a Final podem ser comprados pela internet por US$27.500, e ingressos normais, por US$11.000. Seja quem for que os está vendendo, eles só podem ter sua origem no escritório dos Byrom em Manchester.

Quem investiga o quê?

Em 2006 os Byroms foram pegos entregando mais de 5 mil ingressos para o vice-presidente da Fifa, Jack Warner, vender no mercado negro. Apesar da quebra escandalosa das próprias regras da Fifa, nenhuma atitude foi tomada contra os Byroms ou Warner.

Por incrível que pareça, eles fizerem tudo de novo na África do Sul em 2010, fornecendo mais ingressos para Warner vender para grandes cambistas do mercado negro internacional. A correspondência confidencial por e-mail foi copiada, descaradamente, para a Fifa e a empresa Infront, de Philippe Blatter. De novo, nenhuma providência foi tomada. Warner teve que sair da FIfa um ano depois por outras acusações de corrupção.

Mas para os irmãos Byrom, a Fifa é um pote de ouro infindável. Em novembro de 2011 os contratos de hospitalidade com a Match foram estendidos até 2023 “após uma avaliação do mercado” pela Fifa.

Disse Blatter: “O acordo fortalece a luta da Fifa contra o cambismo. Graças à sua expertise e sistema de monitoramento, a Match Hospitality está em posição de ajudar a Fifa a adotar procedimentos na venda de pacotes de hospitalidade, impedindo vendedores não autorizados a enganar corporações e indivíduos lhes vendendo esses pacotes”.

Os Byroms anunciaram essa semana que a Fifa pediu que eles mesmos investiguem a revenda de pacotes de hospitalidade.

Um ingresso em nome de Humberto Grondona, filho do vice-presidente da Fifa , o argentino Julio Grondona, foi encontrado à venda em São Paulo. Os dirigentes da Fifa disseram que ele não será investigado porque afirmou ter dado o ingresso, e não vendido.

Uma nota da Match afirmou que a empresa “tem fé” que os fatos irão demonstrar que Ray Whelen “não violou nenhuma lei”.

O secretário-geral da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Eraldo Alves da Cruz, revelou, nesta terça-feira, que, em 2008, um ano depois de o Brasil ser escolhido para sediar o Mundial, recebeu uma ligação de Whelan. Na época, Cruz era o presidente nacional da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis (ABIH). Ele confirmou que o executivo ligou dizendo falar em nome de Ricardo Teixeira e agendou um encontro com ele em Brasília.

— Na reunião, que acabou acontecendo no meu gabinete, na sede nacional da ABIH, Whelan, embora falasse pela Fifa, apresentou um cartão da empresa Byrom (inglesa), subsidiaria da Match. Explicou que estava no Brasil para cuidar da hospedagem durante a Copa — contou Cruz.

O secretário-geral da CNC disse que conheceu Ricardo Teixeira em 2007, durante um evento no Cristo Redentor.

— Ricardo Teixeira estava caminhando sozinho, chegando ao Cristo, eu me aproximei, me apresentei e entreguei meu cartão. Não o conhecia — afirmou Cruz.

A partir de 2008, depois do encontro com o então presidente da ABIH, Whelan correu o país mantendo encontros com os representantes da rede hoteleira, fechando negócios.

— Como eram muitas exigências, como o bloqueio dos quartos e das reservas, muitos estados resistiram em aderir. São Paulo foi um deles. Mas, no fim, todo mundo aceitou. Agora, Whelan nunca se apresentou como responsável também pelos ingressos. Só falava conosco de hospedagem. Ninguém imaginou tudo isso. Estou muito surpreso — disse Cruz.

A Match é suspeita de ter superfaturado o preço de diárias de hotéis nas 12 cidades-sede do Mundial, prejudicando o país, que ficou marcado como destino caro. O caso é investigado pelo Ministério Público Federal e o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), que instaurou um inquérito administrativo. Whelan foi preso na segunda-feira pela Polícia Civil suspeito de envolvimento na venda ilegal de ingressos para os jogos da Copa.

Ricardo Teixeira também teria atuado nos bastidores junto à Fifa e aos executivos da Match Services para beneficiar o Grupo Águia, do seu amigo paulista Wagner Abrahão, que ficou com os direitos de ser o vendedor exclusivo no Brasil dos ingressos corporativos, ou VIPs, para os jogos da Copa.

Em 1998, na Copa da França, a Águia foi acusada de lesar torcedores, que compraram ingressos mas ficaram fora do estádio na final. Ele foi processado e pagou uma multa para deixar a França. O processo foi arquivado. Segundo o site da empresa, a escolha para ser representante da Match durante a Copa aconteceu em 2011 e foi comemorada.

* Publicado originalmente no dossiê  CopaPública da Agência Pública de Jornalismo Investigativo.

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Andrew Jennings assina um brilhante ensaio sobre “A máfia dos esportes e o capitalismo global” no livro de intervenção Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?. Novo título da coleção Tinta Vermelha da Boitempo, o livro está à venda por apenas R$ 10,00, em versão impressa, e R$ 5,00, em versão eletrônica (ebook). Baixe uma amostra grátis do livro clicando aqui.

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Andrew Jennings, é um premiado jornalista investigativo escocês, mundialmente conhecido pelo seu trabalho sobre o Comitê Olímpico Internacional e a Fifa, que ele chama da “máfia dos esportes” globais. Até hoje é o único repórter do mundo banido das coletivas de imprensa da Fifa. Autor de Jogo sujo, o mundo secreto da Fifa (Panda Books, 2011), Jennings assina um brilhante ensaio sobre “A máfia dos esportes e o capitalismo global” no livro de intervenção Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?  (Boitempo, 2014).

A crise nos esportes e a derrota da seleção | Carta aberta de Romário

14.07.10_RomárioPor Romário de Souza Faria.

Galera,

passado o luto das primeiras horas seguidas da derrota, vamos ao que verdadeiramente interessa! Quem tem boa memória, vai lembrar da minha frase: Fora de campo, já perdemos a Copa de goleada!

Infelizmente, dentro de campo, não foi diferente.

Ontem foi um dia muito triste para nosso futebol. Venceu o melhor e ninguém há de questionar a superioridade do futebol alemão já há alguns anos. Ainda assim, o mundo assistiu com perplexidade esta derrota, porque nem a Alemanha, no seu melhor otimismo, deve ter imaginado essa vitória histórica.

Porém, se puxarmos da memória, vamos lembrar que nossa seleção já não vinha apresentando nosso melhor futebol há muito tempo. Jogamos muito mal. Infelizmente, levamos sete e, por mais que isso cause mal-estar, devemos admitir que a chuva de gols foi apenas reflexo do pânico, da incapacidade de reação dos nossos jogadores e da falta de atitude do treinador de mudar o time.

Vivemos uma crise no nosso esporte mais amado, chegamos ao auge dela. Acha que isso é problema só dos jogadores ou do Felipão? Nem de longe.

Nosso futebol vem se deteriorando há anos, sendo sugado por cartolas que não têm talento para fazer sequer uma embaixadinha. Ficam dos seus camarotes de luxo nos estádios brindando os milhões que entram em suas contas. Um bando de ladrões, corruptos e quadrilheiros!

O meu sentimento é de revolta.

Estou há quatro anos pregando no deserto sobre os problemas da Confederação Brasileira de Futebol, uma instituição corrupta gerindo um patrimônio de altíssimo valor de mercado, usando nosso hino, nossa bandeira, nossas cores e, o mais importante, nosso material humano, nossos jogadores. Porque não se iludam, futebol é negócio, business, entretenimento e move rios de dinheiro. Nunca tive o apoio da presidenta do País, Dilma Rousseff, ou do ministro do Esporte, Aldo Rebelo. Que todos saibam: já pedi várias vezes uma intervenção política do Governo Federal no nosso futebol.

Em 2012, eu apresentei um pedido de CPI da CBF, baseado em um série de escândalos envolvendo a entidade, como o enriquecimento ilícito de dirigentes, corrupção, evasão de divisas, lavagem de dinheiro e desvio de verba do patrocínio da empresa área TAM. O pedido está parado em alguma gaveta em Brasília há dois anos. Em questionamento ao presidente da Câmara dos Deputados, sr. Henrique Eduardo Alves, mas ouvi como resposta que este não era o melhor momento para se instalar esta CPI. Não concordei, mas respeitei a decisão. E agora, presidente, está na hora?

Exceto por um vexame como o de ontem, o Brasil não precisaria se envergonhar de uma derrota em campo, afinal, derrotas fazem parte do esporte. Mas vergonha mesmo devemos sentir de ter uma das gestões de futebol mais corruptas do mundo. A arrogância dessa entidade é tão grande que até o chefe da assessoria de imprensa chega ao absurdo de bater em um atleta de outra seleção, como fez o Rodrigo Paiva contra um jogador do Chile Pinilla. Paiva pegou quatro jogos de suspensão e foi proibido de acessar o vestiário dos jogadores. Este ato foi muito simbólico e diz muito sobre eles. O presidente da entidade, José Maria Marin, é ladrão de medalha, de energia, de terreno público e apoiador da ditadura. Marco Polo Del Nero, seu atual vice, recentemente foi detido, investigado e indiciado pela Polícia Federal por possíveis crimes contra o sistema financeiro, corrupção e formação de quadrilha. São esses que comandam o nosso futebol. Querem vergonha maior que essa?

Marin e Del Nero tinham que estar era na cadeia! Bando de vagabundos!!!

A corrupção da CBF tem raízes em todos os clubes brasileiros, vale lembrar que são as federações e clubes que elegem há anos o mesmo grupo de cartolas, com os mesmos métodos de gestão arcaicos e corruptos implementados por João Havelange e Ricardo Teixeira e mantidos por Marin e Del Nero. Vale lembrar, que estes dois últimos mudaram o estatuto da entidade e anteciparam a eleição da CBF para antes da Copa. Já prevendo uma possível derrota e a dificuldade que eles teriam de se manter no poder com um quadro desfavorável.

E os clubes? Sim, eles também são responsáveis por essa crise. Gestões fraudulentas, falta de investimento na base, na formação de atletas. Grandes clubes brasileiros estão falindo afogados em dívidas bilionárias com bancos e não pagamentos de impostos como INSS, FGTS e Receita Federal.

E toda essa má gestão que tem destruído o nosso futebol, infelizmente, tem sido respaldada há anos pelo Congresso Nacional com anistias e mais anistia destes débitos. Este ano tivemos mais um projeto desses vexatórios para salvar os clubes. Um projeto que previa que clubes pagassem apenas 10% de suas dívidas e investissem 90% restante em formação de atletas. Parece até deboche. Uma soma de aproximadamente R$ 4 bilhões ou muito mais, não se sabe ao certo. Corajosamente, o deputado Otávio Leite, reconstruiu o texto e apresentou uma proposta honesta estruturada em responsabilidade fiscal, parcelamento de dívidas e a criação de um fundo de iniciação esportiva, com obrigações claras para clubes e CBF.

Em resumo, a nova proposta além de constituir a Seleção Brasileira de Futebol e o Futebol Brasileiro como Patrimônio Cultural Imaterial – obrigava a CBF a contribuir com alíquota de 5% sobre as receitas de comercialização de produtos e serviços proveniente da atividade de Representação do Futebol Brasileiro nos âmbitos nacional e internacional. O tributo também incidiria sobre patrocínio, venda de direitos de transmissão de imagens dos jogos da seleção brasileira, vendas de apresentação em amistosos ou torneios para terceiros, bilheterias das partidas amistosas e royalties sobre produtos licenciados. O valor seria destinado a um fundo de iniciação esportiva para crianças e jovens de todo o Brasil. Esses e outros artigos dariam responsabilidade à CBF, punição à entidades e outros gestores do futebol, a CBF estaria sujeita a fiscalização do TCU e obrigada a ter participação de um conselho de atletas nas decisões.

Mas este texto infelizmente não foi para a frente. Sete deputados alemães fizeram os gols que desclassificaram nosso futebol e nos tirou a chance de moralizar nosso esporte. Estes deputados, como todos sabem, fazem parte da Bancada da CBF, mudei o nome porque Bancada da Bola é muito pejorativo para algo que amamos tanto. Gosto de dar os nomes: Rodrigo Maia (DEM-RJ), Guilherme Campos (PSD-SP), Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), José Rocha (PR-BA), Vicente Cândido (PT-SP), Jovair Arantes (PTB-GO) e Valdivino de Oliveira (PSDB-GO).

Essa partida ainda pode ser revertida com a votação do projeto no Plenário da Câmara. Será que esses sete deputados voltarão a prejudicar o nosso futebol?

O futebol brasileiro tomou uma goleada e a derrota retumbante, infelizmente, não foi só em campo. Nem sequer tivemos o prazer de jogar no Maracanã, um templo do futebol mundial, reformado ao custo de mais de R$ 1 bilhão. Acha que foi porque não chegamos a final? Não. Poderíamos ter jogado qualquer outro jogo lá. A resposta disso é ganância e arrogância. É a CBF que escolhe onde o Brasil vai jogar, mas, obviamente, poderia ter tido interferência do Ministério do Esporte e da presidência da República, mas nenhum destes se manifestou. Quem levou com essas escolhas?

Para fechar com chave de ouro, a CBF expulsou do vestiário Cafú, capitão de seleção do pentacampeaonato. Cafú foi expulso do vestiário enquanto cumprimentava os jogadores ontem. Este é o retrato do nosso futebol hoje, não honramos a nossa história.

Dilma tem sim que entregar a taça para outra seleção. Este gesto será o retrato do valor que ela deu ao nosso futebol nos últimos anos! Eles levarão a taça e nós ficaremos com nossos estádios superfaturados e nenhum legado material, porque imaterial, mostramos para o mundo que com toda nossa dificuldade, somos um povo feliz.

Essa será a taça da vergonha.

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Capa site_altaAndrew Jennings, jorngalista investigativo e parceiro de Romário é um dos autores do livro de intervenção Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas?, junto com Carlos Vainer, Ermínia Maricato, Raquel Rolnik, Antonio Lassance, MTST, Jose Sérgio Leite Lopes, Luis Fernandes, Nelma Gusmão de Oliveira, Jorge Luiz Souto Maior, João Sette Whitaker Ferreira, Gilberto Maringoni e Juca Kfouri! 

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Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Andrew Jennings, Christian Dunker, Flávio Aguiar, Antonio Lassance, Mouzar Benedito, Mike Davis, Mauro Iasi, Edson Teles, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Romário de Souza Faria, carioca nascido em 1966, é ex-atacante da seleção brasileira. Deputado federal do Rio de Janeiro pelo PSB, é parceiro do jornalista investigativo Andrew Jennings. O escocês, que ficou internacionalmente conhecido por desvendar o esquema de corrupção por trás da Fifa e do COI, assina um artigo refletindo sobre sua carreira e sobre a relação entre a máfia dos esportes e o capitalismo global no livro Brasil em jogo: o que fica da Copa e das Olimpíadas? (Boitempo, 2014).

Terrorismo midiático ou o Conti do Vigário

14.07.10_Izaías Almada_O Conti do Vigário[Wladimir Palomo, sósia de Luiz Felipe Scolari, em entrevista no canal SporTV]

Por Izaías Almada.

Já não é segredo para ninguém que o atual estágio do jornalismo brasileiro é sórdido, para dizer o mínimo, com objetivos políticos e interesses econômicos na maioria das vezes em causa própria e antinacionais. Sem falar no viés ideológico que flerta com o passado e não com o futuro do país. Editoriais e colunistas se juntam numa lenga lenga que já começa a dar sono em anfetamina, mas nem por isso menos criminosa.

O ridículo e vergonhoso caso da falsa entrevista feita pelo jornalista Mário Sérgio Conti há duas semanas com um sósia do técnico Felipão é paradigmático. Teve o mérito, entre outros, de escancarar para a sociedade brasileira o nível de irresponsabilidade que os nossos principais meios de comunicação vêm há algum tempo empregando no torpe exercício de manipulação da opinião pública.

Manipulação essa que criou um surto de pessimismo no país não só em relação à Copa do Mundo de futebol, evento passageiro, mas – sobretudo – com a tentativa de se forjar a qualquer custo um clima de insatisfação, de revolta contra o exercício da atividade política, em tudo e por tudo identificada com a corrupção, como a “possibilidade” de existirem sérios problemas com a Petrobrás, por exemplo, maior empresa do país, e outras obras infra-estruturais do governo.

Ou a ardilosa e impatriótica estratégia de esconder e desprestigiar alguns fatos relevantes como a queda da mortalidade infantil no Brasil, o invento do cientista Nicolelis, construção de usinas, pontes e rodovias por todo o país, a baixa taxa de desemprego, a vinda de médicos estrangeiros excepcionalmente bem recebidos pela população mais carente das regiões mais pobres e longínquas, a defesa da nossa soberania.

Sem falar do clima de ódio construído, na montagem de uma farsa jurídica já comprovada, contra os principais réus da AP 470, José Dirceu de Oliveira e José Genoíno Neto. Ódio que se estende ao partido a que pertencem e ódio ao governo de quase 12 anos liderado por dois dos expoentes desse mesmo partido.

A lista da irresponsabilidade criminosa de nossos jornalões, revistões e telejornais nos últimos quatro anos, correspondentes ao primeiro mandato da presidente Dilma Roussef, e nos oito anos anteriores do presidente Lula da Silva é tal que chega a ser cansativo enumerá-la ou mesmo lembrá-la.

Jornalistas e colunistas que babam na gravata e apequenam a profissão, cujo estoque de boçalidades é inesgotável, ombreiam-se com o Sr. Conti, a tal ponto que já se pode dizer que em relação a esse tipo de imprensa o país caiu e cai quase que diariamente no verdadeiro Conti do Vigário.

Para essa súcia de irresponsáveis, o Brasil não tem passado, ou melhor, os governos que atuaram até o ano de 2002 supostamente teriam deixado um legado de grandes feitos e realizações, em particular no campo social, e a corrupção passou a ser um apanágio do atual governo, sendo o “mensalão” o maior espetáculo de corrupção do país, segundo a avaliação do nobre juiz Joaquim Barbosa, homem equilibrado em suas ações e correto em sua relatoria da AP 470. Um homem honrado, como diria Shakespeare na sua tragédia “Julio Cesar”.

Depreciar o Brasil sempre que possível: essa é a estratégia perversa e impatriótica dos conservadores e reacionários. Minimizar as conquistas sociais dos governos Lula e Dilma, na ilusão de que esconder ou depreciar tais conquistas irá enganar os principais beneficiários delas. Isso sem falar nos novos revolucionários de esquerda sem ideologia que andam aí pelas ruas e alguns laboratórios acadêmicos na missão de enumerar as mazelas ainda existentes, mas sempre faltos de idéias que possam minimamente ser aproveitadas pelo governo ou quem de direito.

O hiato provocado pelo futebol nas primeiras manifestações de uma campanha eleitoral que se prevê bastante acirrada e selvagem por parte da chamada (com o perdão da palavra) elite é provável que vá contribuir, ao contrário do que se poderia esperar, para uma animosidade ainda maior nos próximos meses. Quem viver verá…

A matilha protofascista já afia os dentes e mira a jugular do país na expectativa de impedir a reeleição da presidente Dilma Roussef, o que seria o mal menor de tal empreitada, tendo a imprensa como porta voz fiel de um pensamento ultrapassado, conservador, antitrabalhista e antiprogressista. Verdadeiro terrorismo midiático que, como todo terrorismo é preciso ser combatido no nascedouro, antes que seja tarde.

Ao contrário de outros atos terroristas, o midiático não causa danos físicos ou materiais. É mais perverso que isso: é produzido para obter algum efeito psicológico, seja de pânico, pavor, abulia, revolta, desinteresse, mal estar entre as pessoas, com uma intervenção que se dá de semana em semana, de um dia para o outro, de hora em hora, minuto a minuto nas cidades e países onde vivemos.

É o terrorismo praticado pelos meios de comunicação e que, normalmente, é utilizado para objetivos políticos como a desestabilização de um governo legitimamente eleito pelo voto popular, pois confunde e bloqueia o discernimento dos cidadãos. Quando não os induz à violência e ao desespero.

Na sopa de letrinhas putrefatas que nos oferece a mídia nacional vamos nos envenenando e, sem perceber, vamos nos acostumando ao ódio e ao irracionalismo cada vez menos sutil de jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão. Vamos aos poucos nos tornando intolerantes e já não distinguimos com a clareza necessária o caminho a seguir. É neste cenário que caminhamos para as eleições de outubro.

Eleições que, no meu modesto entender, poderão alicerçar de vez o crescimento econômico, político e social do país em direção a um futuro promissor para suas novas gerações, mais democrático ou virar as costas a tudo isso e então mostrar covardemente para o mundo a sua incompetência, aquela acachapante e rancorosa incompetência que o jornalista Arnaldo Jabor encara toda manhã ao se olhar no espelho.

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BRASIL EM JOGO500Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Mike Davis, Bernardo Buarque de Hollanda, Mouzar Benedito, Mauro Iasi, Flávio Aguiar, Edson Teles, Emir Sader, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

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Izaías Almada, mineiro de Belo Horizonte, escritor, dramaturgo e roteirista, é autor de Teatro de Arena (Coleção Pauliceia da Boitempo) e dos romances A metade arrancada de mim, O medo por trás das janelas e Florão da América. Publicou ainda dois livros de contos, Memórias emotivas e O vidente da Rua 46. Como ator, trabalhou no Teatro de Arena entre 1965 e 1968. Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às quintas-feiras.

O professor ladrão e a Revolução Francesa

O “professor ladrão” do título é uma referência ao pesadelo de um mestre. Esclareço logo. Bem sei que a Copa do Mundo é o assunto fundamental deste mês. Mas a vida continua, dentro e fora dos estádios de futebol. Daí que é necessário falar do que não gostaríamos. Parece mesmo que não temos um minuto só de trégua, de paz, ainda que falsa. É o caso desta notícia, que copio e passo a comentar agora.

“Acusado de assalto, professor de História é obrigado a dar aula para provar inocência. Espancado por moradores, André Luiz Ribeiro precisou dar aula sobre Revolução Francesa e ainda foi preso por dois dias. Confundido com um ladrão…”

Primeira pausa. Se fosse um ladrão estaria certo sofrer o que o professor sofreu? Mas continuando:

“…um professor de História foi espancado por moradores da periferia de São Paulo e só conseguiu se livrar do linchamento quando, segundo ele, foi obrigado a dar uma aula sobre Revolução Francesa. Mesmo assim, André Luiz Ribeiro, 27 anos, foi levado para a delegacia, onde ficou por dois dias, já que o dono do bar assaltado confirmou em depoimento que ele seria o ladrão.

O professor contou que quando foi socorrido por Corpo de Bombeiros, teve de ‘dar uma aula’ sobre a Revolução Francesa para provar sua inocência. Os bombeiros declararam que ‘informações são improcedentes’ e que não houve ‘desrespeito ou deboche’. André conta que estava correndo na última quarta-feira, no bairro Balneário São José, em São Paulo, quando um bar foi assaltado.

— Eu corro dez quilômetros todos os dias, estava de fone de ouvido, sem identificação porque moro por perto, e fui confundido com um dos três assaltantes. O dono do bar e o filho dele me acorrentaram. Umas 20 pessoas me cercaram e começaram a me bater. Acorrentaram meus braços e pernas e me colocaram de barriga para baixo na rua — conta o professor.

Segundo ele, um dos bombeiros que o socorreu teria dito: ‘Se você é professor de História, então dá uma aula sobre Revolução Francesa’”

Outra pausa: notem que já houve, seguramente, deboche e abuso. O bombeiro pensou em pedir o impossível, pensou em se divertir com o homem espancado, ou seja, em livre leitura do seu ato: “se você é professor, ô ladrão, dê uma aula de história, e sobre a Revolução Francesa. Quero ver. Vamos”.

Mas para desgraça da piada, o homem ferido era mesmo professor.

Continuando:

“— Falei que a França era o local onde o antigo regime manifestava maior força, e que a burguesia comandou uma revolta junto com as causas populares, e que havia fases da revolução”

Mas que poder de síntese, meus amigos. Que lucidez impressionante no fundo da dor. Quantos de nós conseguiríamos ter esta luz no meio da mais funda selva, quando tudo parecia perdido?

Continuemos com o mestre humilhado:

“Falei por uns três minutos e perguntei se já estava bom.

O professor de história também diz que foram os bombeiros que salvaram sua vida, pois enquanto ele dava a aula para provar que era professor, ouviu o proprietário do bar dizer que ia buscar um facão. Em seguida, a Polícia Militar chegou no local, o levou para o pronto-socorro da região. Depois, foi encaminhado à delegacia, onde ficou preso até sexta-feira.

— O proprietário do bar assaltado, Djalma dos Santos, 70 anos, negou que tenha espancado o professor. Questionado se tinha certeza de que Ribeiro era um dos assaltantes, ele não confirmou.

— A população que acorrentou, que bateu, eu não fiz nada. O que eu tinha que falar já falei na delegacia. Não adianta nada ficar perguntando, não vou retirar o que disse. Eu gritei que era ladrão e a população da rua foi atrás dele. Se ele não devia nada, vai dar uma mancada dessas de estar correndo no meio dos bandidos na hora do assalto? — afirmou o proprietário do bar”.

Quanto cinismo do dono do bar. Ele não bateu, apenas atirou um homem às feras. “Podem matar”, foi a sua atitude.

Continuando a notícia do crime:

“A Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que o delegado André Antiqueira, titular do 101º DP, “se coloca à disposição para ouvir em depoimento quem tenha novas informações para acrescentar à investigação”, já que os criminosos que participaram do crime ainda não foram presos.

— O professor foi preso em flagrante em cumprimento do artigo 302 do Código Penal, já que a vitima o reconheceu como um dos participantes do roubo ao estabelecimento comercial em duas oportunidades. A Justiça concedeu liberdade provisória ao acusado — diz nota da SSP”.

Para mim, o gênio de Kafka não escreveria melhor que essa resposta burocrática do delegado de polícia. Um inocente foi enquadrado no artigo 302 do código penal, e a justiça concedeu liberdade provisória ao inocente criminoso enquadrado. Para a polícia, o problema legal foi resolvido, pelo visto. Mas a justiça humana é outra história, não entra no boletim de ocorrência. Voltemos ao mestre de escola pública:

“Só depois de explicar sobre a ascensão da burguesia é que o levaram ao hospital, diz.

‘Foi algo surreal. Só acreditamos quando chega próximo de nós. Aí você vê que é muito real mesmo, esse ódio das pessoas. Essa brutalidade do ser humano.’

Eu estou bem melhor, mas a ferida na alma, a inocência, está perdida.”

E agora, merece destaque o depoimento corrido do mestre de história quase morto:

“Quando vi, as pessoas olhavam na minha direção, provavelmente porque foi a direção que os ladrões tomaram. Eu estava indo no sentido contrário. Com fone de ouvido. Nem achei que tinha acontecido um roubo. Nem sabia que era comigo.

Até onde eu lembro, eu ouvia ‘Lion Man’, do Criolo. Sou fã, gosto para caramba. O show dele já fui, é louco. Pelo fato de ele retratar as favelas, a realidade aqui. Também eu ouvi Facção Central, de rap, que tem uma causa social muito forte em pauta.

Aí eu vi as pessoas se afastando bruscamente. Foi quando eu vi um fusca vermelho para me atropelar, vindo com muita velocidade. Pararam quase em cima de mim. Aí desceram do carro o dono do bar e o filho. E começaram a me bater.

Eu falava em todo momento que eu era inocente, que era professor. Eu não tinha documento nenhum porque estava correndo, todo mundo me conhece ali perto. Mas já me bateram, me jogaram no chão.

Os dois começaram. Só que veio a multidão. Foi de 15 a 30 pessoas que me bateram. Nem me perguntaram, nem olharam para os meus bolsos para ver se eu tinha alguma coisa. Eu não ia fugir, já pus as mãos para cima quando se aproximaram, mas tomei um soco na cara.

Ainda estava no chão, mas eles não acreditavam em mim. Eu disse que era professor, que estava ali por acaso. Aí um dos bombeiros falou para dar uma aula sobre Revolução Francesa. Foi o que me salvou.

Eu estava arregaçado, mas consciente. O raciocínio fica difícil, porque você fica em choque. Eu falei da ascensão burguesa ao primeiro escalão, que tinha poder econômico, mas não poder político, e de como a revolução mudou a forma como vivemos hoje.

Achei mesmo muito irônico esse ter sido o tema que ele perguntou, ali, naquele momento. Liberdade, igualdade, fraternidade. Falei sobre a queda da Bastilha. É um assunto que eu dou para 7ª série. Estava fresco na minha cabeça. Mas, mesmo assim, eu leio muito. Eu tenho conhecimento mínimo acerca da História.

Foi algo surreal. Só acreditamos quando chega próximo de nós. Aí você vê que é muito real mesmo, esse ódio das pessoas. Essa brutalidade do ser humano.

Nunca imaginei que eu ia ser preso um dia. Mas hoje eu tenho ferramenta para falar para os meus alunos”.

É uma notícia, ao mesmo tempo, triste, que comove, e revoltante. Dependendo do ângulo sob o qual a gente olha, pode dizer que é uma vitória do conhecimento sobre a barbárie (o professor, acorrentado, quase morto, deu uma aula que o salvou), ou pode ser dito também que é uma vitória parcial da barbárie sobre o conhecimento, porque espancou e quis matar um homem por aparências frágeis, sem consistência, em franca e bárbara injustiça.

Lembro do programa do rádio Violência Zero, na Tamandaré do Recife, onde eu, Marco Albertim e Rui Sarinho, trabalhamos, da reportagem à apresentação.

O Violência Zero era um programa de direitos humanos. Nele, travamos com travo esse conhecimento dos bárbaros que clamam vingança matando. No estúdio da Rádio Tamandaré, no fim dos anos 80, sentíamos a disputa de ideias na sociedade do Recife entre punir sem medida e o direito à justiça. Mas não com essa força de agora, dos últimos meses. Na época, ainda que sem método científico, pelos telefonemas dos ouvintes, notávamos que a divisão entre os mais bárbaros e civilizados era quase meio a meio. O que houve agora para esse assalto de vingança?

Vocês perdoem eu não ter feito um comentário à altura desse crime. Eu ainda estou ruminando. Mas bem mereciam processos penais os comunicadores da televisão como a fascista Sheherazade do SBT, Para lembrar o que está na Wikipédia sobre ela:

“Em 4 de fevereiro de 2014, Rachel comentou a ação de um grupo de pessoas que espancou um assaltante adolescente e o prendeu pelo pescoço a um poste com uma tranca de bicicleta, dizendo que aconteceu foi uma ‘legítima defesa coletiva’ contra a violência urbana. No comentário, a jornalista classificou o caso como resultado da ‘desmoralização da polícia’ e da ‘omissão do Estado’, além de dizer era ‘compreensível’ que o ‘cidadão de bem’ reagisse dessa maneira. Ela chamou o adolescente agredido de ‘marginal’ e pediu, em tom irônico, aos grupos em defesa de direitos humanos que estavam com ‘pena’ do jovem que ‘adotassem o bandido’”.

Essa comunicadora e seus semelhantes deveriam estar presos numa rigorosa solitária, onde se ouvisse a voz do professor André Luiz Ribeiro falando sobre a Revolução Francesa. Pelas paredes ouviriam da cabeça torturada do mestre uma aula de civilização contra As mil e uma barbáries.

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BRASIL EM JOGO500Confira o dossiê especial sobre a Copa e legado dos megaeventos, no Blog da Boitempo, com artigos de Christian Dunker, Mike Davis, Bernardo Buarque de Hollanda, Mouzar Benedito, Mauro Iasi, Flávio Aguiar, Edson Teles, Emir Sader, Jorge Luiz Souto Maior, entre outros!

Soledad no Recife, de Urariano Mota, está à venda em versão eletrônica (ebook), por apenas R$10. Para comprar, clique aqui ou aqui.

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Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. É colunista do Vermelho. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, de O filho renegado de Deus (Bertrand Brasil, 2013), uma narração cruel e terna de certa Maria, vítima da opressão cultural e de classes no Brasil, e do Dicionário Amoroso do Recife (Casarão do Verbo, 2014). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.