Benjamin, nosso contemporâneo

Resenha do livro de Fabio Mascaro Querido

Imagem: WikiCommons.

Por Leonardo Rodrigues Silvério

Diante da escalada global da extrema direita fascista e da crise de renovação política da esquerda, somos (re)apresentados a Walter Benjamin – um nome não incomum ao público brasileiro –, através do novo livro de Fabio Mascaro Querido. Em Walter Benjamin: uma introdução, ele interpreta o autor judeu-alemão como um intelectual politicamente engajado em compreender e se contrapor ao fascismo com os materiais teóricos que tinha em mãos em uma situação econômica desfavorável. Tanto aqueles que não conhecem o filósofo quanto os especialistas têm a oportunidade de acompanhar o “fio vermelho” do “marxismo benjaminiano” proposto por Querido: um marxismo sui generis, porque heterodoxo, libertário, antiautoritário, criativo, crítico e situado em um contexto de emergência do nazifascismo europeu.

Este livro introdutório sobre vida e obra de Walter Benjamin chega em ótimo momento ao mercado editorial por alguns motivos, dentre os quais gostaríamos de destacar: (1) o livro é uma atualização da vida e obra de Benjamin, explicitando seu caráter de “intelectual politizado” a partir de um marxismo heterodoxo e, consequentemente; (2) esta introdução nos permite refletir sobre alguns elementos da história da recepção de Benjamin no Brasil.

I. Um certo marxismo

Diferentemente de leituras que estabelecem a adesão ao marxismo como uma grande “tomada de consciência” para a politização, vemos que, na verdade, Benjamin não era alheio aos movimentos políticos antes de 1924: sua politização se iniciou já em 1914, durante seus anos de formação no Movimento de Juventude Livre Alemã; pouco depois, em 1915, Benjamin começou a frequentar círculos de sociais-democratas a convite de seu amigo e referencial da teologia judaica, Gershom Scholem. Após a escrita de seu doutorado, em 1918, e o início da efervescência cultural na recém declarada República de Weimar, Benjamin escreve o texto “Para crítica da violência” (1921), de inspiração anarco-sindicalista, em que convergem certo messianismo e uma defesa da memória política de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht – assassinados em 1919 pela milícia da social-democracia alemã.

O autor desta introdução nos apresenta como Benjamin, no contexto histórico da República de Weimar, estava atento à “crise da representação” e às novas buscas de formas político-representativas que não fossem associadas à democracia liberal nem ao marxismo “clássico”, de caráter historicista e positivista – daí que a posição de Benjamin, em 1924, enquanto um “marxista anti-hegeliano” não seja efetivamente contra a obra de Hegel1, mas uma atitude que suspeita dos usos progressistas do hegelianismo hegemônico. Em síntese, tem-se o germe de um “socialismo que não seja o último estágio do progresso”, de uma “revolução que interrompe o desenvolvimento histórico” e que se fundamenta no ponto de vista do “espírito dos vencidos do passado” (p. 103), como veríamos nas teses “Sobre o conceito de história”, de 1940. O ano de 1924 será, como argumenta Querido, o ponto de virada – e não de ruptura – no pensamento de Benjamin por 3 razões: 1) Asja Lacis; 2) a adesão ao marxismo; e 3) o encontro com o surrealismo – os três são elementos complementares para a constituição do pensamento do filósofo alemão enquanto um intelectual crítico. Cabe perguntar, então, o que foi alterado qualitativamente na politização de Benjamin a partir de 19242.

Asja Lacis, além de uma paixão de Benjamin, foi sua primeira interlocutora sobre a práxis marxista – principalmente nos debates culturais e, especificamente, sobre o teatro. Ela também foi responsável por apresentar Benjamin a Brecht em 1929. Seu aprofundamento teórico no marxismo se deu através de Ernst Bloch, que apresentava ao amigo os trabalhos de György Lukács – especialmente História e consciência de classe (1923). Ainda assim, mesmo com sua viagem para Moscou entre 1926 e 1927, Benjamin manteve um distanciamento crítico em relação à União Soviética e aos Partidos Comunistas. A efetivação desse posicionamento crítico se deu com a aproximação do autor ao surrealismo do grupo de André Breton que, em sua defesa intransigente da poesia, do amor e da liberdade, forneceram a Benjamin um modelo de intervenção crítica: o desapego à necessidade de organização e de “disciplina revolucionária” (p. 48). A efetivação dessa figura do intelectual politicamente engajado se concretizou de maneira semelhante à relação dos surrealistas para com os marxistas: um distanciamento da Internacional Comunista, sob regime stalinista, e sua aproximação da oposição trotskista.

Essa reconstituição do marxismo de Benjamin – sem fragmentar sua obra, mas compreendendo suas rupturas e continuidades3 – mostra como seu alinhamento às posições heterodoxas do marxismo acabou por cultivar uma outra perspectiva crítica em relação às tendências progressistas da época. Para além de um uso marxista-tradicional de Benjamin, vemos com Querido como o singular marxismo benjaminiano inspira outras leituras e renovações da esquerda marxista para os tempos de hoje, voltado para um horizonte antiautoritário, utópico e romântico (que também inspira leituras ecossocialistas4). Foi a partir desse marxismo que Benjamin pôde se posicionar contra o fascismo que ascendeu nos anos 1930.

O interesse do autor de Walter Benjamin: uma introdução é pensar de que maneira essas reverberações benjaminianas ainda nos dizem respeito hoje, em nossos novos tempos sombrios. Em Benjamin, isso fica claro quanto às figuras do intelectual, que Querido aponta: desde um “trapeiro neossurrealista” e “intelectual flanador”, passando por um “intelectual engenheiro”, até um “crítico da modernidade”, que se vincula ao ponto de vista dos “explorados e oprimidos”. De maneira distinta, mas complementar, das posições de Lacis, Brecht, Lukács, Gramsci e Adorno, a hesitação de Benjamin não o fez tender à paralisia, mas à exploração de múltiplos pontos de vista – tensos entre si –, tendo em vista um certo horizonte de expectativas.

De maneira geral, somos apresentados a Benjamin enquanto um “contemporâneo” nosso. Se pensarmos com as palavras de Giorgio Agamben –, Benjamin é aquele capaz de perceber a cisão dos tempos na medida em que compreende seu próprio tempo, simultaneamente aproximando-se e distanciando-se dele. A atualização explicitada pela introdução de Querido é aquela capaz de articular o tempo vivido de Benjamin e seu tempo histórico, quer dizer, somos apresentados a um Benjamin que encara de frente as trevas catastróficas de seu tempo: o fascismo. Contra a proposta política do fascismo, que integra o tempo enquanto continuidade linear e homogênea voltada para o “progresso”, Benjamin seria aquele que “não se deixa cegar pelas luzes do século” (Agamben, 2009, p. 635) e, com coragem, toma para si essa urgência de analisar e interromper essa temporalidade. A introdução de Fabio Mascaro Querido evidencia como as questões às quais Benjamin se colocava continuam sendo as nossas, na medida em que a luta contra a temporalidade fascista6 continua sendo a nossa tarefa. Contra a tendência de desviar da nomenclatura “fascismo”, temos neste livro uma posição que sustenta como Benjamin deve ser novamente chamado, re-evocado e revitalizado enquanto um pensador engajado politicamente contra a persistência do fascismo – ainda que seja através de uma “aposta melancólica”7, sem prometer garantias de sucesso contra a catástrofe contínua do progresso fascistizante, que borra as fronteiras entre “norma” e “exceção”, distinção essa que hoje perdeu ainda mais sua nitidez em países periféricos, com o Brasil (p. 115).

II. Da aclimatação de Benjamin no Brasil

Acreditamos que esta introdução preenche uma lacuna em nossa recepção brasileira de Benjamin, que está ligada – a título de sobrevoo esquemático – a uma determinada difusão ligada por: 1) uma primeira apropriação específica de ideias do autor sobre a reprodutibilidade técnica da obra de arte; 2) uma recepção acadêmica ligada ao campo geral da Teoria Crítica – especialmente sobre o tema da “indústria cultural”; e, enfim, 3) duas tendências de estudos sobre o pensamento do autor que, ou recaem em um sociologismo da vida de Benjamin, ou recaem em uma hermenêutica que desconsidera a dinâmica entre vida e obra do autor. A consequência dessas tendências de difusão é que nenhuma delas se propôs a compreender o que poderia ser um “marxismo benjaminiano” – o que é muito distinto de um certo “uso marxista” de Benjamin, que não se dispõe a lidar com o pensamento dinâmico e heterodoxo do autor. Por isso, muitas vezes “despedaçam” Benjamin, buscando aproveitar apenas os seus fragmentos que seriam úteis para determinada escola ou tendência, abdicando de uma compreensão enquanto um todo complexo e dialético. O trabalho de Querido, nesse sentido, nos oferece uma plataforma para superar esses equívocos.

Explico a sugestão desse sobrevoo com alguns detalhes: como apontado por Querido, a partir de Terry Eagleton, desde o fim dos anos 1970, o filósofo alemão tende a ter sua relação com o marxismo minimizada e passa a ser interpretado e apropriado em um contexto de adequação ao establishment acadêmico – o que se costuma compreender como movimento circunscrito ao âmbito da “virada cultural pós-moderna” (também em relação aos cultural studies), com ênfase na descrença em relação aos “grandes discursos” formativos da modernidade (sendo seus principais representantes: Hegel, Marx e a “Escola de Frankfurt” – todos tidos como herdeiros do iluminismo) e aos “dispositivos de legitimação” desses discursos de poder8. A partir da posição de suspeita contra a noção de modernidade enquanto uma linguagem totalizante, passa-se a valorizar a noção de “relatos” e “narrativas” para lidar com o mundo a partir de uma perspectiva micrológica.

Essa leitura tem papel crucial na recepção da teoria crítica e do marxismo na América Latina a partir do fim dos anos 1970, quando temos a expansão do modelo econômico neoliberal do modo de produção capitalista que passou a ser implementado politicamente através do estabelecimento de ditaduras empresarial-militares financiadas, sobretudo, pelos Estados Unidos. É neste contexto que as ideias de Benjamin são aclimatadas, tanto pela letra quanto pelo espírito. Uma figura principal para esse debate é a argentina Beatriz Sarlo9, que em sua leitura esquemática aponta os leitores norte-americanos como “partidários” da letra benjaminiana, ao transformarem o autor em uma “espécie de (proto)pensador da pós-modernidade” (Pucciarelli, 2021, p. 59) – anunciador da fragmentação da modernidade, da perda da totalidade, da valorização dos testemunhos e do papel da linguagem10. Por outro lado, os “comentadores” seriam aqueles que passariam a integrar a obra de Benjamin – bem como a de qualquer outro autor – ao corpo acadêmico convencional, circunscrevendo seus limites a determinadas tradições, de maneira generalista e igualadora, tornando o autor um intérprete de certa escola, em processo de canonização – o que não aconteceu com Benjamin, que não foi alçado ao panteão dos “clássicos” da filosofia. Permaneceu um outsider, como aponta Querido, tanto em vida quanto postumamente:

“Benjamin parecia estar em algum ‘entrelugar’, na bifurcação entre a política e a história, à procura de seu próprio caminho. Mas ele tinha consciência de que essa dimensão outsider limitava o alcance de sua atividade intelectual e de sua contribuição para a luta contra o capitalismo” — Fabio Mascaro Querido, Walter Benjamin: uma introdução, p.12.

Isso não impediu que sua obra se tornasse uma moda, ou, uma “wave teórica” (Sarlo, 2023, p. 92). No Brasil, a leitura de Löwy foi mais influente que a de Sarlo e, apesar de não se debruçar em demasia no tema, ele concorda que “a concepção da história de Benjamin não é pós-moderna”, e continua: “Seu pensamento não é, então, nem ‘moderno’ (no sentido habermasiano) nem ‘pós-moderno’ (no sentido de Lyotard), mas consiste em uma crítica moderna à modernidade (capitalista/industrial), inspirada em referência culturais e históricas pré-capitalistas” (Löwy, 2005, p. 15).

Fato é que ambas as posições indicadas por Sarlo, em seus usos acadêmicos, acabam por simular um Benjamin descontextualizado, ou seja, utilizam-se de seus termos, de maneira abusiva e “inflacionada”, assumindo pretensa atualidade, sem lidar com os imbricamentos de sua vida e obra, das tensões de seus conceitos e das consequências de seu pensamento. Ainda assim, não se trata de defender uma “ortodoxia” benjaminiana contra uma “vulgata” pós-moderna11, mas sim de trabalhar francamente com as tensões exigidas por sua obra – são esses nós estreitos aos quais somos apresentados no trabalho de Querido. Se, por um lado, “é verdade que Benjamin antecipou, em certa medida, algumas questões que, mais tarde, seriam desenvolvidas pelo pós-estruturalismo”, por outro, porém, “à diferença destes ou de Nietzsche, ele jamais abandonou o horizonte emancipatório moderno” (p. 113). Ainda que não tenhamos uma recepção imediata de Sarlo12, seu esquema sugere um meio para pensarmos as reverberações da obra de Benjamin no Brasil, com suas aproximações e distanciamentos.

Pelo que se sabe, as ideias de Benjamin começaram a circular pelo Brasil, inicialmente, através de José Guilherme Merquior13, Roberto Schwarz14 e Leandro Konder15, que utilizaram das ideias do autor no período entre 1965-1967 em textos da Revista Civilização Brasileira16 – além de breves notas que mencionam o autor, temos a primeira tradução do ensaio “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” (publicado nos números 18 e 19 da revista, em 1968), feita por Carlos Nelson Coutinho. Todos, de alguma maneira, relacionados ao marxismo no Brasil – o que justifica o interesse por alguns dos autores da Teoria Crítica e seu entorno, como Adorno, Marcuse e Lukács. Depois, temos as primeiras recepções dos textos e temas dos teóricos da Teoria Crítica no Brasil, principalmente a partir da coleção Os Pensadores (1972), que foi fundamental para a ampla difusão e recepção da Teoria Crítica no Brasil.

Juntamente com textos de Adorno, Habermas e Horkheimer, a primeira seleção de textos de Benjamin foi publicada em 1975, feita por Otília B. Fiori Arantes – foram eles: “A obra de arte…” (tradução de José L. Grünnewald), “Sobre alguns temas em Baudelaire” (tradução de Edson A. Cabral e José B. O. Damião), “O narrador” e “O surrealismo” (ambos traduzidos por Erwin T. Rosental). A partir de então, passamos a ter nossos primeiros comentadores de textos de Benjamin – ainda considerado um “crítico cultural” e sem estudos consistentes de sua obra como um todo. As primeiras leituras voltadas para a obra benjaminiana começaram a aparecer apenas com os trabalhos de Flávio R. Kothe, em seu Para ler Benjamin (1976), e Sérgio Paulo Rouanet, em seu Édipo e o anjo (1981) – este seria responsável pela tradução do primeiro volume de ensaios do autor pela editora Brasiliense, Magia e técnica, arte e política (1985), dentro do projeto de “obras escolhidas”, que também publicou mais dois volumes17. Assim, graças a Rouanet e a Jeanne Marie Gagnebin, que publicou seu estudo da vida e obra de Benjamin, Walter Benjamin: os cacos da história (1982), passamos a ter edições de alta qualidade que se tornaram as principais referências nacionais durante as décadas seguintes que formaram os estudiosos em Benjamin que temos hoje.

A introdução de Gagnebin é um clássico incontornável para todos que queiram se aproximar de Benjamin hoje. Enquanto especialista, ela combate diversos equívocos de leitura em relação à obra do autor – eis o primeiro trabalho substancial de vida e obra a respeito de Benjamin. A respeito das leituras marxistas, as suspeitas da autora voltam-se para seus traços genéricos e sociologizantes, que circunscrevem o autor apenas aos primeiros anos de 1930, que diz respeito aos seus trabalhos sobre arte e técnica (aqui estão os ensaios sobre Brecht e “A obra de arte…”). Como aponta Ernani Chaves (2018, p. 100), o perigo das leituras superficiais sobre Benjamin tendem a realizar um “corte epistemológico” entre um suposto “jovem Benjamin” e um “Benjamin maduro” – corte este estabelecido a partir de uma pretensa tomada de consciência a partir do contato que o autor tem com a teoria marxista, como vimos. Tal leitura simplificadora, como demonstra a autora, decerto não pode dar conta da complexidade e imbricamentos da totalidade dinâmica da obra benjaminiana – especialmente se não leva em conta o “marxismo heterodoxo” de Benjamin, que nunca se filiou ao partido comunista e via com desconfiança e distanciamento as transformações na União Soviética stalinista.

Vale frisar que o trabalho de Leandro Konder, mencionado acima, parece ter sido o único expressivo em explicitar as relações de Benjamin com o marxismo – sem cair em simplificações, mas também sem grandes aprofundamentos. Ainda assim, seus trabalhos posteriores, como o livro Walter Benjamin: o marxismo da melancolia (1988) e o breve artigo “Benjamin e o marxismo” (2003), tratam dessa relação a partir de um sobrevoo que diz mais respeito às suas relações pessoais do que à sua obra. Em seu artigo, Konder indica um curso ministrado por Michael Löwy como sua referência para pensar a adesão de Benjamin ao marxismo – o curso tornou-se depois um livro, traduzido poucos anos depois para o português como Walter Benjamin: aviso de incêndio (2005), publicado pela editora Boitempo – que agora publica a introdução de Querido. À exceção dos trabalhos de Konder e Löwy, será pouco difundida a leitura marxista da obra de Benjamin e sua posição enquanto intelectual politicamente engajado contra o fascismo – esta é a contribuição fundamental de Querido que, ao convergir com esses autores, compreende que o marxismo de Benjamin não era como um “otimismo” em relação ao progresso, à técnica e sua relação com as “massas”, mas sim uma “esperança ativa” situada em uma espécie de “melancolia revolucionária”, no sentido de um intelectual que, apesar de tudo, aposta na revolução contra a catástrofe, visando a “organização do pessimismo revolucionário” (Löwy, 2005, p. 24).

Esperamos ter exposto, por meio desses dois breves pontos, a relevância do livro de Querido dentro da história da recepção de Benjamin no Brasil. Respaldado pela rica bibliografia que temos hoje disponível, o autor de Walter Benjamin: uma introdução mostra como é possível interpretarmos Benjamin a partir de sua posição como crítico socialmente ativo nos círculos intelectuais, sem o risco de, equivocadamente, o lermos de maneira parcial e fragmentada, ou forçando posições que não condizem com o movimento de sua obra. Muito além de um Benjamin “otimista da técnica”, “chorão da Teoria Crítica” ou “narrador pós-moderno”, o que temos é um Benjamin marxista hors cadre, altamente crítico – e, também, em uma situação econômica e intelectual altamente precária – em relação aos produtos da cultura burguesa, buscando se apropriar de ferramentas capazes de fazer frente política ao fascismo. Nossa resenha pontuou apenas alguns pontos de explicitação do “fio vermelho” proposto pela leitura “a contrapelo” de Querido. Porém, há muitos outros elementos para serem apreciados, explorados e aprofundados pelos seus leitores. Tanto para os iniciantes quanto para os especialistas, este livro é uma oportunidade de (re)ler Benjamin e conhecê-lo de maneira com a qual o público brasileiro tem muito a se aproveitar crítica e politicamente.

Referências

AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? e outros ensaios. Tradução de Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó, SC: Argos, 2009.

BENJAMIN, Walter. Documentos de cultura, documentos de barbárie. Textos selecionados e apresentados por Willi Bolle. São Paulo: Cultrix e EdUSP, 1986.

BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet; prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. 7. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

BENSAÏD, Daniel. O 7, ímpar e vermelho. Revista Zero à Esquerda, 1º mar. 2024. Acesso em: 11 maio. 2026.

CHAVES, Ernani. Posfácio. In: GAGNEBIN, Jeanne Marie. Walter Benjamin: os cacos da história. Traduzido por Sônia Salzstein. São Paulo: n-1 edições, 2018.

DIDI-HUBERMAN, Georges. A sobrevivência dos vagalumes. Tradução de Vera Casas Nova e Márcia Arbex; revisão de Consuelo Salomé. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Walter Benjamin: os cacos da história. Traduzido por Sônia Salzstein. São Paulo: n-1 edições, 2018.

GOMBERG, Felipe. Coleção Os Pensadores: aura do livro e mercado editorial. Tese (Doutorado em Comunicação Social) – Centro de Ciências Sociais, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Rio de Janeiro, 2017. Acesso em: 2 maio 2026.

KONDER, Leandro. Benjamin e o marxismo. Alea: Estudos Neolatinos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 2, p. 165-174, jul./dez. 2003.

KONDER, Leandro. Marxismo e alienação: contribuição para um estudo do conceito marxista de alienação. 2. ed. São Paulo: Editora Expressão Popular, 2009.

KONDER, Leandro. Os marxistas e a arte: breve estudo histórico-crítico de algumas tendências da estética marxista. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.

KONDER, Leandro. Walter Benjamin: o marxismo da melancolia. Rio de Janeiro: Campus, 1988.

KOTHE, Flávio R. Para ler Benjamin. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1976.

LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. Tradução de Wanda Nogueira Caldeira Brant, [tradução das teses] Jeanne Marie Gagnebin e Marcos Lutz Müller. São Paulo: Boitempo, 2005.

LYOTARD, Jean-Fraçois. A condição pós-moderna. Tradução de Ricardo Corrêa Barbosa. 20. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021.

MERQUIOR, José Guilherme. Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin: ensaio crítico sobre a escola neohegeliana de Frankfurt. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1969.

PUCCIARELLI, Daniel. Esquecer Benjamin? Nota sobre um tema de Beatriz Sarlo. In: Hoje, Walter Benjamin. Organização de Bruno Almeida Guimarães et al. Belo Horizonte: Relicário, 2021, p.57-65.

QUERIDO, Fabio Mascaro. Lugar periférico, ideias modernas: aos intelectuais paulistas as batatas. São Paulo: Boitempo, 2024.

QUERIDO, Fabio Mascaro. Walter Benjamin: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2026.

ROUANET, Sérgio Paulo. Édipo e o anjo: itinerário freudianos em Walter Benjamin. 3. ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2008.

SARLO, Beatriz. Sete ensaios sobre Walter Benjamin e um lampejo. Tradução de Joana Angélica d’Avila Melo. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2013.

SCHWARZ, Roberto. O pai de família de outros estudos. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

VIEIRA, Rafael. Walter Benjamin e o marxismo, 100 anos depois. Blog da Boitempo, 21 dez. 2024. Acesso em: 2 maio. 2026.

Notas

  1. Lembremos que Benjamin foi muito cobrado por Adorno para que fizesse um estudo sistemático de Hegel e Marx (cf. Querido, 2022, p.97). Além disso, ele utilizou o filósofo de Jena em uma das epígrafes de seu texto-testamento, a tese IV de “Sobre o conceito de história” (1940). Não é incomum encontrarmos leituras que realizam aproximações entre Hegel e Benjamin  – ou, que leem Hegel pela lente benjaminiana – a partir das “imagens dialéticas” e da noção de “História” a partir dos fragmentos e das ruínas, ambas lidas a partir de uma “dialética em suspenso” – reprovada por Adorno por falhar em mediações –, mas que apresentam uma “revolução copernicana” fundamental para trabalharmos a importância política da memória e dos passados possíveis, mas não realizados. São “afinidades eletivas” que demonstram uma apropriação crítica que Benjamin faz dessa tradição – sem aderir inteiramente a ela e sem rejeitar sua relevância teórico-política. ↩︎
  2. Para compreender as nuances deste percurso de Benjamin – que não deve ser simplificado como “conversão”, “adesão” às posições hegemônicas ou “abandono” de posições próprias desenvolvidas até então – cf. VIEIRA, Rafael. Walter Benjamin e o marxismo, 100 anos depois, 2024.  ↩︎
  3.  “Talvez o mais importante, aqui, seja o dimensionamento das rupturas e das continuidades resultantes da virada marxista de Benjamin. Mais que escolher o ‘jovem’ em detrimento do ‘velho’ Benjamin, ou vice-versa […] trata-se de verificar se e em que medida as inspirações teóricas e políticas do Benjamin ‘pré-marxista’, por assim dizer, continuam presentes no Benjamin ‘marxista’. E, além disso, se e como elas foram reformuladas após a incorporação do marxismo” (Querido, 2026, p. 58). ↩︎
  4. “Ainda que não se possa qualificar Benjamin como ecologista, sob pena de um anacronismo unilateral, sua crítica do progresso e de suas consequências materiais e subjetivas toca em questões que, a partir da década de 1970, ganhariam novas proporções, com o início da tomada de consciência em relação à crise ecológica” (Querido, 2026, p. 114). ↩︎
  5. Como Didi-Huberman aponta, estas são as luzes do fascismo, projetadas pelos grandes projetores dos palanques espetaculares. Benjamin seria este que teria notado como a “questão da luz”, isto é, da correlação entre a “apresentação” e “exposição” dos povos e dos líderes fascistas como um vínculo fundamental para pensarmos a crise das democracias (cf. Didi-Huberman, 2011, p. 34-35). Como aponta Querido, este é um dos tópico entre estética e política presentes no ensaio A obra de arte…: “Para Benjamin, as mudanças ligadas ao novo modo de exposição pela técnica impactavam a própria democracia representativa, tradicionalmente ancorada na relação entre o governante/ator e seu público/espectador” (2026, p. 76).  ↩︎
  6. Vale ressaltar como a tensão entre a “continuidade” e “descontinuidade” do projeto fascista é um tópico fundamental para compreendermos as intermitências do fascismo de ontem e de hoje. Como aponta Bruna Della Torre, complexificando a leitura de Benjamin sobre a temporalidade do fascismo: “a temporalidade do fascismo ao mesmo tempo faz e não faz parte desse continuum da história”, cf. TORRE, Bruna Della. No limiar do fim dos tempos: Walter Benjamin, messianismo e fascismo, 2026.  ↩︎
  7. No sentido utilizado por Daniel Bensaïd, cf. Querido, 2026, p.105. Ver a introdução do livro BENSAÏD, Daniel. A aposta melancólica, 2024 [1997].  ↩︎
  8. Cf. Lyotard, 2021, p. 17-19; 23; 45.  Querido reforça como é equivocado lermos Benjamin como um precursor da pós-modernidade: “Benjamin não foi o profeta do declínio relativo das ‘grandes narrativas’ modernas do progresso, tal como seria proclamado por Jean-François Lyotard em 1979. Ele foi, na verdade, um pensador da catástrofe em potencial, preocupado com o outro lado do progresso moderno” (2026, p. 121).  ↩︎
  9. Seguimos aqui a exposição feita por Pucciarelli (2021) a respeito da polêmica fórmula “Olvidar Benjamin”, de Sarlo. ↩︎
  10. “Então, de onde sai este Benjamin da pós-modernidade e flâneur, ele mesmo, das ruínas da modernidade? Nos alambiques da Internacional acadêmica, promotora dos últimos desenvolvimentos industriais dos estudos culturais, combina-se, com invejável simplicidade, Foucault com Benjamin, Derrida com Deleuze e Raymond Williams com Bakhtin. Tudo soma. Contudo, a soma é o problema” (Sarlo, 2013, p.98). Como vê-se, trata-se de uma problemática de época que diz respeito não só a Benjamin, mas a uma certa tendência de época que ainda persiste. ↩︎
  11. “Não há nenhuma ortodoxia benjaminiana a custodiar. […]A banalização indiferente de Benjamin ensina pouco: quase unicamente um glossário. […] O uso ‘bárbaro’ de Benjamin não reconhece em seus textos nenhuma autoridade além da dos nomes. Eles são as marcas conhecidas, fazem parte do grupo seleto das grandes etiquetas da moda.” (Sarlo, 2013., p.101). ↩︎
  12. Cf. Pucciarelli, 2021, p.57, nota 1.  ↩︎
  13. No caso de Merquior, os trabalhos desse período estão reunidos em Arte e sociedade em Marcuse, Adorno e Benjamin (1969). Este é o livro pioneiro que estabelece uma primeira abordagem de estudo da obra benjaminiana, estabelecendo seus principais temas e interlocutores. Porém, seu estudo inaugura a percepção geral da recepção brasileira de Benjamin: ele seria um teórico da cultura e da política – sendo o ápice desse vínculo o ensaio A obra de arte… – e não um intelectual politizado em seu contexto.  ↩︎
  14. No caso de Schwarz, os trabalhos desse período estão reunidos em O pai de família e outros estudos (1978). No caso, os trabalhos de Benjamin citados são: “A obra de arte…”, Origem… e “O narrador”. Vale pontuar que parte dessa recepção marxista é pontuada por Querido em seu livro Lugar periférico, ideias modernas: aos intelectuais paulistas as batatas (2024) – ao menos da perspectiva da recepção via Schwarz.  ↩︎
  15. No caso de Konder, os trabalhos desse período estão reunidos em Marxismo e alienação (1965) e Os marxistas e a arte (1967). No caso, o único trabalho de Benjamin abordado é A obra de arte…”. ↩︎
  16. Cf. Gomberg, 2017, p.33.  ↩︎
  17. Para além desse, há também a seleção feita por Willi Bolle, intitulada Documentos de cultura, documentos de barbárie (1986). ↩︎

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Leonardo Rodrigues Silvério é bacharel (2023) e licenciado (2024) em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Atualmente cursa mestrado no programa de pós-graduação em Filosofia pela mesma instituição, na área de Estética e Filosofia da Arte. Atua nas áreas sobre teoria crítica, marxismo e estética, com foco no pensamento de Walter Benjamin. É tradutor e editor da revista Zero à Esquerda, além de membro do Coletivo Negro Dialética Calibã (USP).


Walter Benjamin: uma introdução, de Fabio Mascaro Querido
Muito comentado e pouco compreendido, Walter Benjamin ganha, pela primeira vez, uma espécie de manual para não iniciados. Neste livro, Querido segue um “fio vermelho” que atravessa a obra de Benjamin, revelando a unidade profunda de um pensamento ao mesmo tempo experimental e radical. O leitor tem em mãos um retrato sucinto de um intelectual difícil de definir, mas marcado por uma coerência fundamental: a crítica ao capitalismo moderno nas mais diversas frentes – econômica, social, cultural e mesmo ecológica. 


Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin
Um diálogo extremamente atual entre duas grandes mentes do século XX. Uma coletânea única de ensaios sobre a obra dramática e poética de Bertolt Brecht. O filósofo conceitua o teatro épico, discute Marx e sátira, e revela trechos de sua intensa correspondência com Brecht exilado na Dinamarca.

O capitalismo como religião, de Walter Benjamin
Uma seleção reveladora dos escritos do filósofo, abordando desde o romantismo alemão até a crítica do capitalismo como religião, numa perspectiva que desafia a melancolia e busca indícios de transformação na história. Crítica radical da civilização capitalista-industrial moderna.

Walter Benjamin: aviso de incêndio, de Michael Löwy
Uma análise erudita das teses de Walter Benjamin sobre o conceito de história, revelando sua riqueza de ideias e influências. O autor destrincha a complexidade das ideias de Benjamin, que articulou influências contraditórias e construiu uma síntese das relações da humanidade com o tempo.

Em torno de Marx, de Leandro Konder
Refletindo sobre a vitalidade do pensamento marxiano, aborda a dimensão filosófica muitas vezes subaproveitada de Marx. O autor, figura central no marxismo brasileiro, dialoga sobre moral, religião, história e dialética, incluindo reflexões sobre Lukács, Adorno, Gramsci e outros.


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