Cultura inútil | Separação, divórcio… destino de muitos casamentos  

“O divórcio”, de Jean-Baptiste Lesueur. Imagem: WikiCommons

Por Mouzar Benedito

Ela é desquitada.” Eba! “Mulher safada, está dando pro fulano. Quem sabe dá pra mim também.” Assim eram tratadas mulheres separadas legalmente do marido, seja por iniciativa dela ou dele. Não havia divórcio no Brasil. A separação legal era chamada de “desquite”, conseguido com muita burocracia na Justiça. Quem desquitava ficava livre de conviver com o “conje” (como diria o juiz Moro), partilhava os bens e ia ver em outro lugar, mas seria desquitado ou desquitada para o resto da vida, não podia se casar de novo.  

Pros homens, nada demais. Mas pra mulheres, vixe! A desquitada era vista sempre com suspeita e ainda era mal falada. Se ia morar com outro “conje”, era considerada sua amante. E isso era algo escandaloso. Estava “dando” pra ele.  

Uma meia solução para os ricos ou remediados era casar no Uruguai. Lá, podia-se casar sem grandes burocracias. Mas a mulher não ficava livre dos preconceitos. “Casada no Uruguai” era uma expressão dita cochichando, quando se pretendia dizer que uma mulher não era “honesta”. Podia ser falada em voz alta (ou publicada) quando a intenção era expor sua condição pra todo mundo, escancarar a “sem-vergonhice” dela. 

As uniões sem casamento, então, eram consideradas ilegais e não havia esse negócio de “união estável”. Um político carioca, Nelson Carneiro, militava por uma lei que permitisse o divórcio, foi eleito várias vezes talvez por isso, mas só teve sucesso em 1977, como senador pelo MDB. E era uma lei restritiva. Só se podia divorciar uma vez, e mesmo assim, apenas depois de cinco anos de desquite ou separação de fato. E divorciados só podiam se casar mais uma vez. Só com a Constituição de 1988 acabaram com essas restrições, e para regulamentar isso foi aprovada uma lei em 1989.  

“Derrocada das famílias”, bradava quem era contra, usando o argumento bíblico de que “o que Deus uniu, o homem não separa” (Mateus 19:6 e Marcos 10:9). Até hoje tem gente religiosa que repete isso, mas essa gente mesma separa desregradamente. Veja a ex-primeira-dama que sempre brada sobre a Bíblia, mas tem duas filhas, uma com cada homem, e o seu marido que tem filhos com três mulheres e é louvado pelos bíblicos fanáticos. É uma lei divina que só vale pros outros. Hipocrisia!  

Bom, aos poucos a lei foi “afrouxando” e simplificou a separação legal, o divórcio. Mas também já não se leva o casamento formal tão a sério. Viver juntos sem casar no cartório e na igreja é cada vez mais comum, ainda mais porque casar custa caro hoje em dia. E quase ninguém exige certificado de casamento.  

Um dia desses, ouvindo um samba de verdade, de outros tempos, eu me lembrei de um amigo, bem mais velho do que e eu, antigo colega de trabalho que adorava sambas e tinha centenas de discos de 78 rotações, e essa lembrança me levou a outra: as separações. Não vou dizer o nome dele, digamos que se chamava João.  

Um dia João me contou que chegou a ter mais de mil discos de samba, quando se casou pela primeira vez. Quando se separou levou a roupa para uma pensão até arrumar uma nova moradia fixa, para então buscar suas coisas. Não demorou muito. Pouco mais de uma semana depois foi buscar e a ex-mulher, vingativa, falou cinicamente que tinha dado todos os discos para um irmão dela, um vagabundo que, como se dizia, “vivia de expediente”. O tal irmão pegou a coleção e vendeu no mesmo dia para um sebo, por um preço ridículo, mas negaram ao João até a informação de quem comprou, porque ele queria adquirir de volta. Triste, foi comprando os discos de novo até atingir uma marca quase igual à que tinha antes. Casou de novo, dali uns tempos separou de novo, e aconteceu igualzinho. Zero discos. Ainda se casou pela terceira vez e separou de novo, mas aí a primeira coisa que fez ao consumar a separação foi levar os discos, aquelas centenas de que falei no começo.  

Mas não são só as mulheres que cometem esse tipo de vingança. Um sujeito que conheci, bom papo, boa gente, formado em Filosofia, muito culto, admirado por muita gente, inclusive por mim, era separado. Um dia conheci uma ex-cunhada dele que me contou que, quando se separou, disse que ia levar tudo o que ele tinha comprado, e levou mesmo. Até os talheres. A ex-mulher precisou recorrer a amigos para comprar garfos, pratos etc.  

Há muitas frases sobre o tema. Juntei um tanto delas… 


Zsa Zsa Gabor (atriz húngara, naturalizada estadunidense): “Divorciar-se apenas porque você já não ama o seu marido é quase tão idiota quanto ter se casado com ele apenas porque o amava”. 

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Zsa Zsa Gabor, de novo: “Sou uma ótima dona de casa: sempre que me divorcio, eu fico com a casa”. 

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Zsa Zsa Gabor, mais uma vez: “Nunca se conhece realmente um homem até que se divorcie dele”. 

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E dá-lhe Zsa Zsa Gabor (explicando uma separação): “A única coisa que nós tínhamos em comum era o dinheiro dele”. 

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C.H. Spugeon (pregador inglês): “Pecado e inferno estão casados, a não ser que o arrependimento anuncie o divórcio”. 

Margaret Trudeau: “São necessárias duas pessoas para destruir um casamento”. 

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Voltaire: “Todo divórcio começa mais ou menos ao mesmo tempo que o casamento. O casamento talvez comece algumas semanas mais cedo”. 

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Voltaire, de novo: “A amizade é o casamento da alma e este está exposto ao divórcio”. 

Suzanne Finnamore (escritora estadunidense): “O problema do casamento é que não vale a pena o divórcio”.

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Grouxo Marx: “O casamento é a principal causa do divórcio”. 

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Jennifer Weiner (escritora estadunidense): “O divórcio não é uma tragédia. Uma tragédia é permanecer num casamento infeliz, ensinando aos filhos coisas erradas sobre o amor. Ninguém nunca morreu de divórcio”. 

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Edith Wharton (escritora estadunidense): “O divórcio é uma coisa boa de se ter: você nunca sabe quando pode querer isso”. 

Sebastien-Roch Chamfort (poeta francês): “O divórcio é tão natural que, em algumas casas, dorme todas as noites entre os cônjuges”. 

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Ambrose Bierce (escritor estadunidense): “Divórcio: um toque de corneta que separa os combatentes, fazendo-os lutar à distância”. 

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Sophie Arnould (cantora francesa): “O divórcio é o sacramento do adultério”. 

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Oscar Wilde: “Alguns casamentos são feitos a fim de que o tribunal de divórcios não se mantenha ocioso”. 

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Wilde, de novo: “Os divórcios são feitos no céu”. 

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Milan Kundera: “O maior infortúnio é um casamento feliz: não resta a menor esperança de divorciar”. 

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Simone de Beauvoir: “Nós, para os outros, apenas criamos pontos de partida”. 

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Joan Rivers (atriz estadunidense): “Metade de todos os casamentos terminam em divórcio – e depois há os realmente infelizes”. 

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Khalil Gibran: “O amor não conhece sua própria intensidade até a hora da separação”. 

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Rubem Alves (escritor mineiro): “Toda separação é triste. Ela guarda memória de tempos felizes (ou de tempos que poderiam ter sido felizes…) e nela mora a saudade”. 

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Tati Bernardi: “Na separação fiquei com a melhor parte: eu”. 

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Vinícius de Moraes: “Não há nada sem separação”. 

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Caetano Veloso: “Às vezes, a separação é a única confirmação possível daquilo que é mais valioso numa união”. 

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Albert Camus: “Sabíamos então que a nossa separação estava destinada a durar e que devíamos tentar entender-nos com o tempo”. 

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Noel Rosa (na música “Último desejo”): “Se alguma pessoa amiga / Pedir que você lhe diga / Se você me quer ou não / Diga que você me adora / Que você lamenta e chora / a nossa separação. / Às pessoas que eu detesto / Diga sempre que eu não presto / Que meu lar é o botequim / Que eu arruinei sua vida / Que eu não mereço a comida / que você pagou pra mim”. 

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Jim Backus (ator estadunidense): “Muitos homens devem seu sucesso à primeira mulher – e sua segunda mulher ao sucesso”. 

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Taylor Jenkins Reid (escritora estadunidense): “O desgosto é uma perda. O divórcio é um pedaço de papel”. 

Helen Rowland (jornalista estadunidense): “O amor é uma viagem de descoberta, o casamento é o objetivo – e o divórcio é a expedição de socorro”. 

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Hellen Rowland, de novo: “Quando duas pessoas decidem se divorciar, não é um sinal de que não se entendem uma à outra, mas um sinal de que, finalmente, começam a se entender”. 

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Lucille Ball (atriz, sobre sua relação com Desi Arnaz): “Em vez de advogados lucrando com nossos erros, pensamos que lucraríamos mais com eles”. 

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Ditado popular paulista (referindo-se a dois bairros e uma avenida da capital): “Casamento é como a avenida Paulista: começa no Paraíso e termina na Consolação”. 

Georg Christoph Lichtenberg (físico alemão): “O casamento, ao contrário da febre, começa com calor e termina com frio”. 

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Alain de Botton (escritor suíço): “Em um mundo ideal, os votos matrimoniais seriam totalmente reescritos”. 

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Marco Aurélio Almazan (humorista mexicano): “O divórcio é a errata do casamento”. 

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Yukio Mishima (dramaturgo japonês): “Em geral, o divórcio só acontece quando um dos cônjuges não o quer”. 

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Johnny Carson (comediante estadunidense): “A diferença entre o divórcio e a separação legal é que a separação legal dá ao marido tempo para esconder o dinheiro”. 

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Ava Gardner: “Tudo o que ganhei com meus casamentos foram dois anos de psicanálise pagos por Artie Shaw”. 

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Ernest Hemingway (quando lhe perguntaram por que trocou sua esposa por outra mulher): “Porque sou escroto”. 

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Rachel Wolshin: “Eu costumava esperar você me trazer flores. Agora eu mesma as planto”. 

Provérbio espanhol: “Não se case, mas se casares, não descases”. 

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María Vallejo-Nágera (romancista espanhola): “O Satanás tornou-se muito agressivo porque está perdendo poder. Está destruindo casamentos, criando disputas entre padres, obcecando as pessoas”. 

Kristin Davis (atriz estadunidense): “Cheguei sozinha em nossa segunda lua de mel”. 

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Nicolas Cage (em um filme que não me lembro): “Se você quer que eu diga a verdade, não sei se minha esposa me deixou porque eu bebo ou se eu bebo porque minha esposa me deixou”. 

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Catherine Deneuve: “Não vejo razão para o casamento quando existe o divórcio”. 

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Susan Sarandon: “O divórcio é a morte de um sonho”. 

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Marilyn Monroe: “Às vezes, as coisas boas se desmoronam para que coisas melhores possam se unir”. 

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James Joyce: “Viver, errar, triunfar, triunfar, recriar vida a partir da vida”. 

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Gloria para Jay (personagens da série Modern Family): “Você é muito engraçado! Vou contar ao meu próximo marido quando gastarmos seu dinheiro”. 

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Bette Davis: “Eu me casaria novamente se encontrasse um homem que tivesse US$ 15 milhões e me desse mais da metade antes do casamento e garantisse que estaria morto em um ano”. 

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Alice Chaves e Paulo Marques (na música “Lama”): “Se eu quiser fumar, eu fumo / Se eu quiser beber, eu bebo / Não interessa a mais ninguém./ Se o meu passado foi lama / Hoje quem me difama / Viveu na lama também / Comendo a mesma comida / Bebendo a minha bebida / Respirando o mesmo ar / E hoje, por ciúme ou por despeito / Acha-se com o direito de querer me humilhar…”
 
 


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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em coautoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996), Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia) e Chegou a tua vez, moleque! (2021, Editora Limiar). Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente.


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