A universidade endividada: juventude, crédito e precarização da vida estudantil em São Paulo

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Por Erik Chiconelli Gomes

A cena que os dados não mostram

Quem leciona em curso de graduação em São Paulo conhece esta cena: estudantes que chegam atrasados porque o ônibus intermunicipal demorou, estudantes que pagam a passagem com saldo de aplicativo de entregas, estudantes que pedem o segundo prazo da mensalidade no terceiro dia de aula. A cena se repete com variações de curso, turno e distância. A precarização da vida universitária paulista virou cotidiano.

A pesquisa do Centro de Estudos em Finanças da FECAP, conhecida como IFEUP, ouviu 3.248 estudantes de graduação de instituições públicas e privadas paulistas entre janeiro e março de 2026. O índice consolidado de vulnerabilidade financeira ficou em 63,8 pontos em escala de zero a cem1. Em linguagem direta, o estudante paulista atravessa a universidade sob pressão material constante. Essa dívida raramente nasce de consumo supérfluo. Aparece quando o custo de estudar ultrapassa, mês a mês, a renda disponível na casa do estudante2.

A questão tem história. A democratização parcial do acesso ao ensino superior, conquistada por décadas de luta popular, ingressou em colisão com a precarização do trabalho juvenil, com o encolhimento da renda familiar real e com a financeirização da vida cotidiana. O resultado dessa colisão aparece, agora, nos dados da FECAP e nas reivindicações da última greve estudantil da USP.

Os números e a distância material

O levantamento da FECAP indica que 68,4% dos universitários paulistas possuem alguma dívida ativa3. Entre estudantes de famílias com renda mensal de até três mil reais, esse percentual sobe para 77,2%. Entre famílias com renda acima de quinze mil reais, cai para 39,7%. O recorte por renda permite uma leitura objetiva da dívida. O endividamento estudantil acompanha a posição de classe.

A pesquisa também mostra que 74,1% dos estudantes não possuem reserva de emergência e que 41,7% atrasaram pagamentos nos últimos doze meses. Outros 37,2% mantêm duas ou mais dívidas simultâneas. O que esses números registram é a inexistência de margem. Inexistência de margem para um dente quebrado, um livro novo, um deslocamento de emergência, um mês de aulas sem renda do estágio.

Uma matéria publicada pela Folha de S. Paulo em maio de 2026 articulou esses dados ao debate público. A leitura midiática costuma oscilar entre a imagem do estudante imprevidente e a defesa da educação financeira como remédio individual. Ambas as leituras compartilham uma omissão. Não nomeiam a estrutura material que produz a dívida.

Custo de transporte, valor do almoço, aluguel, mensalidade, material didático, internet, taxa de inscrição em concurso, estágio mal remunerado. A soma dessas linhas excede a renda disponível da maioria dos estudantes paulistas. A dívida aparece nesse vazio, como ponte improvisada entre o custo total de permanência estudantil e a renda real do estudante.

O cartão de crédito como salário antecipado

Quase metade das dívidas estudantis paulistas, exatamente 46%, tem origem no cartão de crédito. O dado merece tratamento histórico. Por décadas, o cartão foi instrumento da classe média urbana com salário fixo. Para boa parte dos estudantes paulistas, porém, cumpre hoje função distinta. Funciona como antecipação de salário para quem não tem salário, reserva improvisada para quem não tem reserva, prótese financeira da reprodução cotidiana4.

O cartão paga o almoço quando a bolsa atrasa, o ônibus na semana que antecede o estágio, a impressão do trabalho final, o medicamento que o SUS não entregou no prazo, a passagem para um enterro na cidade natal. Paga, sobretudo, o tempo. Permite continuar estudando enquanto o próximo depósito demora. Esse tempo comprado a juros volta como fatura, rolagem, restrição cadastral, ansiedade. Volta como pressão sobre o corpo de quem estuda.

Mensalidades e gastos com educação respondem por 21% das dívidas, e empréstimos pessoais somam outros 13%. Aplicativos digitais aparecem com 11%. Dívidas familiares contabilizam 6%. A distribuição das dívidas mostra a centralidade do crédito de curto prazo.

Tabela 1. Principais fontes de dívida de universitários em São Paulo

Fonte de dívida Percentual 
Cartão de crédito 46% 
Mensalidades e gastos com educação 21% 
Empréstimos pessoais 13% 
Aplicativos digitais 11% 
Dívidas familiares 6% 

Fonte. Centro de Estudos em Finanças da FECAP, IFEUP, 2026.

A composição registra uma economia doméstica que opera no fio. A própria universidade, quando privada, ocupa lugar relevante na inadimplência. A mensalidade vira disputa cotidiana com o orçamento familiar. O ensino aparece como produto financiado. Quem não paga perde acesso ao boletim, à carteirinha, à matrícula e, no limite, ao curso.

Quando estudar exige lutar para permanecer

A greve estudantil da USP, iniciada em 15 de abril de 2026 e estendida por todo o mês de maio e início de junho, tornou visível a outra face desse mesmo conflito. O estopim foi a concessão, pela Reitoria, de gratificação mensal de R$ 4.500 a docentes por dois anos, ancorada em receitas de aplicações financeiras da Universidade, sem extensão equivalente aos servidores técnico-administrativos nem aumento dos auxílios e bolsas para o corpo discente.

A pauta estudantil articulou-se em torno do reajuste das bolsas integrais do Programa de Apoio à Permanência e Formação Estudantil (PAPFE) de R$ 885 para algo próximo de R$ 1.804, equivalente ao salário mínimo paulista, e do investimento nos restaurantes universitários5. A contraproposta da Reitoria, após três rodadas de negociação, ofereceu reajuste das bolsas integrais do PAPFE de R$ 885 para R$ 912 e das bolsas parciais, destinadas a moradores do CRUSP, de R$ 335 para R$ 340; reajustes de aproximadamente 3% e 1,5%, respectivamente. Com a recusa do reitor em participar de novas reuniões, estudantes ocuparam a Reitoria entre 7 e 10 de maio. A ocupação terminou com invasão da Polícia Militar na madrugada. Em 13 de maio, estudantes protestaram na Avenida Paulista pela retomada das negociações encerradas unilateralmente pela administração após a instalação de uma chamada Comissão de Moderação e Diálogo Institucional.

A USP aparece nesse cenário como caso concentrado, não como exceção absoluta. A pauta da permanência atravessa o debate sobre as universidades públicas paulistas, ainda que cada instituição tenha programas, ritmos e conflitos próprios. O ponto comum está na tensão entre democratização do ingresso e custo material da permanência.

Antonio David e Lincoln Secco leem a greve como disputa em torno da distribuição dos recursos universitários, da permanência estudantil e da estrutura de poder que organiza a universidade pública paulista6. A leitura ganha alcance quando se observa o lado material. O estudante que reivindica bolsa, bandejão e moradia disputa as condições que tornam possível atravessar quatro, cinco ou seis anos de graduação sem abandonar o curso, sem adoecer, sem dívida irrecuperável.

Em registro próximo, Pedro Antônio Chiquitti, Lincoln Secco e Jorge Luiz Souto Maior descrevem a estrutura institucional da USP como espaço atravessado por assédio administrativo, esvaziamento do diálogo e captura gerencial das instâncias deliberativas pela burocracia universitária7. Os autores chamam a atenção para o conflito distributivo aberto pelo orçamento universitário, em que disputas materiais por reforma das moradias estudantis e auxílios dignos esbarram em decisões de uma camada dirigente formada sob políticas neoliberalizantes e adaptada a operar como gestora financeira da Universidade. A descrição é compatível com a leitura aqui proposta. O endividamento estudantil não é resultado contingente, mas efeito de uma estrutura de poder que privilegia reservas financeiras, gratificações seletivas e brunchs com empresários em detrimento do financiamento da permanência da juventude trabalhadora.

A democratização do ingresso, conquistada por meio de cotas e do aumento da presença de estudantes oriundos da escola pública, alterou a composição social do corpo discente da universidade pública paulista. Esse deslocamento sociológico encontra estruturas materiais que continuam organizadas para outro tipo de estudante. O bandejão de qualidade insuficiente, a moradia escassa, a bolsa abaixo do salário mínimo, o transporte caro, a ausência de creche em horário de aula para mães estudantes. Cada um desses pontos torna-se local de tensão real, e em conjunto produzem uma forma específica de desistência silenciosa.

Elevar o auxílio permanência ao patamar do salário mínimo paulista não é uma pauta corporativa. É uma exigência da reprodução material da vida estudantil. Quem estuda precisa comer, dormir, ir, voltar, comprar livros, pagar internet. Bolsa integral abaixo de novecentos reais, em São Paulo, não cobre essas linhas. A diferença é coberta por trabalho informal, por estágio, por dívida.

A invasão do prédio da Reitoria pela Polícia Militar na madrugada do Dia das Mães indica outra dimensão. Estudantes expulsos do local sob escudos, cassetetes e bombas de efeito moral relatam pancadas que fraturaram braços, lanternas usadas para desorientar, ameaças de arma longa portada por um dos policiais e atendimento médico atrasado pelo Sistema Único de Saúde em razão da própria condição de manifestante8. A disputa por permanência opera como disputa sobre quem tem direito de falar, ocupar, negociar e existir politicamente dentro da universidade. Quando o estudante de origem popular passa a ocupar espaços antes destinados a herdeiros e às classes médias, a fronteira da polícia desloca-se com ele.

Os relatos colhidos junto a moradores do CRUSP descrevem o que esses números significam no plano material. Estudantes que dependem do auxílio parcial fazem as três refeições diárias no restaurante universitário, porque o valor da bolsa não cobre alimentação fora dele. As denúncias incluem pedras, papelão e larvas encontrados nos alimentos, filas longas que dificultam o acesso. Na moradia estudantil, as cozinhas comuns têm bocas de fogão quebradas, banheiros tomados por mofo e infiltrações de esgoto entre andares. Esse é o lado material da bolsa parcial de R$ 340. Estudar em São Paulo, para parte expressiva da juventude universitária, significa atravessar essa rotina enquanto se mantém na graduação.

A greve estudantil da USP em 2026 inscreve-se nessa tradição como momento de formação política da juventude trabalhadora paulista. A greve leva para o espaço público uma tensão que já atravessava aulas, bandejões, bolsas e deslocamentos. A luta recoloca, em termos públicos, as perguntas que o mercado prefere manter em silêncio: Quem pode estudar sem se endividar? Quem permanece sem adoecer? Quem atravessa a universidade sem transformar o cartão de crédito em complemento da bolsa, do salário ou da renda familiar?

Saúde mental como dimensão social

A FECAP registra que 61,5% dos universitários paulistas relatam ansiedade ao lidar com dinheiro, 42% sentem vergonha das próprias dívidas, 38% apresentam episódios de insônia associados às finanças, 44% identificam queda de concentração nos estudos, 23% já faltaram a aulas por restrição financeira e 19% já cogitaram trancar a graduação por razões econômicas9.

A leitura individualizante desses dados, que domina os manuais de bem-estar universitário, descola o sintoma de sua condição. A ansiedade financeira do estudante exprime, em registro psíquico, a insegurança material prolongada. A vergonha registra o desencontro entre a promessa do ensino superior e o cotidiano de cobranças que o acompanha. Ler esses sintomas como fragilidade pessoal embaralha o diagnóstico social.

A insônia ligada às finanças é tempo de sono perdido na repetição mental de planilhas, vencimentos, rolagens e ligações de cobrança. Esse turno extra dedicado à administração do próprio endividamento não é tempo livre. É o avesso da jornada formal de estudo. A queda de concentração e as faltas seguem o mesmo princípio. O estudante perde aula porque o vencimento da fatura volta à cabeça antes do conteúdo da disciplina, ou porque a passagem que faltou inviabilizou o deslocamento até o campus naquele dia.

Tabela 2. Indicadores de pressão emocional e acadêmica associados às dívidas

Indicador Percentual 
Ansiedade ao lidar com dinheiro e finanças 61,5% 
Vergonha em relação às próprias dívidas 42% 
Episódios de insônia associados às finanças 38% 
Queda de concentração nos estudos 44% 
Faltas às aulas por restrição financeira 23% 
Cogitação de trancamento da graduação por razões econômicas 19% 

Fonte. Centro de Estudos em Finanças da FECAP, IFEUP, 2026.

Lida nesses termos, a saúde mental do universitário paulista deixa de funcionar como variável psicológica isolada e passa a integrar o inventário social da precarização. O estudante individual não está fragilizado por traços de caráter. A forma social do estudo no Brasil produz fragilidade em escala.

Classe, renda e seleção pela permanência

A clivagem mais direta dos dados está na renda familiar. Entre estudantes de famílias com renda de até três mil reais, 77,2% estão endividados. Entre famílias com renda acima de quinze mil reais, o percentual cai para 39,7%. A diferença não é estatística decorativa. Indica como o sistema universitário paulista filtra, na permanência, parte daqueles que acolheu no ingresso.

A democratização do acesso, conquistada por cotas, programas de inclusão e ampliação parcial das vagas em universidades estaduais, federais e privadas com bolsa, abriu portas. A porta de saída precoce continuou sendo construída pela ausência de condições materiais de permanência. Trancar matrícula, mudar para curso noturno, abandonar a pós-graduação, trocar formação por trabalho imediato. Cada uma dessas escolhas, vivida como decisão pessoal, organiza-se estatisticamente em torno da renda familiar.

Há aqui uma operação histórica que merece nome próprio. A desigualdade aparece, nesse caso, como filtro de permanência. A democratização chegou ao ingresso. Não chegou, na mesma medida, à travessia que separa a matrícula do diploma.

Juventude trabalhadora, estágio, aplicativos

O estudante paulista raramente é estudante em tempo integral. Trabalha. O trabalho juvenil universitário das últimas décadas reorganizou-se em três frentes. A primeira é o estágio, formalmente remunerado por bolsa-auxílio que muitas vezes não alcança um salário mínimo. A segunda é o trabalho por aplicativo, com jornadas longas, sem direitos e com queda da remuneração real ano após ano10. A terceira é o trabalho informal no comércio, em pequenas empresas e na economia doméstica.

Cada uma dessas frentes alimenta a dívida em vez de eliminá-la. O estágio paga a passagem e não cobre o aluguel. O aplicativo cobre o aluguel em alguns meses, mas exige investimento em moto, celular, plano de dados, manutenção. O serviço informal preenche a margem residual em horários inviáveis para o estudo. A dívida amortece a distância entre rendas insuficientes e custos crescentes.

O processo encontra-se com a financeirização da vida cotidiana. Aplicativos de empréstimo de fácil concessão, fintechs voltadas à juventude, cartões pré-aprovados em plataformas digitais. Atualmente, 11% das dívidas estudantis paulistas têm origem em aplicativos financeiros11. O dado parece modesto frente aos 46% provenientes do cartão de crédito. Convém, no entanto, lê-lo como tendência. O crédito aparece, nesse ponto, como mediação entre renda insuficiente e continuidade do consumo necessário, deslocando para o futuro a contradição que o orçamento doméstico não resolve no presente. A fronteira do crédito juvenil se desloca para dentro do celular, com algoritmos calibrados para oferecer mais crédito a quem já está endividado.

Permanência é questão pública, não doméstica

A dívida estudantil paulista não cabe no diagnóstico de comportamento. O que se descreve nos dados da FECAP é um modelo social que transferiu para o jovem trabalhador a tarefa de custear sua própria formação em um mercado de trabalho sem condições estáveis para isso. A greve da USP descreve o mesmo quadro pelo avesso, em registro de conflito. Juntos, os dados e a greve dão uma imagem mais precisa da condição estudantil paulista.

Educação financeira individual não tocará no problema. Pode atenuar comportamentos pontuais, ensinar uma planilha, treinar uma negociação com banco. Não modifica o custo do almoço, o valor do transporte, a carestia do aluguel, a precariedade da bolsa, a agressividade dos algoritmos que oferecem mais crédito a quem já está endividado. Esses são fenômenos de política pública.

A pauta que emerge desse cruzamento passa por bolsas de permanência compatíveis com o custo de vida, moradia estudantil, transporte, bandejões subsidiados, controle sobre a expansão predatória do crédito juvenil e recomposição orçamentária das universidades públicas. Também exige enfrentar o preço das mensalidades privadas, porque parte expressiva da dívida estudantil nasce dentro do próprio mercado educacional.

A permanência estudantil precisa ser tratada como questão pública, orçamentária e política. Onde o estudante depende de dívida para estudar, a universidade adia o cumprimento da sua promessa democrática. Quando estudantes precisam fazer greve para comer, morar e estudar, a universidade revela o limite material da democratização que anunciou ter conquistado.

Notas

  1. FECAP. 68,4% dos universitários de SP possuem dívidas, aponta estudo inédito da FECAP. Centro de Estudos em Finanças, São Paulo, 28 abr. 2026. A pesquisa, denominada Índice Financeiro Estudantil Universitário Paulista (IFEUP), ouviu 3.248 estudantes de graduação de instituições públicas e privadas do estado entre janeiro e março de 2026. O índice consolidado de 63,8 pontos foi classificado pelos autores como cenário de vulnerabilidade alta.  ↩︎
  2. Sobre a transferência privada dos custos da formação superior, ver A escola não é uma empresa, de Christian Laval (2019), e Escritos sobre a universidade, de Marilena Chaui (2001). ↩︎
  3. Para os dados de inadimplência, ausência de reserva, atraso de pagamentos e múltiplas dívidas simultâneas, ver FECAP (2026). ↩︎
  4. Por financeirização da vida cotidiana entende-se a penetração de mecanismos de crédito, juros e cálculo financeiro nas formas elementares de reprodução social. Ver A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal, de Pierre Dardot e Christian Laval (2016). ↩︎
  5. ABREU, Jorge. Alunos da USP protestam na Paulista por retomada de negociações com reitoria. Folha de S.Paulo, São Paulo, 13 maio 2026. A matéria é mobilizada como fonte factual do protesto, das reivindicações sobre o PAPFE, dos restaurantes universitários, da retomada das negociações e da Comissão de Moderação e Diálogo Institucional. ↩︎
  6. DAVID, Antonio; SECCO, Lincoln. Por que a greve da USP é legítima. Outras Palavras, São Paulo, 13 maio 2026. O texto é mobilizado como interpretação crítica do conflito universitário, no que diz respeito à distribuição dos recursos universitários, à permanência estudantil, à estrutura de poder da USP e à repressão policial, sem reprodução literal das formulações dos autores.  ↩︎
  7. CHIQUITTI, Pedro Antônio; SECCO, Lincoln; SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. A USP é uma bomba relógio. A Terra é Redonda, São Paulo, 30 maio 2026. O texto é mobilizado como interpretação crítica da estrutura institucional da USP, no que diz respeito ao autoritarismo da burocracia universitária, ao desvio de uso da infraestrutura de comunicação da Universidade contra estudantes e servidores, ao caráter restrito do colégio eleitoral em relação ao tamanho da comunidade universitária e ao conflito distributivo aberto entre permanente estudantil e lógica gerencial das reservas financeiras institucionais, sem reprodução literária das formulações dos autores. ↩︎
  8. COSTA, Pedro Lukas. Ostentação da violência: a brutalidade policial na greve da USP. Le Monde Diplomatique Brasil, São Paulo, 25 maio 2026. A matéria é mobilizada como fonte factual da violência empregada pela Polícia Militar na desocupação da Reitoria, dos relatos de estudantes feridos, da precariedade material dos restaurantes universitários e da moradia estudantil do CRUSP, bem como das rodadas de negociação sem acordo de 21 e 25 de maio. ↩︎
  9. Para os indicadores de ansiedade, vergonha, insônia, queda de concentração, faltas e cogitação de trancamento, ver FECAP (2026). A leitura aqui proposta dialoga com Nancy Fraser (2024), no que diz respeito à crise do cuidado e ao papel da reprodução social como dimensão constitutiva do capitalismo contemporâneo. A vulnerabilidade emocional do estudante paulista, nesse enquadramento, não aparece como traço psicológico individual, mas como sintoma da pressão exercida sobre o trabalho de reprodução das famílias trabalhadoras. ↩︎
  10. Sobre a precarização juvenil marcada por estágio mal remunerado, plataformização e trabalho informal, ver O privilégio da servidão, de Ricardo Antunes (2020), e A política do precariado, de Ruy Braga (2012). ↩︎
  11. A presença de aplicativos financeiros entre as dívidas estudantis paulistas, segundo o IFEUP, atinge 11%. Sobre o deslocamento da fronteira entre mercado e vida social, ver Polanyi (2000). Para a leitura da juventude trabalhadora como formação histórica que se constitui a partir da própria condição material, em suas práticas, conflitos e modos de sociabilidade, ver Thompson (1987). ↩︎

Referências

ABREU, Jorge. Alunos da USP protestam na Paulista por retomada de negociações com reitoria. Folha de S. Paulo, São Paulo, 13 maio 2026. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2026/05/alunos-da-usp-protestam-na-paulista-por-retomada-de-negociacoes-com-reitoria.shtml. Acesso em: 16 maio 2026.

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CHAUÍ, Marilena. Escritos sobre a universidade. São Paulo: Editora Unesp, 2001.

CHIQUITTI, Pedro Antônio; SECCO, Lincoln; SOUTO MAIOR, Jorge Luiz. A USP é uma bomba-relógio. A Terra é Redonda, São Paulo, 30 maio 2026. Disponível em: https://aterraeredonda.com.br/a-usp-e-uma-bomba-relogio/. Acesso em: 31 maio 2026.

COSTA, Pedro Lukas. Ostentação da violência: a brutalidade policial na greve da USP. Le Monde Diplomatique Brasil, São Paulo, 25 maio 2026. Disponível em: https://diplomatique.org.br/ostentacao-da-violencia-a-brutalidade-policial-na-greve-da-usp/. Acesso em: 31 maio 2026.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

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FECAP. 68,4% dos universitários de SP possuem dívidas, aponta estudo inédito da FECAP. Centro de Estudos em Finanças, São Paulo, 28 abr. 2026. Disponível em: https://www.fecap.br/2026/04/28/684-dos-universitarios-de-sp-possuem-dividas-aponta-estudo-inedito-da-fecap/. Acesso em: 16 maio 2026.

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POLANYI, Karl. A grande transformação: as origens da nossa época. Rio de Janeiro: Campus, 2000.

THOMPSON, Edward Palmer. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. 3 v.

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Erik Chiconelli Gomes é doutor em História Econômica pela Universidade de São Paulo e Coordenador Acadêmico e do Centro de Pesquisa e Estudos da Escola Superior de Advocacia – OAB/SP.


A política do precariado: do populismo à hegemonia lulista, de Ruy Braga
Leitura inovadora da classe trabalhadora brasileira, explorando teoria, história e etnografia para compreender a dinâmica do “proletariado precarizado”. Um estudo pioneiro que desafia consensos e questiona o modelo de desenvolvimento atual.

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A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal, de Pierre Dardot e Christian Laval
Análise perspicaz do capitalismo contemporâneo que desvenda a essência do neoliberalismo, indo além de sua manifestação econômica e ideológica. Aborda o impacto da nova racionalidade neoliberal na sociedade, questionando a democracia e os direitos públicos.

A escola não é uma empresa, de Christian Laval
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A educação para além do capital, de István Mészáros
Ensaio provocante sobre a educação, questionando visões liberais e utópicas. O autor enfatiza a conexão entre processos educacionais e sociais e destaca a necessidade de romper com as relações sociais sob o controle do sistema do capital para promover mudanças no sistema educacional.




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