Marxismo e lutas LGBT, para além da “cortina de fumaça”

Com textos de Judith Butler, Angela Davis, Amanda Palha, Renan Quinalha, Isadora Lins França, Rafael Dias Toitio e Mario Mieli, entre outros, novo número da revista da Boitempo enfrenta articulações teóricas e políticas entre marxismo e lutas LGBT, para além da querela da “cortina de fumaça”.

Obra da série Beloved Martina, do artista plástico colombiano Carlos Motta, cujo ensaio visual ilustra as páginas da Margem Esquerda n. 33.

Acabou de chegar o novo número da Margem Esquerda – edição quentíssima dedicada a destrinchar as articulações entre marxismo e lutas LGBT. Para marcar o lançamento da revista, organizamos um debate com alguns dos autores do dossiê de capa do número, hoje em São Paulo. Saiba mais sobre o evento e a edição ao final deste post!

Por Artur Renzo e Ivana Jinkings.

Com a ascensão vertiginosa do bolsonarismo, as temáticas de gênero e sexualidade foram alçadas a um lugar central na cena pública brasileira. Se é verdade que esse fenômeno se deu com sinal invertido – como reação conservadora às conquistas dos movimentos LGBT e feministas nas últimas décadas –, também é verdade que a resposta que se impõe a uma esquerda comprometida com a luta de classes não deve contornar ou adiar tais questões, entendendo-as como restritas ao jogo da polarização em um contexto de guerra cultural. Com esta edição, a Margem Esquerda se insere nesse debate com reflexões que buscam enfrentar as articulações teóricas e políticas entre marxismo e lutas LGBT para além da querela da “cortina de fumaça”.

Na entrevista que abre a edição, a filósofa estadunidense Judith Butler retraça sua trajetória intelectual e política a partir das indagações formuladas por Carla Rodrigues, Maria Lygia Quartim de Moraes e Yara Frateschi. Localizando no “intenso sentimento de precariedade induzido pelas forças econômicas e financeiras” a origem da onda de acirramento da xenofobia, da LGBTfobia, do antifeminismo e do racismo que vivemos, Butler não hesita em dar nome aos bois: “estamos testemunhando uma nova forma de fascismo, na qual nem sempre se ensaia um rompimento explícito com a democracia”.

O dossiê de capa organizado por Lucas Bulgarelli, doutorando em antropologia social pela USP, traz textos de Renan Quinalha, Rafael Dias Toitio, Amanda Palha e Isadora Lins França, que, a partir de perspectivas diversas, compõem um panorama crítico da história e do presente da relação entre marxismo e lutas LGBT no Brasil, evidenciando ao mesmo tempo o potencial político da aproximação entre os dois campos.

Em diálogo com o dossiê, abre a seção de artigos a intervenção certeira de Angela Davis, que insiste na importância do reconhecimento de um elo direto entre as lutas históricas dos negros por direitos civis e as lutas contemporâneas das comunidades LGBT. Sem deixar de problematizar o caráter formalista desses direitos na sociedade burguesa, a filósofa destaca a importância de se superar uma política pautada unicamente pelo igualitarismo abstrato, e alerta para as armadilhas das soluções punitivistas para as opressões estruturais de uma sociedade capitalista heteronormativa, atravessada por cisões de classe, gênero e raça.

Numa abordagem inesperada e fértil, Flávio Wolf de Aguiar segue as pistas de seu mestre Antonio Candido e desbrava a produção literária de Plínio Salgado, fundador da Ação Integralista Brasileira, mostrando sua tônica ao mesmo tempo ultraconservadora e antiliberal. O historiador marxista Osvaldo Coggiola dirige um olhar atento à tensa conjuntura da América Latina e oferece um balanço das experiências políticas da esquerda no continente.

No ano do centenário de fundação da Internacional Comunista – um desdobramento da Revolução Russa, idealizada por Lênin como instrumento necessário de difusão da revolução socialista internacional –, Marcos Del Roio analisa o legado da IC, formalmente dissolvida em 1943, mas viva na luta dos partidos comunistas que persistiram na reivindicação da emancipação dos trabalhadores e dos povos. Fechando a seção, Mario Duayer discute a chamada questão do método em Marx, cujo debate se baseia em grande medida no famoso texto intitulado “O método da economia política”. Nesse artigo, Duayer demonstra que é um equívoco sugerir que Marx estabelece ali as linhas gerais de seu método, e também que, com exceção da análise de Lukács, as interpretações mais influentes não dão conta da orientação ontológica do texto marxiano.

Para o clássico deste número, Maria Lygia Quartim de Moraes recupera um comovente e afiado texto de Clara Zetkin sobre sua amiga, camarada e interlocutora Rosa Luxemburgo, escrito meses após seu assassinato – que em 2019 também completa cem anos. Ecoando o tema de capa, a edição traz ainda um importante documento do marxista italiano Mario Mieli, um dos primeiros a arriscar extrair as consequências teóricas de uma aproximação entre luta de classes e movimento gay. Intitulado “A crítica gay”, o texto tem tradução e comentário de Luiz Ismael Pereira.

Luciano Martorano resenha a interpretação de Franscisco Farias sobre a dominação burguesa no Brasil entre 1930 e 1964, a partir do conceito de bonapartismo, enquanto Vitor Sartori se debruça sobre a descoberta do conceito marxiano de “modo de representação capitalista” por Jorge Grespan em seu novo livro. A nota de leitura de Roberto Castelo destaca a atualidade de um clássico de Octavio Ianni que acaba de ganhar nova edição.

O poema “À bandeira rubra”, selecionado e traduzido pelo editor da seção, Flávio Wolf de Aguiar, é do cineasta, poeta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini. Já as imagens, escolhidas e apresentadas pelo editor de arte deste número, Gabriel Zimbardi, são do colombiano Carlos Motta.

Com as palavras de André Singer, Carlos Eduardo Martins e Ronaldo Vielmi Fortes prestamos tributo a três homens essenciais que nos deixaram neste semestre. Escrevendo sobre Chico de Oliveira, Singer dá um testemunho vivo de como a inventividade dialética do mestre pernambucano inspirou e continua inspirando o pensamento crítico sobre os impasses políticos do país. Martins reflete sobre o ambicioso projeto intelectual de “síntese criativa entre Braudel e Marx” que Immanuel Wallerstein deixou em aberto. E Fortes refaz a trajetória e o legado do filósofo romeno Nicolas Tertulian. Outras perdas importantes merecem registro: do jornalista Paulo Henrique Amorim, da socióloga Lívia Cotrim, do poeta e ensaísta cubano Roberto Retamar e do pesquisador e professor da Unicamp Reginaldo Moraes. A eles dedicamos esta edição.

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Margem Esquerda traz ensaios de fôlego sobre os principais acontecimentos de nosso tempo e sobre a conjuntura sociopolítica no Brasil e no mundo, além de estudos sobre os clássicos do marxismo e entrevistas aprofundadas que traçam trajetória intelectual, política e cultural de figuras de destaque da esquerda de hoje.

Com um conselho editorial composto por pensadores do calibre de Alysson Leandro Mascaro, Boaventura de Sousa Santos, Heloísa Fernandes, José Paulo Netto, Luiz Bernardo Pericás, Maria Lygia Quartim de Moraes, Michael Löwy, Paulo Arantes, Ricardo Antunes, Roberto Schwarz e Slavoj Žižek, entre outros, a revista vem contribuindo incisivamente para a difusão da teoria marxista, consolidando-se como um importante espaço de debate teórico e político da esquerda brasileira.

Toda edição conta com um dossiê temático. Confira aqui a lista completa das edições anteriores, que abordam temas como “Marxismo e a questão racial“, “Lutas indígenas e socialismo“, “Feminismo, marxismo e a Revolução Russa“, “Marxismo e direito”, “A crise brasileira“ e o mais novo sobre “Marxismo e lutas LGBT”.

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Ivana Jinkings nasceu em Belém (PA), em 1961. Fundou e dirige a editora Boitempo, de São Paulo, e a revista Margem Esquerda. Filha de Maria Isa Tavares e Raimundo Jinkings, intelectual e dirigente comunista que criou a primeira Boitempo, em Belém, nos anos 1960, coordenou, com Emir Sader, Carlos Eduardo Martins e Rodrigo Nobile, a Latinoamericana: enciclopédia contemporânea da América Latina e Caribe, obra vencedora do prêmio Jabuti de Melhor Livro de Ciências Humanas e o Melhor Livro de Não-Ficção em 2007. Organizou, entre outros, o livro A verdade vencerá: o povo sabe por que me condenam, de Luiz Inácio Lula da Silva (Boitempo, 2018).

Artur Renzo é diretor de conteúdo da Boitempo, onde edita o Blog da Boitempo, a TV Boitempo e revista Margem Esquerda. Formado em Filosofia na FFLCH-USP e em Comunicação Social com habilitação em Cinema, traduziu, entre outros, A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI (Boitempo, 2018), de David Harvey, e Ideologia e propaganda na educação, de Nurit Peled-Elhanan (Boitempo, 2019).

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