Entender as opressões para combatê-las

Não se trata mais apenas expressar os interesses de uma classe operária entendida como sujeito coletivo unitário, mas de construir a vontade política e a unidade na ação de uma multiplicidade de grupos dominados. Para isso, entender com profundidade como se cruzam as diversas estruturas de opressão é fundamental.

Por Luis Felipe Miguel.

É lugar-comum dizer que a tradição marxista, ao definir que a dominação de classe é o fundamento último da ordem social, não leva em conta outras formas de assimetria e de opressão. Para esta tradição, o racismo teria nascido como um estratagema para minar a solidariedade entre os dominados; mesmo a opressão sobre as mulheres seria um subproduto da apropriação privada da riqueza, a crer no relato de Engels, apresentado no clássico A origem da família, da propriedade privada e do Estado. O corolário dessa percepção é que só a luta de classes importa; todo o resto seria desviacionismo. Quando o socialismo chegasse, todas as formas de dominação desapareceriam naturalmente.

Essa narrativa está – felizmente – desacreditada, mesmo (em geral) no âmbito do próprio marxismo. Já que também não prosperaram as leituras feministas, frequentes nos anos 1970, de que racismo e dominação de classe seriam apenas extensões do sexismo, hoje é amplamente reconhecido que as diferentes opressões sociais são irredutíveis umas às outras, ainda que operem de forma cruzada para produzir a realidade que nos cerca e nos constitui. Mas o mero reconhecimento deste fato é insuficiente, assim como é insuficiente o discurso, frequente em círculos de esquerda, de que as opressões são todas “igualmente centrais” e que há “interseccionalidade” entre elas.

Se nos contentamos com a ideia fácil de que não devemos “hierarquizar” as opressões, nos privamos da possibilidade de compreender com maior profundidade o funcionamento do mundo social. A questão não é estabelecer hierarquias, mas entender as diferentes maneiras pelas quais elas incidem em diferentes espaços sociais com efeitos diferentes em abrangência e profundidade.

Por qual mágica seria possível garantir que todas as formas de dominação têm exatamente o mesmo impacto e o mesmo peso na produção da realidade? É razoável pensar, por exemplo, que o capitalismo opera como um sistema, que incide sobre todas as relações sociais curvando-as à sua lógica, ao passo que o patriarcado demonstra sobretudo uma maleabilidade que lhe permite prosperar nas mais diversas formações sociais e momentos históricos, mesmo quando o que antes parecia ser sua base (a exclusão das mulheres da esfera pública ou a moral sexual repressiva) é abalado. Isso não significa estabelecer que um é “mais fundamental” do que outro, mas percebê-los como agindo por mecanismos que são diversos e, portanto, não se equivalem. E também pode ser que não seja assim – exatamente por isso é necessário avançar na investigação. Estabelecer que capitalismo, patriarcado, racismo ou homofobia se equiparam como formas de dominação por um parti pris arbitrário é teoricamente improdutivo e, quase com certeza, empiricamente incorreto.

Por outro lado, também é razoável sugerir que há eixos que são mais estruturantes do mundo social na sua totalidade – o que não significa que as outras formas de opressão sejam secundárias ou irrelevantes. O capitalismo pode explicar uma gama maior de aspectos da sociedade atual do que a homofobia, mas, mesmo que isso seja verdade, na vida de um trabalhador gay, ser gay representa provavelmente enfrentar uma carga muito maior de violência e discriminação do que ser trabalhador. Não nasce daí uma hierarquia que estabelece uma luta como prioritária ou anterior à outra, mas a possibilidade de combiná-las de uma maneira mais competente.

Compreender as diferenças na forma de funcionamento e no impacto social das diversas relações de dominação é essencial para que sejamos capazes de sair do mero reconhecimento ritual da “interseccionalidade” e possamos tanto compreender seu funcionamento cruzado quanto produzir estratégias que articulem as demandas variadas dos múltiplos grupos oprimidos. No fim das contas, é isso que está em jogo. No livro Hegemonia e estratégia socialista, Ernesto Laclau e Chantal Mouffe observam que a crise da esquerda, no momento, ainda não superado hoje, da crise do modelo bolchevique, é uma crise da “ilusão da possibilidade de uma vontade coletiva perfeitamente una e homogênea que tornaria inútil o momento da política”.1 Sem necessariamente aderir ao pacote completo de ideias que Laclau e Mouffe expõem no livro, é necessário reconhecer que este diagnóstico é irretocável. Não se trata mais apenas expressar os interesses de uma classe operária entendida como sujeito coletivo unitário, mas de construir a vontade política e a unidade na ação de uma multiplicidade de grupos dominados. Para isso, entender com profundidade como se cruzam as diversas estruturas de opressão é fundamental.

O feminismo socialista dos anos 1960 e 1970 produziu algumas reflexões importantes para entender a relação entre patriarcado e capitalismo, que no entanto precisariam receber maior desenvolvimento e, claro, atualização, já que as últimas décadas presenciaram mudanças importante nos padrões de dominação seja de classe, seja de gênero.2 A introdução do racismo estrutural e da heteronormatividade compulsória, entre outros eixos possíveis, torna a tarefa de deciframento da dominação social ainda mais desafiadora. Mas, se não a enfrentarmos, permaneceremos ou fadados à hierarquização arbitrária das agendas ou presos nas armadilhas da política identitária, na qual a luta muitas vezes não é contra os sistemas de reprodução da dominação, mas uma competição pela afirmação da própria opressão sofrida.

Notas

1 Ernesto Laclau. Chantal Mouffe. Hegemonía y estrategia socialista: hacia una radicalización de la democracia (Madrid, Siglo Veintiuno, 1987), p. 2. O livro foi publicado originalmente em 1985.
2 Discuto algumas dessas teorias no artigo “Voltando à discussão sobre capitalismo e patriarcado”, publicado na Revista Estudos Feministas, vol. 25. n. 3, 2017, p. 1219-1237.

***

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê, que mantém o Blog do Demodê, onde escreve regularmente. Autor, entre outros, de Democracia e representação: territórias em disputa (Editora Unesp, 2014), e, junto com Flávia Biroli, de Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014). É um dos autores do livro de intervenção Por que gritamos golpe? Para entender o impeachment e a crise política no Brasil. Seu próximo livro, Dominação e resistência, será publicado pela Boitempo em 2018. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

7 comentários em Entender as opressões para combatê-las

  1. Republicou isso em Gustavo Hortae comentado:
    A cada dia aumentam as barbaridades…
    A cada dia me sinto mais “Um Estranho no Ninho”.

    Que merda, que bordeu, que suruba da porra.

    ACORDA!!!

    gustavohorta.wordpress.com

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  2. A cada dia aumentam as barbaridades…
    A cada dia me sinto mais “Um Estranho no Ninho”.

    Que merda, que bordeu, que suruba da porra.

    ACORDA!!!

    gustavohorta.wordpress.com

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  3. Carlos Peixoto Filho // 10/11/2017 às 13:07 // Responder

    carlos peixoto filho

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  4. João Damaceno // 10/11/2017 às 13:45 // Responder

    Eu acho uma temeridade e um despropósito quanto se apregoa que o povo tem que sair às ruas protestando, tem que bater panelas, anular votos e outros que tais. Nos anos 60 eram as passeatas estudantis…conclamava-se o povo para ir às ruas.Nas reuniões com alguns líderes do Largo São Francisco, eu dizia: gente, cuidado! O povo pensa com a barriga! Hoje eu diria: “vive do consumismo!”, o que é bem pior pois, é sinal que a barriga está saciada.
    E, vejam quanto tempo demorou a ditadura militar com todas as suas temeridades e atrocidades. Lembremo-nos: “O bolo primeiro tem que crescer para depois distribuir”, nas falas do “venerado” Delfim Neto.
    Uma “bela” saudade daqueles tempos era o “Febeapa” – Festival de Besteiras que Assola o País, do saudoso Stanislaw Ponte Preta. Vou citar só uma: “os assentos das cadeiras de trabalho devem ter reentrância para acomodar as “tuberosidades isquiáticas” (no vulgar: a bunda”) do trabalhados – estava escrito numa das NR´s de segurança do trabalho. Depois dizem que os legisladores não se preocupam com o operário…
    Existe nos estudos sociológicos uma máxima muito fácil de se constatar e entender: “Iguais multiplicam iguais.”. E para se perpetuar isto, criam-se os diferentes advindos de desiguais: artistas, jogadores (pseudos esportistas) e por aí vai.
    Gira, gira, mexe e vira: constatamos que o Panis er Circenses nunca saiu de cena. E agora mais do que nunca com o globo terrestre se tornando uma bola de gude pela velocidade das comunicações e com certos “habitantes iluminados no meio da escuridão” querendo que a sua voz seja a voz de Deus.
    E, é pra isto que os meios de comunicação servem (verdadeiros vendilhões do templo) pois espaço publicitário – qualquer que seja – custa; se gratuito é só para servir de estatística ou fonte de recursos temáticos para os pagos…
    Revisito mentalmente minha sala de aula no cursinho, onde vejo uma professora abrindo sua 1a. aula dizendo: “Redação é uma matéria muito sutil. Agora, calem a boca e escrevam!”

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  5. Tomás Rosa Bueno // 10/11/2017 às 16:03 // Responder

    Seria interessante estudar em que momento, exatamente, e pela mão de quem e de quais interesses, a “classe” operária assumiu esse papel central como sujeito histórico no pensamento da esquerda (tenho pra mim que foi a partir do “leninismo”, mesmo antes do Lênin). Seria preciso lembrar que os operários, como os tradutores e os professores de ciências políticas, são uma categoria do bom e velho *proletariado*, aquela classe de indivíduos — homens, canhotos, mulheres, doentes, negros, migrantes e o escambau, de todas as orientações sexuais havidas e por haver —cujo *único* modo de sobrevivência na sociedade de classes é a venda da própria força de trabalho, e que não tem, sobre isso e sobre nada mais, *nenhum* poder de decisão; e que os indivíduos dessa classe sem escolha são fundamentalmente *pobres*, por maior que seja a quantidade de objetos miseráveis que consigam acumular. Seria “interessante” não esquecer que a “multiplicidade de opressões” é um produto histórico e que cada opressão particular, desde os longínquos tempos em que se operou a “privatização das mulheres” em favor do bando macho dominante, tem o seu lugar *histórico* no sistema repressivo que sustenta o poder de classe.

    Perder de vista esta questão central leva inevitavelmente à miséria identitária, pilar da repressão modernizada.

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  6. É espinhoso a questão do patriarcado, homofobia, racismo e até a questão indígena. Na minha
    opnião o capitalismo tem uma fleixibilidade surpreendente em relação a perpetuação de si mesmo. Pego por exemplo os EUA do séc. XIX, o Norte se industrializou e não precisou mais de escravos pois os mesmos ficaram caros para se ter, era melhor ter proletário e assim a dominação de classe continuava intacta.

    O patriarcado e outras formas de opressão não precisam necessariamente estar vinculado ao capitalismo, mas este sistema progride com base nessas opressões.

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  7. Glaucia Peixoto Dunley // 14/11/2017 às 21:05 // Responder

    Excelente artigo

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