Surfista prateado

15 04 17 _ Luiz Bernardo Pericás _ Surfista prateado frentePor Luiz Bernardo Pericás.

Em algum lugar da galáxia, entre estrelas e meteoros, o Surfista Prateado viaja sobre sua prancha, solitário. O espírito nobre e o senso de justiça nunca abandonam aquele que vaga no espaço sideral, sem lar nem destino…

Criado por Jack Kirby (e desenvolvido em seus aspectos principais por Stan Lee), o personagem apareceu pela primeira vez em 1966 na revista dos Fantastic Four número 48. Ganharia uma publicação própria da Marvel Comics em 1968, ano de grandes convulsões políticas e sociais em todo o mundo.

O jovem e irrequieto astrônomo Norrin Radd vivia em Zenn-La, no sistema estelar Deneb, uma civilização avançada, com todos os traços de uma sociedade utópica, que havia praticamente atingindo a perfeição, onde reinavam a paz e a harmonia entre os seus habitantes. As guerras, os crimes e as doenças eram parte de um passado longínquo… Mas esta vida idílica estava prestes a acabar. Galactus, “o devorador de mundos”, necessitava da energia dos planetas para sobreviver. Lembremos que o explorador Galan, habitante de Taa, antes da existência de nosso universo, foi um dos poucos sobreviventes do cataclismo que acabou com tudo à sua volta. Fugiu numa nave e foi engolido pelo Big Crunch. Mas resistiu. Seria gestado dentro do “ovo cósmico” (o centro daquele sistema em compressão), acionando a “Consciência do Universo” (uma entidade interestelar, a encarnação da eternidade), que se fundiu a ele, num casulo de energia. Milhões de anos após o Big Bang, acordaria como Galactus, “a corporalização ou personificação metamorfizada de todo o cosmos”, um ser monumental, com grande poder. Sua fome era tal que imediatamente consumiria o planeta Archeopia. Destruiria diversos outros astros daí em diante. E daria poderes a vários arautos (para procurar lugares para conquistar), entre os quais, o mais conhecido deles, o Surfista Prateado.

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Em teoria, a forma verdadeira de Galactus não pode ser percebida pela maioria dos seres, ou seja, cada espécie o veria da maneira que pudesse compreendê-lo melhor, similar às suas próprias feições ou divindades. Na Terra, ele é retratado como um enorme homem branco, ocidental, o que pode sugerir a relação com um opressor imperialista, atacando mundos distantes para pilhá-los, saqueá-los e eliminá-los: afinal, Galactus sugava dos planetas toda a sua energia para continuar vivo, assim como os Estados Unidos retiravam de países em desenvolvimento os recursos naturais e matérias-primas para manter sua economia aquecida. Publicado no auge da Guerra do Vietnã, a HQ denunciava (mesmo que talvez inadvertidamente) as atrocidades e arbitrariedades de uma entidade poderosa, difícil de ser destruída, mas que deveria ser enfrentada a qualquer custo (ainda que Lee, possivelmente, não interpretasse a narrativa desta forma).

Norrin Radd se sacrifica para preservar seu planeta e salvar seu povo, especialmente Shalla-Bal, seu amor, aceitando servir àquela imponente semidivindade. Com isso, contudo, ele sela seu destino. É verdade que receberá uma fração do “poder cósmico” do bosse autoritário. Mas será uma aberração, um humanóide de pele metálica, que percorrerá os quatro cantos do universo em cima de sua long board, em completa solidão, por toda a eternidade. Deve encontrar mundos para Galactus devorar. Sempre busca, entretanto, locais inóspitos, inabitados. Afinal, o Surfista Prateado faz o possível para salvar qualquer lugar que tenha vida em sua superfície, por mais que seu “mestre” tente controlar seus desígnios.

Na Terra, tocado pela nobreza de espírito dos Fantastic Four (no Brasil, chamados, em épocas diferentes, de Quarteto Fantástico ou os Quatro Fantásticos), de Alicia Masters (a namorada do Coisa) e de “Uatu, o Vigia”, acabará se unindo aos novos amigos para combater o gigante espacial, que será derrotado por eles. Teria de enfrentar outros inimigos, como o Doutor Destino e Mefisto (quem sabe, o pior entre os vilões), que desejava nada menos do que possuir sua alma. Ao longo do tempo, o personagem também irá manter vínculos com outros “rebeldes”, “antiheróis”, freaks e outcasts, como o Doutor Estranho, Namor e Hulk, todos, à sua maneira, rejeitados, desprezados e incompreendidos…

A busca do heraldo é também existencial. Está atrás de algo perdido, intangível: a nobreza do espírito, a liberdade e a justiça. Mas está fadado a constantemente se decepcionar e a deslizar pelo cosmos.


É verdade que tem grande poder. Pode navegar pelo hiperespaço, entrar em buracos negros e criar portais interdimensionais. Não precisa de água ou ar. Nem de dormir (ainda que de vez em quando o faça para sonhar). Possui habilidades telepáticas e consegue detectar objetos a anos luz de distância. Tudo isso, entretanto, não diminui seu sofrimento…

15 04 17 _ Luiz Bernardo Pericás _ Surfista prateado

A edição número um daquele gibi contava a origem do Silver Surfer. Com roteiro de Stan Lee e o traço de John Buscema, “one of comicdoms greatest collaborations”, a revista apresentava o personagem em toda sua dimensão. “High o’er the roof of the world he soars… free and unfettered as the roaring wind itself! Behold the sky-born spanner of a trillion galaxies… the restless, streaking stranger from the farthest reach of space… this glistening, gleaming seeker of truth, whom man shall call forevermore… the Silver Surfer!

O Surfista tenta ajudar os homens, salvar aqueles em perigo. Mas é hostilizado pela raça humana. Em todas as galáxias ele nunca havia encontrado um planeta mais abençoado do que este, com todos os ingredientes para construir um verdadeiro paraíso. Ainda assim, a humanidade em sua cegueira e insanidade incontrolável, parecia destruir tudo. As pessoas, afinal de contas, se mostravam violentas, más e arrogantes. Num encontro com o Hulk, que o ataca, o Surfista comenta: “though others called him a monster, to me he was a fellow being… in need of aid! I wished only to bring him to a place of safety! I wished only to call him a friend!”

Muitos artistas iriam desenhar suas aventuras, como Marshall Rogers, Tom Grindberg, Ron Garney, Joe Rubinstein, Joe Phillips, Bart Sears e até mesmo o genial Moebius (o ilustrador Jean Giraud). Já entre os roteiristas, nomes como Steve Englehart, Jim Valentino, Jim Starley, Ron Marz, Glenn Greenberg, Mike Lackey, George Pérez, Don Chariton, Stacy Weiss, Greg Pak e Dan Scott. A importância do Surfista Prateado é tal que ele chegou a ganhar um selo dos correios dos Estados Unidos, numa série em tributo à Marvel, sendo, portanto, um dos heróis da companhia retratados e homenageados pelo serviço postal daquele país.

O Surfista Prateado continua a cativar os leitores de quadrinhos, jovens e velhos, até hoje. E ainda viaja em cima de sua prancha no espaço sideral, sozinho…

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Conhece o Barricada, novo selo de quadrinhos da Boitempo? Como o próprio nome sugere, o selo se dedica a títulos libertários, de resistência, nacionais e internacionais, garimpados por , um conselho editorial composto por Luiz Gê, Ronaldo Bressane, Rafael Campos Rocha e Gilberto Maringoni.

***

Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Seu livro mais recente é Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

6 comentários em Surfista prateado

  1. Espetacular teu texto. Um dos melhores personagens da Marvel.
    Mas o que eu curtia era o desconhecido Homem-Múltiplo da China, que tinha o poder de se múlplicar em vários e reunir a força de todo povo da China. Só vi ele em uma única história (tenho o formatinho na casa de minha mãe), onde todos os heróis do planeta são abduzidos por uma entidade para uma nave e grupos são montados para uma gincana para salvar o planeta.. kkk.

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  2. Luís sempre mandando muito bem! Parabéns, belo texto!

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  3. Luiz Bernardo Pericás é buenacho!!!! Não há nada que ele escreve e que eu não goste! Parabéns!

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  4. Alessandro // 22/04/2015 às 19:58 // Responder

    Belissimo texto Luiz!
    Instigará até aqueles que nunca ouviram falar neste trágico personagem. Parabéns!

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  5. Ótimo o texto. Parabéns.

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