Meu amigo Corto Maltese

Luiz Bernardo Pericás presta sua homenagem aos 130 anos de nascimento do Corto Maltese e aos 50 anos da criação do personagem pelo artista italiano Hugo Pratt.

Por Luiz Bernardo Pericás.

Conheci Corto Maltese muitos anos atrás e desde o primeiro momento nos tornamos amigos. Há quem diga que o lendário aventureiro desapareceu de vez durante a guerra civil espanhola. Alguns chegaram até mesmo a afirmar que ele teria perdido a vida naquele conflito, combatendo nas Brigadas Internacionais. Não, isso não é verdade. Corto está bem, podem apostar. E cheio de energia e entusiasmo, como de costume. Sempre surgirá, entretanto, alguém para retrucar que se trata de algo impossível. Afinal, Maltese nasceu no dia 10 de julho de 1887, em Valletta (Malta). Ou seja, estaria completando 130 anos! Por favor, não deem ouvidos aos céticos e burocratas. E creiam em mim: o marujo alto, magro e pensativo, com seu quepe inconfundível e cigarro entre os lábios finos está mais ativo do que nunca.

Muitos jovens da nova geração não ouviram falar do dileto personagem criado há cinco décadas pelo italiano Hugo Pratt, um dos gigantes dos quadrinhos do século passado. Corto era o alter ego do artista, ele próprio, uma figura ímpar, singular em todos os sentidos. Viajante inveterado, filósofo, espírito livre, desenhista de traços fortes, Pratt cruzou boa parte do planeta em busca de inspiração… e emoção. Por um tempo, morou no Brasil, onde, supostamente, teve uma filha. Foi na Argentina, contudo, que desenvolveu seu estilo marcante. Não podemos nos esquecer que as HQs platenses se destacaram em toda a América Latina. E, por que não dizer, no mundo. Editoras renomadas, público sofisticado, um mercado pujante e roteiristas de primeira. É só lembrar de Héctor Oesterheld, que trabalhou em diversos fumetti com o chargista nascido em Rimini (mas veneziano de coração). Pratt residiu por três lustros em Buenos Aires, dando vida ao correspondente de guerra Ernie Pike e ao Sargento Kirk. Foi de sua pena que vieram à luz também as tiras de Ticonderoga, Capitão Cormorant, Billy James, O Sombra, Jungle O’Hara e o detetive Ray Kitt, entre tantos outros.

Corto Maltese estreou em 1967 nas páginas da revista italiana Sgt. Kirk e se tornou seu personagem mais emblemático. Ao longo do tempo, o marinheiro do Mediterrâneo viveria sua saga por boa parte do globo, em histórias que se passavam em lugares tão distintos como as ilhas do Pacífico Sul, o sertão nordestino, a Amazônia, a África, a Europa, a Patagônia, a Manchúria e a Sibéria. Nelas, contracenou com várias personalidades históricas: o dirigente soviético Joseph Stálin, os outlaws Butch Cassidy e Sundance Kid, os escritores Jack London, James Joyce e Ernest Hemingway, o dramaturgo Eugene O’Neill e o jornalista John Reed, autor de Dez dias que abalaram o mundo.

Um detalhe vale ser lembrado. Quando criança, Maltese descobriu que não possuía a linha da vida na mão esquerda. Mas isso não seria problema. Com uma navalha, riscou um corte longo e profundo na palma em questão. Em outras palavras: ele próprio traçaria seu destino!

As influências de Pratt eram claras: Robert Louis Stevenson, Joseph Conrad e o já citado Jack London seriam algumas de suas principais fontes literárias. O fato é que o autor de A balada do mar salgado iria produzir obras que marcariam os leitores de todo o planeta. É só lembrar que seu personagem se tornou tão icônico que ganhou um museu dedicado a ele em Veneza, assim como uma estátua na vila de Grandvaux, na Suíça, onde Hugo passou seus últimos dias. Quem diria!

Pois então saibam que Corto Maltese continua vivo e saudável, o mesmo viajante incansável de outrora, um homem descrito pelo mestre do nanquim e das watercolors como “romântico”, “moderno” e “livre”. Mas se você quiser conhecer de verdade o lacônico e intrépido marinheiro, deve entrar em seu universo. Corto, como se sabe, sempre viveu num mundo mágico, onírico, delirante. E é nele que se deve procurá-lo.

Hugo Pratt disse certa vez, numa entrevista, que “quem consegue enxergar esse universo vai encontrar Corto Maltese e talvez vários outros heróis esquecidos. Mas quem não consegue enxergar este universo nunca poderá ver Corto Maltese”. Sendo assim, “as aventuras de Corto não terminarão nunca, ele sempre estará inserido em alguma situação histórica. Sempre poderá ser encontrado”. E isso é verdade. Afinal, as narrativas do personagem enigmático transitam entre o real e o imaginário, onde a lenda, os sonhos e o mundo concreto se misturam constantemente para criar um cenário novo, que só alguns conseguem perceber.

Por isso, insisto em lembrar de Corto Maltese, um velho e querido amigo. E dizer a todos que ele continua andando por aí, em algum canto do planeta, firme e forte, com seu cigarro na boca e em busca de aventuras, como sempre…

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Gostou? Leia também “Surfista prateado“, sobre o quadrinho americano dos anos 60, “A rebeldia de Octobriana“, sobre a incrível personagem soviética de HQs e “O mundo louco de Basil Wolverton“, na coluna de Luiz Bernardo Pericás, no Blog da Boitempo!

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Conhece o Barricada, novo selo de quadrinhos da Boitempo? Como o próprio nome sugere, o selo se dedica a títulos libertários, de resistência, nacionais e internacionais, garimpados por , um conselho editorial composto por Luiz Gê, Ronaldo Bressane, Rafael Campos Rocha e Gilberto Maringoni.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. Seu livro mais recente, Caio Prado Júnior: uma biografia política (Boitempo, 2016), lhe rendeu o troféu Juca Pato de Intelectual do Ano. Pela Boitempo, também publicou Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010), do romance Cansaço, a longa estação (2012) e da coletânea Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

3 comentários em Meu amigo Corto Maltese

  1. Texto maravilhoso inspirador e animador. Viva Corto!

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  2. deborah silva de queiroz // 29/05/2017 às 1:21 // Responder

    Eu lia na Argentina nos anos 1975/1976… Muito bom!!!

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