Modelos vivos, vivazes e vivaldinos. Viva Laerte!

Uma preciosa coletânea da melhor fase de Laerte nos quadrinhos já pode ser adquirida nas boas casas do ramo. E, como atrativo adicional, vem embalada em belos exercícios do que antigamente se chamava “desenho ao natural”.

laerte-coutinho-golpePor Gilberto Maringoni.

Uma preciosa coletânea da melhor fase de Laerte nos quadrinhos já pode ser adquirida nas boas casas do ramo. E, como atrativo adicional, vem embalada em belos exercícios do que antigamente se chamava “desenho ao natural”.

Modelo vivo (Barricada/Boitempo, R$ 49) reapresenta a cartunista a um público que praticamente só a conhece como personagem e militante dos direitos LGBT e defensora de causas tão generosas quanto democráticas. Em 88 páginas, 25 desenhos, nove histórias e seis tiras, temos uma amostra representativa de sua produção do final dos anos 1980-começo dos 1990, publicada nas revistas Circo, Geraldão e Chiclete com banana, editadas por Toninho Mendes, que assina a organização geral do livro.

Emerge dali o contista urbano a combinar paixão pelo detalhe – um poste, uma calha quebrada, um gesto incidental – e a vibração absurda de um Samuel Beckett com pena e nanquim nas mãos. Uma moto que se transmuta em motoqueiro, um burocrata megalômano e os inefáveis Palhaços Mudos compõem, entre outras situações, a visão de uma Laerte tão paulistanocêntrica quanto universal.

Laerte criou uma nova literatura fragmentada, de estilos cambiantes e, ao mesmo tempo, moldada por uma espantosa unidade em torno do inesperado. Alinhavados em um único volume, a ele cabe como poucos os qualificativos de “desigual e combinado”. Ela nunca foi daquelas artistas que, uma vez atingida a maturidade estilística, decidem estabelecer uma rotina temática ou estética a partir de traços e temas que se tornam tão confortáveis para o artista quanto tediosos para o leitor. Laerte jamais romerobritizaria seu trabalho, criando repetições ad nauseam em um terreno rotineiro.

É difícil dizer qual a melhor história do livro. O “Minotauro”, curta narrativa de cinco páginas, é a reelaboração de uma produção dos anos 1970, na qual a lenda grega é apresentada com dramaticidade cinematográfica. Em “O míssil”, Laerte revisita a história do rei Artur e a retirada de Excalibur da pedra. A modernização muda também a arma: ao invés da espada, é uma bomba direcional que desafia os postulantes. A sequência que fecha a coletânea parece quase autobiográfica, a exibir um desenrolar de situações limites, típicas de quadrinhos de ação dos anos 1950-60.

Para quem desenha e se mete a fazer quadrinhos, o trabalho de Laerte provoca uma gama de sensações desencontradas.

A maior delas é a inveja desse talento oceânico. Uma puta inveja!




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“O impeachment está nu: quadrinhos e crise política no Brasil”
Debate de lançamento com Laerte e Sakamoto!

Após anos sem publicar, Laerte Coutinho retorna às livrarias com Modelo vivo, um recorte da multiplicidade de seu eu-artístico, fruto do caminho de livre experimentação que seguiu em sua trajetória. O livro será lançado pela Barricada, selo de quadrinhos da Boitempo, em debate sobre quadrinhos e crise política no Brasil que contará com a participação do jornalista Leonardo Sakamoto (autor do Blog do Sakamoto e do livro O que aprendi sendo xingado na internet) e mediação da jornalista Tory Oliveira (CartaCapital). O evento, organizado em parceria entre a Boitempo, a revista CartaCapital e a Blooks Livraria, acontece na quinta-feira dia 15 de dezembro, a partir das 19h30 na Blooks Livraria (Shopping Frei Caneca – Rua Frei Caneca, nº 569 – 3º Piso).

No encontro, Laerte Coutinho e Leonardo Sakamoto discutirão os caminhos da política no país, o ódio nas redes sociais e o avanço do conservadorismo nas ruas, bem como as formas de representação estética e o papel do humor em tempos tão estranhos quanto o que vivemos agora.

Após o debate, haverá uma sessão de autógrafos de Modelo vivo e da coletânea Por que gritamos Golpe? – Para entender o impeachment e a crise política no Brasil (Boitempo, 2016), que contou com a colaboração da cartunista.

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Quadrinhos no Blog | Gostou? Leia também “Luis Gê em seis tempos” e “Uma das melhores HQs de todos os tempos“, de Gilberto Maringoni; “Surfista prateado“, sobre o quadrinho americano dos anos 60, “A rebeldia de Octobriana“, sobre a incrível personagem soviética de HQs e “O mundo louco de Basil Wolverton“, na coluna de Luiz Bernardo Pericás, no Blog da Boitempo!

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Gilberto Maringoni é doutor em História Social pela FFLCH-USP e professor adjunto de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC. É autor, entre outros, de A Revolução Venezuelana (Editora Unesp, 2009), Angelo Agostini: a imprensa ilustrada da Corte à Capital Federal – 1864-1910 (Devir, 2011) e da introdução do romance O homem que amava os cachorros, do cubano Leonardo Padura. Cartunista, ilustrou algumas capas de livros publicados pela Boitempo Editorial na Coleção Marx Engels, comoManifesto comunista. Integra o conselho editorial do selo Barricada, de quadrinhos da Boitempo.

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