Moebius reloaded

pericasAUTO-RETRATO DO QUADRINISTA, ARTISTA GRÁFICO E ILUSTRADOR JEAN GIRAUD (1938-2012)

Por Luiz Bernardo Pericás.

Revolucionário, enigmático, provocador. Assim era o lendário ilustrador francês Jean Giraud, também conhecido como “Gir” e “Moebius”. Dizer que ele era um dos maiores desenhistas contemporâneos não é exagero. Na verdade, Giraud era verdadeiramente um gênio. Fazia o que queria com um lápis, caneta ou bico de pena: a versatilidade, a multiplicidade de estilos, o traço em constante mutação eram a sua marca. Difícil encontrar um cartunista que tivesse uma técnica tão apurada quanto a dele.

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Durante anos enveredou pelos quadrinhos de faroeste. Criou Les aventures de Frank et Jérémie, Fort Navajo e o mais conhecido deles, o Tenente Blueberry. Em tempos de Leone, Corbucci, Solima e Peckinpah, quando os Spaghetti Westerns faziam sucesso nas telas de cinema, sua estética suja, sombria e áspera combinava com a época e lhe angariava fãs.

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Mas Giraud ia além. Em 1963, começou a usar um novo pseudônimo, Moebius, que o tornaria ainda mais conhecido. Isso foi na revista Hara-Kiri. Em 1974, quando fundou a sensacional Métal Hurlant com o grupo de amigos autointitulado Humanoïdes Associés, sua fama se estendeu para todo o planeta.

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Giraud editaria a publicação visionária ao lado de nomes como Philippe Druillet e Jean-Pierre Dionnet, e teria como colaboradores Richard Corben, Jacques Tardi, Vaughn Bode, Serge Clerc, Milo Manara e Enki Bilal, entre outros. Com Stan Lee, entre 1988 e 1989, faria duas edições de uma minissérie do Surfista Prateado para a Marvel, depois unidas em Silver Surfer: Parable. Com esta Graphic Novel, ganhou o Eisner Award de melhor “finite/limited series”. Este, apenas um dos muitos prêmios que colecionou ao longo da vida.

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Mas ele não parou por aí. O mundo do cinema o admirava e o procurava constantemente. Fellini adorava seu trabalho. E também Ridley Scott e Luc Besson. Giraud se tornaria, assim, colaborador de diversas Story Boards, sendo o responsável pelo Concept Design dos filmes Alien, Tron, O quinto elemento e The Abyss.

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Como Moebius criou um universo surreal. “Já que o mundo vaga para o delírio, devemos adotar um ponto de vista delirante”… “Estou ausente das muitas versões do cosmos onde você está presente”… “A arte é uma grande porta, mas a vida real tem muitas portinhas que você deve passar para criar algo novo”… Moebius! E então, Arzach, Le garage hermétique, L’Incal. Histórias muitas vezes sem narrativa clara, não-lineares, baseadas em imagens estranhas, fantasmagóricas, oníricas. De quadros carregados de conteúdo erótico até cenários escapistas, fantásticos, etéreos e mágicos, Moebius conduzia o público a dimensões nunca antes exploradas. Suas HQs parecem levar os leitores a um transe hipnótico.

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Na verdade, tudo o que fazia era “arte”. Mas uma arte difícil de classificar, que misturava o modernismo, o nouveau realisme e o surrealismo, com fortes influências do pop, da ficção científica, do cinema, da contracultura, do rock’n’roll e das drogas alucinógenas. Enfim, um artista completo, iconoclasta, rebelde, que se dedicou durante cinquenta anos a refinar e sofisticar as bandes dessinés, elevando-as a um novo patamar conceitual. E fazendo com que suas produções tivessem uma qualidade estética difícil de se equiparar. Por isso, foi e continuará sendo um dos mais influentes e emblemáticos ilustradores de todos os tempos.

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Gostou? Leia também “Surfista prateado“, sobre o quadrinho americano dos anos 60, “A rebeldia de Octobriana“, sobre a incrível personagem soviética de HQs e “O mundo louco de Basil Wolverton“, na coluna de Luiz Bernardo Pericás, no Blog da Boitempo!

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Conhece o Barricada, novo selo de quadrinhos da Boitempo? Como o próprio nome sugere, o selo se dedica a títulos libertários, de resistência, nacionais e internacionais, garimpados por , um conselho editorial composto por Luiz Gê, Ronaldo Bressane, Rafael Campos Rocha e Gilberto Maringoni.

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Luiz Bernardo Pericás é formado em História pela George Washington University, doutor em História Econômica pela USP e pós-doutor em Ciência Política pela FLACSO (México). Foi Visiting Scholar na Universidade do Texas. É autor, pela Boitempo, de Os Cangaceiros – Ensaio de interpretação histórica (2010) e do lançamento ficcional Cansaço, a longa estação (2012). Também publicou Che Guevara: a luta revolucionária na Bolívia (Xamã, 1997), Um andarilho das Américas (Elevação, 2000), Che Guevara and the Economic Debate in Cuba (Atropos, 2009) e Mystery Train (Brasiliense, 2007). Seu livro mais recente é Intérpretes do Brasil: clássicos, rebeldes e renegados, organizado em conjunto com Lincoln Secco. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas-feiras.

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