A teoria marxista hoje

Fala realizada durante a I Plenária do Historical Materialism Rio 2026.

Paula Varela no Historical Materialism Rio 2026. Foto: Ana Beatriz Slomski

Por Paula Varela
(tradução de Carolina Peters)

Para pensar a teoria marxista hoje, a primeira coisa a ser dita é que estamos em um momento de recomposição lenta do marxismo. Considerando esse cenário de recomposição lenta vivido nos últimos 15 anos, gostaria de diferenciar dois momentos.

Poderíamos chamar o primeiro momento de uma revitalização interpretativa do marxismo, diretamente vinculada à explicação da crise de 2008 como uma crise do capitalismo neoliberal. Ou seja, foi o próprio caráter sistêmico da crise com a qual começamos o século XXI que abriu espaço para o fortalecimento do marxismo como perspectiva que persiste em oferecer uma análise global das crises capitalistas. E isso diferencia o marxismo de muitas das outras teorias críticas, mais ou menos entrelaçadas com movimentos sociais contemporâneos, que tecem críticas importantes ao capitalismo atual e suas opressões (raciais, de gênero, sexuais etc.), mas que carecem dessa busca por explicação global.

Creio que um saldo importante desse primeiro momento pós-2008 foi a busca por identificar as várias dimensões da crise atual, que Nancy Fraser chamou de uma crise “multidimensional”:

  • Crise econômica
  • Crise política (das instituições dentro dos Estados nacionais) e geopolítica (das instituições interestatais e dos Estados-nação entre si)
  • Crise climática ou ecológica
  • Crise da reprodução social

A essas dimensões correspondem desenvolvimentos da teoria marxista que me interessam mencionar, pois entendo que constituam “desenvolvimentos progressivos” do programa de investigação do materialismo histórico, para tomar de empréstimo uma imagem de Michael Burawoy – um marxista que gostaria de homenagear aqui, que tive a sorte de conhecer e aprecio não apenas pelas coisas que com ele aprendi devido ao nosso interesse comum pela etnografia aplicada à classe trabalhadora, mas por sua generosidade. Burawoy parte da ideia de Irme Lakatos de que os programas de investigação têm um “núcleo duro” (que, obviamente, constitui um debate em si mesmo) e, a partir de tal núcleo, desenvolvem propostas “degenerativas” ou “progressivas”. As degenerativas são aquelas que vão diminuindo a capacidade explicativa da teoria. As progressivas são as que permitem interpretar e buscar resolver os novos problemas (anomalias) apresentados pela realidade e, ao fazê-lo, desenvolvem e renovam a própria tradição. Creio que é pertinente evocar essa imagem para tratar de certos desenvolvimentos da tradição marxista hoje, particularmente aqueles relacionados com:

a) Os debates e as teorias da reprodução social – sobre os quais falarei em detalhe a seguir, pois trabalho com essa linha.

b) As pesquisas sobre a morfologia da classe trabalhadora global, a precarização, as novas posições estratégicas (como a logística, a feminização etc.), como as desenvolvidas por Ricardo Antunes, para dar um exemplo brasileiro.

c) A reatualização das teorias do imperialismo.

d) As teorias que buscam interpretar as mudanças tecnológicas contemporâneas, marcadas pelas plataformas e a inteligência artificial.

e) O marxismo ecológico, em que se destacam as contribuições de John Bellamy Foster sobre a fratura metabólica e, especialmente, as de Andreas Malm.

f) E as novas discussões em torno das alternativas ou “futuros”, como os debates sobre planificação (atualizados pela questão ecológica e/ou tecnológica) ou sobre as alternativas pós-capitalistas (tendo o aceleracionismo e o decrescimento como posições antagônicas).

Esses desenvolvimentos, por sua vez, estabeleceram um diálogo (mais ou menos direto) com o campo dos movimentos sociais que emergiram dessa crise multidimensional: o ascenso da Nova Onda Feminista, que tem um de seus epicentros na América Latina, com o #Niunamenos; o ascenso das lutas contra os ajustes nos países centrais, desde a Geração à Rasca, em Portugal, e os Indignados, no Estado espanhol, até o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos; a permanência de um movimento ecologista e antiextrativista a nível internacional, com lutas por recursos naturais (como a água) na América Latina e contra as mudanças climáticas em países centrais; a reativação do Black Lives Matter, dos movimentos antirracistas e em defesa dos direitos de migrantes. E também com manifestações de tipo revolta, como a Primavera Árabe; a dos “no son 30 pesos, son 30 años“, no Chile; as ocorridas em Hong Kong e Myanmar ou as greves na Índia, Grécia e Itália.

Hoje já não nos encontramos mais nesse momento “interpretativo” de revitalização do marxismo, mas em um momento que poderíamos chamar de “um momento político”, cujo divisor de águas é a pandemia da covid-19, na medida em que a pandemia aglutinou, concentrou tendências previamente existentes e marcou um ponto de inflexão.

Este novo momento de recomposição do marxismo é marcado por:

A) Uma ofensiva mais agressiva dos capitalistas para responder à crise do neoliberalismo, buscando redefinir as condições de trabalho e de vida das massas.

B) O ascenso das ultradireitas como um fenômeno que deixou de ser “exótico e isolado”, passando a constituir um traço permanente do momento, para além dos vaivéns eleitorais que esses grupos de ultradireita possam ter, precisamente porque não se assentam (ainda) em derrotas que se consolidem (como efetivamente ocorreu com os fascismos do século XX).

C) Uma nova fisionomia da elite capitalista, cuja expressão mais obscena são os “tecnomagnatas”.

D) O que alguns têm chamado de uma “nova leva de cercamentos” para se referir ao despojo e despossessão dos recursos natuais, algo particularmente presente na América Latina.

E) O regresso das guerras (como na Ucrânia e no Irã) e a ofensiva genocida contra o povo palestino.

Em menor escala, e em sentido contrário a esses processos, este “momento político” também é marcado por:

F) O movimento internacional contra o genocídio em Gaza e em solidariedade ao povo palestino, que está moldando uma nova geração militante.

G) Um processo de certa simpatia político-eleitoral com a esquerda e o socialismo, que tem sobretudo um caráter de reação à ofensiva capitalista e ao ascenso da ultradireita, e que é desigual e de conteúdo bastante diverso. Como fenômeno, abarca Zohran Mamdani, dos Democratic Socialists of America, em Nova York; Die Linke, na Alemanha; a França Insubmissa de Jean-Luc Mélenchon e Myriam Bregman, na Argentina.

Nesse sentido, este segundo momento de revitalização do marxismo – este “momento político” – é um momento muito mais difícil que aquele de “revitalização analítica” e confronta as e os marxistas com dois problemas que devem resolver:

  1. Os problemas da própria teoria para compreender uma realidade em plena transformação, assim como para encontrar na análise do presente os pontos de apoio para a ação transformadora, a fim de poder restituir um horizonte emancipatório.
  2. Os problemas da própria situação política no que diz respeito ao altíssimo nível de fragmentação entre trabalhadores e setores populares e à forma como pesa, sobre as consciências e práticas de oprimidas e oprimidos, 40 anos de lutas na defensiva, com suas consequências nos níveis de organização e do horizonte de ação.

Teoria da Reprodução Social

É aqui que quero introduzir a Teoria da Reprodução Social como sendo uma das perspectivas mais produtivas, mais criativas dentro dessa recomposição lenta do marxismo. Basicamente, me interessa destacar três questões que estão intimamente relacionadas entre si na perspectiva da reprodução social: 1) um enorme esforço para colocar no centro as opressões (como a opressão de gênero ou racial) em sua relação necessária, embora historicamente dinâmica, com o capitalismo como sistema global; 2) um enorme esforço em articular os níveis micro e macro de análise, ou seja, debruçar-se sobre a produção de conhecimento situado sem perder de vista a forma pela qual o singular opera como “sintoma” do universal (para usar as palavras do chileno-brasileiro Vladimir Safatle e sua ideia da crítica como uma “universalidade de combate”); 3) um enorme esforço em colocar no centro da investigação a pergunta pela ação, pela prática e, nesse sentido, pelo poder dos oprimidos.

Vou dedicar esta segunda parte da exposição a explicar como entendo a Teoria da Reprodução Social (TRS) e por que acredito que cumpra um papel crucial na recomposição do marxismo, particularmente na América Latina (ainda que sua origem sejam os Estados Unidos e o mundo anglófono).

Para isso, primeiro é necessário definir a TRS. Embora tenha surgido em meio aos debates do feminismo marxista e socialista da Segunda Onda (década de 1970), eu diria – um pouco provocativamente – que não se trata de uma teoria feminista, mas antes de uma crítica do capitalismo cujo foco é a relação contraditória entre produção de valor e produção de vida como substrato indispensável da força de trabalho que produz valor, o trabalho vivo. Para dizê-lo com os termos de Lise Vogel, em seu clássico Marxismo e a opressão às mulheres: o foco está na “contradição latente entre a necessidade da classe dominante de apropriar-se de trabalho excedente e sua necessidade de dispor de força de trabalho para tal apropriação”. É aí que repousa o olhar da TRS, e a partir desse lugar sua perspectiva avança na abordagem da opressão de gênero, da racialização, da heteronormatividade, do capacitismo, da imigração, das populações de reserva para o capital, do colonialismo, da crise climática.

E é porque seu foco se encontra aí – reitero: na contradição entre produção de valor e produção de força de trabalho (e da vida que a encarna) – que, acredito eu, a TRS é uma perspectiva particularmente importante para a periferia capitalista, como é o caso da América Latina, uma vez que nestas latitudes essa contradição é experimentada de maneira mais aguda, mais violenta, mais brutal.

Gostaria, assim, de abordar brevemente duas formas assumidas por essa contradição na atualidade, sumamente vívidas na nossa região, e que integram os debates teóricos e militantes do presente:

A) A agenda antigênero das extrema direitas – como se pode observar no Brasil com o bolsonarismo, na Argentina com Milei e nos Estados Unidos com Trump e o anti-wokismo: Sem sombra de dúvidas, essa agenda está diretamente relacionada ao ascenso do movimento de mulheres (como analisam de mora muito interessante diversas perspectivas feministas). Mas é fundamental entendê-la dentro dos marcos da crise da reprodução social como dimensão central da crise capitalista contemporânea.

O que quero dizer com “crise da reprodução social”? Diferentemente daqueles que a pensam como uma crise dos cuidados ou uma crise dos lares, a perspectiva da reprodução social permite pensá-la como uma crise que se desenvolve em dois planos:

  • O da precarização do trabalho assalariado e remunerado, bem como a diminuição do salário real, que tira recursos econômicos das famílias trabalhadoras, ao mesmo tempo que lhes tira recursos de tempo em razão do aumento de horas de trabalho necessárias para reproduzir a vida;
  • O das políticas de ajuste e mercantilização das instituições e serviços básicos para a reprodução da vida (saúde, educação, moradia, transporte), o que obriga as famílias trabalhadoras a cobrir esse ajuste, seja com mais horas de trabalho remunerado, para acessar esses serviços através do mercado, seja com mais horas de trabalho não remunerado (das mulheres), redobrando a opressão de gênero.

Nesse cenário, a agenda antigênero assenta as bases ideológicas de duas políticas fundamentais na agenda das classes dominantes.

A refamiliarização mostra-se, por um lado, como aposta forte das classes dominantes para que a crise da reprodução social recaia sobre as costas das famílias da classe trabalhadora, particularmente das mulheres da classe trabalhadora.

A construção da “família como refúgio” (em um mundo que se torna cada vez mais hostil, inseguro e violento) é a aposta da direita conservadora na naturalização da reprivatização e reindividualização da reprodução social. É a aposta em que a reprodução material e subjetiva da força de trabalho se naturalize completamente como um problema e responsabilidade exclusiva das famílias, não da sociedade nem do Estado ou da comunidade. E isso nos obriga, enquanto feministas de esquerda, marxistas e anticapitalistas, a travar uma discussão que não esteve no centro da Nova Onda Feminista: a discussão sobre a família. Apesar de ser uma discussão clássica das feministas socialistas e marxistas, a Nova Onda Feminista tem sido relativamente austera em sua crítica da família nuclear e heteronormativa como espaço “naturalizado” de reprodução da força de trabalho. Acredito que essa ausência de crítica tenha relação com uma certa romantização dos cuidados (e das mulheres como cuidadoras), cujo fundamento reside, a meu juízo, na ilusão da autonomia do espaço doméstico e inclusive de certos espaços comunitários quanto ao âmbito da produção e do mercado capitalista. Como se houvesse ou pudesse haver, sob o capitalismo, algum tipo de reprodução da vida que escapasse das leis de exploração e espoliação crescentes a que o capital nos submete para reproduzir a força de trabalho. Contrariamente a essa romantização, a forma como a TRS pensa os espaços de reprodução social, sempre em relação com os espaços de produção de valor, fornece boas ferramentas para uma crítica radical da familiarização conservadora das novas direitas e para uma crítica radical da família como nó privilegiado de reprodução da vida.

B) Por sua vez, essa agenda antigênero também é a base ideológica de outra política ideológica fundamental: a construção da oposição “gênero contra o povo”, que consiste em colocar os direitos das mulheres e diversidades como direitos contrários, opostos aos direitos do povo trabalhador, direitos da “gente comum”. Trata-se de uma ideologia que tem permeado inclusive setores da esquerda: aquilo que no Estado espanhol chamam de izquierda rojiparda e que na Argentina encontramos em alguns expoentes do peronismo que se colocaram contra o direito ao aborto dizendo com todas as letras que aquele era um problema das “classes médias”, ou que depois do governo Milei entraram na moda antiwoke. Qual o substrato dessas posições? Uma visão dualista entre opressão de gênero e opressão de classe, na qual as opressões de gênero e raça aparecem dissociadas das formas histórico-concretas que assume a exploração da classe trabalhadora. Nesse sentido, uma perspectiva unitária da reprodução social, que compreende as opressões de gênero, de raça e sexuais como elementos constitutivos da relação entre capital e trabalho no capitalismo, é uma ferramenta fundamental para disputar no terreno teórico e político contra essa construção da direita que afirma “gênero contra o povo”. Além disso, é fundamental para compreender os direitos das mulheres, das pessoas racializadas, das pessoas LGBTQ+ etc. como direitos fundamentais da classe que vive de seu trabalho a fim de estabelecer as condições de sua própria reprodução social.

Quero encerrar referindo-me a algo que mencionei no início: a preocupação da Teoria da Reprodução Social com a dimensão da ação, da prática. Retomarei essa ideia a partir da noção que a TRS tem do trabalho e da classe trabalhadora.

Como se sabe, o feminismo da reprodução social implicou uma forte crítica às visões reducionistas do trabalho e da classe trabalhadora, que equiparam trabalho a trabalho assalariado e classe, aos trabalhadores assalariados. Essa crítica ao reducionismo (que revisou a noção de “trabalho necessário” para colocar em pauta o trabalho de reprodução social como sendo absolutamente necessário para a produção de valor) foi fundamental 50 anos atrás e hoje segue ainda mais fundamental, eu diria, uma vez que estamos diante de um movimento sumamente contraditório: por um lado, uma expansão global nunca antes vista do trabalho assalariado; por outro lado (e ao mesmo tempo), uma modificação e heterogeneização substancial das formas em que essa forma de trabalho é explorada – nas plataformas, sob formas de viração sem uma figura patronal clara, com fronteiras nebulosas entre tempo de trabalho e tempo de não trabalho etc.. Assim, a capacidade de pensar o trabalho e a classe trabalhadora para além da “fábrica” é crucial, particularmente na América Latina, onde a precariedade, a informalidade e a superpopulação relativa consolidada têm um papel central histórica e atualmente.

Contudo, não é suficiente uma visão do trabalho e da classe trabalhadora que não seja reducionista. Esse é um ponto de partida, não de chegada, que mantém sem resolução o problema do poder da classe que vive do trabalho. Como pensar hoje o poder da classe trabalhadora? Evidentemente, essa pergunta abre discussões que não seria possível esgotar nesta plenária (e que seguramente estarão presentes nos demais debates deste encontro). Aqui desejo chamar a atenção quanto a um perigo que percebo, particularmente na nossa região; o perigo de responder ao reducionismo do operário industrial branco e macho, como se essa fosse a única expressão do sujeito de transformação social, com outro reducionismo, de sentido inverso: o reducionismo da economia popular.

O que se postula? As formas de produção de valor teriam se diversificado de tal maneira que o trabalho assalariado já não é a forma central, de modo que se deveria pensar o poder dos trabalhadores por fora da relação salarial, tendo como foco as formas de trabalho de subsistência que conformam a economia popular, as quais permitiriam prefigurar um tipo de sistema baseado nos valores de uso ou uma economia da reprodução social (ou que tivesse a reprodução da vida no centro) como alternativa ao capitalismo. Diversas formulações semelhantes podem ser encontradas em setores da economia feminista ou mesmo em certas abordagens da ideia de construção dos comuns.

Há nessas reivindicações uma operação teórica com consequências políticas importantes: o que efetivamente é uma profunda heterogeneidade da classe que vive de seu trabalho, que apresenta enormes complexidades para pensar a ação política, transforma-se em uma dualização (economia popular contra economia de mercado) que apresenta, ao menos, quatro problemas centrais:

A) O primeiro é uma romantização da periferia, como se o simples caráter periférico das nossas economias apresentasse possibilidades de autonomia no que diz respeito ao capital. Contrariamente, o que estamos presenciando é um aprofundamento do caráter dependente e uma brutal transferência de valor e de recursos da periferia para o centro, que operam aprofundando o despojo de meios de produção e reprodução justamente onde ainda existiam.

B) O segundo é uma subproblematização do papel desempenhado pelo Estado nas experiências de economia popular, que é um papel de buscar permanentemente expropriar os elementos de autonomia de tais experiências, parasitário do trabalho que nelas se realiza (particularmente, parasitário do trabalho de reprodução social das mulheres nos territórios) e de legitimação de uma reprodução diferenciada da força de trabalho que implica no rebaixamento do que se considera “o necessário” para viver, rebaixamento que tem impacto sobre o conjunto da classe trabalhadora.

C) O terceiro é uma análise insuficiente das novas formas que adota, em nossas economias, o trabalho assalariado e dos modos como esse trabalho está imbricado, se articula com as formas de trabalho não assalariado historicamente presentes na região, como as formas comunitárias ou estatal-comunitárias.

D) Vinculado a isso – e talvez o que mais me interessa problematizar a partir da Teoria da Reprodução Social –, o quarto problema é que essa dualização inscrita nas abordagens da economia popular torna muito difícil pensar quais são as pontes possíveis, as articulações possíveis entre os distintos setores dos despossuídos de meios de produção e reprodução.

Creio que um dos muitos desafios deste “momento político” da lenta recomposição do marxismo é evitar ambos os tipos de reducionismo. Nesse cenário, a TRS abre três linhas de reflexão e intervenção que penso serem produtivas.

A primeira é que nos faz lembrar de algo óbvio, mas que muitas vezes passa despercebido: que a finalidade de vendermos nossa força de trabalho (no mercado formal, informal, por conta própria etc.) é a reprodução da nossa vida. Por essa razão, a luta pelas condições de nossa reprodução social está no coração da relação entre capital e trabalho. E essas condições implicam uma disputa pelo salário, é claro, mas a ultrapassam enormemente, porque incluem o acesso a saúde, educação, moradia, direitos sexuais e reprodutivos (como o direito ao aborto legal, seguro e gratuito), direitos migratórios, direito a não sermos “vidas que não importam” nas mãos da violência policial (como se viu no massacre nas favelas do Rio de Janeiro em 2025), direitos à terra, à cultura e às formas de vida dos nossos povos originários. Todos esses conformam direitos básicos da classe que vive do trabalho e deveriam ser parte da agenda das organizações de nossa classe. Em um momento como o atual, em que todos esses direitos estão sendo brutalmente atacados, compreendê-los como direitos que afetam todas as frações dos trabalhadores é crucial para as organizações de classe, e permite tecer pontes entre o lugar de trabalho e o território ou a comunidade; pontes que hoje estão fortemente desarticuladas. Ou seja, permite tecer pontes entre produção e reprodução.

Mas, além disso, colocar a reprodução social no centro da análise da classe trabalhadora nos permite também captar um fenômeno emergente, a saber, o aumento da conflituosidade nas instituições de ensino, de saúde e de cuidados. Esse fenômeno está sendo analisado com muita riqueza pela sociologia do trabalho. Acredito, porém, que seja necessário aproveitar mais espaços como este, perguntando-nos se não estamos diante do que chamo “o poder sociorreprodutivo da classe trabalhadora” – que é distinto do que Erik Olin Wright e Beverly Silver chamaram de “poder estrutural” emanado do lugar que se ocupa no processo econômico (as posições estratégicas na indústria ou na logística, por exemplo). A que me refiro com “poder sociorreprodutivo”? Refiro-me ao poder que podem exercer as trabalhadoras das instituições de reprodução social, como as da saúde ou da educação (trabalhos completamente feminizados) e que emana de uma particularidade que não ocorre em nenhum outro lugar: suas condições de trabalho são, ao mesmo tempo, condições de reprodução da vida da população. As trabalhadoras dessas instituições, que contam com uma estrutura de rede no território, têm a possibilidade de se erigir como porta-vozes das demandas da comunidade em sua heterogeneidade de formas de trabalho, de gênero, de raça, de sexualidade, de origens nacionais etc.. E podem se valer da ferramenta da greve para que essas demandas tenham peso econômico, social e político. Nesse sentido, podem construir greves comunitárias pelo caráter anfíbio de suas instituições, transformando essas instituições em nós de organização comunitária que levantem as demandas dessa heterogênea classe trabalhadora. Elementos desse poder sociorreprodutivo podem ser vistos nas greves da Coordinadora Nacional de Trabajadores de la Educación (CNTE) do México, na greve do magistério de 2017 no Peru, nas greves docentes dos Estados Unidos de 2018, mas também na greve do Hospital Garrahan na Argentina, em 2025 – uma greve duríssima que conseguiu sair vitoriosa sob o governo de Javier Milei.

Por fim, acredito que colocar a reprodução social no centro também permite recuperar algo que os 40 anos de neoliberalismo nos expropriaram às custas de lutas defensivas: o direito de estabelecer as condições de nossa reprodução social não apenas em termos econômicos, mas em termos “histórico-morais”, para tomar de empréstimo a expressão de Marx. Ou seja, colocar em discussão o tempo livre, o ócio, o acesso à cultura, à livre sexualidade, a formas de cuidado que superem a forma familiar, a relações com a natureza que superem o instrumentalismo. Como escrevem Tithi Bhattachary, Sara Farris e Susan Ferguson no SAGE Handbook of Marxism (2022), “se a produção capitalista se ocupa apenas de um presente monótono e rotineiro, a reprodução social, como teoria e prática, direciona sua atenção para o futuro, para a reprodução contínua da vida da espécie e do mundo social que criamos no e a partir do mundo natural”.

***
Paula Varela é professora da Universidade de Buenos Aires (UBA) e pesquisadora do CEIL-Conicet.


Feminismo para os 99%: um manifesto, de Nancy Fraser, Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya
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Destinos do feminismo: do capitalismo administrado pelo Estado à crise neoliberal, de Nancy Fraser
Justiça Interrompida é uma reflexão crítica sobre o que a filósofa Nancy Fraser denomina  condição “pós-socialista”. A autora procura compreender os desafios impostos pela derrocada dos socialismos no final dos anos 1980, pelo surgimento das políticas de identidade e pela fragmentação das frentes de luta progressista. Os textos e ensaios reunidos na obra, escritos entre 1990 e 1996, iluminam a polarização política e intelectual contemporânea, o quase abandono das reivindicações por redistribuição igualitária e o aumento de mobilizações sociais por reconhecimento, esvaziadas no termo “políticas identitárias”. Fraser nos oferece um quadro teórico abrangente para analisar as diferentes causas e soluções para as injustiças econômicas e culturais. Evitando posturas economicistas, que rechaçam políticas de reconhecimento como “falsa consciência”, bem como posturas culturalistas, que rechaçam políticas redistributivas como antiquadas, a autora desenvolve um modelo de crítica social que integra as duas dimensões.

Justiça interrompida: reflexões críticas sobre a condição “pós-socialista”, de Nancy Fraser
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Capitalismo em debate: uma conversa na teoria crítica, de Nancy Fraser e Rahel Jaeggi
Construída de modo não ortodoxo, a obra se apresenta como um verdadeiro debate entre as filósofas em torno do contexto atual do capitalismo, levando em conta problemas econômicos, sociais, políticos e ambientais. Estruturada em quatro capítulos – “Conceitualizando o capitalismo”, “Historicizando o capitalismo”, “Criticando o capitalismo” e, finalmente, “Contestando o capitalismo” –, essa conversa na teoria crítica induz o leitor a refletir sobre o que define o capitalismo, sobre as transformações e as permanências desse modelo ao logo da história, sobre como criticá-lo e como se contrapor a ele. 


Fronteiras do trabalho: migração decasségui e reprodução social, de Mariana Shinohara Roncato
Roncato, que viveu dez anos como imigrante no Japão, retorna à cidade de Toyota para uma pesquisa in loco sobre as condições de trabalho dos brasileiros que trabalham nas fábricas da montadora de mesmo nome, bem como em uma série de outros empreendimentos e serviços locais. “Mergulhada na efetiva concretude e na dura realidade e ancorada na teoria da reprodução social, ela articulou criativamente o nó górdio que enfeixa as complexas e imbricadas dimensões entre classe, gênero, etnia e raça, desvendando enigmas presentes no modo de ser decasségui“, escreve Ricardo Antunes no prefácio.


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