Historical Materialism Rio 2026: memórias do evento

Plenária I: Teoria Marxista Hoje, com Alan Sears, August Nimtz, Paula Varela e Werner Bonefeld. Foto: Ana Beatriz Slomski

Por Carolina Peters

O marxismo tem um caráter de aprendizado na medida em que uma das fontes para sua renovação é o conhecimento produzido pelos “de baixo”. Essa ideia não é minha; a frase apenas organiza algumas anotações tomadas durante a fala de Alan Sears na plenária de abertura do Historical Materialism Rio. Era uma noite bastante quente para o inverno carioca, eventualmente refrescada pela brisa do mar que chega ao campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) na Praia Vermelha. No teatro de arena do Instituto de Economia, centenas de pessoas se reuniam para debater a “Teoria Marxista Hoje”.

Mais cedo, no mesmo dia, o Auditório Dourado da faculdade havia lotado para um debate em torno de O essencial de Marx e Engels, com José Paulo Netto – que, além de autor da monumental Karl Marx: uma biografia, assina o prefácio da antologia –, Ivana Jinkings, diretora-geral da Boitempo, Virgínia Fontes e Guilherme Leite Gonçalves. Ao mesmo tempo, em outras salas e prédios, discutia-se de cultura popular ao trotskismo, passando pelo capitalismo de plataforma, o combate à extrema direita e, claro, a ocupação colonial na Palestina. Pelos corredores, bandeiras palestinas e kufiyas, lembrando a necessidade de um internacionalismo ativo pelo fim do genocídio.

Painel “O essencial de Marx e Engels”, com José Paulo Netto, Ivana Jinkings, Virgínia Fontes e Guilherme Leite Gonçalves. Fotos: Ana Beatriz Slomski

Depois de um dia de atividades descentralizadas, aquela reunião coletiva noturna sugeria sínteses para a pluralidade de questões levantadas nos painéis e sessões de comunicação. Em particular, pensando novamente nas palavras de Sears, reafirmava o compromisso de vincular a pesquisa teórica à prática política, como sugerido desde o tema do evento: “Além da mercantilização da vida: lutas sociais e futuros possíveis”. Assim, nas noites seguintes, as plenárias se dedicariam a pensar “Imperialismos e Neofascismos” e “Lutas Sociais na América Latina e no Mundo”.

Ruth Wilson Gilmore reflete sobre as “Lutas Sociais na América Latina e no Mundo” durante a última plenária do Historical Materialism Rio 2026. Em outras imagens, bolsa e crachá entregues aos participantes e um flagra: na primeira fila com meu caderninho, na plenária do primeiro dia. Fotos: Ana Beatriz Slomski

Em sua primeira edição brasileira – e uma das poucas a ocorrer deste lado do Atlântico –, o Historical Materialism Rio registrou mais de 700 inscritos, além de outras tantas pessoas que entre os dias 21 e 23 de julho de 2026 passaram pelas dezenas de atividades acadêmicas e culturais promovidas pelo evento. Do trabalho na indústria de videogames às interpretações marxistas do Brasil; de diversas aplicações da Teoria da Reprodução Social à crítica de arte; debates teóricos rigorosos e memória dos movimentos de trabalhadores: a variedade de objetos de estudo e áreas do conhecimento mobilizadas resultou em uma programação que parecia infinita.

Difícil escolher apenas um entre os vários painéis e sessões de comunicação simultâneos que ocorriam todas as manhãs e tardes – todos com público atento e discussão estimulante. Na porta da sala, esperando para apresentar um trabalho sobre a Estética de Lukács, passa por mim Ruth Wilson Gilmore. Sempre simpática, Ruthie lembra de mim e me cumprimenta (nos conhecemos no ano passado, quando foi lançada a tradução de Geografia da abolição e gravamos para as redes da Boitempo). Digo que queria assistir ao painel dela, mas era bem no horário da minha fala… Um tipo de lamento que a maioria das pessoas com quem conversei sentiu em algum momento (ou vários) daqueles três dias. Bom sinal.

Painel “Uberização do trabalho: desantropomorfização, lutas e regulamentação”, com Marco Gonsales, Ricardo Antunes, Mariana Shinohara Roncato (com o recém-lançado Fronteiras do trabalho: migração decasségui e reprodução social) e Murilo van der Laan, ocorrido na quarta-feira, 22 de julho. Foto: Ana Cristina Oliveira

Os números de propostas de trabalho inscritas e participantes são mesmo impressionantes. Demonstram, por um lado, a força do pensamento marxista e a pluralidade dessa produção. Por outro lado, dão notícia de como ainda são poucos os eventos como esse, capazes de colocar em diálogo trabalhos que de outro modo seriam confinados a uma disciplina ou campo de conhecimento especializado, mas aqui participam de um quadro mais amplo de investigação da realidade social – e sua transformação. Que venham muitas novas edições!

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Carolina Peters é doutoranda em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP e mestre em Filosofia pela UFMG, onde defendeu a dissertação De volta à corrente da vida: vivência receptiva e vida cotidiana na Estética de György Lukács. Atualmente, é responsável pela programação do Blog da Boitempo e da TV Boitempo e produz os guias de leitura do clube Armas da Crítica.




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