José Paulo Netto e Ivana Jinkings: dois dedos de prosa

Em conversa com Ivana Jinkings, editora e fundadora da Boitempo, José Paulo Netto reflete sobre o interesse renovado por Marx no Brasil de Bolsonaro e sobre os seus principais receios diante da primeira tiragem de "Karl Marx: uma biografia".

Publicada em dezembro de 2020 pela Boitempo, a biografia de Karl Marx escrita por José Paulo Netto esgotou sua primeira tiragem de 6 mil exemplares em cerca de três meses – feito nada desprezível no Brasil de 2021. Para comemorar a aguardada chegada da segunda tiragem da obra (que aliás está com desconto agora na semana de aniversário de Marx), a editora e fundadora da Boitempo Ivana Jinkings bateu um papo com o autor sobre cenário editorial brasileiro e as particularidades de biografar Marx no Brasil de Bolsonaro. Amigos de longa data, eles conversam sobre os bastidores do processo editorial e revelam seus principais receios e expectativas diante da primeira tiragem do livro.


Ivana Jinkings: Começo perguntando qual era tua expectativa ao iniciar a escrita da biografia de Marx. Lembro que quando contei que a primeira tiragem seria de 6 mil exemplares chegaste a sonhar (ou a ter pesadelos) com o dia do juízo final, no qual eu aparecia carregando uma pilha de livros (os teus), condenando a Boitempo à ruína (risos). Em vez disso, a primeira edição se esgotou em pouco mais de três meses e uma nova está a caminho… 

José Paulo Netto: Surpreende-me muito que a primeira edição de Karl Marx: uma biografia tenha se esgotado em pouco mais de três meses e de agora tornar-se necessária essa reimpressão. Eu pensava que o livro não seria um “encalhe”, mas que haveria de vender-se mais ou menos lentamente, formando para a Boitempo o que os velhos livreiros chamavam de “fundo editorial”. Entretanto, quando você decidiu tirar de partida 6 mil exemplares, comentei com Leila [companheira de José Paulo Netto]: “A Ivana enlouqueceu, 800 e tantas páginas, um livro caro, na contracorrente do pensamento dominante e no meio da pandemia…”. Confesso – e, em setembro de 2020, confidenciei a alguns amigos – que tive um pesadelo, em que aparecia como causador da falência da Boitempo. Um feito que certamente não seria nada alentador para um pobre escriba da margem esquerda do Paraibuna…

I.J.: O que era pra ser um volume pequeno, despretensioso, a ser entregue no início de 2018, se transformou na alentada biografia de mais de 800 páginas, com um volume fantástico e detalhado de notas, que foram entregues à editora em fevereiro de 2020, mais de dois anos depois. O que te fez ampliar tanto o projeto inicial?

J.P.N: O plano original era mesmo o de escrever um pequeno texto para marcar, em 2018, a passagem do bicentenário de nascimento de Marx. A coisa foi crescendo à medida em que fui examinando a bibliografia mais recente (dos últimos 30 anos) dedicada a ele – a bibliografia, digamos “clássica”, eu já a dominava. No entanto, dada simultaneamente a riqueza e a miséria desta documentação, decidi-me a abandonar a ideia de redigir um material mais singelo. Veio a pretensão de contribuir para uma aproximação objetiva, crítica e fundada a um autor objeto tanto de adoração cega quanto de preconceito e desinformação desonesta, valendo-me de mais de meio século de estudo dos seus textos. E então cheguei às 800 e tantas páginas… com aquele segundo capítulo de difícil digestão para o leitor mais desavisado e com o milhar de notas em letrinha pequena. E você acompanhou (e estimulou) o andamento da coisa, de modo que só isto já tirava das minhas costas boa parte da responsabilidade da eventual falência…  

José Paulo Netto e Ivana Jinkings nos bastidores do seminário Marx: a criação destruidora. Teatro Paulo Autran, Sesc Pinheiros, São Paulo. 2013. Foto: Ana Yumi Kajiki.

I.J.: Em meio a uma pandemia que já provocou no Brasil a morte de mais de 400 mil pessoas, de um período de derrocada econômica, sanitária, política e civilizatória, a obra de Marx, tantas vezes condenada à morte, ainda é a que melhor explica as terríveis condições de desigualdade social? Por isso o enorme interesse que o livro despertou, inclusive entre jovens?

J.P.N: A recepção extremamente favorável de Karl Marx: uma biografia pelo público e pela crítica, julgo eu, não tem a ver com os possíveis méritos do autor (dos quais – seus alcances e limites – sou consciente). Para tal recepção, há que levar em conta seja a gravitação da Boitempo como editora da tradição marxista, seja o trabalho de excelência realizado pela sua equipe na produção gráfica e na divulgação do livro. Estou convencido, porém, de que o interesse e a simpatia com que o livro foi recebido decorrem da relevância contemporânea da obra de Marx. Relevância que não é reconhecida apenas por acadêmicos e especialistas qualificados, mas que desperta hoje a curiosidade dos jovens mais inquietos. Na pandemia, a ordem capitalista desvestiu todas as suas fantasias – e, num país como o nosso, que tem um mentecapto à frente do poder executivo operando descaradamente a necropolítica do capital, é compreensível o interesse dos jovens pela vida e pela obra do homem que foi o primeiro a examinar com rigor, entre outras, as raízes da desigualdade social que, nos dias correntes, é tema dominante até na imprensa mais conservadora. Se a recepção geral de Karl Marx: uma biografia me surpreendeu, não me surpreendem as informações que me chegam de que a maioria dos seus leitores seja constituída de jovens universitários e militantes de movimentos sociais.  


Confira a conversa sobre o livro Karl Marx: uma biografia com José Paulo Netto e Virgínia Fontes na coluna mensal “Conversa Impertinente” na TV Boitempo. Quase duas horas de uma conversa entre dois gigantes do marxismo que vale a pena acompanhar!

Saiba mais:

Blog da Boitempo: O Marx de José Paulo Netto, por Milton Temer
O Globo: “O Muro de Berlim caiu em cima de mim”, diz biógrafo de Karl Marx
Revista Época: A nova biografia de Marx, por Guilherme Amado
Jornal Rascunho: Boitempo publica nova biografia de Karl Marx
Podcast Guilhotina: Guilhotina #97 – José Paulo Netto
Podcast Revolushow: 101 – Karl Marx, por José Paulo Netto

***

José Paulo Netto nasceu em 1947, em Minas Gerais. Professor Emérito da UFRJ e comunista. Amplamente considerado uma figura central na recepção de György Lukács no Brasil, é coordenador da Biblioteca Lukács, da Boitempo. Organizou o guia de introdução ao marxismo Curso Livre Marx-Engels: a criação destruidora (Boitempo, Carta Maior, 2015). Em 2020 publicou pela Boitempo Karl Marx: uma biografia. No Blog da Boitempo escreve esporadicamente.

Ivana Jinkings fundou a Boitempo em 1995 e, atuando desde então como editora, foi responsável pela publicação das obras dos mais influentes pensadores nacionais e internacionais, que se tornaram referência em vários centros de ensino e pesquisa, abrangendo diversas áreas das ciências humanas, como economia, política, história e cultura.

1 comentário em José Paulo Netto e Ivana Jinkings: dois dedos de prosa

  1. José Augusto Nozes Pires // 05/05/2021 às 10:04 am // Responder

    A melhor -a grande – biografia de Marx até à data, escrita por um dos meus filósofos vivos preferidos

    Curtir

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