Cultura Inútil: O Conde d’Eu e a cabeça de porco

13.10.29_Mouzar Benedito_Cultura InútilPor Mouzar Benedito.

O Conde d’Eu, casado com a Princesa Isabel, era tido como pessoa nada agradável, tratava muito mal as pessoas, nenhum “subordinado” gostava dele. E sovina. Ele era dono de um dos maiores cortiços do Rio de Janeiro, e no portal da entrada desse cortiço havia uma cabeça de porco de ferro. Morar no “cabeça de porco”, inicialmente, era morar naquele cortiço. Depois a expressão virou sinônimo de cortiço de maneira geral, usado até hoje no Rio.

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Em 5 de março de 1961, jogando pelo Santos, Pelé marcou contra o Fluminense o gol que seria considerado o mais bonito da história do Maracanã, depois de driblar quase que o time adversário inteiro. O evento mereceu uma placa comemorativa e passou a ser chamado de “Gol de Placa”.

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O sistema métrico decimal começou a ser usado na França, em 1862. No Brasil, ele foi adotado em 26 de junho de 1862. Antes disso (e até hoje em alguns lugares), usava-se medidas como o palmo, jarda, légua, alqueire… Alguns países insistem em usar jardas, polegadas, pés, milhas, e pesos como onça e libra, volumes como o galão, a medição da temperatura pela escala Fahrenheit (em que 32 graus equivale a zero grau centígrado, do sistema decimal, e 212º F equivalem a 100º C). Como foi escolhido o tamanho do metro? Ele foi definido como 1/10.000.000 da distância entre o equador e o polo.

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Mark Twain dizia que a couve-flor é um repolho que foi para a universidade.

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O genocídio que os colonizadores espanhóis promoveram na América (não só eles: aqui tivemos os portugueses, no norte os ingleses…) tem um exemplo impressionante: o das Bahamas. O arquipélago com 700 ilhas ao norte de Cuba, com uma área de 1.864 km2, foi visitado por Colombo na sua primeira viagem, em 1492, e logo começaram a levar seus moradores para trabalhar como escravos nas minas do Haiti. Deixaram quase zerada a população dessas ilhas: até 1508 tiraram 40 mil delas.

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O Amapá, disputado pelo Brasil e pela França, tornou-se definitivamente brasileiro em 1900, fruto da argumentação do Barão do Rio Branco na arbitragem feita pela Suíça.

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Macunaima (pronuncia-se macunáima, e não macunaíma, como teve o nome adaptado no romance de Mário de Andrade) é, para os povos indígenas de Roraima (também pronuncia-se Roráima, e não Rorãima, como pensa muita gente), o criador do mundo. Nas lendas indígenas, era brincalhão e gozador, mas não perdoava os inimigos: transformava-os em pedras.

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Os camponeses franceses não tinham sapatos, usavam tamancos. Durante um período, para se vingar dos grandes proprietários de terra que os exploravam, pisavam nas plantas recém-nascidas nas propriedades deles. Tamanco em francês é sabot, e isso era chamado de sabotage, que virou sabotagem em português, e também resultou no verbo sabotar. Nas lutas operárias do século XIX, qualquer danificação intencional de alguma coisa, com propósitos políticos ou sindicais, passou a se chamar sabotagem.

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Nos livros de História, estudamos que a primeira capital brasileira foi Salvador, depois a capital mudou para o Rio de Janeiro e finalmente para Brasília. Em relação aos estados, ficamos sabendo que Olinda foi a primeira capital pernambucana, antes de Recife, e que Ouro Preto precedeu Belo Horizonte, em Minas Gerais. Mas antes de Ouro Preto, Mariana foi capital mineira. E em outros estados? Muita gente nem imagina que Oeiras foi capital piauiense antes de Teresina, Barcelos foi a primeira capital do Amazonas, a cidade de Goiás foi capital antes de Goiânia, Niterói foi capital do estado do Rio de Janeiro (com a unificação dos estados do Rio e da Guanabara, a capital foi para a cidade do Rio de Janeiro), antes de Aracaju, São Cristóvão era capital de Sergipe e em Mato Grosso a capital, antes de Cuiabá, era Vila Bela da Santíssima Trindade.

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Levi Hutchins tinha 26 anos em 1787 e já era fabricante de relógios numa cidade da Pensilvânia (EUA). Ele se levantava religiosamente às 4h da manhã, mas às vezes dormia um pouco mais e passava o dia injuriado por isso. Mas como acordar na hora que queria? Inventou o despertador.

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Daniela Mercury, famosa cantora baiana, assumiu um amor homossexual no ano 2013. Tem gente que pensa que lesbianismo é coisa relativamente recente. Não é. Basta lembrar de Safo, poetisa grega que viveu por volta do ano 600 a.C. Algumas famosas que eram lésbicas: as escritoras Virgínia Woolf, inglesa (1882-1941), Madame de Stäel, francesa (1766-1817) e Gertrude Stein, estadunidense (1874-1946). E também a Rainha Cristina, da Suécia (1626-1689).

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“Mãos ao alto!” é uma expressão muito comum em filmes de bangue-bangue, mas a atitude de levantar as mãos como sinal de rendição, exibindo-as sem armas, é muito antiga. Há inscrições de séculos antes de Cristo mostrando vencidos de mãos levantadas, como gesto de submissão.

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Depois da derrota do exército de Napoleão Bonaparte, na Rússia – em que o inverno foi fator determinante e a fome também (no clima gelado, em que a população russa se refugiou longe, levando os alimentos) –, pensando em evitar que seu exército fosse novamente derrotado por falta de comida, Napoleão resolveu premiar quem inventasse um meio de conservar alimentos por longo tempo, e surgiram os alimentos enlatados. Isso foi uma revolução enorme. Depois, sem possibilidade de receber açúcar das Américas, durante a guerra com os ingleses que dominavam os mares, o prêmio era para quem descobrisse uma técnica de produção de açúcar sem que fosse da cana, planta que só dá em clima tropical, e surgiu o açúcar de beterraba. Um sucessor dele, Napoleão III, repetiu um feito assim: em 1869, às vésperas da guerra Franco-Prussiana, havia escassez de manteiga e ele decidiu premiar quem produzisse algo capaz de substituir a manteiga e pudesse ser conservado em navios. Um tal de Hyppolite Mewge-Mouries, então, inventou a margarina. A margarina primeiro se tornou popular na Europa e, com a escassez de manteiga nos Estados Unidos durante a Primeira Guerra, ganhou mercado lá também.

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O ditado “De boas intenções, o inferno está cheio” é um pouco mais amplo em espanhol: “De buenas intenciones está el infierno lleno, y de malas, infierno y medio”.

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Depois da Independência do Brasil, os brasileiros, na grande maioria, continuaram na mesma situação de penúria, a economia e o poder local em vários lugares continuava com os portugueses. Quando Dom Pedro I voltou para Portugal, surgiram movimentos de lusitanos querendo-o de volta. Em Cuiabá, eles eram chamados de “restauradores”. Sentiam-se ainda os mandões. Em 31 de maio de 1834 estourou na cidade uma revolta chamada “Rusgas de Cuiabá”, uma verdadeira explosão popular contra tudo que fosse português. Houve invasões de moradias e de casas comerciais, chacinas, queima de cadáveres, incêndios e violação de mulheres. Mais de cem pessoas foram mortas, na revolta que durou até 5 de junho.

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A primeira troupe negra dos Estados Unidos a se apresentar em Paris foi a La Revue Nègre, em 1925. Apesar de ter grandes nomes no grupo, quem se destacou foi Josephine Baker, que tinha 18 anos de idade. Filha de uma lavadeira, ela lançava murmúrios nos entremeios das músicas que cantava com voz de soprano. E dançava maravilhosamente. Os franceses se apaixonaram por ela.

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No Egito antigo, a cebola não era um “tempero”, mas sim o alimento básico dos escravos.

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A altura da pirâmide de Quéops é de 148,2 metros. A distância entre a Terra e o Sol é de 148,2 milhões de quilômetros. Coincidência?

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Provérbios persas: “Na hora de dormir, um leito de algodão vale mais do que um de pérolas”; “A morte só vem na hora certa para o nosso vizinho” e “Não se deve exigir perfeição da natureza humana, pois jamais as rosas florescem em pântanos”.

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Uma bailarina italiana, linda e sensual, provocou furor no Rio de Janeiro, em 1851. O nome dela era Marietta Baderna, e seus fãs exaltados passaram a ser chamados inicialmente de badernas, e depois de baderneiros. Foi assim que baderna virou sinônimo de bagunça, confusão. Viva a Marietta! Viva a baderna!

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Leia também, Cultura inútil I, II, III, IVV e VI na coluna de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo. Ou clique aqui, para ver todos de uma só vez!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

1 comentário em Cultura Inútil: O Conde d’Eu e a cabeça de porco

  1. Clovis Pacheco F. // 08/05/2016 às 10:12 // Responder

    Quanto ao ato de sabotar, mais que pisar nas plantas dos barões, ficou famoso o hábito dos operários em greve atirarem seus tamancos nas engrenagens das máquinas, impedindo os fura-greve de trabalhar, parando o funcionamento e até danificando as peças. Daí o hábito se generalizou. E a palavra greve é outro galicismo: os operários parisienses se reuniam na Place de la Grève, a Praça do Cascalho, uma pracinha bunda a que a prefeitura de Paris não dava grande importância, nos tempos normais para esperar que os engajadores os buscassem, num tempo em que não havia contrato regular de trabalho e a escolha de trabalhadores era feita que nem no caso dos nossos bóias-frias. Era lá que eles também se reuniam para decidir seus movimentos reivindicatórios. Daí o “fazer greve”.

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