Cultura Inútil I

Portugueses chegaram a ocupar parte do Japão no século XVI, e deixaram algumas palavras no vocabulário japonês, mas obviamente alteradas pela pronúncia nipônica.

Portugueses chegaram a ocupar parte do Japão no século XVI, e deixaram algumas palavras no vocabulário japonês, mas obviamente alteradas pela pronúncia nipônica.

Por Mouzar Benedito.

Isaac Asimov (1920-1992), nascido na Rússia, viveu nos Estados Unidos e foi um dos maiores escritores de ficção científica do século XX. Basta lembrar um clássico dele, Eu, Robô (de 1950), para se ter ideia de sua importância.

Li vários livros de Asimov, mas um dia desses achei em casa o único que me restou entre eles, que por sinal não tem nada a ver com ficção científica. Chama-se Livro dos Fatos e é uma listagem de curiosidades em geral, como detalhes sobre vida de artistas, pensamentos de cientistas, dados geográficos e históricos… Enfim, é um baita calhamaço com coisas que poderiam ser classificadas como abobrinhas.

Lembrei-me, então, de uma época em que o Pasquim publicava de vez em quando textos chamados de cultura inútil, escritos por não me lembro quem, também citando coisas que são meras abobrinhas, não fazem falta nenhuma para a vida ou para o conhecimento das pessoas. Mas são coisas que acho divertidas.

 Resolvi passar aos leitores um pouco da cultura inútil que carrego, parte dela adquirida com a leitura de almanaques, revistas, dicionários e outros livros, inclusive do próprio Asimov, e parte guardada na memória – não sei como essas abobrinhas foram parar nela. Não me perguntem sobre “provas” para o que vou relatar. Se existem, não sei. Só sei que estão na minha cabeça ou em algumas anotações que fiz ao longo do tempo não sei nem mesmo com que intenção. Lá vai.

Lenin é um pseudônimo de Vladimir Ilyich Ulyanov, todo mundo sabe. Mas quem sabe quantos pseudônimos ele usou em toda a sua vida? Segundo o escritor Isaac Asimov, foram 151.

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Araci é um nome originário da língua tupi. Significa mãe do dia, aurora. Então mulheres chamadas Araci e Aurora são xarás.

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Los Angeles, não é novidade para ninguém, foi fundada pelos espanhóis. Mas quem sabe o seu nome original? Era El Pueblo de Nuestra Señora y la Reina de los Angeles de Porciúncula.

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Em 1585, quando Felipe II era rei da Espanha e de Portugal, foi fundada a cidade de Filipeia de Nossa Senhora das Neves, que depois mudou de nome para Cidade da Paraíba e mais tarde ganhou o nome de um governador paraibano assassinado (que foi o estopim para a Revolução de 1930), João Pessoa.

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Na família de Johann Sebastian Bach havia pelo menos 52 músicos.

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A jangada, embarcação típica do Nordeste brasileiro, foi trazida da Ásia pelos portugueses. Aliás, eles trouxeram para o Brasil coisas que muita gente pensa que são legitimamente brasileiras, como a manga, o coco-da-baía, a jaca, os mitos do lobisomem, da mula sem cabeça e da cuca… Mas levaram muitas coisas daqui pra fora também, como a mandioca, o tabaco, o milho, o caju, o amendoim, o abacaxi, o maracujá. Por falar nisso, há espécies de tubérculos chamadas batata inglesa e batata holandesa, mas todas as batatas são originárias da América do Sul, da região andina do Peru e da Bolívia. A batata doce existia em outras partes do continente, inclusive no Brasil.

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Os algarismos arábicos só foram introduzidos na Europa por volta do ano 700 d.C.

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Andaluzia, região espanhola, originalmente tinha um V no início do seu nome, era Vandaluzia, que ganhou por ter sido ocupada pelos vândalos, uma tribo germânica que devia ser de lascar, pois devastou não só parte da Espanha, mas também do Norte da África, e até hoje chamar alguém de vândalo não é nenhum elogio.

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O coletivo de estampa é iconoteca. O de garimpeiro é bandeira. O de feiticeiro é conciliábulo.

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O rio hoje chamado Madeira chamava-se Caiari, palavra que na língua aruaque significa rio do cedro. Em 1725, Francisco de Mello Palheta (o mesmo que contrabandeou mudas e sementes de café da Guiana Francesa para o Brasil), navegando por ele, se impressionou com o número de árvores que o rio arrastava e mudou seu nome para Madeira.

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Quem acha que os governos atuais criam leis protecionistas para atender aos interesses de certos tipos de gente, achando que isso é coisa atual, saiba que na Inglaterra, numa época em que o comércio de tecidos de lã estava em decadência, foi criada uma lei que determinava que os mortos só podiam ser enterrados envoltos em uma mortalha de lã. Essa lei durou quase 150 anos, e foi revogada em 1814.

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Quando você dá seu testemunho sobre um fato qualquer, não deve imaginar que os homens judeus no tempo de Abraão e os romanos da Antiguidade colocavam a mão direita nos testículos quando juravam dizer a verdade. Daí surgiu a palavra testemunho.

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O Natal só passou a ser comemorado em 25 de dezembro no ano 440 d.C., segundo alguns, e no ano 352 d.C. segundo outros.

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Quando se fala da Guerra do Ópio, entre a China e a Inglaterra, os leigos ingênuos imaginam que os honrados britânicos tentavam reprimir o uso do entorpecente pelos chineses viciados… Mas é bem o contrário: a Companhia Britânica das Índias Orientais comprava chá da China e pagava com ópio levado da Índia. O governo chinês quis proibir a importação do ópio e os ingleses consideraram isso um atentado ao livre comércio. Houve então, entre 1839 e 1842 a primeira Guerra do Ópio, vencida pelos ingleses, e o governo chinês foi forçado a ceder cinco portos para a importação do produto e entregar Hong Kong, que se tornou posse da Inglaterra. Entre 1856 e 1860, ocorreu a segunda Guerra do Ópio, em que os ingleses se aliaram aos franceses e venceram a China mais uma vez, e o país entregou mais portos para os vencedores. Bonzinhos, os heróis britânicos, hein?

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Hoje há um papa chamado Francisco, nome de um santo conhecido por viver pobremente. Os seguidores de São Francisco fazem voto de pobreza. Beleza essa “tendência” da Igreja, não? Mas quando São Francisco morreu, em 1226, seus seguidores que tentaram viver na pobreza, como ele, foram queimados vivos como hereges porque a Igreja era comprometida com a estrutura financeira da Europa e não queria estimular isso de considerar a pobreza uma qualidade.

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Portugueses chegaram a ocupar parte do Japão no século XVI, e deixaram algumas palavras no vocabulário japonês, mas obviamente alteradas pela pronúncia nipônica. Lá, antes dos portugueses não havia uma palavra usada para agradecer as pessoas, e incorporaram “obrigado”, cuja pronúncia evoluiu para “arigatô”.

***

Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

2 comentários em Cultura Inútil I

  1. Yuber Rodriguez // 16/12/2013 às 23:59 // Responder

    A anexação do Acre conforme descrito não é verdadeira.O Brasil pagou 2 milhões de libras, mais a ferrovia Madeira-Mamoré (que não ficou pronta) e um pedaço de Matro-Grosso. E a compra do Acre foi dinheiro jogado fora porque sua principal produção – a borracha – passou a não valer nada quando a Ásia começou a fornecer borracha a um preço mais baixo..

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  2. Yuber Rodriguez // 17/12/2013 às 0:02 // Responder

    A Andaluzia era conhecia por Al-Andaluz, nome oriundo de sua origem arábica e não germânica. Quem invadiu a Espanha foram os visigodos e não os vândalos. Os registros da presença dos visigodos estão presentes em igrejas de Toledo e Sevilha, por exemplo. Sobra bobagem neste blog.

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