Cultura Inútil V

13.10.01_Mouzar Benedito_Cultura inútil VPor Mouzar Benedito.

Há algo em comum entre personalidades como o Papa Clemente VII, Alexandre Dumas, Marilyn Monroe, o compositor Richard Wagner, Pizarro e Leonardo da Vinci: eram filhos ilegítimos.

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Em 1897, milhares de soldados destruíram Canudos (quando entraram no arraial, sobravam quatro sobreviventes: um velho, uma criança e dois adultos). Os soldados foram para a capital federal, Rio de Janeiro, achando que iam ser recebidos gloriosamente. Nem casa receberam para morar. Improvisaram barracos num morro. Lembraram-se então que ao lado do arraial de Canudos havia um morro com muitas árvores de uma espécie chamada favela, por isso era conhecido como Morro da Favela. Ironizaram dando ao morro em que moravam no Rio o mesmo nome. Depois, a palavra favela passou a ser usada com o significado de conjunto de habitações precárias instaladas em morros, e a seguir a qualquer grupo de moradias precárias.

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Sócrates, o grande filósofo grego, era casado com uma mulher de maus bofes, encrenqueira, chamada Xantipa. Há relatos de que ele não suportava a “odiosa” Xantipa.

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Todo mundo sabe que o cão ladra, a vaca muge e o cavalo relincha. Mas e o morcego, o tucano, o urutau e a coruja, por exemplo? Pois aí vão alguns verbos referentes às vozes de alguns animais: coruja: crocitar, chirriar; cutia: gargalhar, bufar; urutau: gargalhar, gemer, regougar, lastimar; ariranha: regougar; morcego: trissar, farfalhar; lagarto: gecar; tucano: chairar; galinha d’angola: fraquejar; camelo: blaterar; juriti: soluçar, arrular, turturinar.

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Em 12 de fevereiro de 1963 chegaram ao Brasil os primeiros imigrantes coreanos.

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Na história oficial do Brasil, muitos líderes populares foram ignorados, principalmente índios que comandaram a resistência contra a ocupação europeia, como Sepé Tiaraju (no Rio Grande do Sul) e Ajuricaba (Amazonas). No Piauí, o grande líder foi Mandu Ladino, do povo denominado Abelhas. Quando era criança viu sua família ser exterminada por fazendeiros brancos que queriam ocupar as terras indígenas. Levado para uma missão católica, dos capuchinho, recebeu o nome com que ficou conhecido. Os índios de fala tupi (não era o caso dele, que era Jê, mas na missão católica era essa a língua utilizada) não conseguiam pronunciar Manuel, falavam Mandu. E Ladino era como os brancos chamavam negros e índios que sabiam português. Viu sem povo sofrer muitas humilhações, se revoltou, pôs fogo na Igreja e fugiu. Foi escravizado por um fazendeiro, se revoltou e fugiu de novo. Em 1712, iniciou uma revolta contra o domínio dos brancos, unindo vários povos Cariri do Piauí, Ceará e Maranhão. Liderou muitas batalhas, derrotando o colonizador português, até que em 1719 conseguiram matá-lo quando atravessava a nado o rio Parnaíba.

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Os bondes da Light, em São Paulo, eram abertos nas laterais, como os bondinhos do bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Então não tinham roletas. Como controlar quantas passagens foram pagas? Havia umas alavancas em cima dos passageiros que o cobrador (ou trocador, como o chamavam) puxava e ia registrando numa máquina lá na frente. Cada vez que puxava, tocava uma campainha também. No final das viagens, viam quantas vezes ele puxou a alavanca. Mas dizia-se que eles se apropriavam de parte da grana, puxando a alavanca só duas vezes para cada três passageiros. E gozava-se dizendo que eles falavam assim: “Plim-plim, duas pra Light e uma pra mim”.

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A vitória-régia tem uma grande folha em forma de círculo, chegando a 2,5m de diâmetro, que fica sobre a superfície da água. Pode-se colocar até 40kg em cima dessa folha, de maneira bem distribuída, que ela não afunda. Em guarani, seu nome é urupé, e em tupi é aguapé-açu. O nome com que ficou famosa no mundo foi dado em homenagem à rainha Vitória, da Inglaterra, quando um explorador alemão levou a planta para o jardim botânico de Londres.

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Em 1954 foi fundada em São Francisco (EUA) a Universidade de Lavander, destinada a homossexuais, tendo entre seus cursos literatura grega, metafísica e a arte de pegar carona.

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Francisco de Mello Palheta ficou conhecido por trazer sementes e mudas de café da Guiana Francesa para o Brasil. Ele era um militar e foi fazer a demarcação de fronteiras lá, esteve em Cayena e tornou-se amante da mulher do governador. Na época, a França já “pressentia” a importância que o café viria a ter no mundo e proibiu que fosse levada da Guiana sementes cruas, que pudessem brotar, virar mudas e depois cafeeiros. A mulher do governador ajudou Palheta a levar clandestinamente para um navio as sementes e as mudas contrabandeadas, em 1727. Ele plantou tudo no Pará, de lá a planta foi levada para o Maranhão e, em 1760, chegou ao estado do Rio de Janeiro, de onde se alastrou pelo Sudeste, gerando o Ciclo do Café.

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Um incêndio iniciado numa padaria, na madrugada de um domingo, 2 de setembro de 1666, se alastrou pela cidade de Londres, devastando a cidade. O incêndio atingiu 87 igrejas e cerca de 13 mil casas, deixando desabrigadas cerca de 100 mil pessoas.

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Quando Dom João VI chegou ao Brasil, em 1808, trazia entre outras coisas uma música típica de Portugal, a moda, que era tocada nas violas também trazidas de lá. Essa música foi a origem da moda de viola. E quando ele voltou para lá, levou uma criação de músicos brasileiros, o fado. Então, trocaram-se as bolas: a moda de viola “portuguesa” pegou aqui, e o fado “brasileiro” pegou lá.

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Coliseu deriva de colossal (colosseum, em latim), não é? Mas ele não recebeu esse nome por causa do seu tamanho, e sim por ter perto dele uma estátua colossal de Nero, colocada ali depois da destruição do palácio do imperador.

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Há muito não se ouve falar a palavra messalina, se referindo a alguma mulher safada. A expressão teve origem no comportamento da imperatriz romana Valéria Messalina, que foi casada com Cláudio I. Insaciável, levava todo tipo de homem para a cama, e calculam que em seus poucos anos de vida (20 a 48 d.C.) teve relações sexuais com cerca de 8 mil homens.

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William e Guilherme parecem nomes muito diferentes, não? Mas pode-se dizer que são xarás. Os dois tiveram origem germânica, de Willahaim (que protege, protetor), que depois virou Wilhelm. Levado para outros países, conforme a língua, o nome foi se adaptando, se transformando, evoluiu de Wilhelm para William na língua inglesa e Guilherme em outros países.

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A mesma coisa acontece com Américo e Henrique, também vindos do germânico antigo, derivaram de Haganrich (senhor da casa, senhor do lar), que virou Heimrich e foi mudando conforme o lugar, até a palavra Hemrich virar Emmerich e depois Américo em alguns lugares e Henrique em outros. Há vários outros nomes derivados desses, como Arrigo, Emerico, Enrico…

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Já o nome João vem do hebraico, Iehohanan (Javé é misericordioso), que virou Iohanan e depois ganhou várias outras pronúncias, conforme a língua em que o adotaram: Ivan, Juan, Jean, John, Giovanni… Joana, seu feminino, também ganhou as versões Jane, Jeanne, Geni, Janine…

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A inscrição LIBERTAS QUÆ SERA TAMEN [liberdade ainda que tardia], da bandeira de Minas Gerais, é um trecho do verso 27 das Éclogas de Virgílio. O verso inteiro é “Libertas, quæ será tamem respexit inertem”.

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No Brasil, existia uma mania de “apelidar” cidades com ápodos como “Cidade Canção”, cidade isso, cidade aquilo. Uma porrada delas se intitulava “Cidade Sorriso”. Uma delas era Araguari, onde tinha um matadouro de cavalos, para exportação da carne, e os moradores das cidades vizinhas gozavam chamando-a de “Cidade Só Rincho”. Mas isso não era uma coisa só daqui. Bangkok, capital da Tailândia, tinha um monte de apelidos, entre eles Armazém Supremo das Jóias Divinas, Grande e Proeminente Mundo, Terra Inconquistável, Grande Cidade dos Anjos, Real e Deliciosa Capital Cheia de Gemas Nove Vezes Maiores, Morada do Encarnado, Abrigo Divino e Mais Alta Moradia Real e Grande Palácio.

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Inácio de Loyola, que fundou a Companhia de Jesus (a ordem dos Jesuítas) e é santo da igreja católica, era basco e tinha como nome de batismo Iñigo Lopez de Oñaz. Levava uma vida turbulenta e até mesmo libertina, até que, em maio de 1521, durante um cerco da cidade de Pamplona pelos franceses, foi atingido por um tiro de obus entre as pernas. Por isso ficou manco e, acredita-se, impotente. No hospital leu um livro sobre a vida de Cristo e decidiu mudar de vida. Peregrinou até Jerusalém, estudou teologia em Paris e lá arrumou discípulos para fundar a ordem a que hoje pertence o Papa Francisco.

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Ditado de Nova Resende: “Pra arrastar um homem, um pentelho de mulher tem mais força do que um caminhão”.

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Leia também, Cultura inútil I, II, III, IV na coluna de Mouzar Benedito no Blog da Boitempo. Ou clique aqui, para ver todos de uma só vez!

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Mouzar Benedito, jornalista, nasceu em Nova Resende (MG) em 1946, o quinto entre dez filhos de um barbeiro. Trabalhou em vários jornais alternativos (Versus, Pasquim, Em Tempo, Movimento, Jornal dos Bairros – MG, Brasil Mulher). Estudou Geografia na USP e Jornalismo na Cásper Líbero, em São Paulo. É autor de muitos livros, dentre os quais, publicados pela Boitempo, Ousar Lutar (2000), em co-autoria com José Roberto Rezende, Pequena enciclopédia sanitária (1996) e Meneghetti – O gato dos telhados (2010, Coleção Pauliceia). Colabora com o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças. 

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