Guia de leitura | Fascismo tardio | ADC#70

Fascismo tardio: raça, capitalismo e política de crise

Alberto Toscano

Guia de leitura / Armas da crítica #70

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Quem é
Alberto Toscano?

Alberto Toscano é professor de Teoria Crítica no Departamento de Sociologia e codiretor do Centro de Filosofia e Teoria Crítica da Golsmiths, Universidade de Londres, além de professor associado e visitante na Escola de Comunicação da Simon Fraser, onde também é pesquisador visitante do Instituto de Democracias Digitais. 

Autor de diversos livros, dentre os quais Fanaticism (Verso, 2010) e Terms of Disorder (Seagull, 2023), organizou o volume  Geografia da abolição, de Ruth Wilson Gilmore, traduzido pela Boitempo em 2025. Desde 2004, é membro do conselho editorial da revista Historical Materialism e editor da série “The Italian List” da Seagull Books. É também tradutor de inúmeros livros e ensaios de Antonio Negri, Alain Badiou, Franco Fortini, Furio Jesi e outros. 

Fascismo é um nome novo para o tipo de terror que o negro sempre enfrentou na América.”

LANGSTON HUGHES

O novo convive com o velho…

Já se tornou patente que bradar “fascismo” não basta: um significante fundamental pode ser esvaziado, reduzido a mero insulto, causar cansaço. Sem tal conceito, no entanto, o pensamento crítico perde seu gume. Eis o problema político que organiza este livro. Evitando a armadilha das analogias imediatas, Alberto Toscano conduz o leitor pelo rico acervo de teorias sobre o fascismo no século XX – dos autores clássicos às tradições relegadas – para revelar o que há de novo na extrema direita do século XXI.

Em um momento no qual a extrema direita oscila entre a nostalgia e a inovação tecnológica, entre a encenação permanente e a violência política, este livro oferece instrumentos indispensáveis para compreender não apenas o retorno de velhos fantasmas, mas as formas inéditas que eles assumem no presente. Contra as ilusões da identidade, da nostalgia e dos simulacros de classe, Toscano restitui ao conceito de fascismo sua força crítica e sua urgência política.

Douglas Barros

Autor de O que é identitarismo?

“Quero refletir sobre o que significa pensar nas dimensões neocoloniais e raciais de um fascismo contemporâneo que encontra terreno fértil em uma conjuntura de dissolução e fragmentação da hegemonia, e que se manifesta em escalas que vão do geopolítico ao íntimo ou somático.”

ALBERTO TOSCANO

Uma riviera sobre os ossos dos mortos

Compreender a dialética entre produção e predação, extrativismo e extermínio no capitalismo, bem como sua recorrência histórica, é crucial para enfrentarmos a sobrevivência do fascismo no presente. Basta pensar nos inúmeros “planos” propostos para a “reconstrução” de Gaza.

No futuro perfeito que subjaz à temporalidade especulativa dos planos, o genocídio terá sido o prelúdio necessário de um futuro brilhante de expansão imobiliária especulativa, integração logístico-extrativista e hegemonia regional – ele terá quebrado a espiral de “desenvolvimento negativo” de Gaza, a fim de possibilitar uma “Nova Gaza” de desenvolvimento hipercapitalista. Isso terá também desmentido a advertência, proferida pelo ex-diplomata estadunidense Josh Paul, de que “não se pode construir uma riviera sobre os ossos dos mortos”. Pelo contrário: para Trump, Blair, Netanyahu, seus apoiadores bilionários e seus muitos vassalos e colaboradores, em Gaza a única que coisa que se pode construir sobre os ossos dos mortos é uma riviera.

O que os planos revelam é uma variante do século XXI da racialização da guerra como um processo de desvalorização e investimento. Encarar o genocídio através do prisma desses planos nos revela a própria lógica de eliminação do capital, na qual uma guerra de extermínio aparece como aquilo que Éric Alliez e Maurizio Lazzarato chamaram de “guerra de acumulação”.

[FASCISMO TARDIO, p. 19-20]

Variações dos
novos fascismos

Diante da proliferação, consolidação e ascensão mundial de mentalidades, regimes e movimentos políticos de extrema direita, muitas pessoas de esquerda, progressistas e até mesmo alguns conservadores têm recorrido ao rótulo “fascista”. O termo agora é usado com tal prodigalidade que quase perde o sentido, mas seu ressurgimento é indicativo do desafio urgente de diagnosticar os sintomas mórbidos que povoam nosso presente.

É útil caracterizar como “fascistas” as novas faces da reação? Das numerosas e conflitantes teorias sobre o fascismo produzidas ao longo do século passado, quais podem fornecer alguma luz em nossos tempos sombrios? Qual é a conexão entre o gesto de teorizar ou nomear o fascismo e as estratégias antifascistas?

O fascismo é, de fato, uma questão de retornos e repetições, mas a melhor forma de abordá-lo não é aquela que lança mão de etapas a serem observadas e listas de verificação ditadas por uma leitura seletiva do ventennio italiano ou do Terceiro Reich.

O fascismo, a exemplo de outros fenômenos políticos, varia de acordo com seu contexto socioeconômico.

[FASCISMO TARDIO, p. 27-29]

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Mais que uma simples resposta à crise estrutural do capital

O caráter intensamente superestrutural, às vezes até fantástico, dos traços fascistas de nosso presente parece justificar a ampliação do foco para além das estratégias do capital para sustentar seu domínio social em condições de crise.

Tendo isso em vista, Alberto Toscano discute vários teóricos que, embora aceitem o nexo formativo entre fascismo e capitalismo, tentam diagnosticar as maneiras pelas quais os movimentos fascistas capturam, desviam e regimentam as energias sociais excedentes – expectativas não realizadas de uma vida melhor, memórias de modos de vida pré-capitalistas, desejo improdutivo e excessivo.

Qual é a relação do fascismo com o tempo histórico? Qual é o lugar das classes, das massas e dos grupos nos imaginários e nas estratégias do fascismo? O fascismo deve ser entendido como um fenômeno psíquico e libidinal, além de sociopolítico?

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Uma das intervenções mais heterodoxas no debate filosófico do período entreguerras sobre o fascismo é a obra A herança de nosso tempo, de Ernst Bloch.

Para Bloch, a Alemanha da década de 1930 não era um país habitado apenas por cidadãos desencantados, trabalhadores inquietos e exploradores aflitos. A crise havia empurrado “pessoas não sincrônicas” para o primeiro plano: habitantes decadentes de um passado cujas esperanças permaneciam insatisfeitas, facilmente recrutados para as fileiras da reação. O ocultismo racista e conspiratório dos nazistas e seus simpatizantes tirou proveito dessa experiência vivida de desenvolvimento desigual.

Como podemos revisitar essa questão do fascismo e da (não) contemporaneidade em nosso tempo?

Podemos começar assinalando uma enorme ironia dialética: as tendências fascistas que encontraram expressão nas eleições estadunidenses de 2016 ou nas contestações que se seguiram a elas, mas também em projetos nacionalistas revanchistas coevos por todo o globo, parecem ser impulsionadas por uma nostalgia da sincronicidade, do apogeu “fordista” do Grande Capital e do Grande Trabalho (em geral codificados como masculinos e brancos) e por certa ideologia de modernização. Não há aqui passados arcaicos ou tradições inventadas, mas o anseio pela imagem de um momento, o da afluência do pós-guerra, dos Trinta Anos Gloriosos, por uma imagem racializada e generificada do trabalhador industrial patriota e socialmente reconhecido.

[FASCISMO TARDIO, p. 34-35 e 39]

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As origens coloniais do fascismo

O intelectual e militante pan-africanista George Padmore, em ruptura com a Internacional Comunista pela incapacidade dela de refletir sobre a conexão entre o imperialismo “democrático” e o fascismo, escreveria em 1936 sobre o racismo do colonialismo de ocupação como “o terreno fértil para o tipo de mentalidade fascista que está se espalhando pela Europa hoje”.

A anatomia do que Padmore chamou de “fascismo colonial” antecipou, assim, a memorável descrição do fascismo como o efeito bumerangue da violência imperialista europeia apresentada por Aimé Césaire em seu Discurso sobre o colonialismo. Ela também foi ecoada pelo historiador e revolucionário guianense Walter Rodney, quando este escreveu sobre o “potencial fascista do colonialismo”.

Essa lição também poderia ser extraída do monumental acerto de contas histórico com o capitalismo racial dos Estados Unidos que é Reconstrução negra, de W. E. B. Du Bois, de 1935. Como sugeriu Amiri Baraka, a obliteração da Reconstrução promulgou um “fascismo racial” que antecedeu em muito o hitlerismo em seu uso do terror racial, da cooptação dos brancos pobres e dos investimentos apaixonados na supremacia branca entre amplos setores da classe capitalista, tanto financeira quanto industrial. Ler o presente através dessa lente pode tornar palpável como e por que “do ponto de vista institucional, o mobiliário histórico que preenche o espaço político estadunidense foi disposto de tal modo que sempre deixaria aberta a perspectiva de evoluir para formas ainda mais autoritárias, como o fascismo”.

[FASCISMO TARDIO, p. 59-60]

“O fascismo foi um monstro nascido de pais capitalistas. Veio como o produto final de séculos de bestialidade capitalista, exploração, dominação e racismo – exercidos principalmente fora da Europa. É bastante significativo que muitos colonos e funcionários coloniais tenham demonstrado inclinações para o fascismo.”

WALTER RODNEY

Em Como a Europa subdesenvolveu a África

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O desejo fascista pela catástrofe

Em uma famosa palestra proferida em 1959, “O que significa elaborar o passado”, Theodor W. Adorno declarou que considerava “a sobrevivência do nacional-socialismo na democracia como potencialmente mais ameaçadora do que a sobrevivência de tendências fascistas contra a democracia”. A persistência das tendências fascistas sob o disfarce do esquecimento não tinha a ver com uma psicopatologia alemã, mas com uma estrutura social e um inconsciente social especificamente capitalistas.

Escreve Adorno: “Justamente porque a realidade não cumpre a promessa de autonomia, enfim, a promessa de felicidade que o conceito de democracia afinal assegurara, as pessoas tornam-se indiferentes frente à democracia, quando não passam até a odiá-la.”

Ao contrário da percepção habitual de que sua compreensão do fascismo e do antissemitismo se distanciou cada vez mais do marxismo, Adorno, em seu retorno tardio a essas questões em uma conferência de 1967 sobre o ressurgimento do radicalismo de direita, discerniu as razões para a continuidade das condições sociais do fascismo na tendência sempre dominante à concentração de capital e nas consequentes ondas de déclassement social e precariedade. Grandes franjas da população excedente passaram a experimentar uma oscilação de seus privilégios, cujo correlato libidinal não era apenas um sentimento de, mas um desejo por catástrofe social (e o que mais se poderia desejar, sugere Adorno, se suas perspectivas econômicas são sombrias, mas você teme uma transformação social real).

[FASCISMO TARDIO, p. 120-121]

“O fascismo era (e segue sendo) capaz de transformar
em arma uma espécie de incoerência estruturada
em seus imaginários políticos
e temporais, modulando-os para recrutar e incitar diferentes frações de classe,
capturando, desviando e corrompendo assim as aspirações populares.”

ALBERTO TOSCANO

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A ideologia de um mundo em crise

Uma das apostas deste livro é que nosso fascismo “tardio” não pode ser compreendido sem que se reflita sobre os “fascismos anteriores ao fascismo” que acompanharam a consolidação imperialista de um sistema-mundo capitalista.

O fascismo funda-se numa modalidade de contraviolência preventiva, com seu desejo de renascimento ou revanche etnonacional alimentado pela iminência de uma ameaça projetada como civilizacional, demográfica e existencial.

Ruth Wilson Gilmore resumiu a ideia do capitalismo racial na fórmula “o capitalismo exige desigualdade e o racismo a consagra”. O fascismo, poderíamos acrescentar, esforça-se violentamente para consagrar a desigualdade em condições de crise, criando simulacros de igualdade para alguns – é uma política e uma cultura de entrincheiramento nacional-social, alimentada pelo racismo, numa situação de catástrofe social real ou antecipada.

Quem não quiser falar de anticapitalismo deve também calar-se sobre o antifascismo. Este último, entendido de maneira ampla, não é apenas uma questão de resistir ao pior, mas será sempre inseparável da construção coletiva de formas de vida que possam desfazer os romances letais de identidade, hierarquia e dominação que a crise capitalista lança com uma regularidade tão sombria.

[FASCISMO TARDIO, p. 192-194]

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos um capítulo de Adam Smith em Pequim, em que Giovanni Arrighi discute o conceito de “dominação sem hegemonia”; um trecho de Reconstrução negra, clássico de W. E. B. Du Bois em que o autor discute as falsificações racistas da história de resistência negra nos Estados Unidos; além do livreto “Raça e globalização”, com um ensaio de Ruth Wilson Gilmore publicado em Geografia da abolição.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Giovanni Arrighi

Dominação sem hegemonia


W. E. B. Du Bois

A propaganda da história


Ruth Wilson Gilmore

Raça e globalização

Vídeos

Este mês trazemos o lançamento antecipado do livro com Douglas Barros, Julia Almeida e mediação de Natan Oliveira; um debate com Virgínia Fontes e Osvaldo Coggiola, ocorrido durante o VI Salão do Livro Político, sobre as ditaduras latino-americanas e o ressurgimento da extrema direita no continente; um trecho da fala de Paulo Arantes na Festa de Aniversário do Marx de 2023, em que o filósofo busca refletir sobre a política bolsonarista a partir das “Ideias fora do lugar”, de Roberto Schwarz; e uma intervenção de Christian Dunker durante o seminário internacional “Democracia em colapso?”.

Para aprofundar…

Compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Geografia da abolição: ensaios rumo à libertação, de Ruth Wilson Gilmore

Reconstrução negra, de W. E. B. Du Bois

Fascismo, de Evguiéni B. Pachukanis

Democracia contra capitalismo, de Ellen Meiksins Wood

Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas, de Alvaro Bianchi

A década da revolução perdida, de Vincent Bevins

A América Latina e os desafios da globalização, de Theotonio Dos Santos e Emir Sader

Margem Esquerda #46 | Que horas são?

Rádio Boitempo: Acervo Boitempo #6: Democracia na América Latina, com Antonio Carlos Mazzeo, nov. 2022.

Rádio Boitempo: Coleção Marx-Engels #6: A GUERRA CIVIL DOS ESTADOS UNIDOS, com Agnus Lauriano, dez. 2023.

Rádio Boitempo: Léxico Marx #5: Golpe e bonapartismo, com Antonio Carlos Mazzeo, out. 2022.

The Dig: Estado policial fascista [sobre a intensificação das polícias, do ICE e da repressão militar no governo Trump, em inglês], com Alberto Toscano e Stuart Schrader, set. 2025.

What’s Left of Philosophy? Sobre o Fascismo tardio [em inglês], com Alberto Toscano, mai. 2024.

A origem do fascismo é a crise capitalista, com Virginia Fontes,TV Boitempo.

O fim da era dos pactos e a ascensão da extrema direita, com Esther Solano, Vladimir Safatle e Ricardo Mussi, TV Boitempo.

Nazismo, fascismo e comunismo, com Domenico Losurdo, TV Boitempo.

A centralidade da propaganda na ideologia nazista, com Mauro Iasi, TV Boitempo.

Fascismo: o retorno de uma ideia, com Alvaro Bianchi, TV Boitempo.

Seminário Direitas, Fascismos, Bolsonarismo, com Alberto Toscano [em inglês], Grupo de Pesquisa Materialismos.

Acusar o fascismo não basta“, por Douglas Barros, Blog da Boitempo, jul. 2026.

Palantir, o braço digital do fascismo tardio“, por Alberto Toscano, Outras Palavras, dez. 2025.

O fascismo subimperial na América Latina“, por Alberto Toscano, Blog da Boitempo, ago. 2026.

A ideologia alemã: a Escola de Frankfurt e os “Gruppenexperiment”“, por Bruna Della Torre, Blog da Boitempo, jun. 2026.

Há um colapso simbólico do supremacismo ocidental em sua forma liberal“, entrevista com Alberto Toscano, Instituto Humano Unisinos, ago. 2025.

Imperialismo e fascismo em acusação: 50 anos do golpe no Chile“, por João Quartim de Moraes, Blog da Boitempo, set. 2023.

A edição de conteúdo deste guia é de Carolina Peters e as artes, de Victória Lobo.