Guia de leitura | Fascismo tardio | ADC#70

Fascismo tardio: raça, capitalismo e política de crise
Alberto Toscano
Guia de leitura / Armas da crítica #70
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Em um mundo tomado por crises ecológicas, econômicas e políticas, as forças do autoritarismo têm saído na frente. Como nomear e responder a esse estado de coisas?
Em Fascismo tardio: raça, capitalismo e política da crise, Alberto Toscano critica a associação do fascismo unicamente com o tipo de violência política dos regimes europeus de meados do século XX. Para o autor, desenvolver uma teoria antifascista é uma tarefa urgente e vital: “Este livro é uma tentativa de contribuir para uma discussão coletiva sobre nosso ciclo político reacionário”, escreve.
Além do livro em versão impressa e e-book, os assinantes do Armas da Crítica de agosto de 2026 receberão o livreto “Raça e globalização”, de Ruth Wilson Gilmore, além de adesivo e marcador de páginas.
autor Alberto Toscano
orelha Douglas Barros
quarta capa Vladimir Safatle
tradução Pedro Davoglio
edição Artur Renzo
coordenação editorial Thais Rimkus
coordenação de produção Juliana Brandt
assistência editorial Maria Eduarda Xavier
assistência de produção Livia Viganó
preparação Karina Okamoto
revisão Mariana Zanini
capa Oga Mendonça
diagramação Antonio Kehl
páginas 256


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Quem é
Alberto Toscano?
Alberto Toscano é professor de Teoria Crítica no Departamento de Sociologia e codiretor do Centro de Filosofia e Teoria Crítica da Golsmiths, Universidade de Londres, além de professor associado e visitante na Escola de Comunicação da Simon Fraser, onde também é pesquisador visitante do Instituto de Democracias Digitais.
Autor de diversos livros, dentre os quais Fanaticism (Verso, 2010) e Terms of Disorder (Seagull, 2023), organizou o volume Geografia da abolição, de Ruth Wilson Gilmore, traduzido pela Boitempo em 2025. Desde 2004, é membro do conselho editorial da revista Historical Materialism e editor da série “The Italian List” da Seagull Books. É também tradutor de inúmeros livros e ensaios de Antonio Negri, Alain Badiou, Franco Fortini, Furio Jesi e outros.
“Fascismo é um nome novo para o tipo de terror que o negro sempre enfrentou na América.”
LANGSTON HUGHES


O novo convive com o velho…
Já se tornou patente que bradar “fascismo” não basta: um significante fundamental pode ser esvaziado, reduzido a mero insulto, causar cansaço. Sem tal conceito, no entanto, o pensamento crítico perde seu gume. Eis o problema político que organiza este livro. Evitando a armadilha das analogias imediatas, Alberto Toscano conduz o leitor pelo rico acervo de teorias sobre o fascismo no século XX – dos autores clássicos às tradições relegadas – para revelar o que há de novo na extrema direita do século XXI.
Em um momento no qual a extrema direita oscila entre a nostalgia e a inovação tecnológica, entre a encenação permanente e a violência política, este livro oferece instrumentos indispensáveis para compreender não apenas o retorno de velhos fantasmas, mas as formas inéditas que eles assumem no presente. Contra as ilusões da identidade, da nostalgia e dos simulacros de classe, Toscano restitui ao conceito de fascismo sua força crítica e sua urgência política.
Douglas Barros
Autor de O que é identitarismo?
“Quero refletir sobre o que significa pensar nas dimensões neocoloniais e raciais de um fascismo contemporâneo que encontra terreno fértil em uma conjuntura de dissolução e fragmentação da hegemonia, e que se manifesta em escalas que vão do geopolítico ao íntimo ou somático.”
ALBERTO TOSCANO


Uma riviera sobre os ossos dos mortos
Compreender a dialética entre produção e predação, extrativismo e extermínio no capitalismo, bem como sua recorrência histórica, é crucial para enfrentarmos a sobrevivência do fascismo no presente. Basta pensar nos inúmeros “planos” propostos para a “reconstrução” de Gaza.
No futuro perfeito que subjaz à temporalidade especulativa dos planos, o genocídio terá sido o prelúdio necessário de um futuro brilhante de expansão imobiliária especulativa, integração logístico-extrativista e hegemonia regional – ele terá quebrado a espiral de “desenvolvimento negativo” de Gaza, a fim de possibilitar uma “Nova Gaza” de desenvolvimento hipercapitalista. Isso terá também desmentido a advertência, proferida pelo ex-diplomata estadunidense Josh Paul, de que “não se pode construir uma riviera sobre os ossos dos mortos”. Pelo contrário: para Trump, Blair, Netanyahu, seus apoiadores bilionários e seus muitos vassalos e colaboradores, em Gaza a única que coisa que se pode construir sobre os ossos dos mortos é uma riviera.
O que os planos revelam é uma variante do século XXI da racialização da guerra como um processo de desvalorização e investimento. Encarar o genocídio através do prisma desses planos nos revela a própria lógica de eliminação do capital, na qual uma guerra de extermínio aparece como aquilo que Éric Alliez e Maurizio Lazzarato chamaram de “guerra de acumulação”.
[FASCISMO TARDIO, p. 19-20]
Variações dos
novos fascismos
Diante da proliferação, consolidação e ascensão mundial de mentalidades, regimes e movimentos políticos de extrema direita, muitas pessoas de esquerda, progressistas e até mesmo alguns conservadores têm recorrido ao rótulo “fascista”. O termo agora é usado com tal prodigalidade que quase perde o sentido, mas seu ressurgimento é indicativo do desafio urgente de diagnosticar os sintomas mórbidos que povoam nosso presente.
É útil caracterizar como “fascistas” as novas faces da reação? Das numerosas e conflitantes teorias sobre o fascismo produzidas ao longo do século passado, quais podem fornecer alguma luz em nossos tempos sombrios? Qual é a conexão entre o gesto de teorizar ou nomear o fascismo e as estratégias antifascistas?
O fascismo é, de fato, uma questão de retornos e repetições, mas a melhor forma de abordá-lo não é aquela que lança mão de etapas a serem observadas e listas de verificação ditadas por uma leitura seletiva do ventennio italiano ou do Terceiro Reich.
O fascismo, a exemplo de outros fenômenos políticos, varia de acordo com seu contexto socioeconômico.
[FASCISMO TARDIO, p. 27-29]


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Mais que uma simples resposta à crise estrutural do capital
O caráter intensamente superestrutural, às vezes até fantástico, dos traços fascistas de nosso presente parece justificar a ampliação do foco para além das estratégias do capital para sustentar seu domínio social em condições de crise.
Tendo isso em vista, Alberto Toscano discute vários teóricos que, embora aceitem o nexo formativo entre fascismo e capitalismo, tentam diagnosticar as maneiras pelas quais os movimentos fascistas capturam, desviam e regimentam as energias sociais excedentes – expectativas não realizadas de uma vida melhor, memórias de modos de vida pré-capitalistas, desejo improdutivo e excessivo.
Qual é a relação do fascismo com o tempo histórico? Qual é o lugar das classes, das massas e dos grupos nos imaginários e nas estratégias do fascismo? O fascismo deve ser entendido como um fenômeno psíquico e libidinal, além de sociopolítico?
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Uma das intervenções mais heterodoxas no debate filosófico do período entreguerras sobre o fascismo é a obra A herança de nosso tempo, de Ernst Bloch.
Para Bloch, a Alemanha da década de 1930 não era um país habitado apenas por cidadãos desencantados, trabalhadores inquietos e exploradores aflitos. A crise havia empurrado “pessoas não sincrônicas” para o primeiro plano: habitantes decadentes de um passado cujas esperanças permaneciam insatisfeitas, facilmente recrutados para as fileiras da reação. O ocultismo racista e conspiratório dos nazistas e seus simpatizantes tirou proveito dessa experiência vivida de desenvolvimento desigual.
Como podemos revisitar essa questão do fascismo e da (não) contemporaneidade em nosso tempo?
Podemos começar assinalando uma enorme ironia dialética: as tendências fascistas que encontraram expressão nas eleições estadunidenses de 2016 ou nas contestações que se seguiram a elas, mas também em projetos nacionalistas revanchistas coevos por todo o globo, parecem ser impulsionadas por uma nostalgia da sincronicidade, do apogeu “fordista” do Grande Capital e do Grande Trabalho (em geral codificados como masculinos e brancos) e por certa ideologia de modernização. Não há aqui passados arcaicos ou tradições inventadas, mas o anseio pela imagem de um momento, o da afluência do pós-guerra, dos Trinta Anos Gloriosos, por uma imagem racializada e generificada do trabalhador industrial patriota e socialmente reconhecido.
[FASCISMO TARDIO, p. 34-35 e 39]


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As origens coloniais do fascismo
O intelectual e militante pan-africanista George Padmore, em ruptura com a Internacional Comunista pela incapacidade dela de refletir sobre a conexão entre o imperialismo “democrático” e o fascismo, escreveria em 1936 sobre o racismo do colonialismo de ocupação como “o terreno fértil para o tipo de mentalidade fascista que está se espalhando pela Europa hoje”.
A anatomia do que Padmore chamou de “fascismo colonial” antecipou, assim, a memorável descrição do fascismo como o efeito bumerangue da violência imperialista europeia apresentada por Aimé Césaire em seu Discurso sobre o colonialismo. Ela também foi ecoada pelo historiador e revolucionário guianense Walter Rodney, quando este escreveu sobre o “potencial fascista do colonialismo”.
Essa lição também poderia ser extraída do monumental acerto de contas histórico com o capitalismo racial dos Estados Unidos que é Reconstrução negra, de W. E. B. Du Bois, de 1935. Como sugeriu Amiri Baraka, a obliteração da Reconstrução promulgou um “fascismo racial” que antecedeu em muito o hitlerismo em seu uso do terror racial, da cooptação dos brancos pobres e dos investimentos apaixonados na supremacia branca entre amplos setores da classe capitalista, tanto financeira quanto industrial. Ler o presente através dessa lente pode tornar palpável como e por que “do ponto de vista institucional, o mobiliário histórico que preenche o espaço político estadunidense foi disposto de tal modo que sempre deixaria aberta a perspectiva de evoluir para formas ainda mais autoritárias, como o fascismo”.
[FASCISMO TARDIO, p. 59-60]
“O fascismo foi um monstro nascido de pais capitalistas. Veio como o produto final de séculos de bestialidade capitalista, exploração, dominação e racismo – exercidos principalmente fora da Europa. É bastante significativo que muitos colonos e funcionários coloniais tenham demonstrado inclinações para o fascismo.”
WALTER RODNEY


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O desejo fascista pela catástrofe
Em uma famosa palestra proferida em 1959, “O que significa elaborar o passado”, Theodor W. Adorno declarou que considerava “a sobrevivência do nacional-socialismo na democracia como potencialmente mais ameaçadora do que a sobrevivência de tendências fascistas contra a democracia”. A persistência das tendências fascistas sob o disfarce do esquecimento não tinha a ver com uma psicopatologia alemã, mas com uma estrutura social e um inconsciente social especificamente capitalistas.
Escreve Adorno: “Justamente porque a realidade não cumpre a promessa de autonomia, enfim, a promessa de felicidade que o conceito de democracia afinal assegurara, as pessoas tornam-se indiferentes frente à democracia, quando não passam até a odiá-la.”
Ao contrário da percepção habitual de que sua compreensão do fascismo e do antissemitismo se distanciou cada vez mais do marxismo, Adorno, em seu retorno tardio a essas questões em uma conferência de 1967 sobre o ressurgimento do radicalismo de direita, discerniu as razões para a continuidade das condições sociais do fascismo na tendência sempre dominante à concentração de capital e nas consequentes ondas de déclassement social e precariedade. Grandes franjas da população excedente passaram a experimentar uma oscilação de seus privilégios, cujo correlato libidinal não era apenas um sentimento de, mas um desejo por catástrofe social (e o que mais se poderia desejar, sugere Adorno, se suas perspectivas econômicas são sombrias, mas você teme uma transformação social real).
[FASCISMO TARDIO, p. 120-121]
“O fascismo era (e segue sendo) capaz de transformar
em arma uma espécie de incoerência estruturada em seus imaginários políticos
e temporais, modulando-os para recrutar e incitar diferentes frações de classe,
capturando, desviando e corrompendo assim as aspirações populares.”
ALBERTO TOSCANO


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A ideologia de um mundo em crise
Uma das apostas deste livro é que nosso fascismo “tardio” não pode ser compreendido sem que se reflita sobre os “fascismos anteriores ao fascismo” que acompanharam a consolidação imperialista de um sistema-mundo capitalista.
O fascismo funda-se numa modalidade de contraviolência preventiva, com seu desejo de renascimento ou revanche etnonacional alimentado pela iminência de uma ameaça projetada como civilizacional, demográfica e existencial.
Ruth Wilson Gilmore resumiu a ideia do capitalismo racial na fórmula “o capitalismo exige desigualdade e o racismo a consagra”. O fascismo, poderíamos acrescentar, esforça-se violentamente para consagrar a desigualdade em condições de crise, criando simulacros de igualdade para alguns – é uma política e uma cultura de entrincheiramento nacional-social, alimentada pelo racismo, numa situação de catástrofe social real ou antecipada.
Quem não quiser falar de anticapitalismo deve também calar-se sobre o antifascismo. Este último, entendido de maneira ampla, não é apenas uma questão de resistir ao pior, mas será sempre inseparável da construção coletiva de formas de vida que possam desfazer os romances letais de identidade, hierarquia e dominação que a crise capitalista lança com uma regularidade tão sombria.
[FASCISMO TARDIO, p. 192-194]

Leituras complementares
Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!
Este mês trazemos um capítulo de Adam Smith em Pequim, em que Giovanni Arrighi discute o conceito de “dominação sem hegemonia”; um trecho de Reconstrução negra, clássico de W. E. B. Du Bois em que o autor discute as falsificações racistas da história de resistência negra nos Estados Unidos; além do livreto “Raça e globalização”, com um ensaio de Ruth Wilson Gilmore publicado em Geografia da abolição.
Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!
Giovanni Arrighi
Dominação sem hegemonia
W. E. B. Du Bois
A propaganda da história
Ruth Wilson Gilmore
Raça e globalização

Vídeos
Este mês trazemos o lançamento antecipado do livro com Douglas Barros, Julia Almeida e mediação de Natan Oliveira; um debate com Virgínia Fontes e Osvaldo Coggiola, ocorrido durante o VI Salão do Livro Político, sobre as ditaduras latino-americanas e o ressurgimento da extrema direita no continente; um trecho da fala de Paulo Arantes na Festa de Aniversário do Marx de 2023, em que o filósofo busca refletir sobre a política bolsonarista a partir das “Ideias fora do lugar”, de Roberto Schwarz; e uma intervenção de Christian Dunker durante o seminário internacional “Democracia em colapso?”.

Para aprofundar…
Compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Geografia da abolição: ensaios rumo à libertação, de Ruth Wilson Gilmore
Reconstrução negra, de W. E. B. Du Bois
Fascismo, de Evguiéni B. Pachukanis
Democracia contra capitalismo, de Ellen Meiksins Wood
Fascismo e liberalismo: afinidades seletivas, de Alvaro Bianchi
A década da revolução perdida, de Vincent Bevins
A América Latina e os desafios da globalização, de Theotonio Dos Santos e Emir Sader
Margem Esquerda #46 | Que horas são?

Rádio Boitempo: Acervo Boitempo #6: Democracia na América Latina, com Antonio Carlos Mazzeo, nov. 2022.
Rádio Boitempo: Coleção Marx-Engels #6: A GUERRA CIVIL DOS ESTADOS UNIDOS, com Agnus Lauriano, dez. 2023.
Rádio Boitempo: Léxico Marx #5: Golpe e bonapartismo, com Antonio Carlos Mazzeo, out. 2022.
The Dig: Estado policial fascista [sobre a intensificação das polícias, do ICE e da repressão militar no governo Trump, em inglês], com Alberto Toscano e Stuart Schrader, set. 2025.
What’s Left of Philosophy? Sobre o Fascismo tardio [em inglês], com Alberto Toscano, mai. 2024.

A origem do fascismo é a crise capitalista, com Virginia Fontes,TV Boitempo.
O fim da era dos pactos e a ascensão da extrema direita, com Esther Solano, Vladimir Safatle e Ricardo Mussi, TV Boitempo.
Nazismo, fascismo e comunismo, com Domenico Losurdo, TV Boitempo.
A centralidade da propaganda na ideologia nazista, com Mauro Iasi, TV Boitempo.
Fascismo: o retorno de uma ideia, com Alvaro Bianchi, TV Boitempo.
Seminário Direitas, Fascismos, Bolsonarismo, com Alberto Toscano [em inglês], Grupo de Pesquisa Materialismos.

“Acusar o fascismo não basta“, por Douglas Barros, Blog da Boitempo, jul. 2026.
“Palantir, o braço digital do fascismo tardio“, por Alberto Toscano, Outras Palavras, dez. 2025.
“O fascismo subimperial na América Latina“, por Alberto Toscano, Blog da Boitempo, ago. 2026.
“A ideologia alemã: a Escola de Frankfurt e os “Gruppenexperiment”“, por Bruna Della Torre, Blog da Boitempo, jun. 2026.
“Há um colapso simbólico do supremacismo ocidental em sua forma liberal“, entrevista com Alberto Toscano, Instituto Humano Unisinos, ago. 2025.
“Imperialismo e fascismo em acusação: 50 anos do golpe no Chile“, por João Quartim de Moraes, Blog da Boitempo, set. 2023.
A edição de conteúdo deste guia é de Carolina Peters e as artes, de Victória Lobo.


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