Acusar o fascismo não basta

Douglas Barros apresenta Fascismo tardio, de Alberto Toscano, livro do mês do Armas da Crítica.

Rosa Parks sendo fichada pela polícia. Foto: Gene Herrick / Associated Press (restaurada porAdam Cuerden)

Por Douglas Barros

Já se tornou patente que bradar “fascismo” não basta: um significante fundamental pode ser esvaziado, reduzido a mero insulto, causar cansaço. Sem tal conceito, no entanto, o pensamento crítico perde seu gume. Eis o problema político que organiza este livro. Evitando a armadilha das analogias imediatas, Alberto Toscano conduz o leitor pelo rico acervo de teorias sobre o fascismo no século XX – dos autores clássicos às tradições relegadas – para revelar o que há de novo na extrema direita do século XXI.

O novo convive com o velho, o presente com o passado. Toscano demonstra como as relações de não sincronicidade temporal do capitalismo global organizam modos de subjetivação que conclamam a suposta grandeza do passado contra a miséria do presente. Nessa dinâmica, ganha relevo o caráter libidinal que orquestra a adesão fascista: o laço que forja o modo pelo qual o indivíduo – reduzido à impotência diante de estruturas que o excedem – se identifica com o líder. Este, por sua vez, não pode aparecer como alguém radicalmente distinto daqueles que o elegem; ao contrário, precisa exibir as mesmas vacilações e fragilidades para que esse vínculo se estabeleça. Toscano mostra ainda que a unidade de ação de ambos se faz na performance, e não exatamente na crença sincera na incorruptibilidade da figura do demagogo. Trata-se de um falso fanatismo que, em vez de tentar tornar o inconsciente cognoscível, procura ocultar aquilo que deveria se tornar consciente.

Remontando à importância da racialização para a organização do Estado-nação, o autor nos lembra dos impasses provocados pelo fetichismo de uma política de massas, resgatando, aliás, o caráter pequeno-burguês da massa. O componente racial, e todo o restolho colonial abrigado sob a nacionalidade, oblitera a possibilidade de se pensar numa política de classes efetiva. Se uma classe ganha identidade – como o eleitor branco de Trump – é porque a classe já não existe. Enquanto a classe é um desimplicar-se da identidade ou da ideia de pertencimento, o nacionalismo reacionário reacende a chama das diferenças superficiais para requentar o racismo inerente à ideia de uma nacionalidade integral. É mobilizando o fantasma da identidade fundamental que o fascismo reativa as chancelas étnicas e mortais de sua política.

Em um momento no qual a extrema direita oscila entre a nostalgia e a inovação tecnológica, entre a encenação permanente e a violência política, este livro oferece instrumentos indispensáveis para compreender não apenas o retorno de velhos fantasmas, mas as formas inéditas que eles assumem no presente. Contra as ilusões da identidade, da nostalgia e dos simulacros de classe, Toscano restitui ao conceito de fascismo sua força crítica e sua urgência política.

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Douglas Rodrigues Barros é psicanalista e doutor em ética e filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Professor na pós-graduação em filosofia da Unifai. Investiga principalmente a filosofia alemã conjuntamente com o pensamento diaspórico de matriz africana e suas principais contribuições teóricas no campo da arte e da política. Pela Boitempo, publicou O que é identitarismo? (2024). Escritor com três romances publicados, também é autor dos livros Lugar de negro, lugar de branco? Esboço para uma crítica à metafísica racial (Hedra) e Hegel e o sentido do político (lavrapalavra).


Em um mundo tomado por crises ecológicas, econômicas e políticas, as forças do autoritarismo têm saído na frente. Como nomear e responder a esse estado de coisas?

Em Fascismo tardio: raça, capitalismo e política da crise, Alberto Toscano critica a associação do fascismo unicamente com o tipo de violência política dos regimes europeus de meados do século XX.

Em vez de procurar analogias históricas, ele entende o fascismo como um processo mutável, ancorado no capitalismo racial e colonial, que antecede e sobrevive às suas encarnações na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler.

A extrema direita global do século XXI se movimento por teorias da conspiração, pânico moral e espantalhos em torno de temas como sexualidade, imigração e direitos reprodutivos, como a chamada “ideologia de gênero” e “grande substituição”.

Desenvolver uma teoria antifascista é uma tarefa urgente e vital: “Este livro é uma tentativa de contribuir para uma discussão coletiva sobre nosso ciclo político reacionário”, escreve o autor.

A Boitempo traz dois importantes acréscimos em relação à original: novo prefácio em que o autor se dirige ao público brasileiro e tematiza as especificidades do bolsonarismo; um apêndice dedicado aos debates latino-americanos sobre o fascismo nos anos 70.

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