Guia de leitura | ADC#18

O que é a filosofia?
Giorgio Agamben

Guia de leitura / Armas da crítica #18

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A caixa de abril do Armas da crítica aborda um tema que acompanhou Giorgio Agamben desde o início de suas reflexões: a relação entre as palavras e as coisas. Em O que é a filosofia?, o filósofo italiano constrói não uma definição, mas uma caracterização do fazer filosófico.

Nos cinco ensaios que compõem a obra, investigação arqueológica e teórica estão intimamente ligadas: a reconstrução paciente da forma como o conceito de linguagem foi inventado é acompanhada por uma tentativa de restaurar o pensamento a seu lugar na voz.

autor Giorgio Agamben
tradução e apresentação Andrea Santurbano e Patricia Peterle
orelha Cláudio Oliveira
edição Pedro Davoglio
capa e diagramação Antonio Kehl
coordenação de produção Livia Campos
páginas 208

A caixa do mês ainda é acompanhada pela última edição da Margem Esquerda, com um dossiê sobre feminismo e crise do capital com textos de Talíria Petrone, Jandira Feghali, Fátima Bezerra e Sofia Manzano. A edição ainda conta com uma entrevista com Roswitha Scholz, um artigo de Nancy Fraser sobre a questão climática, uma conferência de Angela Davis sobre a Dialética negativa, de Theodor W. Adorno, poema de Lady Montagu, imagens de Vera Chaves Barcellos e muito mais…

autoras Talíria Petrone, Jandira Feghali, Fátima Bezerra, Nancy Fraser, Angela Davis, Lady Montagu e outras
edição Artur Renzo
edição de imagens Francisco Klinger Carvalho
edição de poesia Flávio Wolf de Aguiar
diagramação Antonio Kehl
capa Artur Renzo e Natasha Weissenborn
coordenação de produção Livia Campos
páginas 160

Quem é Giorgio Agamben?

Giorgio Agamben nasceu em Roma em 22 de abril de 1942. É um dos principais intelectuais de sua geração, autor de muitos livros e responsável pela edição italiana das obras de Walter Benjamin. Deu cursos em várias universidades europeias e norte-americanas, recusando-se a prosseguir lecionando na New York University em protesto à política de segurança dos Estados Unidos.

Foi diretor de programa no Collège International de Philosophie de Paris. Mais recentemente ministrou aulas de Iconologia no Istituto Universitario di Architettura di Venezia (Iuav), afastando-se da carreira docente no final de 2009. Sua obra, influenciada por Michel Foucault e Hannah Arendt, centra-se nas relações entre filosofia, literatura, poesia e, fundamentalmente, política.

Pela Boitempo publicou Estado de exceção (2004), Profanações (2007), O que resta de Auschwitz (2008), O reino e a glória (2011), Opus dei (2013), Altíssima pobreza (2014), Pilatos e Jesus (2014), O mistério do mal (2015), O uso dos corpos (2017), O fogo e o relato (2018), Signatura rerum (2019) e Reflexões sobre a peste (2020).

“Contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro.”

GIORGIO AGAMBEN

A relação entre ser e linguagem

Pode-se dizer que todos os escritos reunidos em O que é a filosofia? tratam, cada um a seu modo, daquelas duas obsessões que constituem o pensamento do filósofo italiano e que respondem, para ele, à sua ideia de filosofia: a relação entre linguagem e ser (isso que, seguindo a tradição, Agamben chama de ontologia) e a relação entre o ser vivente e a linguagem (isso que Agamben chama, segundo seus próprios termos, de antropogênese). Ambas as relações são, para o autor, problemáticas e é desse caráter problemático que surge a ideia de filosofia em seu pensamento.

O termo ideia, aqui, já antecipa, ao leitor atento, que o interlocutor principal de Agamben na tarefa de definir para si mesmo o que é a filosofia é, surpreendentemente, Platão – e não Aristóteles, que tinha sido, no entanto, o autor fundamental e o ponto de partida para a construção da tetralogia Homo Sacer. Todos os quatro textos mais recentes, que retomam a problemática agambeniana sobre a relação entre ser e linguagem, podem ser lidos como uma originalíssima interpretação do pensamento de Platão que o italiano realiza ao tentar construir para si mesmo uma ideia da filosofia.

Cláudio Oliveira

Doutor em filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor titular do Departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense.

“Os filósofos, como os poetas, são, sobretudo, os guardiões da língua e esta é uma tarefa genuinamente política, ainda mais numa época, como é a nossa, que busca com todos os meios confundir e falsificar o significado das palavras.”

GIORGIO AGAMBEN

Corpo a corpo com a linguagem

A reflexão sobre a linguagem já estava mais do que presente no projeto Homo Sacer, como se lê no último volume do projeto, O uso dos corpos: a ontologia é o lugar originário da articulação histórica entre linguagem e mundo. Se a antropogênese, o devir humano do homem, não é um acontecimento que se realizou uma única vez no passado, mas que não cessa de acontecer, ou seja, um processo em andamento em que o homem pode se tornar humano e permanecer (ou se tornar) não humano, a linguagem tem aqui um papel central ético e político em sua articulação com o mundo. Escrever, afirma Agamben, é contemplar a língua, por isso a língua do escritor nunca será um campo neutro e instrumental.

Como se vê, ao se percorrer as páginas de O que é filosofia?, o pensamento filosófico é um fazer que se enxerta na pergunta, mas que, entretanto, não acaba por se exaurir numa resposta pontual e final. Na verdade, ele se expande, ganha outras extensões – para retomar um termo que será usado num importante trecho –, alcançando outros âmbitos e colocando outras perguntas e questionamentos. Se o pensamento filosófico deve ser uma abertura, uma extensão que se difunde em diferentes áreas, ele não pode se encerrar no ponto final de uma resposta.

Patricia Peterle e Andrea Santurbano na apresentação de O que é a filosofia?

“Em O que é a filosofia?, a filosofia não é vista em amarras como uma disciplina com objeto e fronteiras definidos, mas é sobretudo uma intensidade, capaz de mover as coisas, como o próprio Agamben afirmou certa vez em uma entrevista: algo semelhante ao vento, às nuvens ou a uma tempestade; uma intensidade que de repente sacode, perturba, transforma.”

PATRICIA PETERLE e ANDREA SANTURBANO

Advertência

Em que sentido os cinco textos reunidos em O que é a filosofia? contêm uma ideia da filosofia, que responde de algum modo à pergunta do título deste livro, ficará evidente – se ficar – somente a quem os ler com espírito de amizade.

Como foi dito, quem escreve numa época que, com razão ou não, lhe parece bárbara deve saber que suas forças e capacidade de expressão não crescem por causa disso, mas antes diminuem e se desgastam.

Dado, no entanto, que não pode fazer diferente e o pessimismo lhe é por natureza estranho – aliás, nem se vê como capaz de se lembrar com certeza de um tempo melhor –, o autor só pode contar com quem terá experimentado essas suas mesmas dificuldades – nesse sentido, os amigos.

[O QUE É A FILOSOFIA?, p.29]


“Não há, e jamais houve, uma comunidade ou sociedade ou grupo que tenha decidido renunciar pura e simplesmente à linguagem.”

[O QUE É A FILOSOFIA?, p.31]

Experimentum vocis

Devemos olhar para o incompreensível como se fosse uma aquisição exclusiva do homo sapiens, para o indizível como se fosse uma categoria que pertence unicamente à linguagem humana. O caráter específico dessa linguagem consiste em que ela estabelece uma relação particular com o ser de que fala, independentemente de como o tenha nomeado e qualificado. Qualquer coisa que nomeemos e concebamos, somente pelo fato de ter sido nomeada, já é, de algum modo, pré-suposta à linguagem e ao conhecimento. É essa a intencionalidade fundamental da palavra humana, que já está sempre em relação com algo que pressupõe como irrelativo.

A pressuposição, então, expressa a relação originária entre linguagem e ser, entre os nomes e as coisas, e a pressuposição primeira é a de que haja uma tal relação. A posição de uma relação entre a linguagem e o mundo – a posição da pré-suposição – é a prestação constitutiva da linguagem humana tal como a filosofia ocidental a concebeu: a onto-logia, o fato de que o ser é dito e de que o dizer se refere ao ser.

[O QUE É A FILOSOFIA?, p.34-36]

“E o que é o pensamento senão a capacidade de devolver possibilidade à realidade, de desmentir a falsa pretensão de que a opinião se fundamenta somente nos fatos? Pensar significa antes de mais nada perceber a exigência daquilo que é real de tornar-se de novo possível, ser justo não apenas com as coisas, mas também com suas lágrimas.”

[O QUE É A FILOSOFIA?, p.76]

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Sobre o conceito de exigência

Sempre de novo a filosofia se depara com a tarefa de uma definição rigorosa do conceito de exigência. Essa definição é ainda mais urgente na medida em que podemos dizer, sem trocadilhos, que a filosofia exige essa definição e sua possibilidade coincide integralmente com essa exigência.

Se não houvesse exigência, mas apenas necessidade, não poderia haver filosofia. Não aquilo que nos obriga, mas o que exige de nós; não o ter-de-ser nem a simples realidade fatual, mas sim a exigência: esse é o elemento da filosofia. Mas também a possibilidade e a contingência, por efeito da exigência, se transformam e se modificam. Uma definição da exigência implica então, como tarefa preliminar, uma redefinição das categorias da modalidade.

[O QUE É A FILOSOFIA?, p.73]

“Uma ciência que renuncia a salvar as aparências só pode visar a sua destruição; uma filosofia que não se coloca em jogo, por meio das ideias, na língua perde sua necessária conexão com o mundo sensível.”

[O QUE É A FILOSOFIA?, p.160]

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Sobre o dizível e a ideia

Não o indizível, mas o dizível constitui o problema com que a filosofia, toda vez, tem de lidar. O indizível, de fato, nada mais é que uma pressuposição da linguagem. Assim que há linguagem, a coisa nominada é pressuposta como o não linguístico ou o irrelativo com que a linguagem estabeleceu sua relação.

Esse poder pressuponente é tão forte que imaginamos o não linguístico como algo de indizível e irrelativo que de algum modo procuramos alcançar como tal, sem perceber que desse modo não fazemos outra coisa senão tentar alcançar a sombra da linguagem. O indizível é, nesse sentido, uma categoria genuinamente linguística, que só um ser falante pode conceber.

Buscaremos mostrar que, ao contrário, o dizível é uma categoria não linguística, mas genuinamente ontológica. A eliminação do indizível na linguagem coincide com a exposição do dizível como tarefa filosófica. Por isso, o dizível nunca pode se dar, assim como o indizível, antes ou depois da linguagem: vem junto com ela e permanece, todavia, irredutível a ela.

[O QUE É A FILOSOFIA?, p.83-84]

“A filosofia é aquele discurso que se limita a ser proêmio do discurso não filosófico, mostrando sua insuficiência.”

[O QUE É A FILOSOFIA?, p.176]

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Sobre escrever proêmios

Assim como uma lei pura (ἄκρατος, não misturada), isto é, sem proêmio, é tirânica, tirânico também é um discurso desprovido de proêmios, que se limita a formular teorias, por mais corretas que sejam. A palavra filosófica é essencial e constitutivamente proemial. É elemento proemial que deve estar presente em todo discurso humano. Mas, se o proêmio da lei antecede e introduz a parte normativa da lei – as prescrições e as proibições –, a palavra filosófica constitui o proêmio de quê?

O que se consegue dizer da linguagem é somente prefácio ou postila, e os filósofos se distinguem segundo o que preferem, a primeira ou a segunda, atendo-se ao momento poético do pensamento (a poesia é sempre anúncio) ou ao gesto de quem, por último, repousa a lira e contempla. Em todo caso, o que se contempla é o não dito, a dispensa da palavra coincide com seu anúncio.

[O QUE É A FILOSOFIA?, p.174]

“O estado da música (incluída nesse termo toda a esfera que imprecisamente definimos com o termo ‘arte’) define a condição política de uma determinada sociedade melhor e antes de qualquer outro índice, e, se quisermos mudar o ordenamento de uma cidade, é necessário acima de tudo reformar sua música.”

[O QUE É A FILOSOFIA?, p.186]

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A música suprema

A filosofia só pode dar-se hoje como reforma da música. Se chamamos de música a experiência da Musa, ou seja, a da origem e do ter lugar da palavra, então em certa sociedade e em certo tempo a música expressa e governa a relação dos homens com o acontecimento da palavra.

As musas expressavam na Grécia essa articulação originária do acontecimento da palavra, que, acontecendo, se destina e se comparte em nove formas ou modalidades, sem que seja possível para o falante remontar para além delas. Tal impossibilidade de acessar o lugar originário da palavra é a música.

Nela é expresso algo que na linguagem não pode ser dito. Como é imediatamente evidente quando se toca ou se escuta música, o canto celebra ou lamenta antes de tudo uma impossibilidade de dizer, a impossibilidade – dolorosa ou alegre, hínica ou elegíaca – de acessar o acontecimento da palavra que constitui os homens como humanos.

[O QUE É A FILOSOFIA?, p.179]

“A linguagem se dá hoje como tagarelice que nunca se choca com seu próprio limite e parece ter perdido toda consciência de seu íntimo nexo com o que não se pode dizer, ou seja, com o tempo em que o homem ainda não era falante. A uma linguagem sem margens nem fronteiras corresponde uma música não mais musaicamente afinada, e a uma música que deu as costas para a própria origem corresponde uma política sem consistência nem lugar.”

[O QUE É A FILOSOFIA?, p.192]

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Música e política

Dado que o eclipse da política forma uma coisa só com a perda da experiência do musaico, a tarefa política é hoje constitutivamente uma tarefa poética, em relação à qual é necessário que artistas e filósofos unam suas forças.

Os homens políticos atuais não são capazes de pensar, porque tanto sua linguagem quanto sua música giram musaicamente em falso. Se chamamos de pensamento o espaço que se abre sempre que acessamos a experiência do princípio musaico da palavra, então é com a incapacidade de pensar do nosso tempo que devemos nos confrontar.

[O QUE É A FILOSOFIA?, p.196]

Leituras complementares

Baixe os conteúdos complementares do mês em PDF!

Este mês trazemos um capítulo de O fogo e o relato e outro de Signatura rerum e a apresentação de O que resta de Auschwitz, assinada por Jeanne Marie Gagnebin.

Clique nos botões vermelhos abaixo para fazer o download!

Giorgio Agamben

Em nome de quê?


Giorgio Agamben

Arqueologia filosófica


Jeanne Marie Gagnebin

Apresentação de O que resta de Auschwitz

Vídeos

Este mês trazemos o curso de Introdução a Giorgio Agamben, com uma aula sobre o Estado de exceção com Edson Teles, outra sobre o Homo sacer com Vinícius Honesko e o lançamento antecipado de O que é a filosofia?, com Carla Rodrigues, Isabela Pinho e Raul Antelo, além de um vídeo sobre o livro do mês com Patricia Peterle e um trecho do filme Evangelho segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini, em que Agamben faz o papel do apóstolo Filipe.

Para aprofundar…

Uma compilação de textos, podcasts e vídeos que dialogam com a obra do mês.

Estado de exceção, de Giorgio Agamben

Profanações, de Giorgio Agamben

O que resta de Auschwitz, de Giorgio Agamben 

O reino e a glória, de Giorgio Agamben 

Opus dei, de Giorgio Agamben 

Altíssima pobreza, de Giorgio Agamben 

Pilatos e Jesus, de Giorgio Agamben 

O mistério do mal, de Giorgio Agamben

O uso dos corpos, de Giorgio Agamben 

O fogo e o relato, de Giorgio Agamben

Signatura rerum, de Giorgio Agamben

Reflexões sobre a peste, de Giorgio Agamben

Estado de exceção: #4 – Giorgio Agamben, com Evandro Pontel, mar. 2020.

O Cenáculo: Episódio 37: Estado de Exceção, de Giorgio Agamben, jun. 2021.

Jogando conversa dentro: Estado de Exceção – Iustitium, set. 2020.

Jogando conversa dentro Estado de Exceção – Luta de gigantes acerca de um vazio, set. 2020.

Jogando conversa dentro Estado de Exceção – Festa, luto e anomia, set. 2020.

Jogando conversa dentro Estado de Exceção – Auctoritas e potestas, set. 2020.

Introdução a Giorgio Agamben, com Patricia Peterle, TV Boitempo.

Agamben: por uma ética da vergonha e do resto, com Oswaldo Giacoia Jr., TV PUC.

Giorgio Agamben a exceção jurídica e o controle biopolítico da vida humana, com Castor Bartolomé Ruiz, Filosofia Unisinos.

Entrevista com Giorgio Agamben [legendas em inglês], PrNeix.

Glória e uso: Giorgio Agamben e a crítica ao presente [em espanhol], com Rodrigo Karmy Bolton, Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eichmann, direito e justiça [em inglês], com Judith Butler e Giorgio Agamben, European Graduate School Video Lectures.

Vida nua, forma de vida e linguagem: uma leitura de Agamben, com Patricia Peterle e Nelson Camatta Moreira, Núcleo de Estudos do Comum (NEC).

Giorgio Agamben: “O estado de exceção se tornou norma”, El País, Francesc Arroyo, abril 2018.

Sobre a dificuldade de ler“, por Giorgio Agamben, Cult, jun. 2013.

Capitalismo comunista“, por Giorgio Agamben, Blog da Boitempo, abril 2021.

O método de Agamben“, por Christian Dunker, Blog da Boitempo, jul. 2019.

A inoperosidade é soberana“, por Antonio Negri, Blog da Boitempo, abril 2017.

O pensamento é a coragem do desespero“, por Giorgio Agamben, Blog da Boitempo, ago. 2014.

A crise infindável como instrumento de poder: uma conversa com Giorgio Agamben“, Blog da Boitempo, jul. 2013.

Entrevista com Giorgio Agamben, por Flavia Costa, Revista do Departamento de Psicologia (UFF), 2006.

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