Morrer por uma causa justa: o individualismo encantado da extrema direita  

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Por Thiago Turibio

“Se eu tivesse morrido, também não teria problema. Morreria por uma causa justa, nobre”. Estas palavras não foram ditas por um bolchevique ao lembrar da ousada tomada do Palácio de Inverno, não foi algum membro da ALN ao recordar do levante armado contra a ditadura quem as proferiu. São palavras de Lucia Helena Canhada Lopes, militante de extrema direita atingida por um raio ao participar da caminhada convocada por Nikolas Ferreira que exigia a libertação de Jair Bolsonaro, preso por articular um golpe de Estado contra a precária democracia brasileira. O deputado se apressou em exaltar a coragem de Lucia Helena, cuja frase escancarava “uma verdade que muita gente foge: a vida não vale nada quando é vivida sem sentido. Quem acha exagero é porque já trocou a própria consciência pelo conforto”.1 Apesar de oportunista, do ponto de vista da política que se propõe transformadora, a declaração do deputado não deixa de carregar um núcleo de verdade. 

Ao tomar conhecimento da frase de Lucia Helena restou em mim a sensação de paradoxo. Bolsonaro nunca prometeu o assalto aos céus e zombava sempre de quem falava em mobilizar o Estado para buscar a igualdade social. Sintomaticamente, quando no governo, o mito lembrou a passagem em que Jesus dividiu o pão para repudiá-lo: assim Cristo criou um grupo que só o seguia por dependência, tal como teriam feito Lula e o PT.2 O espírito da nova gestão foi cristalizado na fala do então ministro da economia Paulo Guedes quando em reunião interpelou Damares Alves sobre a possibilidade da liberação de jogos de azar no Brasil: “deixa cada um se foder. […] O presidente não fala em liberdade? Deixa cada um se foder do jeito que quiser”.3  

A promessa era una e inequívoca: retirar toda a mediação do Estado para que a concorrência desabrida, a luta de todos contra todos, definisse o jogo e distribuísse as moedas. Como esta visão desencantada do mundo social abre espaço ao entusiasmo político de se morrer por uma causa justa?  

Embora o termo tenha caído em desuso, o bolsonarista se vê fundamentalmente como cidadão de bem. Categoria genérica e abstrata, a cidadania envolve virtualmente a todos. O corte (de bem) é estritamente moral. Tanto por isso o bolsonarismo pode se apresentar como manifestação do povo, entidade política mais universal. O bolsonarista é criação eminentemente política. Ele não é mediado por um particular. Ninguém está ali, em tese, como policial, evangélico, garimpeiro, operário ou empresário. Ali estão indivíduos submetidos a uma ofensa (o outro lado é imoral) e só por isso se reconhecem como a parte universal da vida pública. Assim o bolsonarismo criou uma máquina de identificação e afecção muito flexível, dinâmica e mesmo solidária. Para participar dela basta assumir-se como parte do ofendido sem precisar se livrar dos anéis que carrega. 

O bolsonarismo, evidentemente, realiza uma operação ideológica. A sociedade de classes não admite a autonomia do indivíduo senão na aparência. Como já o demonstrou Karl Marx4, no capitalismo todos aparecem como indivíduos livres em relações de troca, mas são objetivamente subsumidos à rede de interdependência em que alguns são proprietários e outros, por não dispor senão da força de trabalho, ou se vendem ao preço do dia ou perecem depois de perlustrar com a mão espalmada pelas esquinas. Sob a fantasia do povo sem arestas subsistem as partes interessadas que o compõem – classes e frações de classes. O que denota um feito e tanto: como o bolsonarismo pôde soldar, com o fogo do entusiasmo, o favelado e o rentista bilionário, o precário e o dono da fábrica, o sem terra e o barão da soja? Em tempos comuns, esse tipo de prestidigitação desmoraliza o mágico, não convence. Algo na materialidade brasileira, e do mundo, deve ter mudado para que a comunidade de interesse fascista voltasse a ter capilaridade e poder de encantamento. 

No capitalismo atual a concorrência generalizada penetrou os poros da sociedade, a fragmentação é objetiva.5 Desde que Margaret Thatcher sugeriu à classe dominante do mundo inteiro que não havia alternativa, o neoliberalismo se consolidou amplamente como a melhor alternativa. No processo, a terceira revolução industrial amadurece. Novas forças produtivas se consolidam, expandindo a automação em diversos ramos industriais. As massas que sobram são resgatadas como empreendedores individuais na nova economia de plataforma que emerge das ruínas do fordismo. A viração deixa de ser o signo dos restos do sistema. Ela é subsumida aos seus circuitos high-tech. Passa então a figurar como parte de seu núcleo de acumulação.6 No Brasil, em que a informalidade é estrutural, o terreno já estava posto. A uberização assume a sua face mais predatória. O trabalho formal, por sua vez, tende à mesma deriva após a reforma trabalhista de 2017. A ideologia da extrema direita, portanto, não é mera falsidade, mas a hipostasia de uma das dimensões reais do objeto (o individualismo) que o faz colapsar dentro de si mesmo. A extrema direita recupera e dá estatuto ontológico à luta de todos contra todos. Se não há alternativa, é este o mundo que vamos viver: peguem suas armas, não as deixem cair. Como argumentou Wendy Brown7, ela promete expurgar o social e a política como categorias mediadoras para que a sociedade possa ser regulada pela ordem espontânea do mercado e da moral, onde cada um vai receber a sua parte e ocupar o lugar que lhe cabe de fato.  

O ódio à mediação deriva da correta intuição de que o trabalho não garante a dignidade que deveria. Como o capital, mecanismo impessoal de dominação, permanece obscuro, a extrema direita nomeia e dá materialidade ao desconforto. Se você não recebe a sua justa parte é porque outros indevidamente a tomaram para si: políticos, artistas, funcionários públicos, beneficiários de programas sociais. Não por acaso um dos principais alvos do bolsonarismo é o Bolsa Família. Além de conspurcar o mecanismo do voto, ele evita a fome daqueles que, por não trabalhar, não merecem comer.  

Para alcançar os seus fins, a extrema direita abdica do governo e entra em conflito com o Estado enquanto mediação, mas dentro do Estado mesmo. A sua tarefa, paradoxalmente, é desfazer a política pela política. Os militantes bolsonaristas acreditam que uma vez eliminada a política como mediação do mundo social, necessariamente corrompida, cada um será reconhecido pelo seu mérito e a ordem natural das coisas será reposta.  

O caso paradigmático de desmediação da política continua sendo a gestão da pandemia. Iniciada a calamidade pública, o governo resistiu a conceder um auxílio emergencial à população. Quando sob pressão apresentou uma proposta ofereceu míseros 200 reais por três meses. Foi a oposição no Congresso que à revelia da ortodoxia neoliberal de Guedes elevou o valor para R$ 600,00. Em paralelo, Bolsonaro insistia que a população continuasse trabalhando, independente das mortes que diariamente se acumulavam aos milhares. Com certo regozijo, martelava que a fome era o destino certo daqueles que se recusavam a se expor ao vírus.  

Ao invés de políticas públicas, o presidente instava as famílias a cuidar dos idosos e se automedicar com hidroxicloroquina e ivermectina, remédios comprovadamente ineficazes. Era como se a pandemia fosse um problema individual que cada um devesse resolver em sua luta pela sobrevivência. Se a Organização Mundial da Saúde, Congresso, STF, imprensa ressaltavam a gravidade da doença e estimulavam o isolamento social, era apenas para colapsar seu governo e impedir que a população continuasse ganhando a vida com o suor de seu rosto.  

A desmediação não se restringiu à luta pela sobrevivência. Ela permitiu também a abertura de um novo horizonte político. Basta recordar algumas manifestações organizadas pela extrema direita ainda quando governo. Numa delas, a marcha do foda-se do dia 15 de março de 2020, o Congresso foi alvo de escracho; noutra, no dia do trabalho do mesmo ano, milhares de manifestantes tomaram as ruas para gritar a Bolsonaro que o autorizavam a dar um golpe contra a pretensa usurpação de seu poder na pandemia; já em 2021 houve um grande ato pela aprovação do voto impresso e no 7 de setembro daquele ano Bolsonaro anunciou a uma multidão em transe que não respeitaria mais qualquer determinação do STF.  

Trata-se, portanto, de vida ou morte. Aqui a política não é meramente gestão. Ela se torna arena em que se desenrola um conflito existencial. É essa a chave que explica o sentido de solidariedade presente na extrema direita. Ela projeta uma luta em que está em jogo a totalidade de sentido da sociedade. Se por acaso a morte vier, a causa será justa.  

Por isso, não espanta a resiliência que a extrema direita demonstra na sociedade brasileira. A aposta brutal na desmediação da política em plena pandemia cobrou o seu preço. Bolsonaro foi eleitoralmente derrotado e preso por conspirar contra o Estado de Direito. Mas transferiu todo o custo da gestão política para o outro lado. A esquerda institucional, resignada à administração do presente, ainda promete que há salvação no interior da sociedade atual. Se o desconforto permanece, é fácil culpá-la. Não por acaso, cada escândalo que desponta desaba sobre seus ombros, ainda que tenham começado no governo Bolsonaro e envolvam uma maioria absoluta de políticos de direita. A corrupção é uma forma espúria de mediação, é mais fácil atribuí-la a quem ainda acredita ser possível organizar o mundo social a partir de políticas públicas. Nesse quadro, apenas bons índices macroeconômicos já não garantem nada, nem mesmo sobrevida eleitoral. A grande política regressiva da extrema direita só vai ser obrigada a recuar quando reencantarmos nós mesmos o horizonte político da esquerda.    

***
Thiago Turibio é professor de História do Colégio Pedro II (RJ), doutor em História Social pela UFRJ e autor do livro, ainda no prelo, “Dialética da desconstrução: Álvaro Vieira Pinto e as contradições do Brasil neoliberal”, que sairá pela Annablume. 

Nota editorial
Durante março-abril de 2026, o blog esteve sob responsabilidade de Camila Góes (edição interina).

Notas

  1. Nikolas Ferreira postou a mensagem no X: https://x.com/nikolas_dm/status/2016533028906893675 ↩︎
  2. A fala de Jair Bolsonaro pode ser vista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=J4LvVtpb0ds ↩︎
  3. GUEDES defendeu liberação dos jogos de azar para incrementar turismo no Brasil. O Globo, Rio de Janeiro, 23 maio 2020. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/em-reuniao-ministerial-guedes-defendeu-liberacao-dos-jogos-de-azar-para-incrementar-turismo-no-brasil-24441787. Acesso em: 02 de abril de 2026.  ↩︎
  4. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013. ↩︎
  5. DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016. ↩︎
  6. ABÍLIO, Ludmila Costhek. Uberização do trabalho: subsunção real da viração. Blog da Boitempo, 22 fev. 2017. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2017/02/22/uberizacao-do-trabalho-subsuncao-real-da-viracao/. Acesso em: 9 de abril de 2026. ↩︎
  7. BROWN, Wendy. Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente. São Paulo: Editora Filosófica Politeia, 2019 ↩︎

Arrigo, de Marcelo Ridenti
Arrigo apresenta ao leitor aventuras e desventuras do personagem que dá nome ao livro. Em uma visita corriqueira, o narrador, participante da narrativa, encontra Arrigo inerte em uma cadeira de balanço. Quando decide procurar ajuda, a porta emperra e o impede de sair do apartamento. A partir daí, decide terminar um antigo projeto de contar a história de Arrigo e companheiros enquanto aguarda socorro para tirá-los do esvaziado edifício Esplendor, no centro de São Paulo. Autor de diversas obras de não ficção, Ridenti traz em seu romance de estreia uma mescla de realismo e fantasia e revisita pela ficção cem anos de história da esquerda brasileira.

Um dia esta noite acaba, de Roberto Elisabetsky
Neste romance histórico, Roberto Elisabetsky entrelaça a história de uma família com a história recente de nosso país, por meio de uma estrutura que alterna a ação das personagens no dia do comício com recortes históricos de sua trajetória e a do Brasil, desde o fim da década de 1950 até aquela fatídica noite. Ambas as narrativas convergem para um desfecho surpreendente e emocionante. Uma história sobre o preço pago pela sociedade brasileira na luta por direitos democráticos, em contraponto aos riscos que a democracia enfrenta novamente no atual momento político do país.

Soledad no Recife, de Urariano Mota
O livro Soledad no Recife percorre as veredas dos testemunhos e das confissões ao reviver a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e a traição que culminou em sua tortura e assassinato pela ditadura militar. Delatada pelo próprio companheiro Daniel, conhecido depois como Cabo Anselmo, Soledad morre com um grupo de candidatos a guerrilheiros, na capital pernambucana, pelas mãos da equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury. O episódio ficou conhecido como “O massacre da chácara São Bento” e revelou-se mais um extermínio do que um confronto armado. A trama real inspira o romance em que Urariano Mota – com a propriedade de que viveu e sobreviveu aos anos pós 1964 – resgata os vestígios da traição arquitetada contra Soledad e contra o país naqueles tempos, com o olhar reflexivo de quem volta ao passado. 

Cabo de guerra, de Ivone Benedetti
O arrebatador Cabo de guerra invoca fantasmas do passado militar brasileiro pela perspectiva incômoda de um homem sem convicções transformado em agente infiltrado. No final da década de 1960, um rapaz deixa o aconchego da casa materna na Bahia para tentar a sorte em São Paulo. Em meio à efervescência política da época, que não fazia parte de seus planos, ele flerta com a militância de esquerda, vai parar nos porões da ditadura e muda radicalmente de rumo, selando não apenas seu destino, mas o de muitos de seus ex-companheiros.


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