“O Drama”: o que fazer com as cinzas?

Imagem: divulgação
Por Cauana Mestre
O Drama, nova aposta do diretor Kristoffer Borgli, capricha na ousadia e, goste você ou não, é impossível sair do cinema sem um turbilhão de coisas na cabeça. Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson) estão a semanas de sua festa de casamento, até que uma noite muda tudo. Durante o jantar de degustação, os noivos e um casal de amigos – Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie) – chegam a uma pergunta perigosa: qual foi a pior coisa que você já fez na vida?
Tudo explode na revelação de Emma, que é chocante, para dizer o mínimo. A provocação de Borgli é sempre o triunfo de suas obras, mas aqui não fica tão clara a fronteira entre ousadia e irresponsabilidade, já que o tema é delicado e o filme não pretende aprofundá-lo. Mas há muita coisa a ser discutida a partir dele.A primeira delas é: quanto se pode realmente conhecer alguém? A psicanálise me deu de presente uma garantia – das pouquíssimas que eu tenho: é impossível conhecer tudo sobre o outro, afinal de contas, nem mesmo o eu é senhor em sua própria casa, como ensina Freud.

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Mas daquilo que se conhece, o que é, de fato, o pior de alguém? Como saber se cruzamos uma fronteira? É possível habitar uma parceria amorosa sem colocar nela os nossos piores? Em uma relação saudável – quando todos os envolvidos têm condições psíquicas de elaboração subjetiva –, uma situação grave, como a que o filme apresenta, muda tudo. Isso não significa necessariamente um rompimento, mas uma transformação, algo como a marca de um antes e depois.
Conflito, mágoa, ressentimento, ódio e culpa são sempre matérias comuns e esperadas em experiências limítrofes. Existem coisas das quais não voltamos, pelo menos não os mesmos. Cabe a cada um descobrir quais são as fronteiras inegociáveis, mas esse é um processo que desenhamos ao longo da vida e com bastante trabalho.
O drama toma emprestado um dos temas mais comuns das comédias românticas: a proximidade do casamento como fator de perturbação das relações. Quantas histórias conhecemos de casamentos quase desfeitos às vésperas, de casais que se desorganizam e coisas que dão errado? É profundamente humano desorientar-se diante de decisões importantes, sobretudo aquelas que são mais desejadas. O filme de Borgli, no entanto, espicaça o romantismo, ultrapassa a comédia e ilumina a verdade de que, no campo do amor, tudo que podemos fazer é apostar – com algumas condições, é claro, mas sem muitas garantias.
O filme também explora a hipocrisia, esse traço comum a todos nós. Em relação ao outro somos sempre um tanto hipócritas, na medida em que é mais fácil (e prazeroso) atacar o que é detestável no outro antes de olhar para o que é odiável em nós. O ódio que a amiga Rachel sente por Emma, depois da revelação do seu pecado, rapidamente passa a revelar apenas seu próprio ódio e seu próprio gozo com o extermínio do outro. Se todo ódio inclui um certo fascínio, as pessoas e as situações que odiamos nunca são desprezíveis para o nosso psiquismo. Julgar e condenar são formas neuróticas, mas até bem eficientes, de seguirmos a vida sem sabermos nada sobre o que é condenável em nós. A confissão de Rachel perde gravidade no segundo em que se torna possível investir contra Emma, afinal, nada como aliviar-se na sombra do pecado alheio.

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Em relação ao ato de cada uma, cabe perguntar: pensamento e ação têm o mesmo peso?; ainda que a fantasia guarde uma verdade sobre o sujeito, fantasiar e fazer são a mesma coisa?; como se mede a maldade do pensar, se temos leis apenas para o ato?; deixar de fazer algo ruim por motivos narcísicos elimina a maldade?
O filme de Borgli me fez voltar a Freud e relembrar que a distância entre fantasiar e fazer é dada pelo pacto civilizatório. Fantasiar a morte do vizinho não é o mesmo que matá-lo. A fantasia me torna responsável a respeito do meu próprio gozo, mas não me transforma em assassina.
O final do filme me pareceu bem-feito, mostrando a efemeridade do fogo cruzado constante da internet. Muito alvoroço e pouquíssimo efeito. O drama é um dos traços mais importantes da nossa humanidade, mas quando não o levamos à sério, quando ele não tem a chance de se tornar uma tragédia – no sentido literário e psicanalítico do termo – perde todo seu valor e ficamos apenas com o fogo de palha, sem saber o que fazer com as cinzas.
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Cauana Mestre é psicanalista e mestre em Literatura pela UFPR. Junto a Licene Garcia, apresenta o podcast Sobre um dizer.
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