Você troca um sindicato pelo seu bullet journal?

Não é um acaso que os métodos de produtividade e recursos como bullet jornal, planners e pomodoro se tornem cada vez mais populares. Com condições precárias de trabalho, são exigidas dos trabalhadores mais tarefas do que é humanamente possível cumprir. Dessa forma, o tempo de trabalho precisa ser não apenas estendido, mas também otimizado.

TUNED IN, DE DAVID PLUNKERT

Por Marília Moschkovich

Você precisa de um “bullet journal”? Sua vida vira um caos sem um “planner“? É janeiro e se você, como eu, não tem emprego formal, provavelmente já desenvolveu algum esquema próprio de organização de tarefas e trabalho, que envolve aplicativos de produtividade, técnicas pomodoro e recursos como o “BuJo” ou “planners” (que nada mais são do que agendas semanais, convenhamos). O que essas ferramentas dizem sobre a maneira como trabalhamos – ou, melhor, como somos obrigados a trabalhar?

O método Bullet Journal [em tradução, “diário de listas” ou “diário em tópicos”] foi criado no final da década de 1990 para uso pessoal de seu criador, Ryder Carroll, nos Estados Unidos. O método só ganhou popularidade, porém, depois da crise de 2008 – mais precisamente, no início da década de 2010, quando os mercados e economias do centro do imperialismo começaram a se recuperar da crise, enquanto quebravam as economias e mercados das periferias (como a nossa), no típico balé das crises cíclicas do capital. Não parece ser coincidência que a década de 1990 seja um marco importante na aceleração da desigualdade de renda e da precarização do trabalho nos EUA. Mas essa história começa bem antes, e está ligada à coreografia das crises e da exploração do trabalho no modo de produção capitalista.

No processo de recuperação da crise de 1929 nos Estados Unidos, se instaurou uma crise social ligada a trabalho e emprego. A miséria aumentou, os empregos desapareceram e, nesse processo, os sindicatos e reivindicações trabalhistas ganharam força. Ao tomar posse como presidente em 1933, Roosevelt iniciou uma série de ações do governo federal procurando intervir sobre a crise. Uma de suas primeiras medidas foi o National Industrial Recovery Act, que estabelecia diversas medidas novas relativas à regulação do trabalho e do funcionamento das empresas no país. Entre elas, estava a garantia do direito de associação em sindicatos e a proibição dos chamados “yellow-dog contracts”, que eram contratos de trabalho com uma cláusula em que o trabalhador se comprometia a não se sindicalizar. Houve uma onda de sindicalizações e greves denunciando práticas abusivas dos empregadores logo na sequência, e após alguns meses de mandato o presidente instituiu o National Labor Board [Conselho Nacional do Trabalho] como organismo de monitoramento e encaminhamento de denúncias trabalhistas.

Inicialmente esse órgão tinha um presidente próprio (sempre um membro do legislativo, tendo sido o primeiro o senador pelo Partido Democrata Robert Wagner) e mais três representantes de sindicatos (na primeira formação, o presidente de uma federação nacional de sindicatos, mais os respectivos presidentes dos sindicatos dos mineiros e da indústria têxtil) e três de grandes empresas (General Electric, uma grande rede de lojas de departamento e uma petroleira). O conselho durou pouco, e em 1935 se tornou National Labor Relations Board [Conselho Nacional das Relações de Trabalho] com menos membros e com o status de agência governamental. Quando a Lei Wagner foi aprovada em 1935, estabelecendo regulamentação do trabalho para todas as categorias laborais, o conselho se tornou sua agência implementadora e reguladora.

A década de 1980, que se seguiu a um outro momento de crise, assistiu ao desmonte dessa estrutura. Nesse período, uma série de mudanças foram impostas pelo então presidente Reagan, do Partido Republicano, inclusive a substituição dos membros do conselho, tradicionalmente ligados ao Direito do Trabalho, por empresários. A nova formação do conselho suprimiu direitos trabalhistas, retirando principalmente o direito à sindicalização de professores universitários, entre outras mudanças (como a criminalização da contratação de imigrantes sem documentação regular no país). No início da década de 1990 foi regulamentada a licença médica e licença maternidade sem remuneração. Em 1996, com a desculpa sempre esfarrapada de “salvar as pequenas empresas”, o salário mínimo foi reduzido drasticamente, e passou a ser permitido que o empregador utilizasse as gorjetas de funcionários para pagar seus salários.

O aumento da desigualdade de renda e a ausência de proteções legais ao trabalhador poderiam se tornar um novo caldeirão de greves e reivindicações da população explorada, se não houvessem garantido o desmonte e fragilização de boa parte dos sindicatos, junto a uma segunda estratégia patronal – e é aqui que chegamos mais perto do Bullet Journal, dos planners e dos pomodoros nossos de cada dia: a criação de uma nova ideologia do trabalho, interna às empresas, que tem como parte fundamental a criação de estruturas que pareçam flexíveis o suficiente para acomodar necessidades do trabalhador, agora tratadas como necessidades individuais, e não mais coletivas. Vejam: num primeiro momento, diante da intervenção federal em disputas trabalhistas, mediada pelo conselho, a solução dos empresários estadunidenses foi criar sindicatos internos das empresas, controlados por seus representantes – os chamados “yellow unions” [sindicatos amarelos]. Essa tentativa não durou muito, já que em 1935 a Lei Wagner também proibiu esse tipo de prática. Foi então que apareceu a ideologia do “Envolvimento dos Funcionários” ou “Employee Involvement” (EI) e os chamados “Employee Involvement Programs”. A ideia era criar estruturas internas (como ouvidorias) em que os funcionários pudessem sentir que têm acesso a decisões da empresa e as influenciam. Assim, segundo os manuais de administração, cria-se um ambiente de lealdade à empresa, e a ideia de que o sindicato ficou inútil, parado no tempo, e não ajuda muito nas relações de trabalho contemporâneas. Soa familiar?

No processo de desregulação e precarização do trabalho, tão bem discutido por Ricardo Antunes em sua obra, e tão bem descrito no ensaio “O novo closet do proletariado” presente na tese doutoral de Leonardo Guimarães (FEA/USP), há uma exacerbação do indivíduo. A ideologia neoliberal pega fogo e se alastra na década de 1990 justamente com esse tom, e convence os trabalhadores de que eles são indivíduos fazendo a própria sorte. Hoje vivemos o ponto extremo desse tipo de exploração, com o trabalho por plataforma – em que empresas como Uber, iFood são as mais conhecidas, mas que também opera para professores, trabalhadores do cuidado, faxineiras e em praticamente todas as profissões e formas laborais. Se a metáfora do “líquido” de Bauman virou quase uma piada quando saiu de moda, ela parece fazer algum sentido aqui enquanto fantasia: as relações são ditas flexíveis, líquidas, sem amarras, apenas como estratégia para que se reafirme da forma mais rígida o possível a manutenção das estruturas produtivas. Afinal, aqueles que têm poder para definir como o meu, seu, nosso trabalho deve ser realizado e que condições precisamos suportar para garantir (ou tentar) subsistência, seguem sendo os mesmos.

Não é um acaso que os métodos de produtividade e recursos como bullet jornal, planners e pomodoro se tornem cada vez mais populares. Com condições precárias de trabalho, são exigidas dos trabalhadores mais tarefas do que é humanamente possível cumprir. Dessa forma, o tempo de trabalho precisa ser não apenas estendido, mas também otimizado. O uso capitalista das tecnologias – que a ingenuidade dos marxistas europeus na década de 1970 permitiu sonhar que fossem diminuir a carga laboral – é taticamente desenhado para que essa produtividade extrema seja possível, em detrimento da vida. Se uma ou várias funções humanas são substituídas por execução de máquinas, ou um processo é flexibilizado ou facilitado com novas tecnologias (como é o caso do Pix ou da integração das tecnologias de reuniões online e EaD ao cotidiano, ocorrida durante a pandemia da covid-19), não apenas há trabalhadores demitidos, como em geral aqueles que se mantém empregados passam a acumular mais e mais funções e tarefas. Com a desvalorização do trabalho humano típica desses processos, em economias desiguais como a brasileira, a renda que o trabalho proporciona também passa a não ser suficiente para a manutenção da vida cotidiana, obrigando boa parte da população a dividir seu pouco tempo em diversos projetos profissionais, carreiras e empregos. É o trabalhador múltiplo, requerimento básico da economia de 2022.

O surpreendente é como o mecanismo ideológico, junto à construção da subjetividade por meio de uma moral do trabalho, fazem com que não apenas o processo de precarização seja acatado, mas também celebrado e desfrutado genuinamente. A estética descolada dos bullet journals e a escolha de um planner totalmente personalizado são formas de expressão de si num mundo de bens e consumo. Em 1979 (novamente, contexto pós-crise), a antropóloga Mary Douglas escreveu O mundo dos bens (em 1979!), analisando a maneira como se constrói uma “alma” das mercadorias e como o consumo dá sentido subjetivo ao trabalho (tornando-o suportável, desejável, sinônimo de vida e realização pessoal). Nesse contexto, é interessante observar como planners e BuJos são itens de consumo que se encaixam perfeitamente nesse ciclo: servem diretamente à economia do trabalho em pelo menos três frentes: a aquisição da mercadoria em si e sua cadeia de mercadorias associadas (caderno, canetas, o planner em si, gráfica, serviços de logística e entrega, comércio etc.), o aumento da produtividade e capacidade de trabalho de cada trabalhador que se organizar direitinho (sic); e a inserção subjetiva desse trabalhador num ciclo em que usa o seu próprio salário/renda para investir no que vai beneficiar quem o contrata (com a produtividade, a compra desses insumos etc.). Como bônus há ainda todo um mercado simbólico do universo dos BuJos e planners que se forma, com ainda mais mercadorias e serviços relacionados. Dessa forma, nos mantemos trabalhando e trabalhando para o trabalho, massacrados na precarização glamourizada. Mas tudo bem, porque daqui a alguns minutos me permito uma pausa de 5 minutinhos pra me distrair, no pomodoro.

***

Marília Moschkovich é socióloga-antropóloga e pesquisadora do departamento de antropologia da FFLCH/USP. Mestra (2013) e doutora (2018) em Educação (na linha de pesquisa Educação e Ciências Sociais) pela Unicamp, também trabalhou no Museu de Antropologia da Universidad Nacional de Córdoba (UNC), na Argentina, e na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris. Autora do posfácio à nova edição de A origem da família, da propriedade privada e do Estado (Boitempo, 2019) e coautora de Curso livre Engels: vida e obra (Boitempo, 2021) ao lado de Alysson Leandro Mascaro, José Paulo Netto, Ricardo Antunes e Virgínia Fontes. Foi research fellow de grupo de pesquisa temática no Maria Sybilla Merian Center – MECILA em 2021 e German Chancelor fellow da Fundação Alexander von Humboldt em parceria com o festival de cinema Berlin Feminist Film Week entre 2018 e 2020, dedicando-se a pesquisa sobre não-monogamia, gênero e violência doméstica. Criadora e hostess do podcast Libre (2019-2020) e do Psicanálise de Conjuntura (2020), também é poeta (Gaveta, Urutau: 2017). Escreve e faz comentário político online desde 2010 (Blogueiras Feministas, Biscate Social Clube, Outras Palavras). No YouTube, Instagram, Twitter, Medium e outras redes sociais é @MariliaMoscou.

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