A crise do coronavírus mostra que chegou a hora de abolir a família

O que a pandemia em curso nos revela a respeito da família nuclear e do domicílio privado?

Por Sophie Lewis.

Publicado originalmente no Open Democraacy. A tradução é de Artur Renzo e Marília Moschkovich para o Blog da Boitempo.

No momento em que eu escrevo, a humanidade mergulhou com tudo nos tempos do corona.

Na esperança de “achatar a curva” da pandemia, enormes parcelas da sociedade passaram a adotar práticas de retardamento de contágio (sejam elas obrigatórias, voluntárias ou semi-voluntárias, a depender das leis locais) conhecidas como “distanciamento social” e “confinamento domiciliar”*.

As plataformas de mídia estão repletas de crônicas a respeito dessas práticas, muitas delas compreensivelmente carregadas de ansiedade, abalo pós-traumático e desespero, em função da perda de fontes de renda ou do medo em relação às condições saúde de entes queridos. No entanto, muitas delas, pelo contrário, são bem-humoradas, cheias de tesão e da alegria de estar liberado do trabalho, e atravessadas pela criatividade cômica de estar inesperadamente confinado em casa (os gêneros aqui incluem: jogar de jogo da velha com seu peixe de estimação; brincar de DJ com as bocas do fogão; e se pendurar na cortina do box do chuveiro simulando uma viagem de metrô).

Certamente têm circulado sentimentos ecofascistas e apelos para que haja um controle estatal autoritário sobre a situação, mas também temos visto a proliferação de práticas de ajuda mútua: mutirões para fazer o mercado e garantir mantimentos de desinfecção para os imunocomprometidos; cuidado infantil e kits de injeção seguros para trabalhadores sexuais e usuários de drogas; renúncias de despesas de coparticipação para serviços de saúde; moratórias de despejo; greves de aluguel; e esforços para garantir abrigo quem não tem onde morar. Estes últimos, em particular, expõem o ponto crucial não-dito e em larga medida não questionado da resposta que nos foi prescrita à pandemia: lares privados.

Parece que é para os domicílios nucleares que intuitivamente se espera que todos nós nos retiremos a fim de evitar problemas generalizados de saúde. Tudo se passa como se fosse auto evidente que “ficar em casa” é o que de alguma forma deve nos manter bem. Mas, como qualquer pessoa mais inclinada a pensar criticamente a respeito dessa proposição (mesmo que por um momento) logo deve perceber que ela possui diversos problemas – problemas estes que talvez possamos resumir como mistificar a forma-casal; romantizar o parentesco; e apresentar uma versão higienizada e idealizada do espaço fundamentalmente inseguro que é o da propriedade privada.

Como pode um espaço definido pelas assimetrias de poder do trabalho doméstico (sendo o trabalho reprodutivo tão generificado), pelo endividamento de aluguel e de financiamento, pela propriedade imobiliária e fundiária, pela parentalidade patriarcal e (frequentemente) pela instituição do casamento, beneficiar a saúde? É nesses lares padrão que, afinal, todos secretamente sabem que ocorre a maior parte da violência cotidiana: a OMS refere-se à violência doméstica como “o abuso mais amplamente disseminado de direitos humanos, embora esteja entre os menos reportados.”

Pessoas queer e feminizadas, especialmente as muito idosas e muito jovens, definitivamente não estão seguras nesse espaço: seu florescimento no lar capitalista é a exceção, não a regra. Segue-se que, sob uma inspeção mais detida, ambos os termos – “distanciamento social” e “confinamento domiciliar” – se mostram notáveis tanto pelo que não dizem (isto é, pelo que pressupõem e naturalizam) do que pelo que dizem. Abrigo em qual lugar… e pertencente a quem? Distanciamento em relação a quem… ou, melhor, em relação a todo mundo exceto quem?

Mas o primeiro e mais contundente problema com a diretiva de se ficar em casa é simplesmente este: nem todo mundo tem acesso a um espaço privado de moradia. Como colocou o movimento Moms 4 Housing [Mães pela Moradia], de Oakland, “como é que se #FicaEmCasa quando não se tem uma casa?” Ao que tudo indica, há ao menos duas formas diferentes para tanto: compartilhamento e ocupação. Fazendo um questionamento ético das diretivas do Estado, vizinhos relativamente imunes em muitas cidades têm aberto voluntariamente suas casas aos expostos e aos doentes, ponderando que o dever da solidariedade de vizinhança para com os sem-teto é mais premente do que o imperativo de se evitar o contágio.

Enquanto isso, ao ocupar propriedades vazias sem permissão (“auto-quarentena em curso”, lê-se em uma placa posta na janela por uma das mães), o movimento Moms 4 Housing está liderando o caminho no combate à gentrificação na Califórinia e colocando em prática a compreensão de que a moradia confortável é um direito humano básico de nascença.

Infelizmente, ainda há muitas outras populações além dos sem-teto cuja resposta à pandemia não tem como ser “ficar em casa” mesmo se eles assim o quisessem: por exemplo, pessoas jogadas em prisões, centros de detenção, campos de refugiados ou dormitórios fabris, pessoas presas em lares de repouso superlotados, ou aqueles mantidos contra sua vontade em instituições médicas e/ou psiquiátricas. Se a Covid-19 é incompatível com tais instituições, no sentido de que a resposta humanizada à pandemia é impossível em espaços não-democráticos como esses, então terá se demonstrado, ato contínuo, que elas são incompatíveis com a dignidade humana.

Em Los Angeles, agentes do estado estão fornecendo trailers individuais e cabines portáteis de isolamento para os sem-teto. Mas uma resposta muito mais lógica poderia ser: que se abra todos os hotéis e palácios privados com base no imperativo de se disponibilizar moradia (não mercantilizada) arejada, sanitária e bem-iluminada para todos; que se liberte todos os prisioneiros e detentos agora, que se refaça as instalações de cuidado como aldeias autogestionadas espaçosas e que se dispense todos os trabalhadores com remuneração plena para que eles possam deixar permanentemente seus beliches, irem morar junto com seus amigos e se dedicar à preguiça ao menos pela próxima década.

Em segundo lugar, uma enorme parcela das pessoas que efetivamente dispõem de lares privados não está segura nesses espaços; e não poder se deslocar agrava ainda mais o perigo. Uma quarentena é, efetivamente, um sonho para um abusador. Afinal, trata-se de uma situação que confere um poder quase infinito àqueles que se encontram em uma posição de poder no interior do lar. Não é à toa que, logo nas primeiras etapas da epidemia na China, ONGs de direitos das mulheres disponibilizaram manuais para se sobreviver a abusos domésticos específicos à situação do coronavírus. Diz-se que estações policiais em todo o país registraram uma triplicação nas denúncias de casos de abuso doméstico; no dia 21 de março de 2020, o The Guardian trouxe o seguinte relato feito pela fundadora de uma organização sem fins lucrativos de mulheres chinesas: “De acordo com as nossas estatísticas, 90% das causas de violência estão relacionadas à epidemia da Covid-19.”

E à medida que o vírus se dissemina pelos Estados Unidos, convém atentarmos bastante a isso. A diretora executiva do disque-denúncia nacional de violência doméstica nos Estados Unidos já fez a seguinte observação: “Os agressores estão ameaçando jogar suas vítimas na rua para que elas adoeçam… Ouvimos que alguns estavam retendo recursos financeiros ou assistência médica.”

Em suma, a pandemia não é hora de esquecermos da pauta da abolição da família. Nas palavras da teórica feminista e mãe Madeline Lane-McKinley:

“Os lares são as panelas de pressão do capitalismo. Esta crise testemunhará um enorme aumento de trabalho doméstico – limpeza, cozinha, cuidado – mas também abuso infantil, molestamento, estupro por parte de parceiro íntimo, tortura psicológica, e mais.”

Longe de ser um tempo de assentir à ideologia dos “valores familiares”, portanto, a pandemia é um momento particularmente importante para guarnecer, evacuar e empoderar de maneira geral os sobreviventes – e refugiados – do lar familiar nuclear.

E, terceiro, mesmo quando o domicílio nuclear privado não representa ameaça física ou mental direta a nenhuma pessoa – mesmo quando não há agressão conjugal, estupro infantil e espancamentos LGBT-fóbicos – a família privada enquanto modo de reprodução social ainda é, francamente, uma merda. Ela nos generifica, nacionaliza e racializa. Ela nos submete a uma normatização voltada para o trabalho produtivo. Ela nos faz acreditar que somos “indivíduos”. Ela minimiza os custos para o capital enquanto maximiza o trabalho de reprodução social dos seres humanos (ao longo de bilhões de caixinhas, cada uma delas equipadas – absurdamente – com sua própria cozinha, micro-creche e lavanderia). Ela nos chantageia a ponto de confundir as únicas fontes de amor e cuidado que temos com o horizonte total do que é possível.

Merecemos mais do que a família. E estes tempos de corona são um momento excelente colocar em prática sua abolição. Nas sempre lúcidas palavras de Anne Boyer: “Precisamos aprender a fazer o bem para o bem dos desconhecidos agora. Precisamos agora viver como evidência cotidiana de que acreditamos que há valor nas vidas do paciente de câncer, do idoso, do deficiente, e das pessoas que enfrentam condições impensáveis de vida, superlotados e em situação de risco.”

Ainda não sabemos se seremos capaz de arrancar alguma coisa melhor do que o capitalismo da desgraceira desta peste e da depressão econômica que nos aguarda. Eu só afirmaria com alguma certeza que, em 2020, a dialética das famílias contra a família, dos verdadeiros lares contra o lar, vai se intensificar.

***

* Pouco usado no Brasil o termo shelter-in-place designa a orientação emergencial de se manter abrigado no interior do local que já se ocupa, em vez de fazer uma evacuação ou dirigir-se a um abrigo comunitário, por exemplo. (Nota da Tradução)

***

Três leituras para aprofundar a reflexão…

A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Friedrich Engels, com prefácio de Alysson Leandro Mascaro e posfácio de Marília Moschkovich.

Margem Esquerda n. 33: marxismo e sexualidade, com textos de Judith Butler, Angela Davis, Amanda Palha, Renan Quinalha, Rafael Toitio, Isadora Lins França, Clara Zetkin, Mario Mieli entre outros.

A revolução das mulheres: emancipação feminina na Rússia soviética, de Graziela Schneider Urso (org.), com textos inéditos de Aleksandra Kollontai, Inessa Armand e Nadiéjda Krúpskaia, entre outras.

O Blog da Boitempo apresenta um dossiê urgente com reflexões feitas por alguns dos principais pensadores críticos contemporâneos, nacionais e internacionais, sobre as dimensões sociais, econômicas, filosóficas, culturais, ecológicas e políticas da atual pandemia do coronavírus. Confira aqui a página com atualizações diárias com análises, artigos, reflexões e vídeos sobre o tema.

***

Sophie Lewis é autora de Full Surrogacy Now: Feminism Against The Family (Verso, 2019). Feminista comprometida com uma ecologia ciborgue e um comunismo queer, ela atualmente trabalha como escritora e tradutora na Filadélfia (EUA). Por conta da crise do coronavírus, ela perdeu três meses de renda em palestras e atividades públicas. Para apoiá-la, clique aqui.

3 comentários em A crise do coronavírus mostra que chegou a hora de abolir a família

  1. Francisco Cezar de Luca Pucci // 30/03/2020 às 6:23 pm // Responder

    Eu devo caminhar na contra-mão dos discursos de esquerda, pois ainda fico intrigado com esses jargões e modelos de pensamento do século XIX. “Certamente têm circulado sentimentos ecofascistas e apelos para que haja um controle estatal autoritário sobre a situação”: exatamente isso ocorreu na China como única forma de controle do vírus em sociedades de massa, pois qualquer sociólogo ou psicossociólogo sabe que “apelos emocionais” simplesmente não funcionam nesses momentos. “Pessoas queer e feminizadas, especialmente as muito idosas e muito jovens, definitivamente não estão seguras nesse espaço: seu florescimento no lar capitalista é a exceção, não a regra”: ora, nem no lar comunista. Sabemos que em Cuba, só para citar um exemplo, a perseguição aos homossexuais foi até muito recentemente um fato lamentável, promovido pelo Estado Revolucionário. Comunista!

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  2. E quanto ao casais homossexuais cujos índices de violência doméstica são ainda maiores que os casais normais? E quanto ao fato de que núcleos de convivência privada não familiar, como quartéis, internatos, albergues, orfanatos, repúblicas etc, em nada são menos violentos que lares familiares?

    Qual a “solução” então? Que todos os seres humanos morem, e no caso atual se isolem, sozinhos, em flagrante oposição à natureza social, gregária e afetiva humana?

    Ora, não há solução porque na verdade sequer há o problema em questão. A família tradicional tem problemas, como absolutamente tudo na realidade, em especial o fato de atualmente ser cada vez mais nuclearizada. Mas ela em si não é o problema justo por ser o fundamento de qualquer organização social minimamente desenvolvida. Ou a autora vai apelar aos micro exemplos de modelos familiares alternativos em tribos isoladas ou excentricidades sociológicas?

    O répudio à família não passa de repúdio, sobretudo, a reprodução, e por conseguinte, à humanidade. E é da natureza de qualquer noção assim ser incapaz de apontar caminhos que não levem à evidente auto destruição.

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  3. Mariniel Galvão // 11/04/2020 às 8:44 am // Responder

    O “fim da família” é uma ideia que já nasce morta, pelo menos com a dinâmica de reprodução que observamos hoje. Tal proposta não é uma solução para o futuro por uma questão simplesmente mecânica: mulheres casadas têm muito mais filhos do que as solteiras. Por simples seleção cultural (sexual?) as mulheres mais inclinadas a formarem famílias serão as que deixarão mais descendentes.

    Talvez a revolução feminista consiga trazer famílias mais suaves, quem sabe? Mas extinguí-las me parece impossível do ponto de vista biológico, dada nossa cultura reprodutiva atual.

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