Poliamor: desvio liberal ou resistência à família burguesa?

Construir condições para o poder popular e uma revolução socialista passa, necessariamente, por operar uma crítica estrutural ao universo simbólico que regula tudo o que nos parece mais íntimo, individual e instintivo (como o sexo) – e, como bons marxistas, não apenas pensar mas efetivamente atuar de uma maneira nova e crítica em nossas próprias relações.

Fotomontagem de Aleksandr Rodchenko, com imagens de Lilia Brik, extraída do livro Pro eto, de Vladímir Maiakovski (1923).

“Vocês que vão de orgia em orgia, vocês
Que têm mornos bidês e W.C.s,
Não se envergonham ao ler os noticiários
Sobre a Cruz de São Jorge nos diários?

Sabem, vocês, inúteis, diletantes
Que só pensam encher a pança e o cofre,
Que talvez uma bomba neste instante
Arranque as pernas ao Tenente Pietrov?…

E se ele, conduzido ao matadouro,
Pudesse vislumbrar, banhado em sangue,
Como vocês, lábios untados de gordura,
Lúbricos trauteiam Sievierânin!

Vocês, gozadores de fêmeas e de pratos,
Dar a vida por suas bacanais?
Mil vezes antes no bar às putas
Ficar servindo suco de ananás.”

Vladimir Maiakovski,
traduzido por Haroldo, Augusto e Boris
em Poemas (ed. Perspectiva)

Por Marília Moschkovich.

Qual é o limite – se há – entre a promiscuidade burguesa e a sexualidade libertária contra-hegemônica que reivindica o amor-camarada, como disse Kollontai, e seus derivados mais recentes, como (será?) o poliamor, as relações livres etc.? Como encaixar as práticas sexuais e afetivas ou, ainda, o amor (o que quer que seja isso) no debate político anticapitalista com uma perspectiva revolucionária? Que sínteses são possíveis a partir desses universos de debate e estudo? Qual a relação entre o que fazemos na cama e o que defendemos nos megafones, nas ruas, nos projetos políticos? Afinal, isso importa?

Essas questões bastante perturbadoras aparecem como um quebra-cabeça diante do poema de Maiakovski. Ora, o poeta viveu enroscado com Lilia Brik (quando não com sua irmã Elsa Triolet) que, por sua vez, era casada com Osip Brik, não apenas próximo, mas parceiro intelectual e editor de Maiakovski. Não é segredo que a visão do poeta, e de ambos Lilia e Osip Brik sobre amor, sexo e casamento estava longe de ser conservadora (e a entrevista feita por Boris Schneiderman com Lilia, publicada ao final do livro Poemas de Maiakovski, é uma das muitas evidências disso). Qual seria então o sentido da crítica às orgias no poema? Por que a orgia e a liberdade sexual parecem ser retratadas como uma forma de alienação ou decadência moral e política da burguesia? (E, neste ponto, se você pulou a leitura do poema, role a página para cima de novo e leia com atenção; mais ainda, para não perder a beleza e a força de Maiakovski e especialmente, a beleza e a força da tradução do querido Augusto de Campos, de seu irmão Haroldo e de Boris, sugiro que leia em voz alta).

É verdade que o debate e a crítica sobre papéis de gênero, casamento, sexualidade, família, e temas correlatos sempre acompanhou a esquerda, em especial socialistas e comunistas. Os próprios trabalhos de Marx e Engels, já no século XIX, não deixaram de propor reflexões sobre tais aspectos da vida social, embora com os consideráveis limites da época (algo que procurei explicar um pouco no posfácio à nova edição de A origem da família, da propriedade privada e do Estado, publicada pela Boitempo no início deste ano). É verdade também, por outro lado, que esses jamais foram pontos pacíficos nesse debate: ao mesmo tempo em que socialistas e comunistas como Rosa Luxemburgo, Clara Zetkin e Alexandra Kollontai apresentaram visões bastante críticas sobre esse universo, o próprio Lênin e outros camaradas com certa frequência relegavam esses assuntos a um lugar secundário na luta de classes. Essa tensão se repetiu ao longo de todo o século XX, sendo frequente a denúncia de feministas marxistas em relação às dificuldades dos embates internos em suas organizações, em todo o mundo.

No que diz respeito mais especificamente à sexualidade, após o final da Guerra Fria o assunto ficou um tanto marginalizado entre marxistas, ao passo em que foi fortemente reivindicado e financiado em outros espaços de produção intelectual. É recente o reencontro dos estudos marxistas com o tema, ao menos no Brasil. Mais especificamente, dentro disso, o debate sobre formas de relacionamento afetivo-sexual, embora tenha historicamente perpassado a política crítica ao capitalismo, também foi tomado e empurrado para abordagens mais liberais. Parece ser especialmente fácil relegar o sexo e os relacionamentos a uma lógica individualista e burguesa, já que no senso-comum tratamos essas práticas como individuais, singulares, privadas. Enquanto socialistas, comunistas, marxistas, porém, nos cabe a tarefa de duvidar desse senso-comum. O sexo – e os relacionamentos como forma de regular socialmente as práticas sexuais – é, afinal, o que produz corpos, o material necessário à existência da força de trabalho, a mais básica mercadoria do sistema capitalista. Não à toa o capitalismo regula os corpos de tantas maneiras, que vão do genocídio negro e indígena à ausência de direitos para trabalhadoras sexuais, passando por violência obstétrica, políticas sobre aborto, transfobia e outras muitas coisas mais (e a edição da revista Margem Esquerda que está prestes a sair conta com um artigo precioso em que Amanda Palha explica e se aprofunda nesse assunto para discutir o transfeminismo por um ponto de vista marxista ou, melhor dizendo, o marxismo por um ponto de vista transfeminista).

Uma das formas de controle da produção e reprodução de corpos é, sem dúvida alguma, o que podemos chamar de estrutura monogâmica ou Monogamia, com M maiúsculo. No senso-comum utiliza-se o termo “monogamia” para descrever a prática de se relacionar afetiva/sexualmente com uma pessoa de cada vez, apenas. Esse entendimento é bastante problemático e causa ruídos importantes de comunicação – daí a estratégia de usar o M maiúsculo para que não sejam confundidas as coisas. A Monogamia, como estrutura, não está ligada à quantidade de pessoas com quem cada um está de fato ou não transando ou se relacionando, mas sim às normas que regulam esses afetos e, mais do que os afetos, a sexualidade. Dito de forma um tanto simplificada, porém não menos rigorosa, a Monogamia é o conjunto de normas sociais e práticas que regulam e determinam como podemos ou não transar e ter relações afetivas, a partir da premissa de cláusulas de exclusividade sexual/afetiva. Monogamia não diz sobre quantos parceiros sexuais cada pessoa mantém, mas sobre o tipo de exclusividade afetiva/sexual esperada e imposta nas relações. Uma pessoa em uma relação monogâmica, por exemplo, pode ter vários parceiros sexuais na prática (daí a figura da traição, que só é possível dentro da Monogamia), enquanto uma pessoa que vive relações não-monogâmicas sem exclusividade afetiva/sexual pode estar transando apenas com uma pessoa ou mesmo com nenhuma (por falta de vontade, falta de tempo, incompatibilidade sexual, e por aí vamos).

É proveitoso analisar esse quadro tendo a questão da exclusividade sexual enquanto norma. Essa abordagem nos permite entender, por exemplo, de que maneira, no capitalismo, a Monogamia opera (e arrisco aqui apresentar de maneira ainda superficial uma das minhas teses sobre a Monogamia, que será melhor desenvolvida e apresentada em futuras colunas, podcast, livro: a de que ela é a forma particular do sistema de parentesco no modo de produção capitalista). A norma da exclusividade sexual/afetiva sustenta a instituição Família nesse sistema, junto à ideia de que o Casal, enquanto instituição simbólica, deve prevalecer sobre todas as demais relações de afeto e/ou parceria sexual dos envolvidos (ou seja, uma hierarquia de relacionamentos que privilegia aquela relação em que há exclusividade afetiva/sexual em detrimento das demais, inclusive relações familiares previamente existentes). Não é incomum que pessoas que consideram suas relações monogâmicas saudáveis e são efetivamente felizes com elas vivam situações em que o Casal se protege de maneira quase corporativa – é dito comumente que não se deve discutir os problemas da relação fora da relação, por exemplo (e quando não é dito, é esperado que assim seja, visto o tamanho das frustrações e dramas e sentimento de exposição quando essa expectativa é rompida, na maioria dos casos).

Indo além da questão evidente de controle da propriedade privada e da herança, também base do sistema capitalista e da reprodução das classes, essa dupla norma de exclusividade e hierarquia é parte igualmente importante do que permite darmos, hoje, no senso-comum, caráter de unidade à Família. Essa forma de operar também faz com que se mantenha, em última instância, a primazia do Indivíduo sobre o coletivo, a separação entre público e privado e outras criações simbólicas fundantes da ideologia burguesa e do modo de produção capitalista. A Família, como instituição, aliena o trabalhador da afetividade coletiva enquanto classe, ao contrapor “nós” (da mesma família) e “eles” (da mesma classe, mas de outras famílias), acirrando inclusive formas competitivas disso entre a burguesia que são ideologicamente exportadas e impostas também à classe trabalhadora. O mesmo conjunto de ideias, normas e práticas sociais também está na base da não-remuneração do trabalho doméstico, e da não-coletivização do trabalho de cuidados – dois fenômenos que, aliados ao Gênero como sistema, produzem efeitos como a tripla jornada de trabalho das mulheres.

Volto a Maiakovski e vejo que está aí a diferença entre a orgia burguesa e o exercício da liberdade sexual revolucionária ou, ainda, o amor-camarada de Kollontai. O exercício de uma sexualidade polisexual ou de uma poliafetividade não implicam necessariamente nem numa ruptura com esse sistema, nem em seu reforço. Um praticante de grandes orgias pode performar uma sexualidade limitante, opressora, violenta em termos do gênero, e estar perfeitamente dentro do quadro esperado e aceito da Monogamia. Quando os praticantes de poliamor mantêm, também, as mesmas estruturas da Monogamia, da Família e do Casal, inclusive com cláusulas de exclusividade sexual/afetiva em suas relações, apenas multiplicando-as em número (o famoso “trisal fechado”), é limitado o quanto se pode avançar em termos de contra-hegemonia dos afetos e da sexualidade, se é que se avança algo. Na perspectiva das Relações Livres (RLi) e/ou Anarquia Relacional (há um longo debate sobre ambos os termos e a quais conceitos correspondem no qual não entrarei agora), por isso, é impossível pensar não-monogamia, ou seja, a negação da Monogamia, sem pensar uma ruptura com a estrutura de classes e o modo de produção capitalista – justamente porque são distintos aspectos de um mesmo modo de vida e servem um ao outro em sua manutenção, reprodução e perpetuação.

Para encerrar esta já extensa reflexão, é importante lembrar que se trata de uma via de mão dupla. Quer dizer, ao mesmo tempo em que é impossível operar uma subversão e/ou ruptura ao sistema monogâmico sem uma subversão/ruptura e crítica ao modo de produção capitalista, nestes termos, também é urgente que, para operar uma subversão/ruptura e uma crítica efetivas ao modo de produção capitalista, não se deixe de fazer o mesmo em relação a sua forma particular de sistema de parentesco. Ao manter no horizonte revolucionário instituições que só podem, em nosso tempo, corresponder a estruturas da dominação e exploração de classe (como Família, Casal etc.), naturalizamos a própria fundação do modo de produção que desejamos eliminar. Talvez seja possível afirmar aqui que foi por uma falha nessa compreensão, inclusive (e lembro aqui das reflexões de Goldman em Mulher, Estado e revolução), que muitos avanços da revolução de 1917 foram posteriormente revogados, havendo um retrocesso significativo em dado momento quanto às normas e práticas sociais soviéticas em relação a esse complexo e disputado universo da sexualidade, do amor, da casa. Construir condições para o poder popular e uma revolução socialista passa então, necessariamente, por operar uma crítica estrutural ao universo simbólico que regula tudo o que nos parece mais íntimo, individual e instintivo – como o sexo – e, como bons marxistas, não apenas pensar mas efetivamente atuar de uma maneira nova e crítica em nossas próprias relações.

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O próximo número da revista semestral da Boitempo promete. Com dossiê de capa sobre “Marxismo e lutas LGBT”, coordenado por Lucas Bulgareli, com textos de Amanda Palha, Renan Quinalha, Rafael Dias Toitio e Isadora Lins França, a edição abre com uma entrevista exclusiva com a filósofa e ativista Judith Butler, e traz ainda textos de Angela Davis, Mario Mieli e Clara Zetkin, entre outros. O ensaio visual é do artista plástico Carlos Motta.

Para se tornar um assinante da Margem Esquerda, basta acessar o site da Boitempo e selecionar uma das duas modalidades de assinatura disponíveis: a anual ou a bianual. Se você optar pelo plano anual, terá 15% de desconto em todo o site durante um ano. Quem optar pelo plano bianual terá 30% de desconto em todo o site durante dois anos. Além disso, ambas modalidades possuem desconto progressivo em relação ao preço de capa da revista avulsa. Confira os detalhes aqui.

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Marília Moschkovich é socióloga, mestra e doutora em educação pela Unicamp, tendo trabalhado também no Museu de Antropologia da Universidad Nacional de Córdoba (UNC), na Argentina, e na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), em Paris. Autora do posfácio à nova edição de A origem da família, da propriedade privada e do Estado (Boitempo, 2019), atualmente reside em Berlim onde é Research Fellow da Fundação Alexander von Humboldt em parceria com o festival de cinema Berlin Feminist Film Week, dedicando-se a pesquisa sobre não-monogamia, gênero e violência doméstica. Compartilha os resultados desse projeto em suas redes sociais e no podcast Libre, lançado no segundo semestre de 2019. Também é poeta (Gaveta, Urutau: 2017) e editora (Editorial Linha a Linha). Militante do Partido Comunista Brasileiro (PCB), escreve e faz comentário político online desde 2010 (Blogueiras Feministas, Biscate Social Clube, Outras Palavras). No YouTube, Instagram, Twitter, Medium e outras redes sociais é @MariliaMoscou. Escreve mensalmente para o Blog da Boitempo, às terças-feiras.

2 comentários em Poliamor: desvio liberal ou resistência à família burguesa?

  1. Excelente reflexão, estava na procura de um texto que me pudesse elucidar esta problemática. Li o livro do S. Lessa, mas tenho algumas considerações, principalmente na conclusão do livro. Li também alguns textos de Kollontai e estou certo que precisarei reler. Dessa vez me atendo um pouco mais sobre o “amor-camaradagem”.

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  2. Rafael Rodrigues // 17/09/2019 às 11:25 am // Responder

    Interessante citar o livro de Losurdo “Stalin História crítica de uma lenda negra” que expõe a crítica de Trotsky e Stalin à Kollontai, que falava sobre o fim da “família nuclear” para um amor camarada. É impossível superar (suprassumir) as condições afetivas da família nuclear sem antes superar (suprassumir) o estado, e o estado só é possível de ser superado após superado o imperialismo. Acho importante dar atenção aos aspectos de contradição principal e as contradições secundárias (em Sobre a Contradição), pois Amor Livre em casos particulares pode ser apenas um aspecto hedonista e individualista, que em nada auxilia na superação do capitalismo na sua fase imperialista.

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