Žižek: A Amazônia está em chamas – e daí?

O jogo ridículo da Europa culpando o Brasil e o Brasil culpando a Europa precisa parar. A gravidade da ameaça ecológica deixa claro a urgência de uma forte agência global com o poder de coordenar as medidas necessárias. Será que a exigência por uma ação desse tipo não aponta na direção daquilo que certa vez chamamos de Comunismo?

Por Slavoj Žižek.

* TEXTO ENVIADO DIRETAMENTE PELO AUTOR PARA SUA COLUNA NO BLOG DA BOITEMPO. A TRADUÇÃO É DE ARTUR RENZO.

Logo que as queimadas nas florestas amazônicas desapareciam das nossas manchetes, chega a notícia de que quase 4.000 novos incêndios florestais foram iniciados no Brasil apesar do decreto emitido dias antes pelo governo brasileiro proibindo queimadas intencionais na Amazônia Legal. Esses números não podem senão acionar um alarme: estamos de fato caminhando em direção a um suicídio coletivo?

Diz-se que “com a destruição das florestas amazônicas, os brasileiros estão matando os pulmões do mundo…” No entanto, se quisermos confrontar seriamente as ameaças ao nosso meio-ambiente, o que devemos evitar é precisamente esse tipo de extrapolação célere que fascina nossa imaginação. Duas ou três décadas atrás, todo mundo na Europa estava falando sobre o fenômeno da Waldsterben, a morte paulatina das florestas, o assunto estava presente nas capas de todos os semanários populares, haviam cálculos sobre como em meio século a Europa ficaria sem florestas… agora há mais florestas na Europa do que no século vinte, e estamos nos tornando cientes de outros perigos, do que acontece nas profundezas dos oceanos, por exemplo.

Embora devamos levar extremamente a sério as ameaças ecológicas, é também preciso estar plenamente consciente do quão incertas são as análises e projeções nesse quesito – só teremos certeza do que está de fato ocorrendo quando já será tarde demais. Extrapolações rápidas só fornecem argumentos para os negacionistas climáticos, então devemos evitar a todo custo a “ecologia do medo”, uma apressada fascinação mórbida por uma catástrofe absoluta.

A ecologia do medo tem todas as chances de se tornar a forma predominante de ideologia do capitalismo global, um novo ópio das massas substituindo a religião em declínio. Afinal, ela assume a função fundamental da velha religião, a de instalar uma autoridade inquestionável capaz de impor limites. A lição que essa ecologia está constantemente martelando é a da nossa finitude: somos apenas uma das espécies que habitam este nosso planeta Terra, estamos enraizados em uma biosfera que ultrapassa vastamente nosso horizonte. Ao explorarmos os recursos naturais, estamos pegando emprestado do futuro, de modo que devemos tratar nosso planeta com respeito, como algo em última instância Sagrado, algo que não deve ser totalmente desvelado, que deve e irá para sempre permanecer um Mistério, um poder no qual devemos confiar, não dominar. Embora não possamos adquirir pleno domínio sobre nossa biosfera, temos infelizmente o poder de fazê-la descarrilar, de perturbar seu equilíbrio de modo a fazer com que ela entre em descontrole, nos varrendo do mapa nesse processo. É por isso que, embora os ecologistas estejam a todo tempo demandando uma mudança radical em nosso modo de vida, por trás dessa demanda reside seu exato oposto: uma profunda desconfiança diante da mudança, do desenvolvimento, do progresso; cada transformação radical pode ter a consequência não-intencionada de deflagrar uma catástrofe.

As coisas ficam ainda mais traiçoeiras neste ponto. Mesmo quando professamos uma pronta disposição de assumir nossa responsabilidade por catástrofes ecológicas, isso pode ser um estratagema traiçoeiro para efetivamente evitar as verdadeiras dimensões da ameaça em jogo. Há algo ardilosamente reassegurador nessa prontidão de se assumir a culpa pelas ameaças ao nosso meio-ambiente: gostamos de nos sentir culpados porque, se somos culpados isso significa que tudo depende de nós, nós é que estamos dando as cartas da catástrofe, de modo que também podemos nos salvar simplesmente mudando nossas vidas. O que é realmente difícil de aceitarmos (ao menos nós do Ocidente) é estarmos reduzidos a um papel puramente passivo de observador impotente que só pode assistir impotentemente o desenrolar de seu destino. A fim de evitar essa situação, estamos propensos a mergulhar obsessiva e freneticamente em atividades, reciclar papéis velhos, comprar comida orgânica, o que quer que seja, simplesmente para que possamos ter a certeza de que estamos fazendo alguma coisa, dando a nossa contribuição – assim como um torcedor de futebol que torce pelo seu time na frente de uma tela de televisão em sua casa, gritando e saltando de seu sofá, encenando uma crença supersticiosa de que isso de alguma maneira poderá influenciar no resultado da partida…

É verdade que a forma típica de renegado fetichista no que diz respeito à ecologia é: “Eu sei muito bem (que estamos todos ameaçados), mas na prática eu ajo como se não acreditasse (de modo que não estou disposto a fazer nada realmente importante, como mudar meu estilo de vida).” Mas há também a forma inversa de renegado: “Eu sei muito bem que não posso de fato influir sobre o processo que pode levar à minha ruína (como uma explosão vulcânica), mas ainda assim é traumático demais para mim aceitar isso, de forma que não posso resistir ao impulso de fazer algo, mesmo sabendo que em última instância não fará a menor diferença…” Não é exatamente por esse mesmo motivo que compramos comida orgânica? Quem realmente acredita que aquelas maçãs “orgânicas” caras e feiinhas de fato são mais saudáveis? O ponto é que, ao comprá-las, não estamos simplesmente adquirindo e consumindo um produto – estamos ao mesmo tempo fazendo algo dotado de significado, estamos demonstrando nosso engajamento e consciência globais, es-tamos participando de um grande projeto coletivo…

A ideologia ecológica predominante nos trata como culpados a priori, em dívida com a mãe natureza, sob a constante pressão da agência ecológica superegóica que nos interpela em nossa individualidade: “O que você fez hoje para pagar sua dívida para com a natureza? Você colocou todos os jornais em um lixo reciclável adequado? E todas as garrafas de cerveja ou latas de Coca? Você usou o seu carro onde poderia ter optado por uma bicicleta ou algum transporte público? Usou ar condicionado em vez de simplesmente abrir as janelas?” É fácil discernir o que está em jogo ideologicamente nesse tipo de individualização: me perco em meu próprio autoexame ao invés de levantar questões globais mais pertinentes sobre a nossa civilização industrial como um todo.

A ecologia se empresta facilmente a mistificações ideológicas: como pretexto para os obscurantismos New Age (elogio aos “paradigmas” pré-modernos etc.), ou para o neocolonialismo (reclamações vindas do Primeiro Mundo sobre como o desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo como o Brasil ou a China estão ameaçando todos nós), ou como uma causa de honra de “capitalistas verdes” (compre verde, recicle… como se levar em conta a ecologia justifique a exploração capitalista). Todas essas tensões explodiram nas reações aos recentes incêndios na Amazônia. Há cinco estratégias principais para ofuscar as verdadeiras dimensões da ameaça ecológica: (1) simples ignorância: trata-se de um fenômeno marginal, não digno de nossa preocupação, vida que segue, a natureza vai cuidar de si mesma; (2) a ciência e a tecnologia podem nos salvar; (3) deixe a solução a cargo do mercado (maior taxação dos agentes poluidores etc.); (4) pressão superegóica sobre a responsabilidade pessoal ao invés de medidas sistêmicas de grande porte: cada um de nós deve fazer o que pode (reciclar, consumir menos etc.); (5) talvez o pior de todos seja a promoção da ideia de um retorno ao equilíbrio natural, para uma vida mais modesta e tradicional por meio da qual possamos renunciar a húbris humana e nos tornar novamente respeitosos filhos de nossa Mãe Natureza. Todo esse paradigma da Mãe Natureza descarrilhada por nossa húbris está errado: o fato de que nossas principais fontes de energia (petróleo, carvão) sejam resquícios de antigas catástrofes que ocorreram antes do advento da humanidade é um claro lembrete de que a Mãe Natureza é uma megera fria e cruel…

Isso tudo, evidentemente, não implica de forma alguma que devamos relaxar e confiar em nosso futuro: o fato de que não está claro o que de fato está ocorrendo torna a situação ainda mais perigosa. Além disso, como está rapidamente ficando evidente, as migrações (e os muros erguidos para barrá-las) estão ficando cada vez mais entrelaçadas com perturbações ecológicas como o aquecimento global, de modo que o apocalipse ecológico e o apocalipse dos refugiados estão cada vez mais sobrepostos naquilo que Philip Alston, um Relator Especial da ONU, aparentemente denominou o “apartheid climático”. Nas palavras dele, “perigamos nos ver diante de um cenário de ‘apartheid climático’ no qual os ricos pagam para escapar do sobreaquecimento, da fome e do conflito ao passo que o resto do mundo é deixado a sofrer.” Os menos responsáveis pelas emissões globais são também os menos capacitados para se protegerem.

Então, a questão leninista: o que fazer? Estamos em uma profunda enrascada: não há uma solução “democrática” simples aqui. A ideia de que as próprias pessoas (não apenas governos e corporações) devam decidir parece profunda, mas ela exige que seja respondida uma questão importante: mesmo que seu entendimento não seja distorcido por interesses corporativos, o que as habilita a fazer um juízo a respeito de um assunto tão delicado? E mais: as medidas radicais defendidas por alguns ecologistas podem elas próprias deflagrar novas catástrofes. Peguemos a ideia da Gestão da Radiação Solar (SRM), a contínua e massiva liberação de aerossóis em nossa atmosfera para refletir e absorver a luz solar e assim resfriar o planeta. No entanto, o projeto de SRM é extremamente arriscado: ele poderia reduzir colheitas, alterar o ciclo hídrico de maneira irreparável, para não falar de muitos outros fatores que sequer podemos saber que desconhecemos – não podemos sequer imaginar como o frágil equilíbrio de nosso planeta funciona, e de quais maneiras imprevisíveis esse tipo de geoengenharia poderia perturbá-la.

Mas o que podemos fazer é ao menos estabelecer nossas prioridades e admitir o caráter absurdo de nossos jogos de guerra política quando o próprio planeta pelo qual as guerras são travadas está sob ameaça. O jogo ridículo da Europa culpando o Brasil e o Brasil culpando a Europa precisa parar. As ameaças ecológicas deixam claro que a era dos Estados-nação soberanos está chegando ao seu fim. É preciso uma forte agência global com o poder de coordenar as medidas necessárias. E será que a exigência de uma ação desse tipo não aponta na direção daquilo que certa vez chamamos de “Comunismo”?

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Em entrevista exclusiva ao Blog da Boitempo, feita logo após a eleição de Bolsonaro, Slavoj Žižek comentou a capitulação do Syriza e refletiu que uma novidade potencialmente interessante do Brasil é que aqui o populismo de direita que está no poder não abriu mão da imposição da austeridade. Leia aqui.

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidas, Primeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013), Violência (2014),  O absoluto frágil (2015) e O sujeito incômodo: o centro ausente da ontologia política (2016). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

Artur Renzo é editor do Blog da Boitempo, da TV Boitempo e da revista Margem Esquerda. Formado em Filosofia e em Comunicação Social com habilitação em Cinema, traduziu, entre outros, A loucura da razão econômica: Marx e o capital no século XXI (Boitempo, 2018), de David Harvey.

2 comentários em Žižek: A Amazônia está em chamas – e daí?

  1. Artur Stamford da Silva // 05/09/2019 às 9:23 am // Responder

    senti falta de referência aos testes nucleares que ocorrem nos oceanos e matam milhões de algas marinhas, as quais são mais responsáveis por limpar o ar e produzir oxigênio que as árvores. Sim, culpa como peso é um recurso, porém disso não diria que chegamos à ideia de conscientização, nem de incapacidade de, com nosso agir não resultar em nada mesmo. O que me chama atenção é que sempre uma minoria decide como devemos viver coletivamente. Hoje, Presidentes destinam, incentivando violência, quem está legitimado a violentar quem. Nisso, todos temos culpa, não só Brasil ou Europa.

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  2. Arnaldo Rentes // 06/09/2019 às 8:30 am // Responder

    Žižek sempre vale a pena. Mas repete um erro difícil de evitar, quando se dedica toda a vida às ciências humanas: fala besteira sobre ciência natural.
    Mesmo que toda a área desmatada na Amazônia ou Mata Atlântica seja reflorestada, o patrimônio mais importante estará perdido: a maior biodiversidade deste planeta.
    Há mais espécies vegetais em meio hectare de floresta atlântica primária do que em toda a Europa.
    Haveria mais o que comentar, mas o trabalho chama. Continuarei lendo o incomparável Žižek. Mas ele deveria estudar melhor os assuntos que comenta.

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