Schwarz e Arantes falam sobre maio de 1968

Roberto Schwarz e Paulo Arantes falam a Ricardo Musse sobre o legado de maio de 1968.

Entrevista de Ricardo Musse.

Na esteira das reflexões sobre os legados de maio de 1968, cinquenta anos depois, o Blog da Boitempo recupera as reflexões de Paulo Arantes e Roberto Schwarz sobre o tema registradas duas décadas atrás por Ricardo Musse. Parte de uma matéria sobre 1968 produzida para a Folha de São Paulo por ocasião dos 30 anos de maio de 1968, em 10/05/1998, as entrevistas foram realizadas separadamente, via fax, mas combinadas na edição. Leia também “1968 no Brasil“, de Ricardo Antunes e Marcelo Ridenti; “O romantismo revolucionário de maio de 68“, de Michael Löwy; “1968: o ano que mudou o mundo“, de Tariq Ali.

Como o sr. acompanhou os acontecimentos de Maio de 68?

Roberto Schwarz – Em 68 a efervescência política no Brasil havia aumentado e passara ao enfrentamento direto com a ditadura. Era este o contexto em que a oposição jovem lia o noticiário internacional e também o da França. É claro que algo das palavras de ordem francesas passou para as nossas ocupações de universidades e de fábricas, aos enfrentamentos de rua etc., dando a estas uma vibração, por assim dizer, atualizada e planetária, além de enriquecer o repertório das nossas aspirações assumidas. Mas no essencial a agitação aqui tinha base interna, no quadro de classes brasileiro, e propunha tarefas diferentes das parisienses e nem por isto menos contemporâneas.

Em meu grupo mais chegado, na faculdade, foi determinante a chegada de João Quartim de Moraes, pouco antes de maio. O hoje pacato professor passara alguns anos na França estudando filosofia e aprendendo política de extrema-esquerda, cujos temas e expoentes conhecia no detalhe. Quando os jornais começaram a dar notícia da nova insolência contestatária dos estudantes franceses, nós já tínhamos familiaridade com o fenômeno. De fato, Quartim voltara da Europa em grande forma, determinado a tomar responsabilidades revolucionárias e a “mudar a vida”, para lembrar o mandamento de que ele gostava. A sua disposição para o enfrentamento incluía a impertinência, em especial a provocação antiautoritária, deliberadamente carregada de fórmulas cultas e de chavões ridículos da Faculdade de Direito. Para bem e para mal, era uma presença juvenil que fazia o mundo respeitável subir pelas paredes.

Paulo Arantes – Acompanhei 68 na condição de jovem professor de filosofia na faculdade da rua Maria Antônia. Aliás, estreante, maio desabou no meu primeiro semestre de magistério. Contestação naquele clima escolar de acatamento, nem pensar, só mesmo por inércia ou mimetismo. Aliás, contestar o quê? Mesmo as “lideranças”, como se dizia, do movimento por uma universidade crítica choviam um pouco no molhado. Com as exceções de praxe, todo mundo era razoavelmente do contra – contra a ditadura militar e o medíocre conservadorismo ambiente que fora despertá-la na modorra das casernas. Porém, a favor dos bons cursos oferecidos, sobretudo se comparados à vida besta das grandes escolas. No caso do meu departamento, por exemplo, os estudantes queriam menos Platão e Bergson e um pouco mais de Marx e Lênin, porém estudados de acordo com os métodos filológicos de sempre. Não quero dizer que o clima fosse ameno em meio ao bate-boca ideológico de sempre. Havia, pelo contrário, muita apreensão, pois a repressão podia baixar a qualquer momento, como de fato aconteceu com o incêndio do nosso prédio e a morte a bala de um estudante.

Como o sr. vê hoje o Maio francês?

Roberto Schwarz – A pesquisa e a bibliografia a respeito devem ser imensas e com certeza deixam mal quem esteja falando só de memória, como leitor de jornal da época. As perguntas do próprio momento sempre diferem das que vêm depois. Passado o tempo, o historiador busca as causas de que os contemporâneos tinham pouca notícia. A insurreição parisiense respondia ao início de uma nova etapa do capitalismo? Manifestava uma correlação demográfica nova, em que o peso da juventude era maior? Acompanhava transformações na maneira de produzir, que tornavam obsoletas as formas anteriores da divisão social do trabalho? Era o peso específico da classe operária que começava a decrescer? O controle soviético sobre a esquerda no mundo já não era o mesmo?

Há estudos documentados sobre tudo isso, dos quais sei pouca coisa. Uma questão que me intriga é a unidade do mundo que se parecia preparar, num plano diferente do atual: qual o nexo entre as explosões da Revolução Cultural chinesa, de Berkeley, Paris, Praga, as capitais brasileiras etc.? Essa ligação sem fio conhecido e tão cheia de promessas era ilusória?

Paulo Arantes – Seria bom relembrar que 68 abriu quase uma década de lutas sociais e que só foi de fato enterrado pela contra-revolução liberal conservadora. Reagan e Thatcher não se empenhariam tanto em quebrar a espinha de um movimento sindical supostamente morto! A semente da globalização (ou que nome se dê à ditadura dos mercados financeiros sustentada pela retomada fraudulenta da hegemonia americana) foi plantada como resposta à crise de governabilidade (na acepção conservadora da fórmula) desencadeada em 68 (a crise fiscal do Estado não tem apenas raízes econômicas endógenas, o fordismo não explodiu somente em função do seu sucesso).

Até mesmo nosso “milagre” periférico tem a ver com a liquidez internacional à procura de uma lucratividade bloqueada nos países centrais; e mesmo o nosso ABC de 1978 em greve pode ser visto em linha com a turbulência da década de 1970 (sindicalismo de combate etc.), talvez mais crucial que os anos 60.

Se estas impressões fazem sentido, a famosa adesão sistêmica da força de trabalho, cooptada pelas prestações do Welfare State, precisa ser recontada. Bem como a impressão de que viveríamos novamente (como achava Marcuse em 64, abrindo O homem unidimensional) numa sociedade sem oposição.

Como o sr. compreendeu, na época, os acontecimentos?

Paulo Arantes – Nas condições que acabei de evocar, não dava mesmo para compreender muita coisa. Nossos luminares sociológicos viviam dizendo que aquilo tudo não ia dar em nada, seja em Paris ou nos Brasis, talvez porque assim o desejassem junto com as CGTs da vida. Era moda aliás nos altos escalões do saber mariantonesco desancar o pobre Marcuse – por falta de rigor, é claro. Grande Recusa não era mesmo conosco: com sorte nos livraríamos da ditadura e trataríamos de arranjar uma saída para o país, pró-sistêmica, já que a anti, queimada pelos soviéticos, só poderia dar em bobagem, para dizer o mínimo.

Voltando ao meu zero de compreensão. Simpatizava, mas não via nada. De sorte que, quando o Roberto Schwarz, num ensaio memorável (“Cultura e Política, 1964-69”), recontou o que todos havíamos vivido, fiquei encabulado com a minha miopia na época, agravada pelo nosso horizonte filosofante.

Também não era para menos. A síndrome mundial denominada Maio Parisiense de 68 irrompera entre nós num palco por certo ardorosamente oposicionista, cultura de esquerda largamente hegemônica, porém socialmente confinada, pregando para conversos: contestação em recinto fechado (e lotado, como nos festivais de canção ou nos teatros) só podia exasperar mal-entendidos homéricos. É só relembrar o modo subversivo de a Tropicália transformar contracultura em apelo comercial. Ou a nova esquerda requentando palavras de ordem da velha: da arte dita social ao centralismo democrático.

Maio foi o fecho de uma série de revoluções que se iniciaram em 1789 ou teria sido o início de uma nova forma de fazer política?

Roberto Schwarz – Há um artigo muito desabusado de Robert Kurz, chamado “Os Últimos Combates”, que merece reflexão. A despeito da amplitude das greves e dos acordos salariais obtidos, Kurz insiste no caráter mais cultural do que econômico da revolta, que não visaria seriamente a ruptura com a reprodução mercantil da sociedade, ou seja, não apontaria para além do capitalismo. A falta de alternativa real faria que no essencial aquele imenso movimento não fosse para valer. Talvez seja assim, mas há também avaliações contrárias, e o melhor que faz o leigo interessado é ruminar os argumentos pensando nos dias de hoje. Nestas coisas a verificação interior não deixa de ser um documento: no que me diz respeito, não sinto que o imaginário de 68 esteja morto. A crítica à religião do trabalho, da autoridade, do consumo, do mercado, da família, da propriedade, da tecnocracia, deixou de interessar? A idéia de que sob o calçamento do shopping exista a praia não nos atrai?

Paulo Arantes – Se 1789 é o desfecho de uma longa luta entre acumuladores de capital pela acumulação do capital (o absurdo fim em si mesmo de sempre) e não um combate “progressista” entre a “modernidade” e o “atraso” (feudal, no caso), e se, tomando certas liberdades com o período dito de acumulação primitiva, considerarmos que em 1789 fazia pelo menos três séculos que as principais instituições da acumulação interminável, característica do capitalismo enquanto sistema histórico, já estavam de pé (da desigual e polarizadora divisão mundial do trabalho à competição interestatal pelos benefícios da acumulação), é no mínimo muito estreita a visão do capitalismo emergindo da transição do Antigo Regime para a nova ordem burguesa etc. Tudo isso para dizer que, nesta linha de raciocínio, 1789 foi um arranjo “sistêmico” entre os mesmos estratos dominantes que três séculos antes conseguiram reverter com sucesso a tendência a um relativo igualitarismo econômico que se anunciava com o desmoronamento da Europa medieval.

Em outras palavras, uma grande convulsão antissistêmica como 1968 não pode fazer parte da mesma série inaugurada por 1789. Não por acaso, dando a volta ao mundo, o que começou em 1968 (e não terminou em 68, fogo de palha que não deu em nada), além de antiimperialista se contrapôs também à velha esquerda, que desde a origem alinhara a “revolução proletária” à perspectiva histórica da “revolução burguesa”. Ora, quem se contrapõe assim à ideia herdada de “progresso” enquanto matriz cultural legitimadora do capitalismo histórico, está sem dúvida, queira ou não, assinalando que a forma política herdada chegou ao seu limite histórico.

A série que culmina em 68 e ali se esgotou principiou com a primeira rebelião antissistêmica dos tempos modernos, 1848. A atual desintegração da política enquanto esfera autônoma, hoje engolida pela mercantilização total, significa que a antiga coreografia progressista, o “pas-de-deux” ou “de-trois”, reação conservadora, liberalismo (hegemônico) e sua derivação radical, o socialismo, também deixou de balizar a guerra entre acumuladores de dinheiro e poder e as várias classes que vão resvalando (ou se alternando) para o leito comum da alienação e da exploração sem limites.

Lançada exatamente 50 anos depois do explosivo mês de maio de 1968, a nova edição da revista da Boitempo edição traz um artigo especial de Maria Lygia Quartim de Moraes que faz um vivo e multifacetado balanço da experiência de 68, além de um artigo de peso de Angela Davis, que faz uma reflexão de fôlego sobre os legados de seu orientador Herbert Marcuse, amplamente associado aos movimentos de contracultura dos anos 1960.

***

Ricardo Musse é professor no departamento de sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo. Doutor em filosofia pela USP (1998) e mestre em filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1992). Atualmente, integra o Laboratório de Estudos Marxistas da USP (LEMARX-USP) e colabora para a revista Margem Esquerda: ensaios marxistas, publicação da Boitempo Editorial. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às sextas.

2 comentários em Schwarz e Arantes falam sobre maio de 1968

  1. Marco Antonio Santos // 12/07/2018 às 8:18 pm // Responder

    Muito boa a entrevista

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  2. ¿Hora tão grave? rsrsrs
    ¿Golpe?, Doutor cientista hugo pequenino… rsrsrs
    ¿¿¿Fascismo??? há, há, há, professor manezão!
    Eis pra ti:
    Lembra de 1/3 que lula ganhou do papa??
    Pois bem. Veja:
    1. Quem sabe lula ganha 1 tridente vermelho abençoado de Belzebu!
    2. O Papa Francisco poderia mandar 2m de corda ao presidiário. Como ele não sabe rezar, poderia usar para nos deixar livres de suas mentiras.
    3. Quem dava 1/3 pra esse marginal era a OdebreSHOTA
    4. É mentiroso e o pai da mentira.
    5. O presídiario é 1 dissimulado! Vive de farsas pra enganar as gentes!
    6. Na deep web “Brasil 247” não existia outro assunto ontem.
    7. hmmmm, 1 terço? acho que o nome disso é extrema-unção, geralmente quando se está nas ultimas, desenganado é que se usa desse meio.
    8. sempre ganhava 1/3 e não um terço.
    9. O rosário de que o traste venera é a Maria do Rosário.
    10. Hahaha. lula — o apedeuta mor — mandou comprar o terço “abençoado” na lojinha Kitsch de souvenir que fica em frente ao Vaticano, e espalhou a mentirinha publicitária para benefício próprio.

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