Tariq Ali: 1968, o ano que mudou o mundo

Tariq Ali reflete sobre o legado de maio de 1968.

Por Tariq Ali.

50 anos depois do explosivo mês de maio de 1968, recuperamos este belíssimo artigo que Tariq Ali escreveu para a revista Margem Esquerda sobre o tema. Em homenagem à efeméride, uma promoção imperdível: quem fizer sua assinatura bianual da revista até o final da semana leva de presente a enciclopédia dos anos 60 escrita por Tariq Ali: o livraço O poder das barricadas: uma autobiografia dos anos 60. Saiba como garantir o seu exemplar ao final deste post. Boa leitura!

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Após as superficiais e arrastadas décadas da Guerra Fria – o período intermédio – do século passado, uma febre revigorante contagiou o mundo. Seus efeitos foram tão fortes que até hoje, quarenta anos depois, conferências são organizadas e ensaios, documentários e livros são produzidos para marcar o evento.

O conto foi relatado muitas vezes e em muitas linguagens, mas recusa-se a ir embora. Por quê? Uma explicação banal poderia ser simplesmente biológica: a geração dos anos 1960, está agora com sessenta anos e alguns dos seus membros trabalham agora em grandes editoras, na televisão, no cinema etc., especialmente no Ocidente. Esta pode ser a sua última chance de lembrar, porque, em dez anos, muitos estarão mortos.

Na França, o debate foi reavivado por Nicolas Sarkozy, que declarou que a sua vitória na última eleição presidencial foi o último prego no caixão de 1968.

“Maio de 1968 impôs o relativismo moral e intelectual a todos nós”, declarou Sarkozy. “O legado de Maio de 1968 impôs a idéia de que não existia mais qualquer diferença entre bom e mau, verdade e falsidade, beleza e feiúra. A herança de Maio de 1968 introduziu o cinismo na sociedade e na política.”

Ele culpou o legado de Maio de 1968 até por práticas de abuso moral: o culto do dinheiro, lucro rápido, especulação e abusos do capitalismo financeiro.

O ataque de Maio de 1968 aos padrões éticos ajudaram a “enfraquecer a moralidade do capitalismo, a preparar o terreno para o inescrupuloso capitalismo das regalias e das proteções para executivos velhacos”.

Então, nós somos responsáveis pela crise do subprime, pelos políticos corruptos, pela desregulamentação, pela ditadura do “livre mercado”, pela cultura infestada por um oportunismo descarado, pela Enron, pela Conrad Black, entre outras coisas. Não venha com essa, Nicolas.

Os sonhos e as esperanças de 1968 foram todos fantasias estéreis? Ou a história cruel abortou algo novo que estava preste a nascer?

Revolucionários – anarquistas utópicos, fidelistas, trotskistas de todos os tipos, maoístas de todas as correntes etc. – queriam a floresta toda para si. Liberais e social-democratas estavam pendurados nas árvores. A floresta, alertavam eles, era uma distração, demasiado vasta e impossível de definir, enquanto uma árvore era um pedaço de madeira que poderia ser identificado, nutrido, aperfeiçoado e trabalhado como cadeira, mesa ou cama. Algo útil para o presente.

“Vocês são como um peixe que vê apenas a isca, nunca o anzol”, respondíamos, ridicularizando-os. Pois o nosso lado acreditava – e alguns de nós ainda acreditam – que o povo não pode ser medido pela posse de bens materiais, mas por sua capacidade de transformar as vidas dos outros – os pobres e desprivilegiados –; que a economia tem de regular e reorganizar, segundo os interesses de muitos, não de poucos; e que o socialismo sem democracia nunca pode funcionar.

Acima de tudo, nós todos acreditávamos na liberdade do discurso. Os eventos de 1968 foram, independentemente de tudo mais, um poema da revolução impressa.

Um boletim libertário publicado pelos estudantes franceses em 1968 soa fora de moda quando tantos vivem no ciberespaço, mas é ao mesmo tempo um hino à palavra escrita:

Folhetos, pôsteres, boletins […] não foram impostos para garantir a efetividade… Eles pertencem à decisão do momento presente. Aparecem e desaparecem. Não dizem tudo, ao contrário, arruínam tudo: são alheios a tudo. Agem, pensam em fragmentos. Não deixam uma marca… como pichações nas paredes, são escritos com insegurança, comunicados sob ameaça, carregam o medo neles, depois passam pelos transeuntes, que passam por eles, deixam-nos ou até os esquecem…

Tudo isso parece utopia, hoje, para homens e mulheres, cujas cabeças se tornaram dominadas pelo futuro enterrado no passado do mercado e, como membros de seitas antigas que transitavam facilmente da devassidão do ritual pagão para a castidade, eles agora consideram qualquer forma de socialismo a serpente que tentou Eva no paraíso.

O mundo ocidental pareceu tranqüilo após a Segunda Guerra Mundial. As complacentes e auto-satisfeitas elites da Europa Ocidental estagnaram durante a Guerra Fria: elas nunca desfrutaram tanto. A Europa Oriental foi menos passiva: um levante em Berlim Oriental em 1953, uma insurreição em Budapeste em 1956 e levantes em Poznan e Praga, alguns anos depois, que chacoalharam a gerontocracia em Moscou.

A crise dos antigos impérios foi tipificada pelas guerras na Argélia, no Vietnã, em Angola, Moçambique e Guiné Bissau. Franceses e portugueses recusaram-se a deixá-los sem luta. O resultado foi uma série de guerras brutais, derrotas que provocaram uma crise severa nesses países, levando ao colapso da Quarta República na França, em 1958, e à crise crescente de uma ditadura bonapartista senil em Portugal.

A guerra no Vietnã foi entrando na sua terceira e derradeira fase. Ocupado pela França, posteriormente pelo Japão, brevemente pela Inglaterra e novamente pela França, os vietnamitas aprimoraram habilidades de resistência popular até formas nada bonitas ou decorativas. E, em 1957, os líderes dos Estados Unidos, convencidos da superioridade da raça branca e determinados a não deixar os comunistas vietnamitas unificarem o país, substituíram a França como poder colonial e começaram a enviar soldados para consolidar suas marionetes locais.

O que foi memorável em 1968 foi a amplitude geográfica da revolta global. Foi como se uma única faísca tivesse posto o campo todo em chamas.

As erupções daquele ano desafiaram estruturas de poder de norte a sul, leste a oeste. Todo continente foi infectado pelo desejo de mudança. A esperança reinava suprema.

Foi a guerra que despertou a atenção do mundo. Apesar de meio milhão de soldados e da tecnologia militar mais avançada já conhecida, os Estados Unidos não foram capazes de derrotar os vietnamitas. Esse fato desencadeou um movimento antiguerra no interior Estados Unidos que infectou os militares. “Marines contra a guerra” tornou-se um slogan familiar. E eu me lembro de ter dividido o palanque com veteranos negros da Guerra, em Berlim. “Eu não vou ao Vietnã, pois o Vietnã fica onde estou”, um deles declarou e recebeu um grande aplauso. Seus herdeiros diretos são as atuais “Famílias de militares contra a guerra” no Iraque.

Entre 1966 e 1967, eu passei seis meses na Indochina durante o clímax dos bombardeios e vi a devastação e as mortes diárias de civis desarmados. Isso ficou gravado na minha memória. Como alguém pode esquecer? A agitação política por um mundo diferente e pela solidariedade com os vietnamitas era a conseqüência lógica para muitos daquela geração.

E depois, para o nosso espanto total, a França explodiu entre maio e junho daquele ano, fazendo disso um lindo, incomum e memorável verão. Dez milhões de trabalhadores em greve, a maior da história do capitalismo, e ocupações de fábricas que deixaram claro que os trabalhadores sabiam administrá-las muito melhor que qualquer patrão.

O exemplo da França começou a se espalhar e a preocupar os burocratas em Moscou, tanto quanto as elites no Ocidente. Eles concordaram que o povo selvagem e indisciplinado devia ser mandado para o inferno. Robert Escarpit, um notável correspondente do jornal Le Monde, expressou o clima em 23 de julho de 1968:

Um francês que esteja viajando pelo exterior sente-se um pouco ameaçado, como um convalescente de uma febre forte. E como irrompeu a revolta das barricadas? Qual era a temperatura às 17 horas de 29 de maio? O remédio gaullista está indo realmente à raiz da doença? Há risco de uma recaída? […] Mas há outra pergunta que raramente é feita, talvez por medo da resposta. No fundo de seus corações, todos gostariam de saber, cheios de esperança ou temor, se a doença é contagiosa.

Ela certamente era. Um “maio alastrante” tomou a Itália e grandes demonstrações antiguerra foram tratadas como insurreições virtuais pelos governos social-democratas britânico e alemão. A Suécia foi excepcional. Lá, o ministro das Relações Exteriores, Olaf Palme, liderou uma procissão de tochas contra a guerra até a embaixada dos Estados Unidos e nunca foi perdoado. Em Praga, reformadores comunistas – muitos deles heróis da resistência antifascista durante a Segunda Guerra Mundial – anteciparam aquela primavera proclamando o “socialismo com um rosto humanitário”.

O país foi submerso pela lava de debates e discussões resultantes na imprensa estatal e na televisão. O objetivo de Alexander Dubček e de seus seguidores era democratizar a vida política no país. Este era o primeiro passo em direção a uma democracia socialista e assim era visto em Moscou e em Washington. Em 21 de agosto, os Russos enviaram tanques e esmagaram o movimento. Mais tarde, Alexander Soljenitsyn relatou que, para ele, a invasão soviética na Checoslováquia foi a última prova. Ele percebeu que o sistema nunca poderia ser reformado a partir de dentro, e teria de ser derrubado. Ele não estava sozinho. Os burocratas de Moscou selaram seu próprio destino.

Posteriormente, estudantes mexicanos que pediam o fim da opressão e do partido único foram massacrados logo antes das Olimpíadas.

E depois, em novembro, houve a erupção do Paquistão. Os estudantes tomaram o aparato estatal de uma ditadura militar corrupta e decadente, apoiada pelos Estados Unidos (soa familiar?). Juntaram-se a eles trabalhadores, advogados, funcionários de colarinho branco, prostitutas e outros níveis sociais e, apesar da repressão severa (centenas foram mortos), a luta cresceu e atingiu seu clímax em março de 1969, com a derrubada do marechal Ayub Khan.

O país estava num alto grau de comoção. O clima era radiante. A vitória levou às primeiras eleições gerais da história do país. Os nacionalistas bengalis do leste do Paquistão conquistaram a maioria, o que a elite e os principais políticos se recusaram a aceitar. Uma sangrenta guerra civil levou à intervenção militar da Índia e isso acabou com o antigo Paquistão. Bangladesh foi o resultado de uma sangrenta cesárea.

Houve turbulência por toda parte, inclusive a oposição de Gough Whitlam à guerra no Vietnã e sua vitória eleitoral na Austrália, quatro anos depois, marcando uma curta ruptura no servilismo da elite política australiana.

O colapso do “comunismo” criou a base para um novo acordo social, o Consenso de Washington, pelo qual a desregulamentação e a entrada do capital privado nos até então sagrados domínios das provisões públicas se tornariam a norma por toda parte, tornando a tradicional social-democracia redundante e ameaçando o processo democrático em si.

O pleno emprego é agora lembrado como utopia. O fato de nenhum partido de centro-esquerda não poder nem mesmo propor um imposto de renda redistributivo é um indicativo de quão longe esses líderes foram forçados a ir. Os partidos estão sem rumo. O modelo deles é o da política norte-americana, no qual nenhuma das opções se diferencia.

A esperança nasceu novamente na América do Sul, onde movimentos sociais de base lideraram vitórias eleitorais em vários países, tendo à frente a Venezuela.

No Ocidente, avizinha-se uma crise: as sociedades não podem viver de crédito para sempre. A alteração mais importante que testemunhamos foi a alteração estrutural do mercado mundial: o Extremo Oriente é agora central para o futuro do capitalismo. A China hoje, como a Inglaterra no século XIX, é a manufatura do mundo. O impacto disso na política mundial ainda será sentido. O gigante semi-adormecido talvez acorde algum dia com conseqüências surpreendentes.

Muitos dos que sonharam um dia com um futuro melhor desistiram. “Se você não evoluir, não ganhará” é a máxima que se defende e, ironicamente, a intelligentsia francesa está hoje entre as piores e preside um declínio na cultura desse país.

Os renegados participam de todos os governos europeus e fazem-me lembrar da educada resposta de Shelley a Wodsworth, que depois de dar as boas-vindas à Revolução Francesa regrediu para um conservantismo grosseiro:

Em honrada pobreza tua voz teceu
Músicas consagradas à verdade e à liberdade,
Desertando-as, tu me entristeces,
Assim tendo sido, deverias cessar de ser.*

[* “In honoured poverty thy voice did weave/ Songs consecrated to truth and liberty,/ Deserting these, thou leavest me to grieve,/ Thus having been, that thou shouldst cease to be.” (N. E.)]

Penso em outro poeta, o norte-americano Thomas McGrath, que em meados do século passado defendeu o radicalismo dos anos 1930. Seu poema “Carta para um amigo imaginário” poderia ser aplicado aos dias hoje, bem como aos anos 1960:

Conversa selvagem, e fácil o suficiente para rir.
Esse não é o ponto, nem nunca foi.
O que era real era a generosidade, esperança expectante,
O claro e verdadeiro desejo de fazer o bem.
Agora, em outro outono, em nossa nova desobrigação
De uma antiga escuridão enregelante, a geada cai sobre
As ruínas estreladas do meu jardim.
Sobre a minha esperança.
Sobre
Os mortos generosos dos meus anos.
Agora, nas ruas frias,
Ouço a caçada e o longo trovão do dinheiro…*

[* “Wild talk, and easy enough to laugh./ That’s not the point and never was the point./ What was real was the generosity, expectant hope,/ The open and true desire to create the good./ Now, in another autumn, in our new dispensation/ Of an ancient, man-chilling dark, the frost drops over/ My garden’s starry wreckage./ Over my hope./ Over/ The generous dead of my years./ Now, in the chill streets/ I hear the hunting and the long thunder of money…” (N. E.)]

***

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O livraço que os assinantes bi-anuais receberão de brinde é O poder das barricadas: uma autobiografia dos anos 60, de Tariq Ali, pensador e militante paquistanês que viveu intensamente os anos 1960 intensamente, participando de acontecimentos políticos na Europa, na Ásia e nas Américas. Em edição revista e ampliada, a obra traça um panorama essencial para se compreender a avalanche de protestos que tomou conta do mundo durante o período. Mas mais do que isso, nas palavras de Emir Sader, “não se trata apenas de um livro de memórias, mas de uma introdução à política revolucionária, ao que significa ser militante”.

A nova edição da Margem

Lançada exatamente 50 anos depois do explosivo mês de maio de 1968, a edição traz um artigo especial de Maria Lygia Quartim de Moraes que faz um vivo e multifacetado balanço da experiência de 68, além de um artigo de peso de Angela Davis, que faz uma reflexão de fôlego sobre os legados de seu orientador Herbert Marcuse, amplamente associado aos movimentos de contracultura dos anos 1960.

Além disso, o volume traz ainda contém um dossiê especial sobre marxismo e direito coordenado pelo filósofo do direito Alysson Leandro Mascaro, com preciosas colaborações de Ingo Elbe, Alessandra Devulsky e Moisés Alves Soares; além de uma história entrevista com Joachim Hirsch. Entre outros destaques estão poesias inéditas escritas por ninguém menos que Karl Marx, traduzidas e apresentadas pelo nosso editor de poesia Flávio Aguiar, artigos de Carlos Eduardo Martins sobre a vida e obra de Theotonio dos Santos, de Maurilio Botelho sobre a intervenção militar em curso e o assassinato de Marielle Franco e de Demétrio Cherobini sobre a herança teórica e política de István Mészáros.

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Tariq Ali vive na Inglaterra e atua como jornalista, escritor, historiador, cineasta e ativista político, com foco em política internacional. É autor de mais de vinte livros sobre história mundial e política, dentre os quais O poder das barricadas: uma autobiografia dos anos 1960 (Boitempo, 2008). Seu último livro lançado no Brasil é uma nova edição do Manifesto Comunista, combinada com o tratado revolucionário de Lênin, Teses de abril, com comentários e textos introdutórios inéditos de Ali. Ele é o entrevistado da Margem Esquerda n.29.

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