A tragédia depois da tragédia do incêndio no Largo do Paissandu: uma ferida aberta na cidade

"Os sobreviventes estavam do lado de fora da grade". Esta frase não sai da minha mente. De qualquer forma, o cercado das grades apenas torna visível a relação do Estado com as pessoas pobres indesejáveis. Grades de metal separam a polícia militar do lado de fora com as famílias sobreviventes e, do lado de dentro, aquilo que chamamos de poder público, incluindo saúde e proteção social.

Moradores sobreviventes do Edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou no 1° de maio de 2018, dormem no largo do Paissandu, atrás das grades. Foto: Rodrigo Borges/Folhapress

Por Isabela Oliveira Pereira da Silva.

Quando cheguei ao Largo do Paissandu no início da tarde do primeiro de maio, os jornais falavam em uma morte no incêndio e desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida. Ao conversar com os moradores da ocupação, as contagens não oficiais eram de quase 50 pessoas desaparecidas, entre elas, crianças. A primeira coisa que vi foram as grades de metal separando o perímetro do restante da região. A fronteira delimitava claramente quem estava dentro para receber cuidados e quem estava fora. Dentro do cercado estavam ambulâncias e outros carros que serviam de depósito para as doações de roupas e comidas. Do lado de fora, passantes se apertavam para fotografar os escombros do prédio ou para entregar mais sacolas de doações por cima da grade de metal.

Me aperto na grade e pergunto para um voluntário do Templo de Salomão onde estão as famílias. O voluntário parece não entender minha pergunta. Um guarda civil municipal faz um gesto rápido enquanto corre para fechar a grade após a entrada de mais um carro. A grade aberta seria um risco ao isolamento que as autoridades haviam preparado no local. O gesto rápido aponta na direção de onde estão as famílias da ocupação. Desço na direção apontada e novamente procuro. Imaginava alguma tenda improvisada como posto médico, ou ainda algum espaço com colchonetes protegendo os sobreviventes do sol a pino.

Perto da igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos (o nome da igreja não me parece ser uma coincidência) percebi o que as grades de fato separavam. Do lado de dentro estavam os bombeiros, paramédicos, ambulâncias, parte da imprensa, os guardas civis metropolitanos, muitos voluntários da Igreja Universal do Reino de Deus, os agentes de saúde e profissionais da assistência social da cidade. Do lado de fora das grades estavam as famílias vítimas do incêndio e os policiais militares. Os sobreviventes estavam fora do cercado e, portanto, apartados dos serviços públicos. Nada de tendas. Famílias a céu aberto amontoadas em cima de colchões e roupas de doações.

Os sobreviventes estavam do lado de fora da grade. Sobreviventes, porque é esse o nome que damos quando alguém sobrevive a um incêndio e ao desmoronamento de um prédio de 24 andares durante a madrugada no lugar onde se mora. Esta frase não sai da minha mente: “os sobreviventes foram colocados do lado de fora das grades”. Não sei por quantos dias essa frase irá ecoar e junto dela a imagem das mães totalmente ao relento e sem nenhuma proteção aguardando o resgate de seus filhos para além das grades.

É difícil nominar a tragédia depois da tragédia no Largo do Paissandu com as grades isolando a pobreza do lado de fora. No dia anterior, por indicação de um pesquisador da minha equipe, eu havia assistido ao filme autobiográfico do cineasta Alejandro Jodorowsky para buscar referências sobre narrativas de cidades. Em A dança da realidade, Jodorowsky narra a história de sua família durante a ascensão do fascismo no Chile. À medida em que o filme se desenvolve, 300 pessoas moribundas se aproximam cada vez mais da cidade de Tocopilla. Há um incêndio também em uma área de cortiço, mas o ápice ocorre quando a cidade é invadida pelos famintos e seus moradores correm desesperados para se protegerem. As autoridades instalam grades para impedir a entrada dos 300 que pedem água no sol escaldante. Em um gesto pretensamente heroico, o pai de Jodorowsky, um comunista chamado Jaime, decide romper o bloqueio e levar água para as pessoas. A multidão aceita a água, que é transportada em uma carroça com dois burros, mas matam os burros para comer a carne. Ao perceber que não poderia mais transportar água para fora da cidade sitiada, Jaime se desespera e pergunta “como vou trazer água para vocês amanhã?”. Um dos homens grita com um pedaço de carne crua nas mãos “não há amanhã, só há hoje”.

Talvez tenha sido esse o sentimento de desesperança das pessoas do lado de fora quando se recusaram a ir para os abrigos temporários oferecidos pela prefeitura. Algumas famílias, principalmente as que estavam com bebês aceitaram a medida temporária de auxílio. Mas as que ficaram argumentam que a prefeitura apenas quer resolver temporariamente o problema de moradia e retirá-los do centro para que eles não sejam mais vistos. O projeto de Cidade Linda se guia pela lógica da privatização da cidade e o estabelecimento de parcerias com empresas. Mas nenhuma empresa estava lá. Os sobreviventes encontraram refúgio de fato dentro da igreja.

O desmoronamento do prédio apenas expôs uma ferida que já estava aberta na cidade. O prédio, que já havia sido sede da Polícia Federal, pertencia à União. Foi construído como um dos mais importantes e luxuosos ícones arquitetônicos de São Paulo, nos anos de 1960. Mas depois deixou de ser interessante tanto para empresas quanto para o Estado. Neste sentido, a arquiteta Raquel Rolnik, que atuou como Relatora Especial para o Direito à Moradia Adequada do Conselho de Direitos Humanos da ONU, afirma que São Paulo vive uma situação de emergência habitacional. Estima-se que existam mais de 100 ocupações na cidade de São Paulo.

De qualquer forma, o cercado das grades apenas torna visível a nossa relação com as pessoas pobres indesejáveis. Grades de metal separam a polícia militar do lado de fora com as famílias sobreviventes e, do lado de dentro, aquilo que chamamos de poder público, incluindo saúde e proteção social. Aliás, como as doações estavam indo para os abrigos e as pessoas não, os do lado de fora assistiam as doações sendo levadas embora. E logo passaram a pedir que as pessoas entregassem roupas, comidas e, especialmente, água diretamente para elas e não para quem estava dentro do cercado.

Na verdade, são duas as frases ecoando em minha mente: “os sobreviventes foram colocados do lado de fora das grades” e “não há amanhã”. Imagino o que ecoa na cabeça das mães do lado de fora. Hoje, São Paulo amanhece parecida com a Tocopilla de Jodorowsky.

***

Isabela Oliveira Pereira da Silva é Doutora em Antropologia Social (USP), com estágio doutoral na Universidade de Columbia, na cidade de Nova Iorque. Como docente atua na Escola de Sociologia e Política (FESPSP), no Programa Internacional Brazilian Studies (PUC-SP) e como local faculty em programas acadêmicos internacionais de estudos comparativos de cidades no Brasil, Índia, Estados Unidos e África do Sul. É coordenadora do NEU (Núcleo de Etnografia Urbana e Audiovisual), onde tem desenvolvido pesquisas sobre protestos e manifestações no espaço urbano. Escreveu este artigo especialmente para o Blog da Boitempo.

6 comentários em A tragédia depois da tragédia do incêndio no Largo do Paissandu: uma ferida aberta na cidade

  1. César Bahia // 02/05/2018 às 17:03 // Responder

    Leitura lúcida da autora.

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  2. Fernando Marcelo Dias Gabriel // 02/05/2018 às 19:35 // Responder

    Tudo conforme nossa antiga e tradicional cultura: “os pobres estarão sempre divididos do espaço social por uma grade, ou estão do lado de fora da grade que os separa do poder público ou do lado de dentro das grades onde os mantém o poder público.”

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  3. Maria Lucia da Silva Souza // 03/05/2018 às 12:38 // Responder

    A autora nas suas analises sempre nos remete a um pensar para além do que está posto. As grades demonstram o hiato entre poder público e indivíduos, ou seja, é a essência da cisão, não é meramente coincidência.

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  4. Republicou isso em luveredase comentado:
    “Os sobreviventes estavam do lado de fora da grade. Sobreviventes, porque é esse o nome que damos quando alguém sobrevive a um incêndio e ao desmoronamento de um prédio de 24 andares durante a madrugada no lugar onde se mora. Esta frase não sai da minha mente: “os sobreviventes foram colocados do lado de fora das grades”. Não sei por quantos dias essa frase irá ecoar e junto dela a imagem das mães totalmente ao relento e sem nenhuma proteção aguardando o resgate de seus filhos para além das grades.”

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  5. marcosmauricio // 04/05/2018 às 0:27 // Responder

    Que tristeza tudo isso que acontece em São Paulo. Que texto incrível.

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  6. Eliana Asche // 07/05/2018 às 11:59 // Responder

    Excelente reflexão, Isabela.

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