O ano de 2017 tal como ele quase poderia ter sido

Ao invés de promover um balanço do maravilhoso ano que foi 2017, Christian Dunker propõe um exercício ficcional baseado no que poderíamos ter vivido caso tivessem ocorrido pequenas, mas significativas, mudanças em alguns acontecimentos dos últimos 12 meses.

Um dos últimos fotogramas do filme Branco sai, preto fica (2014), escrito e dirigido por Adirley Queiroz.

Por Christian Ingo Lenz Dunker.

Ao invés de elencar uma série aleatória de fatos significativos ou promover algum balanço do ano da graça de 2017, vou propor aqui um exercício ficcional baseado no que poderíamos ter vivido caso tivessem ocorrido pequenas, mas significativas, mudanças de curso na cadeia de acontecimentos dos últimos doze meses. O que se segue pode ser lido também como um manual das chances desperdiçadas no que se passou e que poderia nos servir de lição para o que virá em 2018.

A memória, dizia Freud, não é só feita de monumentos e fatos recordáveis, mas também de esquecimentos e de lugares vazios ainda que pressentidos. A memória não é um depósito de coisas passadas, mas também pelo fato de ser historiada no presente, uma forma de criar novos futuros. Memória e fantasia dependem-se mutuamente, por isso Lacan dizia que a verdade tem estrutura de ficção. O que se segue é também um exemplo da facilidade com que se pode construir fake news, reunindo fatos próximos e virtualmente conexos, produzindo explicações simples e persuasivas, em estrutura de pós-verdade.

Janeiro: O relator da Lava Jato, Teori Zavascki, milagrosamente sobrevive a um acidente de avião na costa de Paraty. De volta ao cargo, ele autoriza todas as medidas necessárias para ampliar a investigação encampando todos os partidos e mostrando que a corrupção sistêmica é muito mais grave do que supunha o país. Temer é envolvido nas investigações sobre a sabotagem do avião e novas manifestações tomam conta do país. O slogan “Primeiro Dilma, depois Temer” se alastra unindo grupos até então em disputa em torno de um mesmo sentimento de indignação.

Fevereiro: Em crise, Temer suspende a indicação Alexandre de Moraes para o Supremo Tribunal Federal. Isso gera uma reação nacional de repúdio por parte do PCC, que faz as prisões brasileiras explodirem em rebeliões com centenas de mortes. Um plano de emergência decide finamente unificar as polícias civil e militar. Reformula-se a escola de formação de policiais e agentes penitenciários, introduzindo uma nova política de enfrentamento da violência no país, baseada na ação comunitária, na proteção mútua e da tolerância zero ao massacre de pessoas em situação de vulnerabilidade. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, torna-se o primeiro filme brasileiro a vencer o Oscar.

Março: Protestos em 19 cidades conseguem mudar a ordem das reformas. O Congresso Nacional, em momento de rara autolimitação, coloca a reforma política em primeiro lugar, instituindo o voto distrital misto e a cláusula de barreira. O presidencialismo de coalisão chega ao fim, junto com o foro privilegiado e o vitaliciamento de juízes. Depois da reforma politica, vem a reforma tributária, que redistribui a carga de impostos, facilitando seu recolhimento pelas empresas e extinguindo a guerra fiscal entre os estados. A taxação das grandes fortunas permite alocar recursos de emergência para um novo plano de implantação radical e extensiva do SUS e com investimento massivo na qualidade da educação, começando pela duplicação imediata do salário dos professores. A votação da reforma trabalhista e do teto de gastos são adiadas para 2020, prefixando um período de adequação condicionada ao crescimento do país, decorrente de sua reentrada na economia mundial.

Abril: Com pouco apoio político e com pressão das ruas, Temer se vê obrigado a aceitar uma reforma da previdência pactuada com o saneamento dos fundos de pensão e baseada na reformulação geral das relações entre funcionalismo público e trabalhadores da sociedade civil. As pensões judiciárias e militares, milionárias e hereditárias são extintas, assim como as aposentadorias privilegiadas de políticos. Mesma atitude é adotada em relação a reforma trabalhista que moderniza as relações entre empregadores e empregados, sem reintroduzir o trabalho escravo ou intermitente.

Maio: As provas contra Lula são julgadas improcedentes. Inicia-se um processo de autocrítica convocando a reunião nacional de sua militância reaproximando-se dos movimento sociais. Artistas, intelectuais e líderes populares dedicam-se ao processo de reconstrução da esquerda. Vem a público a Carta do Xilindró, refletindo o consenso sobre os erros cometidos e as promessas de jamais se aliar ao PMDB novamente, praticar transparência, orçamento participativo e gestão coletiva. Começa o processo de reconstrução das instituições do país a partir do princípio da gestão pelos comuns. A esquerda desiste de odiar o dinheiro e começa a catalisar as populações evangélicas reconhecendo seu projeto de ascensão social. O Fome Zero é substituído pelo Moradia para Todos.

Junho: A crise na “cracolândia” em São Paulo dá origem a uma reformulação radical da política antidrogas no país. A maconha é descriminalizada e os impostos recolhidos são revertidos para a abertura de clínicas de tratamento no interior do SUS, facultando um amplo plano de tratamento da miséria e da condição de dependência e alcoolismo. O prefeito João Doria desiste de irrigar com jatos de água fria a população envenenada pela ração distribuída ilegalmente por fornecedores de alimento contaminado. Cria-se a Comissão Cultural do Grafite, responsável pelo novo planejamento visual da cidade, a ser inaugurado com a participação de representantes de coletivos culturais de toda a periferia e show com os Racionais MC’s. No plano nacional, a reforma Trabalhista é novamente derrotada no Senado e na Câmara. Líderes da Fiesp e dos sindicatos chegam a um acordo sobre novas jornadas de trabalho. O Estado volta a investir em áreas estratégicas em colaboração com empresas, mas com supervisão dos tribunais do povo. As universidades públicas deixam de ser apedrejadas e sucateadas. Reconhecendo o esforço que realizaram para expandir o número de vagas nos últimos dez anos, reajusta-se as alíquotas de investimento. Judith Butler é recebida com festa no aeroporto de Congonhas em sua visita para comemorar o fim da nova idade média brasileira.

Julho: Odebrecht, Camargo Correa e demais empreiteiras responsáveis pela reposição eleitoral dos políticos tradicionais rebelam-se contra a prática da extorsão política e jurídica. Decidem criar um esforço nacional na construção civil para acabar com as favelas no país. O governo destina áreas improdutivas e o plano nacional de habitação ganha um novo impulso. A Petrobrás participa do projeto como parte do termo de ajustamento de conduta. A mineradora Belo Sun é impedida de funcionar e liderados pelos Arawetés cria-se a maior reserva indígena do mundo.

Agosto: Revelação de dados alarmantes, incluindo a média de dez estupros coletivos por dia no Brasil, desencadeia uma onda de represálias denunciando a “ideologia de gênero”. Marco Feliciano, Silas Malafaia recebem o apoio de Jair Bolsonaro para criar o Comando de Caça às Feministas, que são responsabilizadas pela onda de violência contra a mulher. Inesperadamente, Bolsonaro cede a pressão popular e procura um tratamento psicológico. Depois de decidir pela cirurgia de redesignação de gênero, a deputada do PSC convoca a rede dos coletivos feministas organizando uma campanha nacional de reeducação das práticas entre gêneros. É aprovada a nova Lei do Ensino Médio reconhecendo amplamente a relação entre a ausência de discussão sobre gêneros e a violência doméstica.

Setembro: Aécio Neves é afastado definitivamente da presidência do PSDB e do senado. Aprovam-se leis restritivas ao comércio de cocaína por helicópteros. Luiz Felipe Pondé, Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino e Marco Antonio Villa fundam o Partido Nacional Anti-Socialista, também conhecido como “Onde está, Fica”, defendendo um programa de abolição imediata de jantares inteligentes e a extinção das universidades públicas. O juiz Sérgio Moro indicia o partido por corrupção intelectual.

Outubro: Temer é finalmente cassado. Especula-se que Gilmar Mendes tenha esquecido de sua medicação no dia da votação decisiva e, levado por um surto de lucidez, reconhece que há algo errado nas gravações, malas, cuecas, delações e declarações de diferentes testemunhas oculares e binoculares sobre a conduta presidencial. O país respira aliviado readquirindo a confiança no judiciário. O programa Farmácia Popular é ampliado.

Novembro: As Universidades públicas recebem um novo plano de investimento. As universidades privadas são impedidas de praticar o Ensino a Distância, de demitir doutores e de suprimir a carga horária dos cursos apenas para reduzir custos. As universidades Kroton e Estácio de Sá decidem investir em pesquisa e qualidade de ensino lançando uma inédita campanha para suplementar os serviços públicos de saúde, educação e cultura. O corte dramático de investimentos em ciência e tecnologia é revertido. Temer, agora fora do governo, desculpa-se pessoalmente por ter deixado interromper a participação brasileira no projeto do computador quântico, cortando verbas para o pagamento da conta de luz. O Palmeiras é campeão nacional com três rodadas de antecedência.

Dezembro: Forma-se um ministério de consenso. Kleber Mendonça assume a Cultura, investido de superpoderes, Djamila Ribeiro na Integração Nacional, Gregório Duvivier torna-se porta voz oficial, Maria Rita Kehl nos Direitos Humanos, Guilherme Boulos na Habitação e Desenvolvimento, Leda Paulani na Fazenda, Ricardo Rodrigues Teixeira na Saúde, Madalena Freire na Educação, Vladimir Safatle na Casa Civil, Marcia Tiburi na Secretaria de Políticas para Mulheres, André Singer na Agricultura, Jean Willys nas Relações Exteriores, Fernando Haddad nas Cidades, Eliane Brum na Comunicação Social, Renan Quinalha na Justiça, Laura Carvalho no planejamento e Miguel Nicolelis na Ciência e Tecnologia.

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A Boitempo acaba de disponibilizar mais um curso completo em seu canal no YouTube! Em “A psicanálise do Brasil entre muros”, o psicanalista Christian Dunker conduz uma leitura comentada de seu aclamado livro Mal-estar, sofrimento e sintoma: uma psicopatologia do Brasil entre muros. Ao todo, são sete aulas de cerca de 15 minutos cada dedicadas a atravessarem, capítulo a capítulo, a leitura dessa densa e explosiva obra que levou o Prêmio Jabuti na categoria de psicologia e psicanálise. A série pode servir tanto de complemento quando introdução à leitura desta contribuição desafiadora para pensar criticamente o Brasil hoje.

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Christian Ingo Lenz Dunker é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Autor de Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica (AnnaBlume, 2011) vencedor do prêmio Jabuti de melhor livro em Psicologia e Psicanálise em 2012 e um dos autores da coletânea Bala Perdida: a violência policial no Brasil e os desafios para sua superação (Boitempo, 2015). Seu livro mais recente é Mal-estar, sofrimento e sintoma: a psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo, 2015), também vencedor do prêmio Jabuti na categoria de Psicologia e Psicanálise. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise. Colabora com o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

5 comentários em O ano de 2017 tal como ele quase poderia ter sido

  1. Antonio Tadeu Meneses // 12/12/2017 às 8:37 pm // Responder

    Genial, não custa ter doces sonhos em uma realidade amarga. Só uma retificação, não só para o mês de Maio, mas para o ano todo, ninguém deveria estar acima das leis.

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  2. Amei o grupo escalado para ocupar os ministérios. Vc seria bom também como o gerente de Recursos Humanos!

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  3. Tudo poderia ser, menos o PALMEIRAS campeão e ainda com 3 rodadas de antecedência. Aí fica na cara de se tratar de um fakenews… sorry!

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  4. Hugo Pequeo Monteiro // 06/01/2018 às 7:18 pm // Responder

    Prezado Professor Dunker,

    Embora o seu artigo tenha o objetivo de apontar possiveis mudanças de rumo da política nacional, desde que a mesma estivesse sob o comando de um governo popular e dos trabalhadores, o elenco de AÇÕES POSSÍVEIS, certamente poderia ser a base programática de um futuro governo popular e dos trabalhadores.
    Mais ainda, com o grupo de indivíduos apontados para ocupar os diferentes ministérios, esta POSSIBILIDADE poderia certamente se converter em REALIDADE.
    Parabéns pelo artigo e pela coerência programática.

    Um abraço.

    Hugo Pequeno Monteiro
    Professor Titular
    Departamento de Bioquímica
    Escola Paulista de Medicina/Universidade Federal de São Paulo

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  5. Glaucio Costa Abrantes dos Santos // 15/01/2018 às 2:00 am // Responder

    Freud foi viciado em cocaina e prescrevia cocaina sabia do duplo etérico e do universo paralelo. Porém com medo de assumir sua possição perante a sociedade, covarde como sempre foi deixou para Yung assumir esta responssabilidade. Marx um burguês usou o dinheiro da sua esposa milhionária por 16 anos para escrever o paralelo ao livro do alcorão. Dois ant cristos do inferno.
    Temos muitas vidas a resgatar. O corpo morre. Fica a alma e o espírito.
    Sou espiritualista cristão. Casei do exoterismo e toda minha geração foi abençoada.
    Antes de começar. Até a terceira geração.
    Camilo está a salvo

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