O outro lado do espelho: mirar a esquerda e repensar o futuro

"Em meio a um ataque feroz da burguesia autocrática, Lula acena para o 'mais do mesmo', ainda que a estrutura jurídica da autocracia burguesa teste emblemática e plenamente que não precisa mais desse pacto (sinistro), pois agora, com maioria no parlamento, avança e estende suas garras livres para destroçar as parcas conquistas dos trabalhadores."

Por Antonio Carlos Mazzeo.

“À esquerda, à esquerda, à esquerda!
Em frente, à conquista
dos Oceanos!”
Vladmir Maiakóvski, À Esquerda.

Nestas notas, esboço algumas considerações sobre o PT. Obviamente, não há espaço aqui, para refazer a história desse partido. Mas, nestas breves noterelle sobre sua trajetória, ressalto que apesar de ter nascido de uma grande e poderosa movimentação de lutas dos trabalhadores e de ter aglutinado um amplo espectro ideológico de esquerda dentro de suas fileiras – socialdemocratas, trade-unionistas, socialistas católicos, comunistas, eurocomunistas, ex-comunistas, ex-guerrilheiros, trotskistas, nacionais-libertadores, liberais radicalizados, etc – esse partido nunca se constituiu como uma organização revolucionária.1 Ao contrário, no próprio processo de construção e de consolidação, o PT foi adquirindo uma feição cada vez mais adequada à ordem burguesa, na medida em que se afirmava como partido institucional e conquistava governos, municipais e estaduais, sendo que nesse processo, a luta interna furiosa e muitas vezes, sem princípios, típico de um partido de tendências, garantiu a aliança dos trade-unionistas (os sindicalistas) com a socialdemocracia-tardia, acrescidos de outros grupos, como os ex-guerrilheiros reformistas, eurocomunistas, entre outros, que acabaram estruturando o grupo dirigente hegemônico, “articulação”.2

Mas o elemento central disso tudo é a conformação de uma diretriz político-hegemônica rebaixada e, em parte, inspirada nas velhas teses taticistas e “etapistas” do PCB/Internacional Comunista. Explicando melhor: em sua origem, desde os movimentos grevistas no ABC paulista, a crítica contundente – realizada, tanto por militantes dissidentes do PCB, como por outros críticos daquela diretriz política –, direcionava-se à tese do “etapismo” ou a teoria da “revolução em etapas”, constatada pela derrota dessa perspectiva política, com o golpe bonapartista de 1964. Com essa justa, mas ainda difusa crítica, abria-se a perspectiva histórica de se dar um passo fundamental para a derrota do reformismo no movimento socialista e comunista brasileiro. Mas, o que ocorre é o inverso. A hegemonia reformista, a partir de meados dos anos 1980, e a construção de uma linha política prático-operativa, caracteristicamente de composição e de conciliação de classes, acentua as lutas intrapartidária e culmina na emblemática expulsão e/ou a subsunção de correntes socialistas/comunistas à política majoritária da Articulação. Aprofunda-se o taticismo – a partir da própria concepção espontaneísta, intrínseca às culturas políticas do trade-unionismo e dos núcleos vinculados à Teologia da Libertação – e, junto com ele, o pragmatismo oportunista, que irá caracterizar a ação política petista dali em diante, e que ganha maior intensidade, com a eleição de Lula à presidência da república, em 2002. A Carta ao Povo Brasileiro demarcou o campo de alianças do PT: o agronegócio, os monopólios nacionais e internacionais e o capital financeiro. Mais ainda, o compromisso de cooptar e atrelar o movimento dos trabalhadores organizados sob sua influência ao projeto de desenvolvimento do capitalismo e inserção da burguesia do Brasil no âmbito do capitalismo mundial, ampliando assim, a presença dos setores empresariais “nacionais” no escopo do imperialismo. Com isso, caracteriza-se um “dualismo” taticista na ação política do PT, quer dizer: a Carta ao Povo Brasileiro, de junho de 2002, ao separar o governo do programa político do partido, não somente delineia o projeto de maior inserção do Brasil nas ações econômicas do imperialismo, como reforça o lulismo – um modo de governar o país, assentado na figura carismática do líder popular-demagógico, vinculado ao projeto de modernização do capitalismo brasileiro.

O projeto petista passa a ser a construção de uma “revolução democrática”, mas sem a perspectiva da luta por uma revolução socialista – como estava formulado no “etapismo” da Internacional comunista. O desenvolvimento de uma política de conciliação de classes implicava, também, na construção de um discurso ideo-pragmático para justificar sua ação como partido da ordem, subsumido ao projeto imediato-taticista de ampliação dos espaços democráticos e da cidadania, o que demandava, ainda, intensificar a presença no plano da institucionalidade parlamentar. O discurso da eficiência administrativa vem pari passu com as alianças espúrias e com a busca desenfreada por recursos financeiros para eleger bancadas numerosas nos parlamentos municipais, estaduais, na Câmara dos Deputados e no Senado. Quanto mais crescia o partido e sua banca, mais sua estrutura orgânica mergulhava no jogo e na corrupção intrínseca ao parlamento e ao jogo de poder burguês.

O ser-precisamente-assim da morfologia política do PT não passa incólume em sua forma-organizativa. No plano da formação política e da construção da consciência de classe, o que já era precário agrava-se, com a total dominância ideológica do projeto social-democrático tardio. O antigo “consenso de base”, construído através dos debates realizados nos núcleos partidários é substituído pelas formulações da direção político-hegemônica e difundidas pelo líder popular-demagógico.3 No reflexo dessa constituição organizativa, o âmbito imediato é o rebaixamento da formação político-crítica e a pragmatização da consciência de classe, centrando o discurso na democracia cidadã genérica e, ao mesmo tempo, atrela, sem véus, sua militância e o conjunto dos movimentos ligados ao partido (inclusive a CUT) ao projeto de políticas afirmativas (portanto, da cidadania burguesa). Transforma-se o que deveria ser tático em núcleo de ação estratégica. Toda a ação política petista é direcionada para a manutenção dessa aliança e para a capacitação de sua máquina partidária para a administração do capitalismo, sem nenhuma contrapartida ideológica, o que, ao limite, contribui para a desmobilização da classe e para o aprofundamento da alienação.

Essa construção ideológica findou por transformar muitos de seus quadros dirigentes em agentes cínicos de um taticismo que passou a ser a “verdade possível” para que se pudesse, segundo as diretrizes petistas, “avançar” nas políticas públicas – como por exemplo, as representadas pelo tímido Bolsa Família e pelo FIES, em vez de investir maciçamente na educação pública. Essa postura político-ideológica custou muito caro ao PT, pois degradou um significativo contingente dos quadros partidários, que findaram cooptados pelo projeto de conciliação de classes e pelo modus operandi burguês. Essa degradação corrosiva atingiu, também, dirigentes experimentados na atuação política, mas que por suas fragilidades ideológicas e morais, por suas posturas oportunistas se sujeitaram à chantagem do grupo da Lava Jato, e transformaram-se em delatores e acusadores de Lula, Dilma e outros dirigentes expressivos do PT, mesmo que sem provas conclusivas e/ou concretas, “apenas” confessando o que ouviram falar ou o que disseram ter visto, num arremedo tragicômico dos que delataram seus camaradas na tortura, durante a ditadura. No caso emblemático de Antonio Palocci, a farsa evidente, a degradação ético-moral de um ex-quadro partidário, expressa, no âmbito da materialidade concreta, o grau de putrefação que atingiu a estrutura orgânica petista.

Mais ainda, o PT, ao construir uma política em aliança com uma burguesia de extração colonial, como é a brasileira, acreditou que o pacto seria cumprido “eticamente”, por uma burguesia historicamente golpista e antidemocrática. Na primeira onda dura da crise econômica, essa burguesia desfez o pacto e marchou contra seu antigo aliado, agora, jurado de morte.

No entanto, tudo indica, que as diversas lições que esse processo nos dá, estão sendo desdenhadas tanto pelo lulismo como pelo núcleo dirigente petista. Em meio a um ataque feroz da burguesia autocrática, Lula acena para o “mais do mesmo”, ainda que a estrutura jurídica da autocracia burguesa teste emblemática e plenamente que não precisa mais desse pacto (sinistro), pois agora, com maioria no parlamento, avança e estende suas garras livres para destroçar as parcas conquistas dos trabalhadores.

De modo que o verdadeiro julgamento de Lula, do lulismo e do PT não será realizado pela justiça burguesa, corrupta e corruptora, na lógica de uma instituição garantidora da ordem capitalista. O PT, em seu conjunto, inclusive Lula, serão efetivamente julgados pela Classe trabalhadora, no momento justo, quando o avanço das lutas e da consciência de classe proporcionarem o salto necessário para o aprofundamento da luta de classes e para a acumulação política e ideológica, que permita a construção de um projeto de governo que aponte a perspectiva do socialismo.

O desafio está lançado. Ou muda-se o projeto político-econômico para os trabalhadores e para as massas oprimidas, ou a ofensiva liberal será mais intensa e destrutiva que o furacão Irma.

Hic Rhodus, hic salta (Esopo)

Notas

1 Apesar de ter em suas fileiras intelectuais como Florestan Fernandes, Chico de Oliveira, Carlos Nelson Coutinho, Marilena Chaui, entre outros, o PT nunca construiu uma “Teoria do Brasil”, como bem ressaltou Lagoa, “[…] o partido tornou-se incapaz de elaborar um programa político que fosse calcado em uma análise concreta da realidade que estabelecesse as tarefas políticas necessárias frente aos problemas nacionais[…]” Maria Izabel Lagoa, Considerações acerca da Crise Política do Partido dos Trabalhadores. Em: revista Lutas Sociais, 15/16, SP, Neils, 2006, p. 166.
2 Veja-se idem, p. 161 e s.
3 Veja-se Rudá Ricci, Lulismo: Três Discursos e um Estilo. Em revista Lutas Sociais, cit., p. 172 e s.

***

Antonio Carlos Mazzeo possui graduação em Ciências Políticas e Sociais, mestrado em Sociologia pela Universidade de São Paulo e doutorado em História Econômica pela Universidade de São Paulo. Pós-doutorado em filosofia política pela Università Degli Studi Roma-Tre e Livre-Docente em ciência política pela Universidade Estadual Paulista. É professor livre-docente junto aos Programas de Pós-Graduação: História Econômica da FFLCH – USP e Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Publicou, entre outros: Estado e burguesia no Brasil: origens da autocracia burguesa (Boitempo, 2015), O Voo de Minerva: a construção da política, do igualitarismo e da democracia no Ocidente Antigo (Boitempo, 2009) e Sinfonia inacabada: a política dos comunistas no Brasil (Boitempo, 1999). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

6 comentários em O outro lado do espelho: mirar a esquerda e repensar o futuro

  1. Um artigo feroz e necessário, mas me deixem fazer uma obervação, Lula nunca foi um socialista, no tempo que foi operário, este não tinha a tradição do operário revolucionário.
    Lula e o Partido dos Trabalhadores sempre foram reformistas, pelo menos na teoria, a critica de acusa-los de fortalecer o capitalismo e a burguesia não é valida porque o mesmo nunca negou o que era. O lulismo sempre foi distribuição de riqueza nos moldes do sistema financeiro vigente, tentou ao meu ver ser social-democrata ao mesmo tempo que mantinha a politica neoliberal, deu no que deu.
    No mais, muito bom artigo mostrando em como o capitalismo consegue moldar até mesmo os mais puritanos partidos e sujeitos de esquerda

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  2. Rafael Rodas // 19/09/2017 às 2:28 // Responder

    Artigo muito lúcido. Poderia comentar sobre a falta de investimento na educação básica (proposta de federalização do ensino básico), a falta de formação política daqueles beneficiados pelos programas sociais e cotas, o apego exagerado ao poder e às vantagens dele decorrentes, a crença na continuidade do megaciclo das commodities. São algumas razões que tiveram como consequência o que foi bem relatado pelo autor.

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  3. Antonio Elias Sobrinho // 19/09/2017 às 12:33 // Responder

    Esse artigo segue a tendência majoritária dos analistas acadêmicos que é a de atribuir ao PT uma origem socialista, representativo da classe trabalhadora e que depois, em função da influência de lideranças moderadas, como Lula e Zé Dirceu, passaram para uma política pragmática com o objetivo de assumir o poder e, para isso, corromperam o projeto original. Em primeiro lugar é bom mencionar que aquela confusão de tendências, do começo do partido não apontava pra socialismo nenhum e nem também representava a classe trabalhadora. No máximo, representava aqueles trabalhadores dos setores mais avançados da grande indústria. Segundo, quando na década de 1990, fortaleceram aquela tendência chamada Articulação, que concentrava as grandes lideranças, tendo Lula na cabeça, já era com a intenção de enquadrar as tendências e formular uma proposta que fosse viável não para transformar a realidade da política mas para entrar e conquistar os espaços utilizando os mesmos métodos tradicionais e, a partir daí, fazer algumas reformas. Aí, ao entrar por esse caminho, o esquema funcionou enquanto bons ventos da economia foram favoráveis, porém, quando a crise se abateu pesado, o PT deixou de ser útil e foi escorraçado. Agora, seu futuro é uma incógnita.

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  4. Se o PT não teve uma origem socialista baseada num movimento de classe, então que? Acho que você esqueceu que se as reivindicações não são cumpridas nos gabinetes políticos, o povo, formado por grupos e classes representativas, vai às ruas, e isto já é uma atitude socialista. Se a “confusão de tendências” no início do partido não representava a classe trabalhadora, que teria podido então representar a classe? Não esqueça que quando usamos o termo “classe”, ele já tem um sentido socialista. Acho que devemos acabar com formas velhas e saturadas de ver o socialismo sob ainda os moldes do século passado. O Brasil tem a sua história própria e daí as suas vias de resolver seus problemas de classe, as quais não são muitas vezes nada limpas, infelizmente. Por outro lado como esperar que no Brasil um partido, mesmo de caráter socialista, resolva todos os problemas, se no meio político reina interesse corruptos – individualistas e indiferentes às necessidades do povo? As soluções a este dilema existem, mas impraticáveis por força das pressões individualistas. O capitalismo é muito forte, o mundo é capitalista, temos o mecanismo capitalista programado em nossas cabeças e desconstruir isto não é fácil, a não ser que, acho, as tendências anti-capitalistas se reunam em direção a uma nova consciência porque nos dias atuais não é mais possível pensar num socialismo referido a uma classe, mas sim adaptá-lo a uma soma de tendências que luta na sociedade por mais justiça: negros, mulheres, homossexuais, transsexuais, estudantes, índios, etc., etc. Se o PT não considera estes grupos diferenciados, mas que apontam novas soluções sociais, concordo com você, o futuro do PT é uma incógnita. Parabéns pelo comentário.

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  5. Antonio Tadeu Meneses // 26/09/2017 às 13:32 // Responder

    O pluralismo ideológico no partido é o caminho do liquidacionismo. É um processo de degeneração que transforma partidos revolucionários em partidos reformistas, que se contentam com o praticismo e sua adaptação dentro do quadro da sociedade capitalista.
    A história confirmou reiterada vezes o grande papel que desempenha uma teoria revolucionária no êxito de um partido. É típico do pseudoesquerdismo, do passado e do presente, o desprezo à teoria revolucionária. Muitas gerações de grupos e correntes deste tipo de esquerda sempre repetem a mesma coisa: “prescindiremos da teoria, porque não necessitamos dela para nada”. Consideram que para negar a ordem das coisas e superar a sociedade capitalista é suficiente somente o sentimento de mudança.
    Para estes “sonhadores” nem a teoria e nem a estratégia são necessárias para nada. A tática, ao fim e ao cabo tem que ser improvisada, o importante é destruir tudo que se possa destruir. Porém um partido que pensa assim, acaba por pagar caro e seus êxitos são efêmeros.

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