Mary Wollstonecraft e as origens do feminismo

wollstonecraft2[Mary Wollstonecraft, em retrato de John Opie, 1797]

Por Luis Felipe Miguel.*

Mary Wollstonecraft (1759-1797), é geralmente considerada – por boas razões – a fundadora do feminismo. Seu pensamento marca a primeira elaboração sistemática de um entendimento das raízes da opressão sofrida pelas mulheres.

Sua obra mais importante, Reivindicação dos direitos das mulheres, foi publicada em 1792 e sofreu, também, o influxo da Revolução Francesa.1 A autora havia publicado, dois anos antes, Reivindicação dos direitos do homem, como resposta às Considerações sobre a revolução em França, obra antirrevolucionária de Edmund Burke. Portanto, foi também a promessa de emancipação dos homens, pelos republicanos franceses, que levou Wollstonecraft a sistematizar suas reflexões sobre a necessidade de e os obstáculos para a emancipação das mulheres. “O direito divino dos maridos, tal como o direito divino dos reis, pode, espera-se, nesta era esclarecida, ser contestado sem perigo.”2

O programa dessa primeira fase do feminismo tinha como eixos a educação das mulheres, o direito ao voto e a igualdade no casamento, em particular o direito das mulheres casadas a dispor de suas propriedades. Ao colocar, com clareza exemplar, o problema em termos de direitos, Wollstonecraft promove uma inflexão na direção da construção de uma teoria política feminista. Ela é também uma autora singular pela maneira como, ao tratar dessas questões (com o foco voltado particularmente para a primeira delas), combina a adesão (quase inevitável) às ideias dominantes da época com elementos de inusual radicalidade.

É assim, por exemplo, que a demanda por educação tem por objetivo exclusivo permitir o livre desenvolvimento da mulher como ser racional, fortalecendo a virtude por meio do exercício da razão e tornando-a plenamente independente.3 Não há nenhuma concessão ao argumento da “produção de uma companheira melhor para o homem”, que, no entanto, foi comum no feminismo do século XIX. Um autor como John Stuart Mill (1806-1873), a despeito de sua defesa veemente da igualdade de direitos, continuava julgando que

a maior ocupação da mulher deve ser embelezar a vida: cultivar, em seu próprio benefício e daqueles que a rodeiam, todas as suas faculdades de mente, alma e corpo.4

Nada mais longe da posição de Wollstonecraft.

O chamado “feminismo liberal”, que nasceu no século XVIII, desenvolveu-se ao longo do século XIX e teve exatamente Wollstonecraft e Stuart Mill como principais expoentes, é acusado com frequência de possuir um marcado viés de classe. De fato, Stuart Mill afirmava, por exemplo, que cuidar da casa não é uma verdadeira ocupação, pois “não significa nada mais do que comprovar que os criados cumpram seu dever”.5 Mas é necessário cuidado antes de estender esse veredito a todo o feminismo anterior ao século XX, sem o matizar. Um paralelo entre a ausência de representação política das mulheres e dos operários já aparece na própria Wollstonecraft.6 Nos Estados Unidos, líderes sufragistas como Elizabeth Cady Stanton (1815-1902) e Susan B. Anthony (1820-1906) eram também destacadas advogadas da abolição da escravatura.7 O paralelo entre a escravidão negra e a escravidão feminina era comum entre escritoras dos dois lados do Atlântico, sendo desenvolvido, por exemplo, por Harriet Taylor Mill (1807-1858), em seu libelo pelo voto das mulheres.8

É evidente que as determinações sobrepostas das desigualdades de gênero, classe e raça não aparecem no feminismo do século XVIII e XIX da forma como foram desenvolvidas por parte das feministas posteriores. O próprio paralelo entre a situação das mulheres e dos escravos revela que as escravas não participavam do coletivo em nome do qual as sufragistas falavam.9 Mas uma feminista de trajetória invulgar como Sojourner Truth (c. 1797-1883), que foi escrava e empregada doméstica antes de se tornar oradora política, mostra que, se não era produzida uma reflexão aprofundada, ao menos havia, em parte do movimento de mulheres da época, uma sensibilidade para entender a condição feminina de forma bem mais complexa. Ela observou, em seu famoso discurso “Ain’t I a woman?”:

Aquele homem diz que as mulheres precisam ser ajudadas a entrar em carruagens, erguidas para passar sobre valas e receber os melhores lugares em todas as partes. Ninguém nunca me ajudou a entrar em carruagens, a passar por cima de poças de lama nem me deu qualquer bom lugar! E eu não sou uma mulher? Olhem pra mim! Olhem pro meu braço! Tenho arado e plantado e recolhido em celeiros, e nenhum homem poderia me liderar! E eu não sou uma mulher? Posso trabalhar tanto quanto e comer tanto quanto um homem – quando consigo o que comer – e aguentar o chicote também! E eu não sou uma mulher? Dei à luz treze filhos e vi a grande maioria ser vendida para a escravidão, e quando eu chorei com minha dor de mãe, ninguém, exceto Jesus, me ouviu! E eu não sou uma mulher?10

Por outro lado, o século XIX viu também o surgimento de um feminismo socialista que, por conta da radicalidade de suas propostas, ficou à margem das correntes dominantes do sufragismo. Flora Tristan (1803-1844), figura pública e escritora influente em sua época, fez da situação da mulher trabalhadora um dos eixos centrais de seu tratado socialista utópico sobre a união operária, vinculando opressão de classe e de gênero.11 Já os escritos de Marx e Engels deixaram um legado ambíguo. Por um lado, fizeram a defesa ardorosa da igualdade entre homens e mulheres, que, com eles, tornou-se parte inextricável do projeto socialista. Por outro, tenderam a ler a dominação masculina como um subproduto da dominação burguesa, anulando a especificidade das questões de gênero que o feminismo sempre buscou destacar. Ainda assim, é impossível negar o impacto que uma obra como A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Engels, teve para vincular a organização da esfera doméstica à sociedade mais ampla.12

Na passagem do século XIX para o século XX, um corpo plural de pensamento feminista socialista se estabeleceu, incluindo bolcheviques como Clara Zetkin (1857-1933) e Alexandra Kollontai (1872-1952) ou anarquistas como Emma Goldman (1869-1940).

***

Para um estudo aprofundado sobre o pensamento feminista socialista do início da virada do século, recomendamos o fundamental Mulher, Estado e a Revolução: política da família Soviética e da vida social entre 1917 e 1936, da historiadora americana Wendy Goldman. Leia também, no Blog da BoitempoMarx contra a opressão das mulheres“, em que Michael Löwy apresenta uma pequena e quase esquecida obra de Marx que “constitui um protesto apaixonado contra o patriarcado, a sujeição das mulheres – incluídas as “burguesas” – e a natureza opressiva da família burguesa.”

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* Este texto integra o livro Feminismo e política: uma introdução, de Luis Felipe Miguel e Flávia Biroli, que reúne em 10 capítulos esquemáticos as principais contribuições da teoria política feminista produzida a partir dos anos 1980 e apresentam os termos em que os debates se colocam dentro do próprio feminismo, mapeando as posições das autoras e correntes atuais.

Confira o Dossiê FEMINISMO E POLÍTICA, no Blog da Boitempo, com artigos, vídeos, resenhas e indicações de leitura de Maria Rita KehlLaerte CoutinhoMichael LöwyLudmila Costhek AbílioFlávia BiroliMaria Lygia Quartim de Moraes, Lincoln SeccoUrariano MotaLuis Felipe MiguelIzaías Almada, Ursula Huws, entre outros!

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NOTAS

1. Na primeira metade do século XIX, uma “tradução” de Reivindicação dos direitos da mulher de Wollstonecraft, tão livre que na verdade deve ser considerada uma obra autoral nova, marca o início da reflexão feminista no Brasil. Nas mãos de Nísia Floresta (1809-1885), a reivindicação de igualdade tornou-se a afirmação da superioridade feminina, a ponto, por exemplo, do serviço militar exclusivamente masculino ser defendido com base no maior valor da vida das mulheres: “os marinheiros durante uma tempestade lançam ao mar as cargas […] menos úteis ao navio”. Nísia Floresta, Direitos das mulheres e injustiça dos homens (São Paulo, Cortez, 1989), p. 86-7. A edição original é de 1832.
2. Mary Wollstonecraft, A vindication of the rights of woman: with strictures on political and moral subjects (Nova York, The Modern Library, 2001), p. 24 (ênfase suprimida). Edição brasileira: Reivindicação dos direitos da mulher: um grito feminista do século XVIII (Boitempo, no prelo). A edição original é de 1792.
3. Ibidem, p. 14.
4. John Stuart Mill, “Primeros ensayos sobre matrimonio y divorcio: ensayo de John Stuart Mill”, em John Stuart Mill e Harriet Taylor Mill, Ensayos sobre la igualdad sexual (Madri, Cátedra; Valência, Universitat de València, 2001), p. 106. O ensaio é do início da década de 1830.
5. Ibidem, p. 105.
6. Mary Wollstonecraft, A vindication of the rights of woman, cit., p. 148.
7. Ainda que Stanton, por exemplo, não deixasse de afirmar a superioridade das mulheres (anglo-saxãs) diante das “ordens inferiores de chineses, africanos, alemães e irlandeses” (citado em Elizabeth V. Spelman, Inessential woman: problems of exclusion in feminist thought, Boston, Beacon, 1988, p. 8).
8. Harriet Taylor Mill, “La concesión del derecho de voto a las mujeres”, em John Stuart Mill e Harriet Taylor Mill, Ensayos sobre la igualdad sexual, cit., p. 122. O ensaio é de 1851.
9. Elisabeth V. Spelman, Inessential woman, cit.
10. Sojourner Truth, “Ain’t I a woman?” (1851), disponível em: <http://www.fordham.edu/halsall/mod/sojtruth-woman.asp&gt;; acessado em: 19 set. 2012.
11. Flora Tristan, The workers’ union (Urbana, University of Illinois Press, 2008). A edição original é de 1843.
12. Friedrich Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1985). A edição original é de 1884.

***

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde editama Revista Brasileira de Ciência Política e coordenam o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades – Demodê, que mantém o Blog do Demodê, onde escreve regularmente. Escreveu, em conjunto com Flávia Biroli, Feminismo e política: uma introdução (Boitempo, 2014), entre outros. Ambos colaboram com o Blog da Boitempo mensalmente às sextas.

6 comentários em Mary Wollstonecraft e as origens do feminismo

  1. Republicou isso em MariaLDario's Bloge comentado:
    Obrigada ao Blog da Boitempo pela publicação!

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  2. Valneida Viana // 20/04/2016 às 13:21 // Resposta

    Só quero dizer que tenho uma grande admiração e orgulho de vocês. Meu profundo respeito e sincera gratidão.

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  3. Afinal, qual é a posição do autor em relação ao feminismo?

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5 Trackbacks / Pingbacks

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