“Eu sou estúpido e maldoso” | Žižek esclarece sua posição sobre o “Je suis Charlie”

Zizek esclarece hebdoPor Slavoj Žižek.

No rescaldo dos atentados de Paris, o filósofo esloveno Slavoj Žižek escreveu, no calor da hora, um artigo de intervenção no debate sobre o Charlie Hebdo. Rejeitando o diagnóstico de um impasse civilizacional entre ocidente e oriente, ele insistia que o fenômeno tinha de ser analisado a partir de um mesmo chão comum e recuperava a tese frankfurtiana de que o fascismo fundamentalista seria uma resposta – ainda que falsa e mistificadora – a uma fratura real no paradigma liberal. Republicado na Folha de S.Paulo, o texto teve uma repercussão em larga medida pautada pelo contraponto encomendado a João Pereira Coutinho e, como apontou Christian Dunker em sua intervenção no debate, por uma estigmatização da posição de esquerda que acabou por não registrar o essencial da contribuição de Žižek. 

Neste novo artigo enviado pelo autor ao Blog da Boitempo, Žižek esmiúça sua posição mais a fundo, repassando (agora não mais no calor da hora) os principais atores e elementos envolvidos no fenômeno, mapeando os mecanismos ideológicos em jogo nas suas interpretações. Para ele, os ataques terroristas conseguiram o impossível: reconciliar a geração de 1968 com seu arqui-inimigo. O filósofo enfrenta ainda a difícil questão dos limites do humor e do “politicamente incorreto”, e mostra como é justamente neste debate que aparece a zona cinzenta que funda os impasses da modernidade capitalista. Para ele não devemos condenar o humor do Charlie Hebdo por ter ido longe demais, muito pelo contrário, “o problema é que ele se encaixava perfeitamente no funcionamento cínico hegemônico da ideologia em nossas sociedades. Ele não representava ameaça alguma àqueles no poder; ele meramente tornava seu exercício do poder mais tolerável.”

Contra as acusações de estar pregando o retorno a um novo fundamentalismo no ocidente, Žižek insiste enfim que “alegar que o anti-semitismo articula, de forma deslocada, uma resistência ao capitalismo de forma alguma o justifica” e que procurar compreender o mal, de forma alguma significa relativizá-lo, nem “transformar opressor em vítima”, e conclui com a triste constatação de que é preciso abandonar a ideia de que há algo de emancipatório em experiências extremas, que o terror não nos permite abrir os olhos à radical verdade da situação. A tradução é de Artur Renzo, confira:

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O OBSCENO DA IDENTIFICAÇÃO

A patética formula de identificação “Eu sou …” (ou “Somos todos …”) só funciona no interior de certos limites, para além dos quais converte-se em pura obscenidade. Podemos até proclamar “Je suis Charlie”, mas as coisas já começam a ruir com exemplos como “Somos todos de Sarajevo!” ou “Estamos todos em Gaza!”. O fato brutal de que não estamos de forma alguma em Sarajevo nem em Gaza é forte demais para ser compensado por uma patética identificação dessas. E a identificação se torna plenamente obscena no caso dos Muselmänner (o termo alemão para “muçulmanos”, usado para descrever os prisioneiros mais miseráveis e brutalizados de Auschwitz). É completamente inconcebível dizer: “Somos todos Muselmäner!” Em Auschwitz, a desumanização das vítimas foi tão longe que se identificar com elas em qualquer forma significativa é impossível. (E na direção oposta, seria também ridículo declarar solidariedade com as vítimas dos atentados de 11 de setembro de 2001 alegando que “Somos todos Nova Iorquinos!” Milhões diriam: “Sim, adoraríamos ser Nova Iorquinos, nos dê um visto norte-americano então!”)

O mesmo vale para os assassinatos do mês passado: era relativamente fácil se identificar com os jornalistas do Charlie Hebdo, mas teria sido muito mais difícil anunciar: “Somos todos Baga!” Para quem não ficou sabendo: Baga é uma pequena cidadezinha no nordeste da Nigéria onde Boko Haram executou duas mil pessoas. O nome “Boko Haram” pode ser traduzido meio ao pé da letra como “Educação ocidental é proibida” (mais especialmente educação das mulheres). Como dar conta do estranho fato da existência de um movimento sociopolítico maciço cuja principal pauta programática é a regulação hierárquica da relação entre os sexos? O enigma é o seguinte: por que é que esses muçulmanos, que estão sem dúvida expostos à exploração, dominação e outros aspectos destrutivos e humilhantes do colonialismo, miram sua reação na melhor parte (para nós, ao menos) do legado ocidental, nosso igualitarismo e nossas liberdades pessoais, incluindo a liberdade de tirar sarro de todas autoridades? A resposta óbvia é que seu alvo na verdade é muito bem escolhido: o oeste liberal é tão insuportável porque ele não só pratica a exploração e a violenta dominação, como ainda por cima apresenta essa realidade brutal à guisa de seu oposto: liberdade, igualdade e democracia.

ESPETÁCULO DE HIPOCRISIA

Mas voltemos ao espetáculo dos grande nomes políticos do mundo tudo de mãos dadas em solidariedade às vitimas das chacinas de Paris, de Cameron a Lavrov, de Netanyahu a Abbas: se alguma vez houve imagem de falsidade hipócrita, foi essa. Quando a procissão passava sob a janela de um cidadão anônimo, ele colocou pra tocar num alto falante a “Ode à alegria” de Beethoven, o hino não-oficial da União Europeia, acrescentando um tom de kitsch político ao repugnante espetáculo encenado pelos maiores responsáveis pela bagunça em que estamos hoje. E o que dizer do Ministro de Relações Exteriores Sergei Lavrov se juntando à fila de dignitários se manifestando diante da morte de jornalistas? Se ele se atrevesse a participar de uma tal marcha em Moscou (onde dezenas de jornalistas foram assassinados) ele seria imediatamente reprimido! E que tal a obscenidade do Netanyahu se espremendo para aparecer na frente da manifestação, enquanto que em Israel a mera menção pública a al-Nakbah (a “catástrofe” de 1948 para os palestinos) é proibida? Cadê a tolerância para com a dor e o sofrimento do outro?

E o espetáculo foi literalmente encenado: as fotos expostas na mídia davam a impressão de que a linha de líderes políticos estava na frente de uma grande multidão que marchava pela avenida – dando assim a impressão de uma suposta solidariedade e união com o povo… Só que outra foto foi tirada mais de longe pegando a cena toda e mostrou claramente que atrás dos políticos só havia cento e poucas pessoas e muito espaço vazio, patrulhado de todos os lados pela polícia. O verdadeiro gesto digno do Charlie Hebdo seria ter publicado na sua capa uma caricatura grande e de brutal mal gosto tirando sarro desse episódio todo.

Embora eu seja um ateu resoluto, acredito que essa obscenidade foi demais até para Deus, que se viu obrigado a intervir com uma obscenidade divina digna do espírito do Charlie Hebdo: enquanto o presidente François Hollande abraçava Patrick Pelloux, o médico e colunista do Charlie Hebdo, na frente do escritório do semanário, um passarinho cagou no ombro do presidente francês! Os funcionários do jornal, ao fundo, se esforçavam para segurar o riso… Relembre, nesse contexto, a imagem cristã da uma pomba pousando para entregar uma mensagem divina… além disso, em alguns países, quando um pombo caga na sua cabeça, é sinal de boa sorte!

SOMOS TODOS POLICIAIS

Há ainda um elemento dos recentes acontecimentos na França que parece ter passado desapercebido: além dos cartazes e das faixas dizendo “Je suis Charlie” havia outras que diziam “Je suis Flic” [Eu sou policial]. A grande unidade nacional celebrada e encenada em grandes mobilizações populares não era apenas a unidade das pessoas, atravessando grupos étnicos, classes sociais e religiões, mas também a unificação das pessoas às forças de controle e ordem.

Até então, a França era o único país no ocidente em que (até onde sei) os policiais eram um constante foco de piadas brutais os retratando como burros e corruptos (como era comum nos países ex-comunistas). Agora, no rescaldo da chacina do Charlie Hebdo, a polícia é aplaudida e elogiada – não só a polícia mas também o CRS (um dos slogans de maio de 1968 era inclusive “CRS-SS”), o serviço secreto e todo o aparato securitário estatal. Não há lugar para Snowden ou Manning nesse novo universo. “Ressentimento contra a polícia não é mais o que era, exceto entre a juventude pobre de origens árabes ou africanas”, escreveu Jacques-Alain Miller no mês passado. “Algo sem dúvida jamais visto na história da França”.1

Em resumo, os ataques terroristas conseguiram o impossível: reconciliar a geração de 1968 com seu arqui-inimigo em algo como uma versão popular francesa do Patriot Act, com pessoas se voluntariando para serem vigiadas.

A CONTRADIÇÃO IMANENTE DO POLITICAMENTE CORRETO

Esses momentos extáticos das manifestações de Paris foram um triunfo da ideologia: eles mobilizaram as pessoas contra um inimigo cuja fascinante presença momentaneamente oblitera todos os antagonismos. Ao publico restou uma escolha deprimente: ou você está com os Flics [policiais], ou está com os terroristas. Mas como é que o humor irreverente do Charlie Hebdo se encaixa aqui nesta escolha? Para responder a esta questão temos que ter em mente a interconexão entre o Decálogo e os direitos humanos como seu obverso moderno: que o que a experiência de nossa sociedade liberal-permissiva demonstra é que os direitos humanos são no final das contas os direitos de violar os dez mandamentos.2

O direito à privacidade é um direito a cometer adultério. O direito à propriedade privada é um direito de roubar (de explorar os outros). O direito de liberdade de expressão é um direito de dar falso testemunho. O direito de portar armas é um direito de matar. O direito à liberdade de culto religioso é um direito de adorar falsos deuses. É claro, os direitos humanos não toleram diretamente a violação dos Mandamentos, mas eles mantém aberta uma zona cinzenta marginal que deve estar fora do alcance do poder (religioso ou secular). Nessa zona cinzenta, eu posso violar os mandamentos, e se o poder se debruçar sobre ela e me pegar no flagra, posso gritar: “Assalto aos meus direitos humanos básicos!” A questão é que para o poder é estruturalmente impossível traçar uma linha clara de separação para prevenir só o “uso indevido” dos direitos humanos sem infringir no seu uso adequado, isto é, o uso que não viola os mandamentos.

É nessa zona cinzenta que pertence o humor brutal do Charlie Hebdo. Lembremos como o semanário começou em 1970 como um sucessor do Hara-Kiri, um periódico banido por ter tirado sarro da morte do General de Gaulle. Depois de receberem uma carta de leitor acusando o Hara-Kiri de ser “estúpido e maldoso” (“bête et méchant”), a frase foi adotada como o slogan oficial do jornal e passou a permear a linguagem cotidiana: “Hara-Kiri: journal bête et méchant”. Essa é a zona cinzenta do Charlie Hebdo: não sátira benevolente mas sim, muito literalmente, estúpida e maldosa, de forma que seria mais apropriado que os milhares marchando em Paris proclamassem “Je suis bête et méchant” ao invés do simples e piegas “Je suis Charlie”. E de fato, as manifestações midiáticas de solidariedade em Paris foram efetivamente “bête et méchant”.

Por mais refrescante que podia ser em algumas situações, a atitude “bête et méchant” do Charlie Hebdo é condicionada pelo fato de que o riso não é por si só liberador, mas profundamente ambíguo. Lembremos daquele famigerado contraste que a imagem difundida da Grécia Antiga nos trás: entre os Espartanos solenes e aristocráticos e os Atenienses jocosos e democráticos. O que escapa a essa imagem é que os espartanos, que se orgulhavam de sua severidade, punham o riso no centro de sua ideologia e prática: eles reconheciam o riso comunal como um poder que ajudava a aumentar a glória do Estado. (Os atenienses, em contraste, legalmente restringiam tal riso brutal e excessivo como uma ameaça ao espírito do respeitável diálogo onde nenhuma humilhação do oponente deve ser permitida). O riso espartano – a zombaria brutal de um inimigo ou escravo humilhado, tirando sarro de seu medo e dor a partir de uma posição de poder – encontrou um eco nos discursos de Stalin, quando ele escarnecia do pânico e da confusão dos “traidores”, e persiste ainda hoje, no humor dos ditos “politicamente incorretos”. (Aliás, esse riso deve ser distinguido ainda de outro tipo de riso daqueles em poder, a derrisão cínica que mostra que eles próprios não levam sua ideologia a sério).

O problema com o humor do Charlie Hebdo não é que ele tenha ido longe demais em sua irreverência, mas que era um excesso inócuo que se encaixava perfeitamente no funcionamento cínico hegemônico da ideologia em nossas sociedades. Ele não representava ameaça alguma àqueles no poder; ele meramente tornava seu exercício do poder mais tolerável.

É nesse sentido que devemos abordar o delicado tema dos diferentes modos de vida. Nas sociedades liberais-seculares ocidentais, o poder do Estado protege as liberdades públicas mas intervém no espaço privado – quando há uma suspeita de abuso infantil, por exemplo. Mas como esclarece Talal Asad3, tais “intrusões no espaço doméstico, em domínios ‘privados’, não são permitidas pela Lei Islâmica, embora a conformidade no comportamento “público” pode até ser mais rigorosa. […] Para a comunidade, o que importa é a prática social do sujeito muçulmano – incluindo manifestações verbais – não seus pensamentos internos, quaisquer que possam ser.” O Al corão diz: “A verdade emana do vosso Senhor; assim, pois, que creia quem desejar, e descreia quem quiser.” Mas, nas palavras de Asad, esse “direito de pensar o que for que se quiser não […] inclui o direito de expressar suas crenças religiosas ou morais publicamente com a intenção de converter pessoas a um ‘falso comprometimento’”. É por isso que, para os muçulmanos, “é impossível permanecer em silêncio quando confrontados com a blasfêmia […] sua reação é tão acalorada pois para eles, a blasfêmia não é nem ‘liberdade de expressão’ nem o desafio representado por uma nova verdade mas algo que busca perturbar uma relação de vida”. Do ponto de vista liberal ocidental, há um problema com ambos os termos desse nem/nem: e se a liberdade de expressão passasse a incluir também atos que podem perturbar uma relação viva? E se uma “nova verdade” tiver o mesmo efeito disruptivo? Uma decodificação científica do universo não tende a perturbar uma “relação de vida” tradicional? E se uma nova consciência ética fizer com que uma relação de vida existente apareça injusta?

Se, para os muçulmanos, não é somente “impossível permanecer em silêncio diante da blasfêmia” como é também impossível permanecer inativo – e o impulso de fazer algo pode incluir aí atos violentos e assassinos – então a primeira coisa que devemos fazer é localizar essa atitude em seu contexto contemporâneo. O mesmo vale para o movimento cristão anti-aborto, que também acha “impossível permanecer em silêncio” diante das mortes de centenas de milhares de fetos todo dia, uma chacina que eles comparam ao Holocausto. É aqui que começa a tolerância: a tolerância ao que sentimos como impossível-de-suportar (“l’impossible-a-supporter”, na formulação de Lacan), e nesse ponto o “politicamente correto” da esquerda liberal se aproxima do fundamentalismo religioso com sua própria lista de “blasfêmias” diante das quais é “impossível permanecer em silêncio”: machismo, racismo e outras formas de intolerância. O que aconteceria se um jornal abertamente zombasse do Holocausto?

É fácil tirar sarro de todas as regras muçulmanas para cada detalhe da vida cotidiana (uma característica que, aliás, compartilham com o judaísmo), mas e da lista “politicamente correta” de todos aqueles jogos de “sedução” (sic.) que podem ser considerados assédio verbal, das piadas que são consideradas racistas ou machistas – ou ainda “especiestas” (que tiram sarro de outras espécies de animais que não a humana)? O que interessa ressaltar aqui é que há uma contradição imanente na posição liberal de esquerda: a posição libertária de ironia universal e zombaria, tirando sarro de todas as autoridades, espirituais e políticas (a atitude personificada no Charlie Hebdo), tende a deslizar em seu oposto, uma sensibilidade aguçada à dor e à humilhação do outro.

RESPOSTAS À ESQUERDA

É por conta dessa contradição que boa parte das reações de esquerda às chacinas de paris seguiram um deplorável padrão previsível: eles corretamente suspeitaram que algo estava profundamente errado com o espetáculo do consenso e da solidariedade liberal para com as vítimas, mas tomaram a direção errada quando se permitiram condenar as chacinas só depois de longas e enfadonhas qualificações do tipo “também somos todos culpados”. Esse medo de que ao condenar abertamente a chacina estaríamos de alguma forma alimentando a islamofobia é politicamente e eticamente errado. Não há nada de islamofobico em condenar as chacinas de paris, da mesma forma em que não há nada de anti-semita em condenar o tratamento de Israel aos palestinos.

Quanto à noção de que devemos contextualizar e “compreender” as chacinas de Paris, ela pode também ser uma completa armadilha. Talvez um dos melhores exemplos de burrice mascarada de profunda sabedoria seja o ditado: “Um inimigo é alguém cuja história você ainda não conhece”.4 Não há exemplo melhor dessa tese que Frankenstein, de Mary Shelley. Shelley faz algo que um conservador jamais teria feito. Em uma parte central de seu livro, ela permite que o monstro fale por conta própria e nos conte a história a partir de sua perspectiva. Essa escolha de Shelley expressa, em seu nível mais radical, a atitude liberal diante da liberdade de expressão: o ponto de vista de todos deve ser ouvido. Em Frankenstein, o monstro não é um terrível objeto que ninguém ousa confrontar; ele está plenamente dotado de subjetividade. Shelley mergulha na sua mente e pergunta como é ser rotulado, definido, oprimido, excomungado, e ainda fisicamente distorcido pela sociedade. O supremo opressor pode assim se apresentar como supremo oprimido. O monstruoso assassino se revela como sendo um individuo profundamente machucado e em apuros, ansiando por companhia e amor… Há, no entanto, um claro limite para esse procedimento: será que estamos dispostos a afirmar que Hitler só era um inimigo porque sua história não foi realmente ouvida? Para mim, muito pelo contrário, quanto mais conheço e “compreendo” Hitler, tanto mais imperdoável ele aparece a mim. Compreender o mal não é perdoá-lo, é ver como o mal funciona – com isso, o mal não é de forma alguma relativizado muito menos amenizado.

O que isso também significa é que, ao abordarmos o conflito Israel-Palestina, devemos nos ater a padrões frios e implacáveis: devemos incondicionalmente resistir à tentação de “compreender” o anti-semitismo arábico (quando realmente o encontramos) como uma reação “natural” à triste condição dos palestinos, ou de “compreender” as medidas de Israel como uma reação “natural” à memória do Holocausto. Não deve haver “compreensão” alguma para o fato de que em muitos países árabes Hitler seja considerado um herói, e que crianças na pré-escolas são incutidas de inúmeros mitos anti-semitas, dos notoriamente forjados Protocolos dos sábios de Sião até alegações ridículas de que os judeus usam o sangue das criancinhas para fins sacrificiais.

Alegar que esse anti-semitismo articula, de forma deslocada, uma resistência ao capitalismo de forma alguma o justifica (o mesmo vale para o anti-semitismo nazista: ele também extraiu sua energia da resistência anti-capitalista). O deslocamento aqui não é uma operação secundária, e sim o gesto fundamental de mistificação ideológica. O que essa alegação sim implica é a ideia de que, no longo prazo, a única forma de derrotar o anti-semitismo não é pregando a tolerância liberal, mas articular o motivo anticapitalista subjacente de uma forma direta, não deslocada.

A LIÇÃO DO TERROR

O ponto chave é portanto precisamente não interpretar ou julgar atos singulares “em conjunto”, não localizar eles no “contexto mais amplo”, mas extraí-los de sua textura histórica: as atuais ações das Forças de Defesa de Israel na Margem Oeste não devem ser julgadas contra o pano de fundo do Holocausto; a celebração que muitos árabes fazem à imagem de Hitler ou a profanação de sinagogas na França e por toda parte na Europa não devem ser julgados como reações inapropriadas porém compreensíveis ao que Israel está fazendo na Margem Oeste.

Quando qualquer protesto contra Israel é categoricamente denunciado como uma expressão de antissemitismo – isto é, quando a sombra do Holocausto é permanentemente evocada a fim de neutralizar qualquer crítica às operações militares e políticas de Israel – será que não basta insistir na diferença entre antissemitismo e crítica a políticas específicas do Estado de Israel que, nesse caso, esta profanando a memória das vítimas do Holocausto, as instrumentalizando como uma forma de legitimar medidas políticas presentes?

O que isso significa é que devemos categoricamente rejeitar a noção de qualquer ligação lógica ou política entre o Holocausto e as atuais tensões Israel-Palestina. Eles são dois fenômenos rigorosamente diferentes: um deles é parte da história europeia da resistência direitista às dinâmicas da modernização; a outra é um dos últimos capítulos na história da colonização. Em contrapartida, a difícil tarefa diante dos palestinos é aceitar que seu verdadeiro inimigo não são os judeus, mas sim os próprios regimes árabes que manipulam sua condição oprimida precisamente para prevenir essa transformação – isto é, a radicalização política em seu próprio seio.

A ascensão do antissemitismo na Europa é inegável. Quando, por exemplo, uma minoria muçulmana agressiva em Malmö molesta os judeus a ponto deles terem medo de andar nas ruas com suas vestimentas tradicionais, isto deve ser condenado claramente e sem ambiguidade. A luta contra o antissemitismo e a luta contra a islamofobia devem ser vistos como dois aspectos de uma mesma luta. E longe de configurar uma posição ingenuamente utópica, essa necessidade de uma luta comum se funda na própria natureza de vasto alcance que as consequências da opressão extrema têm.

Em uma memorável passagem de seu Still Alive, Ruth Klüger descreve uma conversa com “alguns candidatos avançados de PhD” na Alemanha:

Um deles relata como ele conheceu um velho judeu húngaro que era um sobrevivente de Auschwitz, e entretanto esse homem xingava os árabes e nutria desprezo por eles. “Como pode alguém que vem de Auschwitz falar assim?”, pergunta o alemão. Eu entro na conversa e discuto, talvez de forma mais acalorada do que fosse preciso. O que ele esperava? Auschwitz não era nenhuma instituição de instrução […] Não se aprendia nada lá, muito menos humanidade e tolerância. “Absolutamente nada de bom saiu dos campos de concentração”, eu me pego dizendo, com minha voz se elevando, e ele espera catarse, purgação, o tipo de coisa que se espera quando se vai ao teatro? Foram os estabelecimentos mais inúteis e sem sentido imagináveis.

Ou seja, o extremo horror de Auschwitz não o fez um lugar que purifica suas vítimas sobreviventes tornando as sujeitos eticamente sensíveis desprovidos de interesses egoístas tacanhos; muito pelo contrário, parte do horror de Auschwitz é que ele também desumanizou muitas de suas vítimas, as transformando em sobreviventes brutos e insensíveis e tornando impossível para elas praticarem a arte do juízo ético balanceado.

Temos que abandonar a ideia de que há algo emancipatório em experiências extremas, que elas nos permitem abrir os olhos à radical verdade da situação. Essa talvez seja a mais deprimente lição do terror.

NOTAS
1.
Ver Jacques-Alain Miller, “L’amour de la police“, bloggado em 1/13 2015 e publicado em inglês em lacan.com como “France loves its cops“.
2. Me baseio aqui no artigo de Julia Reinhard Lupton (UC Irvine) and Kenneth Reinhard (UCLA), “The Subject of Religion: Lacan and the Ten Commandments.”
3. Talad Asad, Wendy Brown, Judith Butler, Saba Mahmood, Is Critique Secular? Blasphemy, Injury, and Free Speech, Berkeley: University of California Press 2009.
4. Epígrafe de “Living Room Dialogues on the Middle East,” citado em Wendy Brown, Regulating Aversion, Princeton: Princeton University Press 2006.
5. Ruth Kluger, Still Alive: A Holocaust Girlhood Remembered, New York: The Feminist Press 2003, p. 189.

* Texto enviado pelo autor ao Blog da Boitempo. A tradução é de Artur Renzo.

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Slavoj Žižek nasceu na cidade de Liubliana, Eslovênia, em 1949. É filósofo, psicanalista e um dos principais teóricos contemporâneos. Transita por diversas áreas do conhecimento e, sob influência principalmente de Karl Marx e Jacques Lacan, efetua uma inovadora crítica cultural e política da pós-modernidade. Professor da European Graduate School e do Instituto de Sociologia da Universidade de Liubliana, Žižek preside a Society for Theoretical Psychoanalysis, de Liubliana, e é um dos diretores do centro de humanidades da University of London. Dele, a Boitempo publicou Bem-vindo ao deserto do Real! (2003), Às portas da revolução (escritos de Lenin de 1917) (2005), A visão em paralaxe (2008), Lacrimae rerum (2009), Em defesa das causas perdidasPrimeiro como tragédia, depois como farsa (ambos de 2011), Vivendo no fim dos tempos (2012), O ano em que sonhamos perigosamente (2012), Menos que nada (2013) e o mais recente Violência (2014). Colabora com o Blog da Boitempo esporadicamente.

25 Comments on “Eu sou estúpido e maldoso” | Žižek esclarece sua posição sobre o “Je suis Charlie”

  1. Manoel Ribeiro de Moraes Junior // 16/02/2015 às 20:42 // Responder

    Žižek cria uma contradição da qual não consegue se libertar ao criticar a tirania da “dialética do senhor e do escravo” presente nas relações econômicas do capital. Pois, ele não entende que os conflitos são também culturais. Pensando sob a prótese de uma subjetividade monística da modernidade, ele não entende que o enredo de Mary Shelley desafia toda a ideologia do ocidente e seus personagens, acusando-os de algozes e protagonistas desta guerra. Isso é muito mais que dar ouvidos à subjetividade de um mal personificado, no caso, dar atenção aos Perversos militantes do Estado Islâmico, etc. Afinal, eles são os Frankenstein de um ocidente em expansão e catalizador de conflitos. A cada texto, Žižek aprofunda a sua cova crítica, míope e contraditória, sobretudo, por ainda ver na história um processo civilizatório universalista, único. Ele é simplesmente uma esquerda … do Vento que empurra o Angelus Novus – cenário que tanto assustava Walter Benjamin.

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    • Andre Marquez // 22/02/2015 às 16:57 // Responder

      Moço. Muito pensamento, vai perder a sensibilidade.😦

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    • Severino de Marcélia // 24/02/2015 às 2:53 // Responder

      Manoel Júnior. Não entendi sua resposta, porém estou curioso. Por favor me explique melhor…

      O que seria uma prótese de subjetividade monística da modernidade?
      E sobre ele ver na história um processo civilizatório único? Você acha que que todo marxista “ortodoxo” vê esse tipo de processo?

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      • Manoel Ribeiro de Moraes Junior // 24/02/2015 às 17:55 // Responder

        Severino de Marcélia, a expressão monística vem de um termo construído por Leibniz: Mônada. Para mim, ŽIŽEK ainda tem uma ideia restrita de ser humano mesmo tecendo suas reflexões em diálogos com a psicanálise. Nenhum mal ou bem é plenamente sistêmico. Até mesmo Frankenstein pode revelar sua subjetividade. Era isso que Benjamin, Kakfa e outros, temiam nos movimentos totalitários – de esquerda ou de direita. Por isso, a história não é plenamente teleológica.
        Nem todo marxista compreende a humanidade numa teleologia.

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  2. Quero aqui elogiar o texto de ŽIŽEK, pela originalidade e coerência. parabéns.

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  3. Questões Relevantes // 17/02/2015 às 18:45 // Responder

    Ao contrário de Zizek, acredito que algo de útil possa derivar deste episódio. Prego um certa “intolerância à intolerância”. Deixo aqui o convite para ler e comentar: COMO A CIVILIZAÇÃO PODE VENCER A BARBÁRIE SEM RECORRER AOS MESMOS MÉTODOS?
    http://goo.gl/v6VWKO

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    • Questões Relevantes, comportamento do tipo “intolerância à intolerância” não tem nada a ver com “Como a civilização pode vencer a barbárie sem recorrer aos mesmos métodos?” De que forma você explica essa “contradição” no seu pensamento?

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      • Questões Relevantes // 01/03/2016 às 16:13 // Responder

        Aída, o artigo chama a atenção para uma questão complexa, que é como lidar com a liberdade do outro que deseja destruir a liberdade que a sociedade lhe oferece. Não há uma resposta fácil.

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        • Questões Relevantes, você se justificou e não respondeu à minha pergunta.

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          • Questões Relevantes // 02/03/2016 às 1:58 // Responder

            Leia o artigo. Acredito que ele responde.

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            • Aída Paiva // 01/11/2016 às 18:25 // Responder

              Questões Relevantes gostaria de saber porque vocês estão apoiando os “Anti-Árabes”?
              Questões, eu gostaria de saber qual a finalidade desse movimento, de algumas pessoas no mundo, contra os árabes?
              Questões, eu tenho certeza que você é inteligente, por isso não aceito que você goste do que você escreveu: “Intolerância à intolerância”. Eu tenho certeza que você não está escrevendo o que você quer, gosta, e pensa que é certo. Eu só gostaria de saber porque vocês estão apoiando esse movimento anti-árabe? Vocês estão sendo ameaçados? Vocês tem medo da fome e miséria?
              Eu tinha uns 12 anos estava na casa da minha vó em Cubatão. Assisti um filme às 3 horas da madrugada sobre um almirante que abandona um navio que ia naufragar. Você deve saber da regra de que um almirante deve ser a última pessoa a abandonar um navio naufragando. Quando o almirante acorda no porto são e salvo, olha pro mar e vê o navio que ele abandonou inteiro e todos os seus ocupantes em pé e agradecendo a Alá.

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              • Questões Relevantes // 01/11/2016 às 18:57 // Responder

                Aída, acredito que você não compreendeu o artigo. Tenho amigos muçulmanos, mas não respeito a intolerância, perincipalmente a que é exercida em nome da religião.

                O ocidente, nos últimos 60 ao 7a anos, deixou de ser uma sociedade religiosa e se tornou, principalmente, laica, com estado laico, o que significa abrigar e respeitar a diferença – e isto exige ser intolerante com a intolerância.

                Ou você concorda que ainda hoje alguém diga “morte aos infiéis”, mate homossexuais ou queira impor à sociedade a lei da Sharia?

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                • Aída Paiva // 01/11/2016 às 21:33 // Responder

                  Eu tenho certeza que existem pessoas que matam homossexuais, matam infiéis, matam de fome de raiva e de sede, e estão se organizando para impor a lei deles não sei o nome dessa lei. Essas pessoas são brasileiras e muitas delas são suas amigas.
                  Você está mal informada porque o Ocidente é cristão, espírita (França), crente (USA e Inglaterra), muçulmano (Oriente Médio), Zen (Oriente Distante), TAO (Oriente Distante), Budista (Oriente Distante), e muitas outras religiões. Graças a Deus.

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                • Aída Paiva // 01/11/2016 às 21:35 // Responder

                  Questões Relevantes, eu vou ler o artigo novamente, tá?

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                • Aída Paiva // 02/11/2016 às 2:22 // Responder

                  Questões Relevantes, li o artigo de novo e ao ler o seu comentário ao Zizek consegui entender o que você quis dizer.
                  Também acho que deve existir uma certa intolerância à intolerância, mas é necessário manter a nossa própria vida, não se machucar, evitar o confronto, evitar agressões verbais e físicas, não discutir de forma alguma com policiais e outros agentes de segurança pública: responder às perguntas sinceramente e de forma resumida e rápida, evitar falar apenas responder as perguntas, fazer o que pedem apresentar documentos, levantar braços e mãos, não resistir à prisão, seguir às ordens. Lembre: os policiais não puderam escolher no que trabalhar, os policiais tem filhos e esposas, eles são pobres, eles seguem ordens. Espere até o momento de conversar com quem manda realmente nisso que a gente está vivendo.
                  Tem muita gente que está passando a mesma vida que você está vivendo, você não está sozinha.

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                • Aída Paiva // 02/11/2016 às 3:02 // Responder

                  Questões Relevantes, eu namorei um homem palestino por volta de 1990 e não observei comportamento do tipo que você descreveu: “morte aos infiéis”, “morte aos homossexuais”, lei da Sharia que eu nunca ouvi falar. Os Árabes apresentam comportamentos, atuações, ações, atos, jeitos, que é, está, muito difícil de compreender. Ás vezes são necessários vários anos pra se compreender uma atitude Árabe.
                  Parece que a gente vai morrer sem compreender os Árabes. O mesmo se observa nos orientais taiwaneses, chineses, indianos. É muito difícil compreender esses povos, geralmente mais desenvolvidos que nós reles ocidentais, arrogantes, preconceituosos, mal educados que nem argentinos, pesadões, truculentos.
                  Pude me relacionar com um pessoal taiwanês e comprovei o que eu estou te dizendo. Até hoje guardo mágoa de coisas que não compreendi, mas fazer o quê? A vida é assim, Deus fez assim, não me pegunte porquê.

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  4. Zizek, penso que você não foi muito verdadeiro quando escreveu que tudo teve que ser feito rapidamente por isso errou e concordou com o “Je suis Charlie”. Estranho… Eu simples graduada, nunca fui à Europa e logo de cara pude ver o que estava atrás desse slogan, e portanto, não posso aceitar que você o maior filósofo europeu da atualidade não teve essa mesma qualidade. Você pode se defender com o velho argumento psicológico que a pessoa que está dentro de um problema não consegue ver com clareza esse problema e necessita de ajuda de outra pessoa pra resolve-lo. Também não aceito esse argumento. Esse fenômeno de não ver bem o problema quando se está dentro dele é coisa de reles mortal igual a mim. Porque você não consegue ver que a Europa acabou? Porque você não consegue ver que a Europa está previsível e repetitiva? Penso que essa impossibilidade sua ocorre devido ao recalque “pertenço ao Leste Europeu”. Algo parecido ao nosso “América Latrina”, em referência à América Latina.

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  5. Aída Paiva // 01/11/2016 às 22:17 // Responder

    Zizek eu gostaria de saber o que é mapeamento na clínica psicanalítica e no seu discurso filosófico.
    Em psicoterapia de linha psicanalítica meu psicoterapeuta falava em mapeamento.
    Ouvi falar em mapeamento cognitivo mas não concordo com mapeamento em Educação.
    Ouço falar imaginariamente a frase: “Ele (a) está mapeadinho pra morrer!
    Não gosto de ouvir, ler esse termo. Não penso em coisa ruim quando você escreve essa palavra.

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  6. Aída Paiva // 01/11/2016 às 22:42 // Responder

    Concordo com o que você escreveu sobre as brincadeiras. As brincadeiras proporcionam uma ótima oportunidade pra fazer as pessoas pensarem de forma diferente mas mesmo assim as pessoas não mudam. Mesmo quando as brincadeiras que a gente faz denigrem a nossa própria imagem.
    Eu não sei se a vida é assim ou se o sistema faz a vida assim.
    Tudo isso você vai saber quando sairmos desse sistema econômico…

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  7. Aída Paiva // 01/11/2016 às 22:55 // Responder

    Quanto ao politicamente incorreto e as brincadeiras o candidato Trump pegou essa nossa característica e “desenvolveu”. Desenvolveu tanto que chegou a bater em “preto” e homossexual. Em Atibaia, cidade do interior de São Paulo, o candidato do governador Alckmin, no comício de outros candidatos agrediu homens e mulheres. Uma candidata do PMDB, Lu Horiguella, mulher do psiquiatra da cidade, postou uma foto no Facebook com o olho roxo resultado de um soco dos matadores do Alckmin.
    Penso que tudo nosso a direita vai usar para o Mal.
    Eu aqui onde moro, parei de falar, evito contato, me relaciono o mínimo possível, não discuto mais, não converso assuntos polêmicos, apesar da insistência em conversar assuntos desse tipo. Meu comportamento surtiu efeito bom porque minha vida melhorou. Mas continua ruim devido à insegurança que sinto em relação a reação inesperada dessas pessoas.

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  8. Aída Paiva // 01/11/2016 às 23:24 // Responder

    A acusação de novo fundamentalismo no Ocidente que Zizek sofreu seria um fundamentalismo islâmico ou outro fundamentalismo?
    Uma pessoa pode ESTAR anti-semita, mas não SER anti-semita.
    No Brasil a esquerda é perseguida pela direita quando tenta explicar as razões que levam uma pessoa a cometer crimes, usar drogas, enlouquecer, fumar cigarro, beber bebida alcoólica, tomar muito café. No Brasil a esquerda é perseguida quando explica que a criança não deve ser penalizada devido aos seus fracassos escolares. No Brasil um professor é perseguido quando cria uma escola justa, quando busca desfocar a culpa do fracasso escolar da criança pro professor, para o sistema escolar, para o sistema sócio-político-econômico (Escola Plural).
    No caso dos Árabes não estamos transformando a vítima em opressor. No evento Charlie Hebdo os Árabes são vítima duas vezes. Os USA criaram o “terror árabe” com o 11 de setembro, a França fez o evento “Charlie Hebdo” , culparam os árabes, em seguida perseguem os árabes selvagemente. O opressor são os mesmos de sempre, todo mundo sabe, ninguém fala nada. Eu não tenho nada a perder, nem filhos, nem emprego, nem status, nem cargo político, nem casa , nem carro, nem bens, nem marido. Minha vida é péssima, estou presa porque não tenho dinheiro, nem amigos, nem colegas. Qualquer coisa que eu faça contra tudo o que está aí, porque está tudo errado mesmo, é bom porque me mantém viva. E a vida é pra ser mantida viva a qualquer preço.

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  9. Aída Paiva // 01/11/2016 às 23:42 // Responder

    Quanto às situações extremas Zizek tem razão quando fala que não existe libertação nelas. Tive um professor de “Ética, Moral e Valores” que falava das pessoas torturadas que se identificavam com o torturador. Eu sentia muito medo de me identificar com “meu torturador” e durante toda a minha vida, até agora, esse ensinamento foi referência pra minha atuação e pensamento (Filosofia – Universidade de Louvain). Existem pessoas que foram torturadas na ditadura burguesa 1964 que agradecem por terem sido torturadas porque assim seguiram um caminho bom. Nesse momento em que vi essa pessoa falando lembrei do professor de Louvain e sua fala sobre a identificação com o torturador.

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  10. Aída Paiva // 02/11/2016 às 0:07 // Responder

    O inventado pelos USA e que chamaram de “terror árabe”. Zizek fala que o terror nos impede de ver o que está realmente acontecendo. Zizek tem razão. Quando eu senti paranoia, terror ao ver agressão, terror ao ver violência contra alguém, a gente só sente, não dá pra fazer nada. O terror, a dor, a dor psíquica, impede movimentos, paralisa, no primeiro momento. Depois de um tempo a gente começa a elaborar. É a “coisa” passa mas as cicatrizes permanecem, fica mais fácil eclodir a loucura, mas é mais fácil reagir com certeza, com segurança nas atuações que promoverão mudanças.
    O terror apresentado no evento “Charlie Hebdo” esconde uma intenção. Porque a França não “ataca” o inimigo real? Porque a França escolhe torturar o mais fraco? Porque a França mantém esse jogo que vai destruindo a França? A França vai aos poucos perdendo sua identidade porque se identifica com seu torturador. O fato da França ser obrigada a escolher ficar contra o oprimido é uma forma de tortura. A França já perdeu o cinema. A França não tem mais escritores iguais o Zola, o Stendhal, Gide, Camus, Jean Genet. Os teóricos franceses que eu estudei morreram e existem poucos teóricos franceses atualmente. A psicanálise francesa, Lacan, é muito famosa no Brasil e muito admirada, apesar do medo que a psicanálise lacaniana exerce nas pessoas. A psicanálise não é fácil, dói muito, e a gente só faz porque está sofrendo mais ainda. A situação é dificílima mas eu quero ser referência nesse jogo, eu quero ser a realidade, eu quero ser uma coisa que eu perdi devido ao sofrimento: a coragem. Eles vão confiar só em MIM. Eu vou ser a realidade deles. Eu sou o caminho a verdade e a vida deles. Eu gosto da verdade, eu busco jogar limpo, eu gosto da sinceridade, é assim que eu vou mudar o mundo.

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  11. Aída Paiva // 02/11/2016 às 2:46 // Responder

    Ao ver agora a frase que o jornal Charlie Hebdo atribui ao Árabe depois do sucesso do “evento Charlie Hebdo” penso que a imagem que o jornal faz do Árabe não é real, não corresponde ao que o Árabe é na realidade. A imagem que o jornal busca passar é enganosa. O Árabe que eu conheço é um povo educado, não mente, busca desenvolver seu pensamento e diminuir seu sofrimento. O que acontece e acontece em todos os encontros de culturas diferentes é o chamado choque cultural, que é difícil, dói, não é só um novo relacionamento a diferença entre os povos ocidentais e orientais é grande.
    Nesses novos relacionamentos é necessário atuar de forma que o céu seja o limite, a paciência seja infinita, esperar é fundamental pra que nosso cérebro consiga trabalhar as novas informações de um povo que está muito desenvolvido por isso dificílimo de compreender.

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  12. Aída Paiva // 02/11/2016 às 3:18 // Responder

    Eu gostaria de me casar com o Zizek mas na minha vida é tudo impossível. Zizek é casado atualmente, já se casou duas vezes, esse é o terceiro casamento. Zizek tem dois filhos, um com trinta anos do primeiro casamento (sua primeira esposa morreu), e um filho do segundo casamento atualmente com 15 anos, de acordo com a Folha de São Paulo seu filho de 15 anos é um adolescente meigo, calmo e bonito.
    Zizek, ouça a música do Skank na qual o cantor Samuel fala: Me solta!
    Zizek, transa ou sai de cima!
    Zizek, atualize suas fotos!
    Zizek, I want you now!
    Zizek, kisses for you in your lips!

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