Maringoni: Um ataque à imprensa e aos muçulmanos


15.01.07_Maringoni_Um ataque à imprensa e aos mulçumanosPor Gilberto Maringoni.

O terrível, injustificável e indefensável atentado contra a redação do Charlie Hebdo não pode ser visto apenas como a ação de muçulmanos alucinados que, contrariados com alguns cartuns, resolveram mostrar suas insatisfações através de rajadas de AKs-47.

A teia de processos e acontecimentos que desembocou no sangrento episódio possui profundas raízes na cena política francesa.

A direita propaga, há décadas, a existência de uma suposta “questão muçulmana” a ser resolvida com a proibição da difusão de usos e costumes religiosos em território francês. O combustível essencial é a repulsa aos povos árabes e estrangeiros pobres, potencializado por um nacionalismo conservador. Estariam em perigo a cultura e o modo de vida de uma hipotética “França profunda”. Tais tendências tendem a se acentuar em contextos de crise econômica. 

NACIONALISMO CONSERVADOR

Nacionalismo no contexto europeu – que já viveu os traumas do nazismo e do fascismo – não tem o mesmo significado que em países da periferia. Nesses últimos, o termo muitas vezes pode envolver oposição à dominação externa. Na França, o incentivo ao preconceito vem colecionando não apenas agressivos debates públicos, mas pilhas de processos na Justiça.

Os feios, sujos e malvados a serem combatidos não são mais os judeus, os comunistas ou o que vagamente se conhecia por “orientais”. O alvo desses tempos são genericamente árabes e muçulmanos de todos os matizes, os novos bárbaros. A propaganda antimuçulmana na França é uma forma de racismo.

Num país de pouco mais de 60 milhões de habitantes – em sua maioria católicos –, a comunidade muçulmana alcança 10% da população. É a segunda religião em número de fiéis. Não se trata de algo abstrato, mas o resultado de uma imigração potencializada pela vinda de enorme contingente das ex-colônias em busca de vida melhor. São os casos de Argélia, Marrocos, Tunísia e Djibouti, entre outros.

Nessas antigas possessões, os muçulmanos representam mais de 95% da população total. Tais países foram invadidos e explorados ao longo de séculos pela metrópole. Seus processos de independência, na onda de descolonização do segundo pós-Guerra, foram dramáticos e sangrentos.

DISPUTA MAIOR

Embora seja inaceitável qualquer restrição à liberdade de expressão e opinião, é forçoso reconhecer que os cartuns e textos do Charlie Hebdo, com seus ataques a Maomé, estavam inseridos em uma disputa maior. Embutiam também boa dose de intolerância, mesmo que não tenha sido essa a intenção de seus autores.

Mesmo assim, o atentado deve ser condenado sem mediações. Há outras formas de se externar discordâncias.

Foram assassinados, entre outros, Wolinski, Charb e Tignous, ex-chargistas do l’Humanité, jornal do Partido Comunista Francês. Wolinski – nascido na Tunísia – influenciou gerações de cartunistas pelo mundo, com um traço quase caligráfico e desbocadas sátiras de política, sexo e comportamento.

A estupidez dos assassinos municiará de argumentos os apóstolos do preconceito e da xenofobia, aqueles que veem no estrangeiro a matriz dos males da França.

O atentado não foi apenas contra o Charlie Hebdo.

Foi também foi contra toda a população muçulmana do planeta.

wolinski_hebdo

***

Gilberto Maringoni é doutor em História Social pela FFLCH-USP e professor adjunto de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC. É autor, entre outros, de A Revolução Venezuelana (Editora Unesp, 2009), Angelo Agostini: a imprensa ilustrada da Corte à Capital Federal – 1864-1910 (Devir, 2011) e da introdução do romance O homem que amava os cachorros, do cubano Leonardo Padura. Cartunista, ilustrou algumas capas de livros publicados pela Boitempo Editorial na Coleção Marx Engels, como o Manifesto comunista. Integra o conselho editorial do selo Barricada, de quadrinhos da Boitempo.

16 comentários em Maringoni: Um ataque à imprensa e aos muçulmanos

  1. Importantes considerações as tuas para não cairmos em ondas de intolerância de qualquer tipo.

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  2. Yara Esteves Peres // 08/01/2015 às 4:49 // Responder

    Perfeito!

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  3. Irene Monique Harlek Cubric // 08/01/2015 às 11:40 // Responder

    LEIO SEMPRE COM MUITA ATENÇÃO TODOS OS ARTIGOS PUBLICADOS, E GOSTARIA DE ENTRAR EM CONTATO COM O MARINGONI”. MEU EMAIL É: icubric@hotmail.com

    Date: Wed, 7 Jan 2015 22:05:00 +0000 To: icubric@hotmail.com

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  4. sheila salvino // 08/01/2015 às 12:41 // Responder

    Excelente abordagem. Um breve estudo sobre vitimologia nos ajuda a identificar os fatores que motivaram o assassinato. A crítica estilo chacota à temática religiosa (por si só delicada e íntima) quando encontra pessoas imaturas e insensatas dá no que deu. A questão aqui não é quem está certo e quem está errado. É quem está errado e quem está muito errado.

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  5. indefensavel o ocorrido. não é com mortes que se termina com a xenofobia. Deveriam ter vergonha de defender ou tentar defender um ato destes

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    • Bom voltar no primeiro parágrafo…”terrível, injustificável e indefensável”. O texto não está defendendo o ato. (E nenhum dos muçulmanos que eu conheço, e que sofrem com xenofobia, defendem.)

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    • Matemática e estatistica são fundamentais p/ entender determinados ou quase todos fatos sócio economicos ,politíco.. o que é importante p/ merecer visibilidade por parte da mídia no mundo existem níveis de cidadania conforme a nacionalidade e statos quo ? negros afro descendentes ,indios ,pobres são mortos todos os dias e quem se importa? é considerado normal , pela regularidade ? natural e necessário .Por que determinadas étinias e culturas são consideradas essenciais e outras devem ser exterminadas ? por que acultura do velho mundo deve submeter as outras. são mais inteligentes/? são filhos de Deus e os outros são do diabo ?.

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  6. Não houve defesa alguma! O artigo condenou o ato. Oque houve foi uma reflexão mais profunda sobre o tema.

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  7. katia cilene da costa // 08/01/2015 às 17:42 // Responder

    Excelente artigo professor.Conheço muitos mulçumanos pobres que trabalham no Brasil e vieram da África e os mesmos relatam todo preconceito e sofrimento em terras francesas.

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  8. Belo texto, interessante e esclarecedor. Parabéns!

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  9. Ótimo texto, só não concordo com: “Embutiam também boa dose de intolerância, mesmo que não tenha sido essa a intenção de seus autores” Será que eles embutiam intolerância com as religiões (cristianismo, tb)? Penso que o Charlie atacava justamente a intolerância de certos grupos e os fundamentalismos religiosos, não os religiosos. Essa barbárie ocorrida…o alcorão não prega isso. Esses caras são doentes mentais que se declaram muçulmanos. E quem vai sofrer mais são os muçulmanos de verdade, que não têm nada a ver com essa selvageria, a grande maioria….a barra vai ficar pesada na França. Inclusive, um policial morto era muçulmano…

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  10. Cristina da Luz // 08/01/2015 às 21:45 // Responder

    Bem adordado.

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  11. Cristina da Luz // 08/01/2015 às 21:45 // Responder

    Bem abordado…

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  12. A abordagem está correta, nos ajuda a manter o raciocínio. Quanto à intolerância, nós brasileiros descendentes de etinias indígenas sentimos na pele o que significam os comportamentos agressivos, que não têm outro motivo que não seja o sentimento de dominação sobre os diferentes. TODA A HUMANIDADE ESTÁ DE LUTO. Não pelas mortes em si, mas pelo motivo. Quando a guerra vem por interesses materiais, embora não a aceitemos, a dor é diferente. Este ataque é uma violência ao próprio ato de pensar, de escolher uma fé, uma filosofia, um estilo de vida, uma religião diferente do cristianismo dominante. / A situação na França já vem ruim há muito tempo. VER O ” CERCLE DU SILENCE” que se realiza no último sabado de todos os meses, com apoio do comércio e sociedade civil, em Strasbourg e várias cidades da França, em defesa dos imigrantes, e contra injustiças praticadas pelo Estado francês.

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  13. cheznousuerj // 10/01/2015 às 1:15 // Responder

    Sem querer aumentar a polêmica em relação ao passado colonial como causa mais profunda, entre outras, de um ato terrível e de uma vingança tão violenta, acho sempre necessário lembrar, sob a autoridade dos próprios franceses, a outra face, a perversa, de um país que espelha também os horrores do Ocidente como um todo, e com cuja política hegemônica é, sem dúvida, conivente. Outra face de um país que nunca para de vender suas imagens glamourosas, em que pese ao valor de muitas. Assim sendo, Jean-Paul Sartre relata, em um dos volumes das Situações, intitulado Colonialismo e Neocolonialismo, com base em dados ministeriais franceses, nas estatísticas de que são tão competentes de fazer os franceses, a espoliação absurda a que submeteram a Argélia, a humilhação profunda que fizeram sofrer o povo argelino durante a exploração daquele país que saiu da colonização completamente empobrecido e arrasado – palavras do filósofo francês. Colonos que, por sinal, se voltaram contra a França, “que os abandonava lá”, ao se dar por vencida no final da guerra da Argélia – e não sem as inúmeras atrocidades com que encerrou o período colonial. Um lema que muito bem descreve o quanto era difícil para esses colonos, cães de guarda, largar o osso.

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  14. José Castro ARanha // 11/11/2015 às 2:34 // Responder

    Lamentável a sua defesa deste ato criminoso!!! Gostaria de saber se sua atitude é a mesma quando Israel se defende dos esfaqueadores palestinos

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