O sexto turno

14.10.15_Mauro Iasi_O sexto turnoPor Mauro Iasi. 

“Os presidentes são eleitos pela televisão, como sabonetes,
e os poetas cumprem função decorativa. Não há maior magia
que a magia do mercado, nem heróis maiores que os banqueiros.
A democracia é um luxo do Norte. Ao Sul é permitido o espetáculo”.
Eduardo Galeano, O livro dos abraços

Uma vez mais o jogo previsível encontra seu desfecho esperado. Circunscrita pelo poder econômico e midiático, as candidaturas da ordem se encontrarão, mais uma vez, em um segundo turno. Um dos elementos de garantia da ordem pode ser encontrado nos mecanismos de segurança que limita as alternativas e depois as apresenta como liberdade de escolha.

No campo político isso foi descrito por Gramsci como “americanismo” e se expressa classicamente na alternância entre um Partido Democrático e outro Republicano nos EUA, num jogo de imagens no qual nem um é democrático, nem o outro é de fato republicano. Ao sul do equador tal fenômeno pode ser visto historicamente na suposta alternância entre liberais e conservadores, na maldição já descrita na expressão “nada mais conservador que um liberal no poder”, ou na famosa ironia de que no ato de posse o programa conservador é transferido para o partido de oposição, que entrega o programa liberal para quem sai do governo.

Carlos Nelson Coutinho costuma chamar a versão brasileira desta “democracia” de americanalhamento. A expressão parece pertinente.

A instituição do segundo turno no Brasil tem servido a este propósito. No sistema norte americano todo mundo pode ser candidato, mas os filtros vão se dando nas eleições dos convencionais (que de fato elegem o presidente numa eleição indireta e absurdamente antidemocrática), até que só chegam à disputa de fato os dois partidos oficiais citados. No Brasil não é necessário tal engenharia política. Os filtros de segurança começam pelas clausulas de barreira que impedem a organização partidária, depois a legislação eleitoral absolutamente desigual e inconstitucional (mas isso nunca foi problema em nosso país segundo o TSE), passa pelo financiamento privado de campanha e chega na cobertura desigual da imprensa monopólica.

Não podemos esquecer o mecanismo que decide o voto antes da eleição pelo controle dos cofres públicos, dos governos estaduais, prefeituras e cabos eleitorais numa verdadeira chantagem de verbas, financiamentos e facilidades que controlam regiões inteiras sem a necessidade de uma único debate de programas ou ideias.

Como diz Galeano no texto que nos serve de epígrafe, a democracia é um luxo reservado ao Norte, ao Sul cabe o espetáculo que não é negado a ninguém, afinal, diz o autor uruguaio, “ninguém se incomoda muito, que a política seja democrática, desde que a economia não o seja”. Quando as urnas se fecham, prevalece a lei do mais forte, a lei do dinheiro.

Mas, é essencial ao espetáculo que você sinta a sensação de estar decidindo. É neste campo que se inscreve o chamado voto útil.

A máquina eleitoral burguesa não pode impedir movimentos de opinião, que se expressam no primeiro turno e, mesmo, no segundo. É perfeitamente compreensível que muitas pessoas pensem na lógica do mal menor, numa análise comparativa entre as alternativas que restaram. Como sempre há diferenças entre elas, convencionou-se que a esquerda deve votar no mais progressista e evitar o risco da direita.

Analisemos mais detidamente as alternativas que o poder econômico, a legislação restritiva e os meios de comunicação monopolizados selecionaram.

De um lado Aécio Neves do PSDB, legenda conhecida pelos mandatos de FHC e do próprio político mineiro em seu estado, assim como a longa dinastia paulista. Neste caso não há dúvida sobre seu programa conservador, seu compromisso com o mercado e os grandes grupos monopolistas, sua lógica privatista e sua subserviência ao imperialismo. Trata-se de uma legenda que nada tem de social democrata e tornou-se o centro aglutinador da direita representada na aliança com o DEM, o PPS e outras que compuseram sua base de governabilidade quando no governo, como o sempre presente PMDB, PTB e outros.

De outro, o PT, partido que tem sua origem nos movimentos sociais e sindicais dos anos 1970 e 1980, e que chegou à presidência em 2002 com a eleição de Lula para aderir ao pacto e ao presidencialismo de coalizão tornando-se o centro de um bloco do qual participam o PCdoB e o PSB, garantindo sua governabilidade com o PMDB, o PTB, PP, PSC, e outras siglas no mercado do fisiologismo político próprio do americanalhamento citado. Difere do PSDB na medida em que defende uma maior presença do Estado para garantir a economia de mercado, sustentando seu pacto de classes através de medidas de cooptação e apassivamento, tais como a garantia do nível de emprego e políticas sociais focalizadas e compensatórias de combate aos efeitos mais agudos da miséria absoluta.

A mera comparação justifica a tendência do voto em Dilma de grande parte dos que temem um governo do PSDB como expressão mais clara da política conservadora.

Coloquemos, entretanto, as coisas numa perspectiva histórica. Este não é um mero segundo turno, é o sexto turno. É a terceira vez que tal situação se apresenta. Nas duas primeiras, em 2006 e 2010, o PCB, por exemplo, indicou o voto crítico no candidato do PT, ou priorizou o combate à direita no momento eleitoral, ainda que sempre se mantendo na oposição. Não seria o caso agora?

Lembremos quais os discursos que acompanharam este processo. Quando da passagem para o segundo mandato do Lula o discurso é que o primeiro mandato havia sido para acertar a casa, mas agora viria uma guinada em favor das demandas populares, o governo Lula estaria em disputa. Quando da passagem para o mandato de Dilma o discurso é que, agora viria a guinada na forma de uma opção pelo mítico “neodesenvolvimentismo”.

No entanto, o que vimos nas duas oportunidades não foi uma reversão do rumo do pacto social e das medidas conservadoras, pelo contrário. O fato é que cada governo subsequente foi sendo mais à direita que o anterior. Os governos eleitos para “evitar a volta da direita”, a perda de direitos para os trabalhadores, o aprofundamento das privatizações, a criminalização dos movimentos sociais, o abandono da reforma agrária, acabaram por impor um crescimento das privatizações, uma precarização do trabalho, o ataque aos direitos dos trabalhadores (eufemisticamente chamado de “flexibilização”) e o aprofundamento da criminalização dos movimentos sociais. Reforma da previdência, privatização do campo de Libra, imposição da EBSERH, rendição do Plano Nacional de Educação à lógica dos empresários e do sistema S, prioridade para o agronegócio, a farra da Copa, as remoções, o aumento da violência urbana e a política genocida das polícias militares contra a população jovem, pobre e negra, a não demarcação das terras indígenas, as concessões ao fundamentalismo religioso que impede a legalização do aborto, a criminalização da homofobia…

Talvez a área mais emblemática seja a luta pela terra. Não apenas reduz-se a cada mandato o número de famílias assentadas, como cada vez mais assentamentos são abandonados à sua própria sorte, e os pequenos produtores considerados “economicamente irrelevantes” (nas palavras de um representante do Ministério do Desenvolvimento Agrário em resposta às demandas do MPA). Ao mesmo tempo dirige-se toda a política agrária para a prioridade ao agronegócio, tornando aliado central na governabilidade e na direção da política econômica, como mostram os apoios, ainda no primeiro turno, de Kátia Abreu e Eraí Maggi (o rei da soja).

Algo estranho ocorre por aqui. Primeiro, trata-se de fazer reformas possíveis no lugar da revolução necessária. Para tanto, um pacto social que leva o governo, que deveria ser reformista de esquerda, para um perfil de centro-esquerda – ou nos termos de André Singer, de um reformismo de alta intensidade apoiado na classe trabalhadora para um reformismo de baixa intensidade apoiado nas camadas mais pobres. Em seguida trata-se de tomar medidas de um governo de centro-direita para enfrentar a crise do capital com massivas doses de apoio ao capital por parte do Estado para garantir a manutenção de um crescimento com emprego e geração de renda. E agora uma clara composição de direita apoiada nos grandes bancos, nos setores monopolistas, nas empreiteiras, no agronegócio, numa situação parlamentar ainda mais conservadora que empurrará qualquer governo eleito para posição ainda mais conservadoras para realizar os “ajustes necessários” para enfrentar a crise que já se apresenta no horizonte.

O que é forçoso constatar é que a política do acumulo de forças não acumulou forças. Pelo contrario, desarmou a classe trabalhadora e abriu espaço para o crescimento da direita. O que era uma estratégia para evitar a direita pode ter se tornado o caminho pelo qual pôde se garantir sua “volta”. De fato, ela nunca teve seus interesses ameaçados – porque nos referimos a interesses de classe e não das legendas políticas que representam seguimentos e facções das classes dominantes. A classe dominante apoia as duas alternativas, fato que fica evidente na distribuição dos financiamentos de campanha.

O tão falado crescimento da direita, ou a “onda conservadora”, não se dá por acidente, mas é o resultado previsível dos governos de pacto social e da profunda despolitização que resulta de doze anos de governos petistas. Como disse Ruy Braga em artigo recente, que a burguesia e a classe média sejam conservadoras é perfeitamente compreensível, mas o que precisa ser explicado é porque o conservadorismo tomou a consciência de setores da classe trabalhadora. A candidata do PT perdeu no ABC paulista, somando os votos de Aécio e Marina, perdeu em São Paulo, Rio, Minas e Rio Grande do Sul.

Parte da classe trabalhadora, equivocadamente, aposta em candidaturas conservadoras que são contra seus interesses de classe. Veja, ao invés de infantilmente culpar a esquerda, os governistas deviam se perguntar por que isso ocorreu. Parte da classe quer o fim do ciclo do PT e não há discurso da esquerda que possa convencer este segmento que o governo atual é que lhe representa, pelo simples fato que a sequência de medidas que descrevemos indicam claramente outra coisa.

O que está acontecendo é que os meios de apassivamento e cooptação são insuficientes para continuar mantendo o governo do PT com a aparência de esquerda enquanto opera uma política de direita. Mantêm-se o nível de emprego, mas os precariza, garante acesso ao crédito para manter o consumo, mas gera endividamento das famílias, garante acesso precário às universidades privadas ou através de uma expansão que não garante a permanência e a qualidade necessária no setor público, tira-se as pessoas da miséria absoluta para colocá-las na miséria.

A explosão do ano passado foi didaticamente um alerta, mas as forças políticas, governistas ou de oposição no campo da ordem, literalmente ignoraram as demandas que ali surgiram. Nenhuma demanda foi considerada, desde a questão do transporte urbano, os gastos do Estado priorizando as empreiteiras e bancos e não educação e saúde, a violência policial e os limites da democracia de representação. Silencio total.

A esquerda – aquela que resistiu a este caminho suicida, foi estigmatizada, atacada, criminalizada e excluída do centro do jogo político – no seu conjunto não chegou aos 2% dos votos, e mesmo o voto nulo e a abstenção ficaram nos níveis históricos das últimas eleições. Não pode, portanto ser culpabilizada por uma eventual derrota do PT. A insatisfação de 2013 se apresenta nas eleições como caldo de cultura da necessidade de uma mudança e é atraída pelo canto da sereia da direita que numa eventual vitória governará com a mesma base de sustentação do governo atual.

Alguns afirmam que o que há de diverso agora é que o PT terá que vencer o PSDB enfrentando-o pela esquerda. Não é o que parece, nem o que o cenário político anuncia com a composição do novo Congresso Nacional. Ao que parece, Dilma investe em se apresentar como ainda mais confiável ao grande capital e seus atuais aliados prioritários, ignorando solenemente as demandas populares para recompor seu governo à esquerda. Respondam rapidamente: quantas vezes, nos últimos debates, a presidente tocou no tema da Reforma Agrária?

Mais uma vez, compreendo e respeito aqueles que votarão em Dilma para evitar o governo do PSDB. Apenas preocupa-me que pouco se analisa do que consiste o conteúdo desta suposta alternativa. Talvez algumas perguntas, na linha da nota do PCB, ajudem na reflexão:

  1. O eventual segundo mandato de Dilma reverterá a prioridade do agronegócio e avançará na linha de uma reforma agrária popular tal como proposta pelo MST e uma política agrícola que considere os interesses dos pequenos camponeses como preconiza o documento do MPA?
  2. Romperá com a política de superávits primários, de responsabilidade fiscal e de reforma do Estado que tem imposto a prioridade ao pagamento da dívida que consome cerca de 42% do orçamento?
  3. Demarcará as terras indígenas se chocando com os interesses do agronegócio e dos madeireiros?
  4. Romperá com a dependência em relação à bancada evangélica avançando nas questões relativas ao aborto, ao combate à homofobia e a política retrograda de combate às drogas?
  5. Alterará o rumo da política de segurança fincada no tripé: endurecimento penal, repressão e encarceramento?
  6. Vai administrar a crise do capital revertendo a tendência à precarização das condições de trabalho e ataque aos direitos dos trabalhadores?
  7. Vai mudar a lógica de criminalização dos movimentos sociais na linha da Portaria Normativa do Ministério da Defesa que iguala manifestante a membro de quadrilha e traficante, ou estenderá o fundamento desta política de garantia da Lei e da Ordem na forma de uma Lei de Segurança Nacional que torna permanente a presença das Forças Armadas como instrumento de garantia da ordem?
  8. Vai alterar a linha geral do Plano Nacional de Educação que institucionaliza a transferência do recurso público para educação privada, se entrega à concepção empresarial de ONGs e outras instituições empresariais e adia por vinte anos a meta dos 10% para educação?
  9. Vai fazer uma reforma política nos termos indicados pelo plebiscito que reuniu 7 milhões de assinaturas, ou aplicará o acordo com o PMDB que produziu um texto conservador e ainda mais concentrador de poder nas atuais siglas do Congresso Nacional tornando mais eficiente o presidencialismo de coalizão?

Nós que podemos interferir pouco no resultado eleitoral só podemos alertar que quem votar em Dilma não estará apenas evitando a vitória de uma opção mais conservadora – objetivo louvável – mas, também, referendando os atos que vierem a ser aplicados. O próximo governo Dilma, se ganhar, não responderá positivamente, na perspectiva da classe trabalhadora, a nenhuma destas nove questões. Por isso o PCB não pode empenhar seu apoio, mais uma vez, nem que seja crítico, pois os governos petistas já responderam a estas questões com doze anos de governo.

E se perder? Neste cenário, que não depende de nós e nem pode ser atribuído à esquerda, que não é desejável, mas possível, o PT teria que voltar à oposição. Neste caso temos a dizer que aqui a situação está muito difícil. A criminalização se intensifica, a polícia militar e as UPPs matam pobre todo dia. O Estado Burguês se armou, graças aos últimos governos, de todo um arcabouço jurídico e repressivo para nos combater, os assentamentos da reforma agrária estão abandonados, os serviços públicos foram direta ou indiretamente precarizados através de parcerias públicos privadas, as Universidades estão sendo mercantilizadas e sucateadas, o governo prefere negociar com sindicatos domesticados do que com as organizações de classe, os meios de comunicação reinam incontestes e impõem um real que nos torna invisíveis, reina o preconceito, a violência, a homofobia e a transfobia, parte da classe trabalhadora vivencia uma inflexão conservadora na sua consciência de classe e ataca o marxismo e o pensamento de esquerda como seu inimigo, imperando a ofensiva irracional da pós-modernidade que se revela cada vez mais fascista nos levando para a barbárie.

Bom, mas isso vocês sabem, não é? Talvez só não saibam de onde veio este retrocesso. Bom, procurem nos seis turnos, naquilo que foi anunciado e no que foi posto em prática… é uma boa pista.

***

***

Eleições630p

Especial Eleições: Artigos, entrevistas, indicações de leitura e vídeos para aprofundar as questões levantadas em torno do debate eleitoral de 2014, no Blog da Boitempo. Colaborações de Slavoj Žižek, Mauro Iasi, Emir Sader, Carlos Eduardo Martins, Renato Janine Ribeiro, Edson Teles, Urariano Mota e Edson Teles, entre outros. Confira aqui.

***

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil e György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

29 comentários em O sexto turno

  1. patrickzanon // 15/10/2014 às 21:06 // Responder

    Republicou isso em CADERNO VERMELHO Nº 5.

    Curtir

  2. Excelente texto, Mauro Iasi. Só bate uma tristeza de saber que um texto tão esclarecedor não terá uma grande disseminação.

    Curtir

  3. Cloves de Castro // 16/10/2014 às 3:58 // Responder

    O pior de tudo isso é a opção voto nulo,voto que aposta no quanto pior melhor,o voto nulo é o voto da direita.

    Curtir

    • Rafael Kraus // 17/10/2014 às 3:06 // Responder

      O pior é continuar sem nenhum horizonte maior de compreensão, como você, companheiro, e tantos outros em tantas terras. Leia os clássicos textos de Lênin sobre até onde o “menos pior”(reformismo, ainda que até isso esteja difícil) quase sempre nos levará e o que ele fundamentalmente sustenta e permite. Meu voto nulo será pela minha capacidade de sonhar, de saber serem reais minhas lágrimas e as de milhares de trabalhadores que se perderam e se amontoaram no oceano de pobreza que a história ainda assiste. Sim, meu voto terá sua nulidade diante da presença da esperança mais honesta e concreta num futuro REVOLUCIONÁRIO (esqueceram?) e transformador (eu digo, realmente transformador, e não 78% da população ganhando até dois salários mínimos, ou pelo menos 95,6 % sendo pobre, bastando uma breve leitura dos dados do IBGE e considerando os custos de vida de um capitalismo já mais do que desesperado e extremista). E esse foi o “PARTIDO DOS TRABALHADORES”, hein…Meu voto é nulo, companheiro, mais minha alma é a mais abundante possível, e se aos seus olhos ela verga à direita, temos então de ver esses olhos, não acha, sobretudo com a ajudinha do mestre aqui em cima… Toda a lógica (ou as lógicas, são muitas…) do medo das aves de rapina, das raposas, dos lobos,dos dragões, etc, resulta num medo profundamente maior: o medo de ser HUMANO, por vezes até minimamente humano, minimamente digno de sê-lo (seja lá o que seja isso…), um medo implacável em não lhe permitir os menores e mais justos sonhos, e, acima de tudo, um medo em não lhe deixar olhar corajosamente para o lado por muito tempo. É contagioso… e mata, sabe, é extremamente mortal. Certo, mais mata o quê? E, me desculpe o realismo “mágico”, matará e exorcizará quem? Deixarei essa resposta com você, amigo, de alguma forma confio que deverás encontrá-la, doa o quanto doer, ela encontra alguma forma de vir, a sua forma…

      Saudações!

      “Sejam sempre capazes de sentir fundo qualquer tipo de injustiça contra qualquer tipo indivíduo. Essa é a qualidade mais linda do revolucionário.”
      Che Guevara!

      Curtir

  4. Diogo Valença // 16/10/2014 às 8:44 // Responder

    Prof. Mauro Iasi,
    Muito bem fundamentado e politicamente consistente o seu artigo sobre o “sexto turno”. O PCB mostra que tem uma definição ideológica de base marxista bastante sólida. Sou daqueles que defendem o voto crítico no PT, mas sempre tem me parecido que o partido tem administrado a ordem para o grande capital e terá o momento de devolver o bastão. Bem como você aponta, a situação eleitoral hoje é resultado dos governos de pacto social. O mais arriscado para mim, nesse momento, e por isso estou votando no PT, é que o PSDB vai voltar com muita sede e com fome de ave de rapina caso ganhe as eleições e será possível que, com isso, venha a tentar sucatear ainda mais rápido o que há de público nesse País… Não pude votar no primeiro turno, pois tive que justificar, mas eu teria certamente escolhido o seu nome como minha opção.
    Saudações,
    Diogo Valença

    Curtir

  5. Mauro Iasi // 16/10/2014 às 15:48 // Responder

    Agradeço os comentários.
    Gostaria apenas de discordar que o voto nulo é um voto na direita. O voto da direita se divide entre as duas candidaturas hoje colocadas. Em quem votarão Collor de Mello, Sarney, Maluf, Katia Abreu? Em quem votarão Malafaia, Feliciano, Everaldo, Lobão? Uns na Dilma, outros no Aécio. A direita tem seus candidatos e seus preferidos.
    Mais uma vez, respeito a opção daqueles que votarão em Dilma para evitar Aécio, sem ilusões que o PT representa alguma alternativa de esquerda hoje. No entanto, nossa posição pelo voto nulo se sustenta por nossa firme convicção que aquilo que se quer evitar será praticado caso Dilma vença. Deixe-mos que a história julgue, das duas últimas vezes foi o que ocorreu. Quem sabe agora seja diferente. Torcemos para que sim, mas nossa análise aponta que não.

    Curtir

  6. Fico feliz em saber que meu voto foi consciente. Embora exista um carinho muito grande por ter sido meu professor, foi de verdade a força que me fez pesquisar todos os candidatos a presidência e por fim escolhê-lo. Agora no segundo turno estava com um certo receio, quem o PCB e o Mauro Iasi apoiaria? Pela lógica seria o PT e a Dilma, pela união de forças contra a direita, porém, o PT e a Dilma não são mais de esquerda assim como o PSDB também não é mais, há muito tempo! Pois bem, estava receoso de qualquer apoio que não fosse esse, não apoiamos nenhum dos lados. Fico feliz em saber que posso dizer que “não apoiamos”, por tanto, meu voto no primeiro turno foi consciente, foi de esquerda de verdade, não apoio esses candidatos como meus representantes. Sinto como tivesse uma camisa de verdade para vestir, a camisa do PCB. Por favor, não me decepcionem e não irei decepcioná-los! Estou orgulhoso de meu professor um dia após o dia de comemoração deste! Feliz dia dos professores atrasado Professor! Mande um abraço para seus filhos, que não devem mais se lembrar de mim, tudo bem! Mas estudamos juntos no Colégio São José e frequentávamos o clube da cidade juntos.

    Um abraço Mauro Iasi, Giovanni e Maiari!

    Rafael Gimenes

    Curtir

  7. Junio Reis // 16/10/2014 às 22:51 // Responder

    teve meu voto,pena q o povo so vota em quem e estampado na vitrine da midia

    Curtir

  8. Os grandes intereses ecnomicos, nacionais e estrangeiros, “desenharam” o “curral” por onde devíamos passar para desembocarmos num autentico beco sem saída. Isto foi um crime histórico, deixar o povo neste impasse
    .

    .

    Curtir

  9. miriam.gontijo.moraes@gmail.com // 17/10/2014 às 2:52 // Responder

    Também parabenizo pela reflexão tão profunda, num momento em que vemos o que há de pior em política, na esfera pública que hoje se limita às redes de TV. Mas acho que faltou aí o componente da política internacional. O Brasil não é uma ilha e estamos sofrendo pressões muito fortes em função deste imaginário americanalhado que o modelo de democracia reinante impõe. Tanto é que a campanha do PSDB bate forte na amizade entre Brasil e Cuba e usa disto para desqualificar este governo. A erradicação da fome parece que não foi uma inversão importante nos rumos do país mesmo sendo uma bandeira antiga da esquerda. M itas vezes a presidente Dilma falou na importância da reforma política, mas como fazer reforma política com um congresso cada vez mais representante do poder econômico ? Acho que faltou a unidade da esquerda e talvez das nossas próprias lideranças políticas forjarem esta unidade. Estamos diante de um retrocesso seríssimo com a vitória do Aécio, pois teremos um país em pleno processo de desenvolvimento em maõs não confiáveis, e uma América Latina que com certeza vai perder um importe aliado….

    Curtir

  10. Sergio Brasil // 17/10/2014 às 20:00 // Responder

    Boas considerações do Iasi, porém é necessário que façamos uma reflexão fundada na dinâmica da realidade, tal como nos ensinava Marx. Em primeiro lugar, a meu juízo, o voto nulo é a realização de uma postura romântica fundada numa parametafísica de que ,com o voto nulo, guardamos a essencialidade do projeto marxista revolucionário. Isto é pura bobagem porque a eleição é um jogo de fatos e contradições que devem ser superados a partir deste próprio jogo. Então votar em um dos dois é importante e relevante para que daí – ou seja, a partir da dialética resultante – nova reflexões marxistas sejam produzidas. É conservador – na dinâmica do pensamento marxista – ficar revolvendo o culto personalístico à Lenin, quando – todos sabemos – o marxismo avança na história a partir das contradições existentes. Precisamos – os que exercem o pensamento marxista – começar a nos suplantar teoricamente sem perder o eixo formalizado na ontologia marxista e “esvaziar” em muito o determinismo economicista, aliás não verbalizado por alguns de nossos camaradas, mas ainda dominante em seus pensamentos. Gramsci apontava as questões da cultura e Benjamin – como todos os ditos frankfurtianos – chamava atenção para as questões psicológicas forjadas dentro da lógica capitalista do princípio do desempenho eficaz como produtor da felicidade e satisfação dos desejos pessoais. Com isto o capital conseguiu produzir um pensamento padrão – típico da essencialidade burguesa- de que o primieiro a ter ganhos sou eu. Este individualismo mórbido é sentido como vitórias pessoais. Desta forma o trabalhador da indústria e dos serviços já perderam de muito sua consciência proletária (basta recordar Lukács e sua categoria de “consciência possível”)) pois o capital domesticou seus desejos e projetos. Assim o operário, o trabalhador quer se dar bem como o burguês, quer ganhar bem e ter seus bens próprios cuja realização provocará inveja nos outros companheiros. Quer ganhar muito bem sem se preocupar com a taxa de exploração. Quer ser burguesmente feliz e exige somente da política satisfações egocentralizadas: um empreguinho público (basta acompanhar aqueles que fazem concursos e concursos para cargos públicos), um favorzinho do político prá se dar bem e, com isso, comercializar seu voto e também o de sua família. Quer uma bolsa família e acumulá-la com outros favores governamentais para poder usufruir de um pseudossocialismo. Vale dizer: precisamos trabalhar com estes fatos concretos para não ficarmos dependentes e “adorando” o ícone criado pelos “velhos” comunistas de que a revolução será realizada pelos “nobres” proletários, principalmente os urbanos. Nosso dever revolucionário é produzir consciência crítica e, para tanto, os esforços devem englobar os radicalmente marginalizados. Essa é a responsabilidade da esquerda revolucionária pois o lumpenproletariado é o que possui – nas condições histórico-concretas – o germe da consciência crítica revolucionária, já que – repito – o proletário urbano quer e deseja ardentemente reproduzir o espelho do prazer burguês. Ele não quer e não tem interesse pela política porque toda politização ( que é sempre uma repolitização) – para ele – põe em risco seus ganhos “burgueses”. Para tanto , a meu juízo, a esquerda radical tem por obrigação provocar uma grande crise de concepções de mundo como motor essencial de uma nova radicalização. Para tanto – podem rir se desejarem – eleger o Aécio pode ser uma solução interessante. Com a hegemonização concreta do pensamento conservador a esquerda radical vai ter de se posicionar objetivamentre e perder sua vazia verborragia de depender dos velhos esquemas explicativos do sovietismo ainda doentio, embora verborrágicamente “superado”. Todos nós temos vergonha do chamado socialismo real e da elite do PCUS que se apropriou (basta olhar a Russia contemporânea) dos esforços do povo russo. Com a vitória do Aécio, a esquerda vai ter de mostrar sua radicalidade nas ruas e retomar o encontro com os oprimidos, hoje, estes frutos de meras reflexões acadêmicas. O PT vencido vai ter de mostrar sua verdadeira cara, ou seja, de um partido da ordem, vinculado às forças hegemônicas do capital. Perigo de o PT voltar à esquerda? Duvido porque o PT não vive sem financiamento do capital opressor e do caixa 2 que sustenta os pelegos do PT. O PT vai se colocar como centrão e depois dará uma virada para a direita porque seu projeto é o poder é ideológicamente de direita. Seus “grupos” ( ô partidinho para ter grupos!!!) de esquerda irão fomentar o PSOL e a base política do governo do PT-Lula-Dilma vai toda para os conservadores de direita do PSDB. Ao PT caberá o esvaziamento progressivo e a possibilitando a delação de que todo seu projeto foi para enganar o oprimido. Obrigar a esquerda a se voltar integralmente ao oprimido e tornar clara a radicalização da direita vencedora pode nos proporcionar uma nova dialética para as forças destinadas à luta contra a opressão. O voto “útil” na Dilma e sua vitória vai assegurar a reprodução da farsa de uma “ESQUERDA” POPULISTA QUE NÃO ABANDONA O CAPITAL. O voto “útil” no Aécio pode provocar – e eu desejaria muito – uma crise na esquerda abrindo espaço para novas radicalizações. A esquerda pseudo marxista precisa “apanhar” muito na cara para – a partir de uma profunda e rigorosa autrocrítica – fazer ressurgir sua qualidade de força radical-revolucionária. Está lançada a proposta. Talvez seja bom tentar e ,como marxista – aceitem ou repudiem esta classificação de mim mesmo-
    não tenho de que me envergonhar. Caso digam que estou jogando no “quanto pior melhor” é, pessoalmente, irrelevante.

    Curtir

    • Rafael Kraus // 22/10/2014 às 23:54 // Responder

      Nunca fui chegado às apostas, muito menos as pascalianas , mas por uma intuição “mística” e em algo maquiavélica(no sentido forte e gramsciano! Já leram?) e masoquista, me deixo levar por esta. É como conduzir um cego à beira de um precipício, um daqueles em que nenhum aeroporto se encontrará por perto. É tentador…

      Quem vai empurrar o “commandeur” primeiro? Estou na fila…

      Será que devo apostar tudo?

      Ótimo comentário, amigo, o mais pontual e crítico até agora, sobretudo no seu desenrolar final. Muito bem defendido. Já eu vou continuar com meus ácidos…

      Saudações!

      Curtir

  11. Embora eu tenha algumas divergências pontuais com aspectos abordados no texto do professor Iasi, tenho acordo na sua essência.

    Como já foi dito aqui, do ponto de vista dos clássicos do marxismo não há respaldo para um voto em Dilma, nem mesmo sob o alegado mal menor:
    http://blogdomonjn.blogspot.com.br/2014/10/marx-e-engels-contra-pressao-eleitoral.html

    Me chama atenção que na maioria das análises se perde de vista o “conservadorismo” dentro do próprio PT e de que ele próprio já possui uma bancada empresarial e evangélica:
    http://blogdomonjn.blogspot.com.br/2014/10/o-pt-conservador.html

    Meu último voto no PT foi em 2002. Mas se nas outras eleições, como observou o professor Iasi, foram levantados aspectos – alguns programáticos (embora de forma hipócrita pois desde o primeiro governo Lula o PT privatiza) – para tentar se diferenciar do PSDB, desta vez o centro do debate tem sido o “tu é mais ladrão do que eu”, o que nos revela o nível de decadência política do PT e do seu projeto.
    http://blogdomonjn.blogspot.com.br/2014/10/prezad-amig-governista.html

    Curtir

  12. Nos pontos mais importantes não existem diferenças entre os dois candidatos. O PT é o grande responsável pela estagnação e mesmo pelo retrocesso das conquistas populares e pelo que irá acontecer a partir de outubro, teve 12 anos no poder. Quem vencer terá de submeter-se ao PMDB e ao grande capital que continuarão ditando as regras.

    Curtir

    • Rafael Kraus // 20/10/2014 às 18:00 // Responder

      A “esquerda” que não cansou-se do PT, e que infelizmente parece ser a maioria, talvez seja a mais desunida e enfraquecida desde os seus primórdios. Até mesmo nas grandes cismas e na implantação dos revisionismos, um sentimento ulterior mais forte e mais inconteste de luta anti-imperialista aparentava superar determinados dissensos e polêmicas intra-partidárias (e inter..). Arrisco dizer que não nos encontramos nem mesmo próximos às condições inicias e minimamente favoráveis para um diálogo menos instável( que nem precisaria ser tão amigável assim, apenas honesto e bem conduzido) entre as diversas forças anti-capitalistas. A maior reinvenção para os próximos meses, penso, terá de se dar em torno da própria composição entre os diversos quadros das esquerdas atuais,dimensionando quais são os principais elementos que lhes dificultam a convivência e até mesmo a necessária formulação de estratégias conjuntas. Não falo apenas da questão Stalin(sim, ainda!), do que entendemos por ciência, das causas ateístas, dos ecologismos, da sobrevivência do materialismo dialético ou do estabelecimento dos fatos históricos relativos à URSS, mas da vergonha que senti dos candidatos da esquerda “radical” quando interpelados retoricamente sobre Cuba, Venezuela e questões afins, com um óbvio desconforto e com uma falta de reconhecimento de cortar qualquer coração( e não são tantos quanto se imagina…), talvez já esmagado e esfacelado entre tantas tergiversações, ocultações e falsificações medíocres.

      Sei que sou 0,1% da esquerda, mas o que fazer se a provocação de minha própria existência e toda a angústia e o desnorteio que dela se alimentam me dão as forças que preciso para permanecer criando-lhes e recriando-lhes questões e realidades. A esquerda atual e suas expressões não passaram de 2% dos votos em todos o Brasis, e suas eleições regionais foram igualmente invisíveis e péssimas. Claro, tudo isso é grave e beira o inconsolável para muitos, mas é precisamente agora que temos de agir e imaginar tudo aquilo que pode nos transformar e nos proporcionar uma nova virada( e quem sabe uma que não seja lá tão “reinventada” assim, apenas diferente, como Gramsci é diferente de Mariátegui e este de Lênin). Discutir nossas diferenças e como contamos nossa história é só o começo…mas se sequer desejarmos começa-lo…

      E o mais importante é que temos que encontrar a nossa própria forma de forjá-lo. Doa o que doer.

      Os rompimentos, as querelas, as biografias, os “célebres” livros e “best-sellers” da história, das ciências “humanas”, “sociais” e “exatas”, das artes e da literatura, tudo deverá passar por uma revisÃO( esta sim necessária!) não só urgente, mas em conjunto, com uma atitude comunitária e rigorosamente honesta em meio a saberes tanto interdisciplinares quanto transdisciplinares. É como se centros e mais centros de estudos críticos de polêmicas (Polemologia?) tivessem de ser erguidos de semana em semana, com tradutores e professores( já que estou dando a cartada, me deixam sonhar…) de russo, húngaro, romeno, búlgaro, bielorrusso, ucraniano, albanês, mandarim, cantonês, vietnamita, etc, tudo para que apenas se iniciasse a dimensionar nossas faltas, nossas confusões, distâncias e deficiências históricas e epistêmicas. Vejo cortinas de ferro ainda às centenas…

      Mais triste do que assistir e viver a esquerda (incluindo os socialistas “utópicos”) desunida, esfacelada e perdida, é vê-la fora do povo e sua infinitas dialéticas e poéticas do cotidiano. É como se estivéssemos a andar por aí sem coração…ora, mas aí o que seríamos?

      Um comunista perdido(de 29 anos)que ainda espera pela revolução.

      O que fazer, Mauro Iasi?

      Curtir

  13. Havia pensado em escrever aprofundando em algumas questões levantadas que demonstram a diferença obvia entre as duas candidaturas, todavia ao ler um texto do Boron resolvi apenas transcrevê-lo:

    A esquerda e o segundo turno das eleições no Brasil
    Por Atilio A. Boron
    Tradução de Renato Kilpp e Gabriel Eduardo Vitullo

    Obedecendo a uma ordem direta de Adolf Hitler, em 18 de Agosto de 1944, Ernst Thälmann morria fuzilado pelas SS no campo de concentração de Buchenwald. Seu corpo foi imediatamente cremado, para que não sobrasse qualquer vestígio de sua passagem por este mundo. Thälmann havia chegado a este tétrico lugar depois de passar onze anos de sua vida na prisão de Bautzen, para onde fora enviado quando a Gestapo o deteve – assim como a milhares de seus camaradas – pouco depois da ascensão de Hitler ao poder, em 1933. Nesta prisão foi submetido a um regime de confinamento solitário, cumprindo a pena que lhe foi imposta pelo imperdoável delito de ter sido o fundador e o dirigente máximo do Partido Comunista Alemão. Thälmann era também um dos líderes da Terceira Internacional, que em seu VIº congresso – realizado em Moscou em 1928 – havia aprovado uma linha política ultra-esquerdista, de “classe contra classe”. Esta orientação política se traduzia na absoluta proibição de estabelecer acordos com os partidos socialdemocratas ou reformistas, caracterizados como “socialfascistas” e considerados como sendo a ala esquerda da burguesia. Nem sequer o mortal perigo que representava o irresistível avanço do nazismo na Alemanha e a estabilização do regime fascista na Itália conseguiram mudar esta diretriz. León Trotsky se opôs a ela e a condenou imediatamente. Antonio Gramsci, na prisão, confessava a um prisioneiro socialista, Sandro Pertini, que este lema que debilitava a resistência ao fascismo “era uma estupidez”. Tanto o revolucionário russo quanto o fundador do PCI eram conscientes de que o sectarismo dessa tática expressava um temerário desprezo pelas urgências da conjuntura e que sua aplicação terminaria por abrir as portas aos horrores do nazismo, comprometendo por muito tempo as perspectivas da revolução socialista na Europa. A Terceira Internacional abandonou essa postura em seu VIIº e último Congresso, em 1935, para adotar as teses das frentes populares ou frentes únicas antifascistas. Mas já era tarde demais. O suposto subjacente da tese do “socialfascismo” era que todos os partidos, à exceção dos comunistas, constituíam uma massa reacionária e que não havia distinções significativas entre elas. Chama a atenção o profundo desconhecimento que esta doutrina evidenciava em relação ao que Marx e Engels haviam escrito no Manifesto Comunista. Em seu capítulo II dizem, por exemplo, que “os comunistas não formam um partido à parte, oposto a outros partidos operários… Os comunistas só se distinguem dos demais partidos proletários quando, por um lado, nas diferentes lutas nacionais dos proletários, destacam e fazem valer os interesses comuns a todo o proletariado, independentemente da nacionalidade; e, por outro lado, quando, nas diferentes fases do desenvolvimento pelas quais passam as lutas entre o proletariado e a burguesia, representam sempre os interesses do movimento em seu conjunto”. Lenin, por sua vez, durante o curso da Revolução Russa, reiteradamente ressaltou a necessidade de que todos os bolcheviques elaborassem uma política de alianças com outras forças políticas, que, preservando a autonomia e a identidade política dos comunistas, pudesse, em certas circunstâncias, levar à prática ações e iniciativas concretas que fizessem avançar o processo revolucionário. Havia, tanto nos fundadores do materialismo histórico como no líder russo, uma clara ideia de que poderia haver partidos operários, ou representantes de outras classes ou grupos sociais (a pequena burguesia é o exemplo mais corrente) com os quais se poderia forjar alianças transitórias e pontuais e que nada poderia ser mais prejudicial para os interesses dos trabalhadores que subestimar essa possibilidade e, desse modo, abrir as portas à vitória das expressões mais recalcitrantes e violentas da burguesia. Voltaremos a este tema mais adiante.
    Os parágrafos anteriores vem à mente porque nos últimos dias muitos companheiros e amigos do Brasil me fizeram chegar mensagens onde anunciavam suas intenções de abster-se no segundo turno de 26 de outubro, ou de votar em branco ou nulo, com o argumento de que tanto Aécio quanto Dilma eram o mesmo, e que para a causa popular seria a mesma coisa a vitória de um ou de outro. O povo brasileiro, diziam estas mensagens, sofrerá os rigores de um governo que, em qualquer caso, estará a serviço do grande capital e contra os interesses populares. O motivo destas linhas é demonstrar o grave erro em que incorreria se assim fosse. Da mesma forma que a desastrosa política do “socialfascimo”, que pavimentou o caminho de Hitler ao poder, a tese de que Aécio e Dilma “são o mesmo” vai provocar, caso triunfe o primeiro, terríveis consequências para as classes populares do Brasil e de toda a América Latina, para além da obviedade de que Aécio não é Hitler e de que o PSDB não é o Partido Nacional Socialista Alemão.
    A análise marxista ensina que, em primeiro lugar, resolver os desafios da conjuntura exige, como tantas vezes dissera Lenin, uma “análise concreta da situação concreta” e não somente uma manipulação abstrata de categorias teóricas. Dizer que Aécio e Dilma são políticos burgueses é uma caracterização tão grosseira como dizer que o capitalismo brasileiro é o mesmo que existe na Finlândia ou na Noruega – os dois países mais igualitários do planeta e com maiores índices de desenvolvimento humano, segundo diversos informes produzidos pelas Nações Unidas – para, a partir daí, extrair um lúcido “guia para a ação” que oriente a política das forças populares. Nenhuma análise séria do capitalismo, ao menos da perspectiva marxista, pode limitar seu exame ao plano das determinações essenciais que o caracterizam como um modo de produção específico. Muito menos quando se trata de analisar uma conjuntura política. Cometer esse erro é cair no que Gramsci criticou como um exemplo do “doutrinarismo pedante” do infantilismo esquerdista que proliferou na Europa nos anos 20 e 30 do século passado. Por esta mesma razão dizer que Hitler e León Blum eram dois políticos burgueses não permitiu avançar um milímetro sequer na compreensão da dinâmica política da crise geral do capitalismo na Europa, por não falar da capacidade para enfrentar eficazmente a ameaça fascista. Em um caso tratava-se de um déspota sanguinário, fervoroso anticomunista, que submeteria seu país e toda a Europa a um banho de sangue; no outro caso, tratava-se de um primeiro ministro socialista da França, líder da Frente Popular, que acolhia os alemães e os italianos que fugiam do fascismo e que se opôs, sem sucesso para a desgraça da humanidade, aos planos de Hitler. Era evidente que ambos não eram o mesmo, apesar de sua condição de políticos burgueses. Mas o sectarismo ultra-esquerdista passou por cima destas supostas ninharias e, com sua miopia política, facilitou a consolidação dos regimes fascistas na Europa.
    Em segundo lugar, qualquer um minimamente informado sabe muito bem que, por suas convicções ideológicas, por sua inserção em um partido como o PSDB e por sua trajetória política, Aécio Neves representa a versão dura do neoliberalismo: império irrestrito dos mercados, desmantelamento do “nefasto intervencionismo estatal”, redução dos investimentos sociais, “permissividade” ambiental e apelo à força repressiva do estado para manter a ordem e conter aos revoltados. Foi por isso que nada menos que o Clube Militar – um antro de golpistas reacionários, nostálgicos da brutal ditadura de 1964 – decidiu brindar-lhe com seu apoio, dado que, segundo seus integrantes, o ex-governador de Minas Gerais possui “as credenciais necessárias para interromper o projeto de poder do PT, que marcha para à sovietização do país”. Fora o desvario que manifestam os proponentes deste disparate, seria um gesto de imprudência que a esquerda não perceba o crescente processo de fascistização de amplos setores das camadas médias e o clima macartista que satura diversos ambientes sociais e que, em consequência, subestimasse a transcendência do que significa o explícito apoio a Aécio de parte dos militares golpistas, o setor mais reacionário (e muito poderoso) da sociedade brasileira. Que depois da vergonhosa capitulação de Marina, Aécio tenha prometido assumir como própria a “agenda social e ecológica” dela é apenas uma manobra propagandística que somente espíritos incuravelmente ingênuos podem levar a sério.
    Em terceiro lugar, a indiferença de um setor da esquerda brasileira diante do resultado do segundo turno reedita o otimismo suicida com que Thälmann enfrentou, da prisão, a estabilização do regime nazista: “depois de Hitler” – dizia a seus companheiros de infortúnio, tratando de consolá-los – “viremos nós”. Equivocou-se tragicamente. Alguém pode pensar que depois de Aécio florescerá a revolução no Brasil? O mais certo é que se inicie um ciclo de longa duração onde as alternativas à esquerda, inclusive de um processo “light” como o do PT, desapareçam do horizonte histórico brasileiro por longos anos, como ocorreu depois do golpe de 1964. É ilusório pensar que, sob Aécio, as classes e camadas populares irão dispor de condições mínimas para reorganizar-se depois do fracasso experimentado pelas políticas suicidas do PT; também é ilusório imaginar que novos movimentos sociais poderão surgir e atuar com um certo grau de liberdade numa esfera pública, cada vez mais controlada e limitada pelos aparelhos repressivos do estado; ou ainda supor que novas forças partidárias poderão irromper para disputar, a partir das ruas ou das urnas, a supremacia da direita.
    Em quarto lugar, é óbvio que a opção com que irá se deparar o povo brasileiro no próximo 26 de outubro não passa por reação ou revolução. Passa pela restauração conservadora que representa Aécio Neves ou pela continuidade de um neodesenvolvimentismo atravessado por profundas contradições mas levado ao Planalto por aquele que, na época, foi o mais importante partido de massas da esquerda na América Latina. Em que pese a sua lastimável capitulação perante as classes dominantes do Brasil, sua incapacidade para compreender a gravidade da ameaça imperialista que paira sobre o seu país – o país mais cercado por bases militares norte-americanas de toda a América Latina! – e o abandono de seu programa original, o PT conserva ainda a fidelidade de um segmento majoritário dos condenados da terra no Brasil e um certo compromisso, poucas vezes cumprido mas mesmo assim presente, com as aspirações emancipatórias das classes populares que em 1980 o fizeram nascer. Por isso, e diante da desaceleração da reforma agraria no Brasil, Dilma pelo menos tem que sair e explicar ao MST as razões do seu comportamento e prometer a adoção de algumas medidas para modificar essa situação. Já Aécio não tem nada a ver com o MST nem com os camponeses brasileiros, e frente aos seus reclamos responderá com a polícia militarizada.
    Em quinto e último lugar, é bom ressaltar que o anterior não implica qualquer exaltação do PT, que na sua triste involução passou de uma organização moderadamente progressista a ser um típico “partido da ordem” e que sequer lhe serve adequadamente o adjetivo reformista. Também não se desprende da nossa argumentação a necessidade ou a conveniência de que as forças de esquerda estabeleçam uma aliança com o PT ou selem acordos programáticos com ele de olho para o futuro. Mas na atual conjuntura, definida pelo fato institucional das eleições presidenciais e não pela iminência de uma insurreição popular revolucionária, o voto em Dilma é o único instrumento disponível no Brasil para evitar um mal maior, muito maior. Os companheiros que advogam pela neutralidade ou pela indiferença deveriam, para serem honestos, assinalar qual é a outra força política que poderia impedir a vitória do Aécio, e qual é a estratégia política para tal fim, seja eleitoral (que não existe) ou extra- institucional ou ainda insurrecional, algo que ninguém consegue enxergar no horizonte. Portanto não há outra arma para impedir a vitória de Aécio e a esquerda não pode se refugiar numa pretensa neutralidade. E caso se consiga derrotar a reação conservadora liderada pelo PSDB (como muitos na América Latina e no Caribe esperamos ferventemente) caberá aproveitar os quatro anos que vem pela frente para reorganizar o campo popular desorganizado, desmoralizado e desmobilizado pelas políticas do PT. E submeter o segundo governo de Dilma a uma crítica implacável, empurrando-a, a partir “de baixo”, dos movimentos sociais e das novas formas partidárias, a adotar as políticas necessárias para um ataque a fundo contra a pobreza e a desigualdade, contra a prepotência dos oligopólios e contra as chantagens das classes dominantes aliadas ao imperialismo. No plano internacional o trunfo dos tucanos teria gravíssimas consequências porque colocaria no Planalto a uma força política submetida por completo aos ditames da Casa Branca; sabotaria os processos de integração supranacional em andamento como o Mercosul, a UNASUL e a CELAC; serviria como ponta de lança para atacar a Revolução Bolivariana e os governos de esquerda e progressistas da região; para isolar a Revolução Cubana e para oferecer apoio material e humano do Brasil para as infinitas guerras do império. Este não se engana, e não por nada tem lançado, junto aos seus aliados locais, uma fortíssima campanha para que seu candidato, Aécio, triunfe no próximo domingo. Ninguém na esquerda pode ignorar que, se tal coisa chegasse a acontecer, uma longa noite cairia sobre a América Latina e o Caribe, abrindo um funesto parêntese que sabe lá quanto tempo demoraríamos em fechar. Sem exagerar nas analogias históricas, conviria meditar sobre a sorte corrida por Thälmann e seus camaradas comunistas graças à adoção de uma tese que sustentava a igualdade essencial de todos os políticos burgueses.

    Curtir

    • Sergio Brasil // 21/10/2014 às 17:24 // Responder

      Embora respeite e admire o filósofo argentino Borón quero observar que ele desconhece – infelizmente – a inexpressiva representatividade institucional e eleitoral da esquerda crítica brasileira e, como assinalou corretamente Rafael Kraus (no texto acima), que ainda “aguarda” superar suas próprias divergências e contradições. Em assim sendo, como espera Borón, assegurar ao PT a permanência do poder federal é uma ilusão no momento em que o PT – repito – não sobrevive sem as forças de direita e sem as corrupções que demandam a sobrevivência do caixa 2 (tão salutar para o partido). As possíveis agendas entre a esquerda radical e o PT serão meros instrumentos de retórica e o PT continuará a se “fazer” de esquerda e manipular o velho peleguismo sindical lulista. Infelizmente, caro Borón, tiro n’água.

      Curtir

    • Sandro Gomes // 21/10/2014 às 17:28 // Responder

      Reconheço o mérito e pertinência da análise do Mauro Iasi, a qual endosso muitos pontos, mas a análise sobre as consequências de uma vitória Tucana feita pelo Atílio reúne mais elementos. Só acrescentando: acho difícil o PT mexer na CLT. E, segundo o Sr. Fraga, a crise mundial já passou (sic!)… Se o PSDB ganhar a vida do trabalhador vai pro buraco e o capital financeiro norte-americano vai triunfar de vez!

      Curtir

      • Rafael Kraus // 22/10/2014 às 2:00 // Responder

        Só para refrescar a memória:

        “Lembremos quais os discursos que acompanharam este processo. Quando da passagem para o segundo mandato do Lula o discurso é que o primeiro mandato havia sido para acertar a casa, mas agora viria uma guinada em favor das demandas populares, o governo Lula estaria em disputa. Quando da passagem para o mandato de Dilma o discurso é que, agora viria a guinada na forma de uma opção pelo mítico “neodesenvolvimentismo”.
        No entanto, o que vimos nas duas oportunidades não foi uma reversão do rumo do pacto social e das medidas conservadoras, pelo contrário. O fato é que cada governo subsequente foi sendo mais à direita que o anterior. Os governos eleitos para “evitar a volta da direita”, a perda de direitos para os trabalhadores, o aprofundamento das privatizações, a criminalização dos movimentos sociais, o abandono da reforma agrária, acabaram por impor um crescimento das privatizações, uma precarização do trabalho, o ataque aos direitos dos trabalhadores (eufemisticamente chamado de “flexibilização”) e o aprofundamento da criminalização dos movimentos sociais. Reforma da previdência, privatização do campo de Libra, imposição da EBSERH, rendição do Plano Nacional de Educação à lógica dos empresários e do sistema S, prioridade para o agronegócio, a farra da Copa, as remoções, o aumento da violência urbana e a política genocida das polícias militares contra a população jovem, pobre e negra, a não demarcação das terras indígenas, as concessões ao fundamentalismo religioso que impede a legalização do aborto, a criminalização da homofobia…”

        “Algo estranho ocorre por aqui. Primeiro, trata-se de fazer reformas possíveis no lugar da revolução necessária. Para tanto, um pacto social que leva o governo, que deveria ser reformista de esquerda, para um perfil de centro-esquerda – ou nos termos de André Singer, de um reformismo de alta intensidade apoiado na classe trabalhadora para um reformismo de baixa intensidade apoiado nas camadas mais pobres. Em seguida trata-se de tomar medidas de um governo de centro-direita para enfrentar a crise do capital com massivas doses de apoio ao capital por parte do Estado para garantir a manutenção de um crescimento com emprego e geração de renda. E agora uma clara composição de direita apoiada nos grandes bancos, nos setores monopolistas, nas empreiteiras, no agronegócio, numa situação parlamentar ainda mais conservadora que empurrará qualquer governo eleito para posição ainda mais conservadoras para realizar os “ajustes necessários” para enfrentar a crise que já se apresenta no horizonte.”

        “A classe dominante apoia as duas alternativas, fato que fica evidente na distribuição dos financiamentos de campanha.”

        “Parte da classe trabalhadora, equivocadamente, aposta em candidaturas conservadoras que são contra seus interesses de classe. Veja, ao invés de infantilmente culpar a esquerda, os governistas deviam se perguntar por que isso ocorreu. Parte da classe quer o fim do ciclo do PT e não há discurso da esquerda que possa convencer este segmento que o governo atual é que lhe representa, pelo simples fato que a sequência de medidas que descrevemos indicam claramente outra coisa.”

        “Mantêm-se o nível de emprego, mas os precariza, garante acesso ao crédito para manter o consumo, mas gera endividamento das famílias, garante acesso precário às universidades privadas ou através de uma expansão que não garante a permanência e a qualidade necessária no setor público, tira-se as pessoas da miséria absoluta para colocá-las na miséria.”

        “Alguns afirmam que o que há de diverso agora é que o PT terá que vencer o PSDB enfrentando-o pela esquerda. Não é o que parece, nem o que o cenário político anuncia com a composição do novo Congresso Nacional. Ao que parece, Dilma investe em se apresentar como ainda mais confiável ao grande capital e seus atuais aliados prioritários, ignorando solenemente as demandas populares para recompor seu governo à esquerda. Respondam rapidamente: quantas vezes, nos últimos debates, a presidente tocou no tema da Reforma Agrária?”

        “O eventual segundo mandato de Dilma reverterá a prioridade do agronegócio e avançará na linha de uma reforma agrária popular tal como proposta pelo MST e uma política agrícola que considere os interesses dos pequenos camponeses como preconiza o documento do MPA?”

        “Romperá com a política de superávits primários, de responsabilidade fiscal e de reforma do Estado que tem imposto a prioridade ao pagamento da dívida que consome cerca de 42% do orçamento?”

        “Vai administrar a crise do capital revertendo a tendência à precarização das condições de trabalho e ataque aos direitos dos trabalhadores?”

        “Vai alterar a linha geral do Plano Nacional de Educação que institucionaliza a transferência do recurso público para educação privada, se entrega à concepção empresarial de ONGs e outras instituições empresariais e adia por vinte anos a meta dos 10% para educação?”

        “Vai fazer uma reforma política nos termos indicados pelo plebiscito que reuniu 7 milhões de assinaturas, ou aplicará o acordo com o PMDB que produziu um texto conservador e ainda mais concentrador de poder nas atuais siglas do Congresso Nacional tornando mais eficiente o presidencialismo de coalizão?”

        “Nós que podemos interferir pouco no resultado eleitoral só podemos alertar que quem votar em Dilma não estará apenas evitando a vitória de uma opção mais conservadora – objetivo louvável – mas, também, referendando os atos que vierem a ser aplicados.”

        Curtir

    • Jorge Nogueira // 21/10/2014 às 19:14 // Responder

      O “chavista” Boron resolveria esse dilema facilmente se relembrasse que nas últimas eleições na Venezuela Henrique Capriles defendeu a via petista para o país vizinho!

      Curtir

  14. Lúcia Valadares // 21/10/2014 às 3:24 // Responder

    O PT perdeu em SBC porque o prefeito Marinho mantém na secretaria de educação uma tecnocrata autoritária e insuportável como Creuza Repulho, e na articulação política, José Albino Sinhozinho Malta (só falta chacoalhar a pulseira). Já no início da formação do PT, os dirigentes influenciados por Francisco Weffort na época, deixaram de fomentar a organização dos núcleos e discussões teóricas entre a militância e por aí vai. Além disso, a posição que o governo Dilma teve com os professores no período de greve em 2012 foi muito ruim, demorou negociar e achatou o salário no início da carreira. Entretanto, em âmbito nacional vem ocorrendo medidas significativas e abrangentes que abrem caminhos para uma nova realidade, desde o movimento agroecológico, a efervescência científica nas universidades, o fomento da economia alternativa, a existência de 103 moedas sociais, políticas de abastecimento e segurança alimentar, espaços de inclusão digital, promovem uma alteração nos desníveis regionais, projetos que aproximam a universidade das escolas públicas, (esta combatida e na mira para ser reduzida ao máximo, movimento dado pelos capitalistas), De outro lado, é inegável o avanço do capital sobre as classes populares, Nesse momento os mais frágeis são indígenas, quilombolas, pescadores, trabalhadores … O grande capital também vem absorvendo pequenas e médias empresas, empurrando os salários para baixo, quebrando as leis trabalhistas na prática, Como enfrentar esse gigante apossado de um pensamento fascista, que traga vidas humanas e da natureza? penso que nossos esforços devem ser redobrados. Tantos encontros/colóquios vem proporcionando boas discussões. Bem que poderíamos fincar como bandeira pontos de luta para unir forças na diferença, e impulsionar um movimento em torno de questões imprescindíveis como a crítica do modelo econômico e a defesa do humanismo, capaz de envolver a esquerda mundial, como também prover engajamento social.

    Curtir

  15. Rafael Kraus // 22/10/2014 às 0:28 // Responder

    “O “chavista” Boron resolveria esse dilema facilmente se relembrasse que nas últimas eleições na Venezuela, Henrique Capriles defendeu a via petista para o país vizinho!”
    Longa risada…quase perdi a vontade de escrever depois dessa! Obrigado pela pérola, camarada!
    Bom, vou tentar me virar por aqui sem meus Generais, pois convidar Marx, Engels, Lênin e até deixar tocar os proibidões seria uma covardia diante dos argumentos que um Boron aparentemente cansado tem a pachorra de lançar. Os próprio Mauro Iasi , somente com o presente artigo para o qual somos uma teia e um apêndice ainda dispensável, refutaria sem maiores esforços o companheiro Boron, de quem podemos falar longamente quanto às virtudes revolucionárias, mas que anda exigindo do real e da razão nada mais do que uma mesquinha razoabilidade, enquanto nós, “jovens impacientes”, abrimos caminhos com as tais razões revolucionárias que tantos exércitos já derrubaram.
    Vamos à necropsia…
    “Dizer que Aécio e Dilma são políticos burgueses é uma caracterização tão grosseira como dizer que o capitalismo brasileiro é o mesmo que existe na Finlândia ou na Noruega.”
    Posso fazer isso (dizer o óbvio, que ambos são duas faces da mesma m…) apenas observando índices e mais índices de taxas de lucros dos grandes oligopólios (olhe apenas as dez maiores, os olhos cansam…) e redes financeiras, e analisando também, de forma mais lúcida e realista, a indecência que ainda é a distribuição de renda no país, aonde me parece ser irresistível sustentar que 95% do país é ou pobre ou miserável, considerando as óbvias desigualdades também regionais e municipais( a “Síntese” do IBGE publicada em 2013 e as séries do economista Márcio Pochmann provam minha acusação), o que só torna nossa situação ainda mais boçal e flagrante.
    “Mas o sectarismo ultra-esquerdista passou por cima destas supostas ninharias e, com sua miopia política, facilitou a consolidação dos regimes fascistas na Europa.”
    Ah , claro, a culpa foi deles…como não percebi isso antes? Que ingenuidade! Passo.
    “Alguém pode pensar que depois de Aécio florescerá a revolução no Brasil?”
    E também não lhe cabe pensar que não, premissa tão falaciosa quanto sua contraparte afirmativa.
    “mais certo é que se inicie um ciclo de longa duração onde as alternativas à esquerda, inclusive de um processo “light” como o do PT, desapareçam do horizonte histórico brasileiro por longos anos, como ocorreu depois do golpe de 1964”
    Que é isso? Boron parou de ler Lênin para correr atrás dos livros de Nostradamus, que palhaçada pesudoespeculativa, astrológica e bichopaponesca, a velha visãozinha circular e estreita da história (e sua ”lógica”…), parece que alguém anda relendo Toynbee ( e deslendo Vico) às escuras.
    “ilusório imaginar que novos movimentos sociais poderão surgir e atuar com um certo grau de liberdade numa esfera pública.”
    A análise de conjunturas e novos atores históricos foi para o espaço,né, provavelmente o autor dizia algo bem semelhante antes da primavera árabe e das jornadas de junho brasileiras( vou até procurar fora da net…), o clima catastrofista , negativo, urgente e radical entre centenas de camadas sociais também parece não lhe acrescentar nada (até o Papa, também argentino, sugere mais rebeldia para os novos tempos do que o atual Boron). Qualquer engenheiro que trabalhe com propulsores poderá dizer os quão ricos e renovados estamos para a revolução, o que nos falta são mediadores…
    “continuidade de um neodesenvolvimentismo”
    Só para não esquecer aquela perniciosa perguntinha que insiste em não envelhecer: “Neodesenvolvimentismo” para quem? Ah! Pra todos, certo?
    “o mais importante partido de massas da esquerda na América Latina.”
    C…! Se o “poderoso” do CLACSO fala isso de boca cheia e embevecido é porque estamos na merda mesmo!
    “desaceleração da reforma agraria no Brasil” ???
    Mauro Iasi, me explica essa, por favor, é muito avançada para mim.
    “Mas na atual conjuntura, definida pelo fato institucional das eleições presidenciais e não pela iminência de uma insurreição popular revolucionária.”
    QUEM PODERÁ DETERMINAR TAIS CONDIÇÕES “PURAMENTE” E SEM UMA INSUPORTÁVEL ARROGÂNCIA PSEUDOCIENTIFÍCA? Quem irá me dizer quando uma revolução estará madura ou não entre tanta pobreza, miséria, depressão e angústia, e isso quando se está de bom humor(leia o maldito IBGE). Minha visão(ingênua, é claro) sobre o sucesso do PT é um pouco heterodoxa: o miseravão se tornou miserável. O pobretão ficou menos pior, é só mais um pobre agora. O pobre bem-pobre conseguiu ser classe média baixíssima em alguns municípios e favelas, aonde proletários da baixíssima classe se tornaram classe baixa para alguns “vitoriosos”, e entre os baixos, muitos continuaram ou na merda ou assistindo a ascensão de alguns poucos “privilegiados” para condomínios ultra-seguros e com parquinhos de plástico para suas “libertadas” proles. Bom, eu acho que devo estar de mau humor…
    “extra- institucional ou ainda insurrecional, algo que ninguém consegue enxergar no horizonte.”
    Mais do mesmo…
    Pergunte para Edwin Hubble a sensação de se enxergar algo “nunca antes visto” no horizonte ou volte a ler os ataques contra os mencheviques para perceber de que lado tu te posicionas.
    “submeter o segundo governo de Dilma a uma crítica implacável, empurrando-a, a partir “de baixo”
    Isso está sendo feito há uma década…mas o maldito elefante deve ser surdo!
    “colocaria no Planalto a uma força política submetida por completo aos ditames da Casa Branca.”
    Gostei do “por completo”… Submissão parcial é sempre melhor, não é mesmo? Melhor do que nada, não é?
    “Ninguém na esquerda pode ignorar que, se tal coisa chegasse a acontecer, uma longa noite cairia sobre a América Latina e o Caribe, abrindo um funesto parêntese que sabe lá quanto tempo demoraríamos em fechar.”
    Hummm… chame o pessoal da camada de ozônio pra te ajudar, eles tem mil soluções engenhosíssimas…
    “Sem exagerar nas analogias históricas”
    Não, imagine, nem um pouco, disponha! E o camarada Boron ainda escreve isso no meio do conto: “para além da obviedade de que Aécio não é Hitler e de que o PSDB não é o Partido Nacional Socialista Alemão.”

    “A analise marxista ensina que(…)”
    Como se dispuséssemos de muito unidade pra isso….ou ainda uma autoridade hermenêutica pragmática e convencionada por uma multidão de segmentos de esquerda(vide Gustavo Bueno, El mito de la izquierda: las izquierdas y la derecha ,2003)

    O PT e seus admiradores vai continuar fazendo o mesmo jogo chantagista até quando, afinal? Obviamente não sou um terrorista doentio como Reinaldo Azevedo ou Olavo de Cascalho, e lembro-lhes mais uma vez que estamos em uma rede de comentários de um artigo brilhantemente intitulado “O sexto turno”. A falsa sinuca de bico (nem é esse o jogo!) do “Olha o que nos fizemos e olha que eles fizeram” nunca terá a livre-vontade e o caráter de olhar para o alto e se comparar com resultados minimamente “ideais” (no sentido hartmanniano, mas ninguém vai lê-lo mesmo…), qualquer olhar para trás será vitorioso quando se sai de um inferno mais quente e cruel para outro mais suportável para alguns. Nem precisaríamos de ideais, apenas olhem para a educação, a saúde e a distribuição de renda de um país como Cuba, por exemplo, e logo Boron que o conhece tão bem.
    A fenômeno da “desleitura” construído pelo crítico burguês e sionista Harold Bloom está mesmo em todos os lugares e atualíssimo. Lemos um autor com nossas convicções e discriminações de tal forma que uma perda de significados e intenções textuais surge como inevitável. Diante de resistências tão fracas, ilusórias e inconsistentes está o artigo mais sóbrio e lúcido sobre a defesa do voto nulo (como parte e pequeno gesto de um processo maior) que pude até então encontrar.
    Coisas da literatura…

    Curtir

  16. Se quer mesmo tratar a questão de forma histórica vamos incluir os governos FHC. Por que restringiu aos governos petistas? Vamos incluir até os governos pós-ditadura. Por que restringir ao regime democrático estável? O anti-petismo continua pesada na esquerda classista. E pior: depois da surra que esta tomou nas urnas. Boa parte da direita é anti-petista (e tem razão de ser, afinal para ela o problema é o PT no aparelho de estado do Brasil). Se a esquerda assim continuar a ser, não só avançará, como participará da onda conservadora que se tem no país ( se que não está participando há alguns anos). A esquerda socialista (PCB, PCO, PSTU e PSOL) tem culpa sim. Depois de um movimento de massas que jamais via nos últimos anos 20 anos, o que fez? Não vi nada em termos de unificar em termos de programa e ações durante ou depois Junho. Nas eleições com seus ‘egos’ e sectarismo lançaram 4 candidaturas. Ainda assim pedem autocrítica dos camaradas que vão votar em Dilma no segundo turno. Porém vão fazer as suas quando?

    Curtir

    • Rafael Kraus // 23/10/2014 às 21:20 // Responder

      Camarada, “tratar a questão de forma histórica” foi o que aconteceu em cada parágrafo do texto que supostamente acabaste de ler, e só mesmo sendo cego para não perceber o quanto FHC e Cia estão lá incluídos, ainda que de forma mais implícita. Além disso, alguém de esquerda “radical” que trabalhe em uma crítica contra o PT necessariamente também o faz ou já o fez contra Sarney, Collor, FHC,etc. O problema maior é que quem sistematicamente se apropria de um discurso de esquerda para fins eleitoreiros(e sabe que só se elege assim) e que afirma ter avançado mudanças “radicais” é justamente o nosso amado PT. E aí surge a estafa e o esgotamento de pensadores como Iasi e você os manda passear…Genial! Se atreva a ler “As metamorfoses da consciência de classe: o PT entre a negação e o consentimento” e ainda enxergar o “partido da ordem” com algum respeito.

      “O anti-petismo continua pesada na esquerda classista. ” Que p… é essa?(Estupefato!) Que maldição seria uma esquerda não classista? Aliás, sabemos muito bem o que seria e o que já foi.

      “depois da surra que esta tomou nas urnas”. Minha criança, qualquer urna localizada em um estado burguês, em uma mídia-empresa burguesa, em uma “cultura” hegemonicamente imperialista e burguesa, e entre camadas e mais camadas de alienação e de uma despolitização assustadora, não é para mim critério algum para julgar a patetice que acusas.

      “Se a esquerda assim continuar a ser, não só avançará, como participará da onda conservadora que se tem no país” . Ai, ai… você me fez tomar uma cachaça agora, essa foi forte. A esquerda participando de uma onda conservadora… a que nível chegamos… Aliás, você esqueceu um partido na sua ilustre listinha, o Partido Comunista Revolucionário(PCR), que não concorreu a nada, mas que como muitos outros está em pé e vivo(falo de um número expressivo de movimentos e organizações populares que também estão na jogada)em sua militância.

      ” Não vi nada em termos de unificar em termos de programa e ações durante ou depois Junho. ” Isso é uma questão que não cabe a você responder(não nestes termos) e muito menos denegrir ou condenar, é um drama que a esquerda mundial ainda está às voltas já há muitas décadas, e que sem dúvida merece todo o esforço e a urgência daqueles que tem algo a acrescentar em uma discussão.

      Mas julgas tu mesmo, camarada: é possível apoiar um governo que desde o seu início vive a criar obstáculos aos trabalhadores e à revolução(e não me venha falar do bolsa família), e até mesmo dificulta e faz regredir a própria sugestão de uma revolução? (Aliás, é mais um triste fenômeno de contra-revolução como tantas vezes já se assistiu.)

      Tente me convencer que a amizade de uma dúzia de de latifundiários, empresários e banqueiros tem mais valor para a revolução que a confiança e a amizade integral de milhões de operários e camponeses?

      É preciso escolher. (E não é entre o que você pensa…)

      Saudações!

      Curtir

  17. So much info in so few words. Totlosy could learn a lot.

    Curtir

10 Trackbacks / Pingbacks

  1. O sexto turno | Partido Comunista Brasileiro – PCB/SC
  2. O sexto turno | Blog do Dario
  3. Não ao Partido do Vinagre | RESISTÊNCIA LSD
  4. União da Juventude Comunista – Ceará
  5. O voto [in]útil. | PubliKador.com
  6. O voto [in]útil. | Dias e noites transplantes com cores, açoites.
  7. Necessidade de uma transformação cultural | doidaodesobriedade
  8. A “volta” do bipartidarismo no Brasil | BLOG DO CAIO ANDRADE
  9. As ruas: poemas e reflexões pedestres, de Mauro Iasi | revista o Viés
  10. Mészáros e A montanha que devemos conquistar: notas sobre o capital e o Estado | revista o Viés

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: