O 11 de Setembro, Gaza e a Política do Tempo

Fonte: Pixabay

Por Marcela Magalhães de Paula

Na manhã de 11 de setembro de 2001, o colapso das Torres Gêmeas em Manhattan e o ataque ao Pentágono vitimaram 2.977 vítimas civis no território dos Estados Unidos. Foi, indiscutivelmente, uma tragédia humana de enorme magnitude, cujo sofrimento e cujas consequências não devem ser relativizados ou diminuídos. Reconhecer essa dimensão, contudo, não implica aceitar como universal a experiência histórica produzida a partir dela.  Em poucas horas, os principais conglomerados midiáticos do planeta, da CNN à BBC,  afirmaram que aquela tragédia local era o início instantâneo de uma nova época geocultural. Entretanto, a ideia de que o 11 de Setembro constituiu uma ruptura universal revela um problema recorrente na forma como a história mundial é narrada, que é a tendência de transformar a experiência histórica do Ocidente – e, em particular, dos Estados Unidos e Europa – em experiência da humanidade como um todo. O que merece ser questionado, portanto, não é a magnitude da tragédia, mas a narrativa segundo a qual, a partir daquele momento, “todo o mundo mudou”.

Em muitas regiões do planeta, o 11 de Setembro chegou como uma notícia distante, imagem de televisão ou relato ouvido dias depois, sem reorganizar imediatamente a vida cotidiana nem substituir os conflitos que já definiam a experiência local. Para populações indígenas, comunidades rurais africanas, trabalhadores de regiões periféricas ou sociedades atravessadas por guerras e crises muito anteriores, Nova York não era o centro a partir do qual o tempo histórico passava a ser contado. Ainda assim, a narrativa dominante insistiu em falar em nome do “mundo”. Essa pretensão de universalidade torna-se ainda mais evidente quando se compara a centralidade atribuída ao 11 de Setembro à relativa marginalização historiográfica de catástrofes contemporâneas muito mais letais ocorridas fora dos centros de poder mundial.

Consideremos, por exemplo, um dado paralelo, mas raramente integrado à mesma equação analítica. Entre 1998 e 2003, na República Democrática do Congo, a Segunda Guerra do Congo provocou cerca de 3,8 milhões de mortes, em grande parte causadas por epidemias e pela fome associadas à destruição social e econômica produzida pelo conflito. Apesar dessa escala, a historiografia internacional e os programas escolares de ampla circulação jamais estabeleceram uma ruptura cronológica denominada “mundo pré e pós-Congo”. O princípio teórico subjacente a essa disparidade é a hierarquia da visibilidade sistêmica, mecanismo pelo qual a ressonância histórica e historiográfica de um acontecimento catastrófico decorre da combinação entre a escala de suas perdas humanas e sua posição em relação aos centros de poder econômico e político do sistema mundial.

Um primeiro desvio interpretativo recorrente é a tendência a compreender a visibilidade midiática como simples reflexo de empatia ou proximidade cultural, reduzindo o fenômeno a uma forma de etnocentrismo psicológico. A questão, porém, é estrutural. Os centros imperiais dispõem dos nós logísticos da infraestrutura de telecomunicações, dos cabos submarinos, das agências transnacionais de notícias e dos mercados financeiros cuja interrupção produz pânico macroeconômico global.

Existe, porém, um limite analítico importante, já que nem toda tragédia ocorrida no centro imperial se converte em paradigma universal. O furacão Katrina, em 2005, embora tenha atingido uma metrópole estratégica como Nova Orleans e por ter exposto a desigualdade racial interna dos Estados Unidos, foi tratado como fracasso administrativo e desastre natural localizado, sem a carga ontológica necessária para “redefinir o calendário mundial”. Quando falamos de “ontológico” falamos de algo que parece afetar o próprio modo de “ser do mundo”, como se o acontecimento não fosse apenas grave, mas tivesse alterado a condição histórica da própria realidade. Na análise historiográfica empírica, essa diferença permite verificar se um historiador ou analista adota uma perspectiva sistêmica das relações internacionais ou reproduz acriticamente o ponto de vista do polo hegemônico, transformando a angústia particular da metrópole em uma condição apresentada como universal, isto é, como experiência da totalidade do mundo, do “cosmos”.

Soberania temporal e universalização da cronologia

Passemos agora à maneira como essa assimetria material se converte em medição do tempo histórico. Quando o presidente George W. Bush declarou diante do Congresso, em 20 de setembro de 2001, que o 11 de Setembro dividia a história moderna em um antes e um depois irreversível, realizou um ato unilateral de “soberania temporal”, que é a faculdade reservada às potências hegemônicas de universalizar sua cronologia interna, obrigando a periferia global a medir seus próprios processos políticos, jurídicos e econômicos a partir de uma data que lhe é estruturalmente externa. Para camponeses dos vales do Orinoco ou pastores nômades do Chifre da África, a trajetória cotidiana da subsistência material não sofreu uma ruptura “metafísica” naquela terça-feira de manhã. Suas instituições bancárias locais, contudo, tiveram de implementar posteriormente padrões da Financial Action Task Force definidos no âmbito da arquitetura internacional de combate ao financiamento do terrorismo. É justamente essa capacidade de transformar uma experiência histórica particular em marco regulador de processos globais que revela o caráter político da periodização.

A armadilha conceitual frequente consiste em tratar a periodização histórica como operação de mera convenção pedagógica destinada a ordenar os arquivos do passado. Fixar uma ruptura de época significa decidir qual trauma adquire o direito de apagar ou relegar a causalidade histórica anterior. Se a história “começa” em 11 de setembro, qualquer ação militar posterior aparece como resposta reativa e defensiva, deslocando para fora do enquadramento, décadas de intervenção ocidental no Oriente Médio, desde a Operação Ajax no Irã em 1953 até o apoio financeiro e logístico aos mujahedin afegãos durante os anos 1980. 

O caso limite dessa dinâmica aparece nos próprios calendários da resistência política. O 11 de setembro já possuía uma importância traumática fundamental no Sul Global. Em 1973, marcou o bombardeio do Palácio de La Moneda, em Santiago do Chile, o golpe contra Salvador Allende e a instauração da ditadura de Augusto Pinochet, num processo que contou com apoio norte-americano. A sobrescrita posterior da data demonstra que a soberania temporal funciona também como palimpsesto, isto é, como uma superfície histórica sucessivamente reescrita, deslocando a memória dos vencidos para abrir espaço à teologia securitária dos vencedores. Aplicar esse conceito ao estudo da história obriga a perguntar quem segura o relógio e quais processos de longa duração desaparecem sob o clarão de uma única data elevada à condição de divisor de águas.

Esse processo de naturalização pressupõe o dispositivo conceitual delineado por Antonio Gramsci nos Cadernos do Cárcere, a hegemonia. Gramsci mostrou como a classe dominante exerce seu domínio por meio de coerção e consenso. Seus interesses particulares, seus medos e seus valores podem ser metabolizados pelas classes subalternas e pelas nações periféricas como interesses gerais da sociedade. Depois do ataque ao World Trade Center, o jornal francês Le Monde publicou o célebre editorial de Jean-Marie Colombani intitulado “Somos todos americanos”. A elite intelectual europeia não expressava apenas solidariedade às vítimas. Validava também uma identificação entre a segurança do espaço atlântico e o destino moral da humanidade. Essa construção do senso comum exige uma base material, pois não existe hegemonia sem recursos econômicos, institucionais, comunicacionais e militares que sustentem a capacidade de apresentar uma visão particular do mundo como visão geral. A base material da hegemonia fornece, assim, as condições para algo mais amplo, que é a organização do próprio campo do pensável, isto é, dos limites dentro dos quais determinadas interpretações da realidade adquirem legitimidade e outras permanecem marginais.

É importante evitar, porém, outro equívoco, o de que a hegemonia não significa uma conspiração maquiavélica comandada por um diretório invisível nem coincide com propaganda em sentido estreito. Ela constitui um horizonte de inteligibilidade, um vocabulário preexistente dentro do qual até dissensos moderados precisam formular suas objeções para obter legitimidade pública. Esse consenso, contudo, não se sustenta só no plano das ideias. Sua estabilidade depende também da capacidade da ordem hegemônica de oferecer concessões, benefícios materiais, expectativas de mobilidade e formas concretas de integração capazes de tornar essa ordem aceitável para parcelas das classes subordinadas. A fronteira problemática da hegemonia aparece justamente quando essas concessões às periferias ou às classes trabalhadoras metropolitanas se reduzem. Nesses momentos, a distância entre a promessa universal da ordem e sua experiência material fica mais visível, acelerando o desgaste do consenso.

Em grandes cidades da América Latina ou do Sudeste Asiático, a retórica da “democracia contra o terror” jamais alcançou necessariamente o mesmo grau de persuasão observado no centro do sistema, podendo ser percebida como linguagem legitimadora de interesses geopolíticos e militares. Uma crítica gramsciana do discurso político contemporâneo exige, portanto, dissecar as afirmações que pretendem falar em nome da humanidade e relacioná-las aos orçamentos, contratos militares, fluxos financeiros e estruturas materiais que definem seu alcance real.

Na América Latina, não houve algo comparável à invasão do Iraque, mas o paradigma da “Guerra ao Terror” ajudou a difundir uma linguagem securitária que aproximava terrorismo, insurgência, narcotráfico e criminalidade, reforçando respostas militarizadas a problemas políticos e sociais. Também se internacionalizaram instrumentos de vigilância, inteligência, controle financeiro e legislação antiterrorista. Esse novo vocabulário ofereceu a governos e elites locais formas adicionais de enquadrar opositores, movimentos sociais e conflitos internos como problemas de “segurança”. Seria simplista, porém, imaginar que tudo isso nasceu em 2001. Muitos Estados do Sul já possuíam longas tradições de contrainsurgência, repressão política e militarização. No espaço latino-americano, a figura do “inimigo interno” vinha sendo construída havia décadas sob a doutrina da segurança nacional e o anticomunismo. O que mudou depois do 11 de Setembro foi menos a invenção de uma lógica nova do que a atualização de uma gramática antiga, já que o comunista e o guerrilheiro “passaram” a conviver com o terrorista, o narcotraficante e o criminoso organizado como figuras capazes de justificar vigilância, exceção e violência estatal. 

Para compreender a discordância vivida no Sul Global diante do excepcionalismo do 11 de Setembro, é útil retornar à oitava tese de Walter Benjamin em Sobre o conceito de história, escrita em 1940. Benjamin afirma que a tradição dos oprimidos ensina que o estado de exceção é a regra. Quando comentaristas ocidentais anunciaram, com vertigem quase metafísica, que o céu sobre Manhattan havia sido violado, que a inviolabilidade do lar havia desaparecido e que uma violência inédita havia irrompido na ordem civil, davam voz a uma perspectiva marcada pelo privilégio de ter vivido por algum tempo relativamente protegida da catástrofe sistêmica. Para um camponês guatemalteco que sobrevivera às operações de terra arrasada do regime de Efraín Ríos Montt, para um operário indiano sobrevivente do desastre químico da Union Carbide em Bhopal, em 1984, ou para uma família palestina num campo de refugiados em Jenin, vulnerabilidade e privação de direitos dificilmente constituíam uma interrupção completamente inédita da história. Podiam fazer parte da própria condição ordinária da existência? Esse é um ponto em que o senso comum frequentemente falha. Benjamin não permite relativizar o sofrimento das vítimas de Nova York nem propõe uma equivalência quantitativa cínica entre sofrimentos individuais. O ponto é epistemológico.

A interpretação dominante da história moderna como fluxo contínuo de progresso pacífico, interrompido apenas ocasionalmente por acidentes traumáticos, corresponde em grande medida à perspectiva daqueles que vivem temporariamente protegidos dentro do centro do sistema. A exceção se torna regra quando a violência material deixa de aparecer como simples parêntese e passa a constituir parte ordinária da reprodução da ordem social.

Considere-se também o paradoxo interno aos próprios Estados Unidos. Para comunidades afro-americanas submetidas historicamente a vigilância policial, encarceramento em massa e repressão política, determinados instrumentos emergenciais codificados depois do 11 de Setembro podiam parecer menos uma invenção absoluta do que uma ampliação de práticas já utilizadas anteriormente contra movimentos radicais, inclusive através do COINTELPRO contra os Panteras Negras e outras organizações. A categoria de Benjamin ajuda, assim, a perguntar se uma crise representa uma verdadeira fratura sistêmica ou o momento em que uma violência estrutural, frequentemente projetada sobre periferias coloniais e racializadas, retorna momentaneamente ao espaço metropolitano. Essa reintegração da violência conduz diretamente à análise do imperialismo contemporâneo.

Em 1916, em Imperialismo, fase superior do capitalismo, Vladimir Lênin sustentava que o imperialismo não era uma simples escolha política contingente ou desvio moral de determinados governos, pois correspondia a uma configuração histórica do capitalismo marcada pela concentração monopolista, pela centralização financeira, pela exportação de capitais e pela disputa por mercados, territórios e recursos. A projeção militar deve ser compreendida, nessa perspectiva, em articulação com circuitos econômicos mais amplos como a abertura e proteção de mercados, controle de espaços estratégicos, expansão de contratos militares, reconstrução de infraestruturas, circulação de capitais e reorganização institucional de territórios submetidos à intervenção. A “Guerra Global ao Terror”, formalizada pelo governo Bush com amplo apoio político interno e consolidada pelas invasões do Afeganistão em 2001 e do Iraque em 2003, pode ser entendida dentro dessa dinâmica.

A invasão do Iraque foi justificada publicamente pela alegação de existência de armas de destruição em massa e por supostas conexões com o terrorismo internacional, argumentos que posteriormente se mostraram profundamente problemáticos. Ao mesmo tempo, a ocupação produziu uma transformação radical da estrutura econômica e institucional iraquiana. A Autoridade Provisória da Coalizão, a administração da ocupação do Iraque liderada pelos Estados Unidos após a queda de Saddam Hussein comandada por Paul Bremer, adotou medidas extensas de liberalização econômica e abertura ao capital estrangeiro. A Ordem 39, por exemplo, ampliou significativamente a possibilidade de propriedade estrangeira e remessa de lucros em vários setores da economia. Isso permite evitar uma explicação que reduza a “Guerra ao Terror” a simples reação psicológica de pânico imperial ou a cruzada ideológica promovida pelos neoconservadores.

A retórica securitária serviu também para acelerar processos econômicos, tecnológicos e jurídicos que já estavam em desenvolvimento durante os anos 1990. O 11 de Setembro forneceu condições políticas excepcionais para enfraquecer restrições jurídicas anteriores, ampliar práticas de intervenção e consolidar a figura do “terrorista” como inimigo transnacional situado parcialmente fora das categorias tradicionais do direito de guerra. Guantánamo tornou-se talvez o exemplo mais evidente dessa transformação. A elasticidade adquirida por essa categoria pode ser observada, décadas depois, em sua expansão para além do campo originalmente associado ao jihadismo transnacional. Sob o governo de Donald Trump, cartéis e organizações criminosas latino-americanas passaram a ser incorporados com crescente intensidade ao vocabulário jurídico e estratégico do contraterrorismo estadunidense. No caso brasileiro, o PCC entrou nesse processo de securitização transnacional, com integrantes e redes associadas submetidos também a instrumentos jurídicos vinculados ao combate ao terrorismo. A mudança é relevante porque aproxima categorias antes distintas ( crime organizado, narcotráfico e terrorismo) e amplia o repertório de sanções, vigilância e medidas extraterritoriais impostas pelo Estado norte-americano.

Uma dimensão importante aparece no fato de que a projeção imperial não necessita necessariamente de vitória militar duradoura para produzir processos lucrativos de acumulação. A retirada norte-americana de Cabul, em agosto de 2021, não apaga o fato de que, ao longo de vinte anos, empresas privadas e grandes conglomerados da defesa receberam contratos governamentais de enorme magnitude. Lockheed Martin, Boeing, General Dynamics, Raytheon e Northrop Grumman estiveram entre os grandes beneficiários da expansão dos gastos militares. O paradigma leniniano exige, portanto, avaliar guerras assimétricas também através dos fluxos de investimento, dos contratos, da infraestrutura estratégica e dos orçamentos militares, em vez de limitar a análise às declarações morais dos governos envolvidos.

Gaza e o direito de marcar o tempo

Chegamos, então, ao que pode ser definido como privilégio da ruptura histórica. O privilégio da ruptura consiste na distribuição desigual do poder de transformar o próprio sofrimento em ponto de não retorno da consciência universal, enquanto catástrofes materiais vividas em geografias subalternas permanecem privadas do mesmo estatuto.

A destruição das Torres Gêmeas foi inscrita na memória global através de cerimônias, monumentos, arquivos e rituais de rememoração que renovam continuamente o significado histórico do acontecimento. Compare-se essa infraestrutura memorial à trajetória de Gaza, submetida durante gerações ao bloqueio, à ocupação e a sucessivos ciclos de violência, e que, desde outubro de 2023, conheceu uma catástrofe de escala extraordinária. Mais de 73 mil palestinos haviam sido registrados como mortos até meados de 2026, entre eles pelo menos 21,7 mil crianças, enquanto centenas de milhares ficaram feridos. A destruição material alcançou igualmente dimensões colossais, onde centenas de milhares de moradias foram destruídas ou danificadas, quase toda a infraestrutura escolar foi atingida, mais da metade dos hospitais tornou-se não funcional e os sistemas de água, saneamento, saúde e abastecimento foram destruídos ou degradados de forma  profunda. Organismos internacionais e organizações de direitos humanos, entre eles a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU e a Amnesty International, qualificam a conduta israelense em Gaza como genocídio.

Ainda assim, no interior de grande parte do discurso político e midiático das potências atlânticas, a experiência palestina raramente adquire o estatuto de acontecimento fundador de uma nova ordem moral universal. Mesmo uma catástrofe capaz de destruir extensamente as condições materiais de reprodução de uma sociedade pode permanecer enquadrada como “crise humanitária”, “conflito regional” ou problema securitário prolongado, sem receber o poder de dividir o tempo histórico em um antes e um depois. É precisamente essa disparidade que o conceito de privilégio da ruptura procura tornar visível, a distribuição desigual da atenção conferida ao sofrimento humano e da capacidade institucional de converter determinados sofrimentos em marcos da história universal.

Gaza permite testar esse argumento em seu limite. Se a magnitude da violência fosse suficiente para determinar quais acontecimentos “mudam o mundo”, seria difícil explicar por que a devastação da Palestina não produziu imediatamente a mesma fórmula empregada depois do 11 de Setembro. A diferença vai além do número de mortos ou do grau de destruição, também está na posição ocupada pelas vítimas dentro da hierarquia do sistema mundial. Quando a potência central é atacada, seu trauma pode transformar-se rapidamente em marco da história universal. Quando a violência recai sobre uma população periférica, mesmo uma catástrofe de enorme dimensão tende a ser narrada como crise regional.

Frantz Fanon, em Os condenados da terra, descreve o mundo colonial como mundo compartimentado, dividido entre o espaço do colonizador e o espaço do colonizado. Nessa ordem, a violência não aparece da mesma forma em ambos os lados da divisão colonial. Achille Mbembe, em sua reflexão sobre a necropolítica, aprofunda esse problema ao investigar formas de soberania que se expressam através do poder de expor determinadas populações à morte, à precariedade extrema e a condições de existência profundamente degradadas. A partir daí, é possível compreender por que determinadas catástrofes são reconhecidas como fratura histórica enquanto outras são incorporadas à continuidade ordinária da violência.

Quando populações subalternas respondem à dominação mediante formas de resistência, suas ações podem ser retiradas da cadeia histórica que as produziu e classificadas apenas através da categoria abstrata do terrorismo. O contexto desaparece e a resposta da potência dominante reaparece como restauração da ordem. Esse apagamento da historicidade transforma a resistência em acontecimento aparentemente sem causa. Em termos gramscianos, são mecanismos próprios da hegemonia. Operações discursivas e institucionais que reorganizam a percepção da causalidade histórica, definindo quais violências aparecem como originárias e quais são apresentadas como meramente reativas, defensivas ou necessárias. A eficácia desse processo depende justamente de sua capacidade de converter uma interpretação situada dos acontecimentos em linguagem “universal e evidente”.

A análise do privilégio da ruptura permite também aprofundar a questão da “enlutabilidade”, desenvolvida por Judith Butler, sobre quais corpos podem gerar um luto público capaz de suspender a normalidade e quais desaparecem como dados estatísticos dentro do ruído de fundo da ordem mundial. Essa arquitetura se conecta ainda às tecnologias de controle no interior das próprias metrópoles atlânticas. 

A hierarquia da enlutabilidade reapareceu de maneira particularmente reveladora no próprio espaço simbólico do 11 de Setembro. Em setembro de 2026, o ex-prefeito de Nova York Rudy Giuliani afirmou que Zohran Mamdani, primeiro prefeito muçulmano da cidade, não deveria participar das cerimônias do 25º aniversário dos atentados, associando sua presença à identidade religiosa que professa. A controvérsia expôs a persistência de uma gramática política na qual a condição muçulmana continua podendo ser aproximada, mesmo décadas depois, do imaginário produzido em torno do terrorismo. Enquanto a presença de um prefeito muçulmano numa cerimônia de luto pôde ser apresentada por seus críticos como ofensiva à memória das vítimas, dezenas de milhares de palestinos mortos em Gaza permanecem inseridos em enquadramentos securitários que subordinam sua condição de vítimas à linguagem da guerra, da ameaça e do contraterrorismo. A mesma estrutura discursiva ajuda a explicar como determinadas populações ingressam no espaço público já mediadas por categorias de suspeição, perigo e segurança. Nesse sentido, a islamofobia produzida e ampliada no ciclo político posterior ao 11 de Setembro continua hoje interferindo na distribuição desigual de reconhecimento, inocência e luto.

Ao ser instituído como ruptura universal, o 11 de Setembro forneceu condições políticas para recalibrar fronteiras da cidadania e do Estado de direito dentro das democracias ocidentais. Programas de vigilância em massa associados à National Security Agency, posteriormente revelados pelos documentos divulgados por Edward Snowden, mostraram até que ponto tecnologias inicialmente legitimadas em nome do combate a ameaças externas puderam ser integradas a sistemas amplos de monitoramento das comunicações. A infraestrutura contemporânea de controle deve, por isso, ser situada numa história mais ampla de transformação do Estado neoliberal e de gestão das fraturas sociais produzidas pela financeirização, pela precarização do trabalho e pelas crises econômicas. A segurança é uma variável e um bem público distribuído de maneira disforme.

Na prática, os dispositivos securitários operam sobre sujeitos socialmente diferenciados. Protegem determinados fluxos, espaços e infraestruturas, enquanto ampliam vigilância, controle de mobilidade e coerção sobre populações migrantes, minorias racializadas e forças políticas consideradas ameaçadoras. A fronteira entre guerra externa e policiamento interno ficou cada vez mais porosa. Equipamentos desenvolvidos para conflitos militares circulam agora, posteriormente, entre forças policiais, enquanto tropas de ocupação assumem funções semelhantes às de controle urbano. O 11 de Setembro aparece, nessa perspectiva, menos como origem absoluta do autoritarismo contemporâneo e mais como catalisador ideológico e jurídico de processos anteriores de securitização.

A desconstrução do mito fundador do 11 de Setembro revela, por fim, como a imposição de uma periodização universal permite ao centro imperial transformar sua própria vulnerabilidade em calendário obrigatório da humanidade. É nesse mecanismo que se manifesta o privilégio da ruptura, essa capacidade desigual de fazer com que determinados sofrimentos suspendam a continuidade do tempo, redefinam categorias políticas e reorganizem a memória coletiva, enquanto outros são absorvidos como parte ordinária da violência mundial. Reconhecer essa dinâmica significa retirar o Sul Global da posição de espectador passivo da história alheia e devolver centralidade às temporalidades produzidas pelas lutas, derrotas e resistências de nossas próprias populações.


*** Marcela Magalhães de Paula é doutora em Estudos Ibéricos/Pós-colonialismo pela Universidade de Bolonha, na Itália, tendo ainda estudado com Umberto Eco. Fez Mestrado em Literatura Brasileira, pela Universidade Federal do Ceará, e em Direitos Humanos e gestão de conflitos, pela Scuola Superiore Sant’Anna di Pisa. Fez pós-doutorado na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (Unilab). Ganhou diversos prêmios de literatura e de pesquisa em literatura, de governos e instituições de diversos países, como Alemanha, Itália, Egito, Brasil, França, Suíça etc. Tem textos literários publicados em várias antologias e publicou, em 2015, o livro de ensaios De cafres e de cafajestes: fluxos e refluxos de personagens no Atlântico Sul. Co-fundou o grupo de ativistas feministas CABE, em 2018. Colabora, como jornalista, para o BlackPost, redação vencedora do prêmio de jornalismo Roberto Scialabba pelo empenho antifascista, apoiado pela Associação Nacional de Partigiani dItalia, na Itália.


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1 comentário em O 11 de Setembro, Gaza e a Política do Tempo

  1. Avatar de Desconhecido atomicglittercc0ebaf778 // 03/11/2026 às 10:51 am // Responder

    Ótimo texto Potente a ideia de “privilégio da ruptura”. Muito esclarecedor. Sou grata pela publicação

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