Boi, Bala e Bíblia: três letras de uma mesma relação de forças

Fonte: Agência Brasil
Por Lisandro Cañon
Há três letras que parecem explicar a realidade porque conseguem condensá-la. «BBB» é uma delas. No Brasil, a sigla que reúne Boi, Bala e Bíblia tornou-se uma forma corrente de identificar setores do Congresso Nacional associados ao latifúndio e ao agronegócio, à expansão das políticas de armamento e segurança punitivista e ao conservadorismo religioso, especialmente em determinados segmentos evangélicos. Mas três letras não explicam uma sociedade. Elas apenas nomeiam uma convergência. E é justamente essa convergência que precisa ser explicada.
Boi, Bala e Bíblia não constituem uma organização única, não obedecem a uma direção central e não expressam interesses absolutamente idênticos. O que existe é uma articulação política contingente entre forças sociais distintas. Interesses diferentes podem encontrar uma plataforma comum sem deixarem de ser diferentes. Podem disputar entre si e, ao mesmo tempo, convergir na defesa de determinadas formas de propriedade, autoridade, segurança, família e ordem social. É nessa articulação que aparece uma determinada relação de forças: a terra, a coerção e o consenso. Não como três compartimentos separados da sociedade, mas como dimensões que podem se reforçar na reprodução de uma mesma ordem social. O Boi organiza interesses materiais vinculados à propriedade e à exploração econômica do território. A Bala expressa uma determinada concepção do exercício da coerção e da administração dos conflitos sociais. A Bíblia, em determinados setores religiosos, mobiliza comunidades, valores, identidades e redes de sociabilidade capazes de produzir consenso. A questão, portanto, não é descobrir uma organização secreta escondida atrás das três letras. É compreender como forças sociais diferentes conseguem transformar interesses particulares em força política e, em determinadas circunstâncias, convertê-los em políticas de Estado.
O problema não começou no Congresso
A BBB costuma aparecer como fenômeno parlamentar. Mas o Congresso é apenas um dos lugares em que uma relação de forças se torna visível. A política não começa nas bancadas. Antes de chegar ao Parlamento, um interesse precisa existir socialmente. Precisa possuir recursos, organizações, capacidade de mobilização, instrumentos de pressão e formas de representação. Precisa encontrar aliados. Precisa disputar a direção da sociedade. E, quando consegue transformar força social em força política, pode disputar o Estado.
Por isso, compreender a BBB exige olhar para além do Congresso Nacional. A questão agrária brasileira, a construção histórica dos aparelhos coercitivos e a transformação de determinadas organizações religiosas em forças políticas não nasceram juntas. Possuem histórias diferentes. O que interessa é compreender em que momento essas histórias diferentes encontram uma zona de convergência. Essa convergência não elimina as contradições. Ao contrário. A política capitalista não exige que os sujeitos sejam homogêneos. Exige que interesses distintos possam ser organizados sob determinadas formas de direção política. É aí que a questão da hegemonia aparece.
Boi: terra, poder e conflito
Para compreender o Boi é preciso voltar muito antes da existência do atual agronegócio. A concentração da terra no Brasil não é uma novidade da República, nem uma consequência recente da expansão das commodities. Ela está inscrita na formação histórica da sociedade brasileira. A colonização organizou a apropriação territorial em torno da grande propriedade, da exploração do trabalho e da concentração dos recursos naturais. A escravidão sustentou durante séculos essa estrutura. A abolição não realizou uma transformação da propriedade fundiária. A República tampouco rompeu com essa ordem. A questão agrária não pode ser reduzida, portanto, à quantidade de hectares pertencentes a cada proprietário. A terra é uma relação social de poder. Ela produz riqueza e renda, mas também produz capacidade de mando, controle territorial e poder político. Quem controla grandes extensões não controla apenas um ativo econômico. Controla recursos, circulação, formas de trabalho e, em determinadas regiões, condições fundamentais para a reprodução da vida social.
Os dados confirmam a profundidade dessa concentração. O índice de Gini da posse da terra no Brasil é de 0,867, segundo o Censo Agropecuário de 2017 — um dos mais altos do mundo. A estrutura fundiária brasileira é historicamente uma das mais desiguais do planeta, e essa desigualdade é o resultado de um processo político deliberado. É nesse terreno histórico que deve ser compreendido o fenômeno da grilagem. As chamadas terras devolutas constituem parte importante da história da apropriação territorial brasileira. O Estado permaneceu proprietário de extensas áreas, enquanto diferentes mecanismos jurídicos, administrativos e fraudulentos permitiram, ao longo do tempo, sua incorporação ao patrimônio privado. A grilagem não é simplesmente uma ilegalidade individual praticada por um proprietário. Em determinados contextos, é um mecanismo de apropriação territorial que combina ocupação, falsificação documental, violência, pressão política e posterior tentativa de legalização. A fronteira entre o legal e o ilegal, nesse processo, nunca foi apenas jurídica. Foi política. Isso permite compreender uma característica fundamental da formação brasileira: aquilo que posteriormente aparece como propriedade privada consolidada pode carregar consigo uma longa história de violência, expropriação e apropriação do território.
O capitalismo agrário não apagou essa história. Transformou-a. O velho latifúndio não desapareceu porque o capitalismo agrário se modernizou. Foi incorporado a novas formas de valorização do capital. O proprietário de terra pode hoje estar integrado a cadeias agroindustriais, mercados financeiros, empresas exportadoras, empresas de insumos e estruturas logísticas internacionais. A magnitude econômica do setor é incontestável. O agronegócio representou 25,13% do PIB brasileiro em 2025, ante 22,9% em 2024, e respondeu por 48,5% de todas as exportações do país, que atingiram US$ 169,2 bilhões. O setor emprega cerca de 26% de todas as ocupações no Brasil. Essa pujança econômica se traduz diretamente em poder político. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) reúne cerca de 350 deputados e senadores, sendo o maior e mais influente frentes do Congresso Nacional. Em votações decisivas, a FPA opera como um bloco de pressão organizado, capaz de pautar a agenda legislativa e vetar iniciativas contrárias aos seus interesses. A FPA não representa simplesmente «os fazendeiros». Expressa parte de uma articulação mais ampla de interesses vinculados à propriedade, à produção agropecuária, à expansão da fronteira agrícola, à regularização fundiária e às cadeias econômicas que se organizam em torno da terra.
E onde a propriedade precisa ser defendida contra aqueles que a contestam, a questão econômica encontra a questão da coerção. Os dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) revelam a violência dessa disputa. Em 2025, foram registrados 1.593 conflitos no campo no Brasil, uma redução de 28% em relação aos 2.207 de 2024. No entanto, o número de assassinatos no campo dobrou: passou de 13 em 2024 para 26 em 2025. A redução dos conflitos não significou redução da violência; ao contrário, a letalidade aumentou.
A dimensão internacional agrava o quadro. As grandes empresas do agronegócio brasileiro — JBS, Cargill, Bunge, Amaggi, ADM — estão integradas a cadeias globais de valor que conectam a produção brasileira aos mercados internacionais. A Moratória da Soja, acordo que impedia a compra de soja de áreas desmatadas da Amazônia, foi efetivamente abandonada por essas empresas, abrindo caminho para a expansão da fronteira agrícola sobre a floresta. Em 2025, Amazônia e Cerrado responderam juntos por mais de 84% de toda a área desmatada no país. O Cerrado concentrou 54,9% do desmatamento, com 7.235 km² perdidos. Na Amazônia, o desmatamento foi de 5.796 km², uma redução de 11,08% em relação ao ano anterior, mas ainda equivalente à perda de 1588 hectares por dia — cerca de 5 árvores por segundo. O uso de agrotóxicos também bateu recorde. Em 2025, foram 9.729 casos de intoxicação notificados no Brasil, uma alta de 84% em relação a 2015, o equivalente a 27 pessoas intoxicadas por dia. O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, e os danos à saúde — especialmente de mulheres e crianças — incluem mutações de DNA, anomalias congênitas, alterações hormonais, câncer de mama e leucemia.
A face mais brutal da exploração do trabalho no campo permanece. Em 2025, 4.515 denúncias de trabalho escravo foram registradas no Brasil, e 2.772 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão. Do total de resgatados, 86% são homens e 83% se autodeclaram negros (pretos ou pardos). Pela primeira vez, a maioria dos resgatados — 68% — estava empregada em áreas urbanas, especialmente na construção civil. O trabalho escravo contemporâneo não é um resquício do passado: é uma realidade atual que atravessa tanto o campo quanto a cidade. O Boi, portanto, não é apenas a vaca, a soja ou a propriedade. É uma relação entre território, propriedade e poder.
Bala: coerção, punitivismo e a produção do inimigo
A Bala não representa apenas aqueles que defendem a venda de armas. Representa uma determinada concepção da ordem social. Diante do conflito, mais coerção. Diante da criminalidade, mais prisão. Diante do medo, mais armas. Diante da pobreza, mais polícia. A questão social é transformada progressivamente em questão de segurança. O problema começa quando essa racionalidade deixa de ser uma resposta circunstancial e passa a constituir uma forma de fazer política. O punitivismo não é simplesmente o desejo de punir. É uma racionalidade que converte conflitos sociais em problemas criminais e desloca a resolução de contradições estruturais para o fortalecimento dos aparelhos coercitivos do Estado.
Mas a coerção precisa de um objeto. É preciso produzir um inimigo. «Bandido bom é bandido morto» não é apenas uma frase brutal. É uma síntese política. Ela transforma o adversário social em corpo eliminável e desloca a questão dos direitos para a questão da neutralização. Quem é o inimigo? A resposta não é socialmente neutra. No Brasil, a construção histórica do inimigo criminal está profundamente atravessada por classe e raça. A República nasceu sem romper com a estrutura social construída pela escravidão. A população negra foi juridicamente libertada, mas não recebeu, com a abolição, acesso à propriedade da terra, condições materiais de igualdade ou proteção estatal capaz de alterar sua posição na estrutura social. A liberdade jurídica coexistiu com relações materiais de desigualdade. Essa contradição não desapareceu. Transformou-se.
A escravidão terminou juridicamente em 1888. A criminalização racial, não. Em 1890, apenas dois anos depois da abolição, o Código Penal republicano passou a criminalizar a vadiagem e outras condutas associadas às formas de circulação e existência dos setores populares. Posteriormente, a legislação de contravenções penais de 1941 manteve a figura da vadiagem. A lei não precisava dizer «prendam os negros». O mecanismo era mais sofisticado. Em uma sociedade recém-saída da escravidão, na qual a população negra havia sido excluída da propriedade da terra, submetida a enormes obstáculos de acesso ao trabalho estável e abandonada pelo Estado à própria sorte, determinadas condições sociais podiam ser convertidas em indícios de criminalidade. A liberdade formal podia coexistir com mecanismos materiais de controle. A criminologia positivista do final do século XIX contribuiu para produzir uma linguagem científica capaz de racializar o crime. Cesare Lombroso e outros autores do positivismo criminológico formularam concepções que associavam características físicas e sociais à propensão criminosa. No Brasil, essas ideias encontraram terreno entre intelectuais e agentes do Estado preocupados em administrar a população negra e pobre. Posteriormente, o movimento eugenista incorporaria outras formas de determinismo biológico e racial. O problema não é apenas intelectual. É político. Quando uma sociedade transforma desigualdades históricas em características naturais de determinados grupos, torna-se mais fácil apresentar a repressão como necessidade objetiva. O Estado não estaria perseguindo negros pobres. Estaria combatendo o crime. A diferença entre as duas frases é justamente o mecanismo ideológico.
O punitivismo contemporâneo não nasceu dessa história. Mas atualiza, sob novas formas, uma antiga capacidade estatal de transformar determinados sujeitos sociais em problema de ordem. Os números do encarceramento em massa são eloquentes. Em 2025, o Brasil tinha 964.668 pessoas privadas de liberdade, somando presos em penitenciárias e delegacias. O país tem a terceira maior população carcerária do mundo, com uma taxa de 439 presos por 100 mil habitantes. O perfil racial da população carcerária revela a continuidade da lógica escravista: 69,6% das pessoas presas são negras. Entre as mulheres, o percentual é ainda mais alto: 68,7% são negras, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025. A criminalização não é um fenômeno aleatório: ela tem cor, classe e território. A violência policial é a face mais visível da Bala. Em 2025, 6.602 pessoas foram mortas por ações policiais no Brasil, um aumento de 5,4% em comparação com 2024. Em média, foram mais de 18 mortes por dia. O Brasil mantém, por quatro anos consecutivos, um patamar anual acima de seis mil vidas perdidas em intervenções policiais. Estudos da Rede de Observatórios da Segurança apontam que a letalidade policial tem como principal alvo a população negra. Em 2025, foram registradas 4.330 mortes decorrentes de intervenção policial, o maior número da série histórica, com aumento de 6,4% em relação ao ano anterior. O Nordeste concentra os piores índices: a Bahia registrou 1.570 mortes em ações policiais, o maior número do país.
A expansão das políticas de armamento ganha significado político quando é acompanhada por uma determinada representação da sociedade. Durante o governo Bolsonaro, a ampliação do acesso a armas e a criação e expansão do universo dos CACs — caçadores, atiradores e colecionadores — tornaram-se parte importante dessa disputa política. Os números impressionam. O Brasil tem 1.022.021 certificados de registro ativos de CACs, que somam 1.588.677 armas registradas. Para se ter uma ideia da dimensão, o efetivo do Exército brasileiro é de 360 mil pessoas — menos de um terço do número de CACs registrados. Entre 2023 e 2025, foram feitos 240 mil novos registros de armas (160 mil de CACs e 80 mil de defesa pessoal). Três em cada dez CACs não possuem arma registrada, o que levanta sérias preocupações sobre o controle e a fiscalização desses arsenais. Mas o fenômeno não deve ser reduzido a uma relação automática entre expansão legal do armamento e criminalidade organizada. O que precisa ser investigado são os mecanismos concretos de circulação, fiscalização, desvio e abastecimento dos mercados legais e ilegais de armas. O dado politicamente relevante está em outro lugar. A expansão do armamento foi acompanhada por uma expansão discursiva da ideia de que a sociedade deveria estar armada para se defender. Defender-se de quem? Essa pergunta é fundamental. Porque toda política de segurança pressupõe uma determinada representação do perigo. Há aqueles que precisam ser protegidos e aqueles dos quais é preciso proteger-se. Quando essa distinção se organiza segundo classe, raça e território, a segurança deixa de ser apenas uma política pública. Passa a ser uma forma de administrar a sociedade.
A Bala não é apenas doméstica. O Brasil é um importador relevante de armamentos, com uma estrutura de fornecedores que revela uma divisão internacional do trabalho militar. Os Estados Unidos ocupam posição sistêmica, a Europa fornece plataformas complexas e cooperação industrial, enquanto Israel atua em nichos tecnológicos especializados. No período de 2018 a 2025, o Brasil importou de Israel 100 mísseis antitanque Spike-MR, além de sistemas de radar, eletrônicos para aeronaves e drones. As importações de armas militares dos EUA somaram US13,8 milhões, e de Israel, US 9,8 milhões. A Bala também se manifesta na dimensão urbana. Facções criminosas e milícias ampliaram seu alcance territorial e social no Brasil. Segundo pesquisa Datafolha de 2025, 19% da população brasileira convive com a presença de facções ou milícias em seu bairro. Em 2025, 21% dos entrevistados relataram essa prática em suas comunidades, um aumento em relação aos 18% registrados em 2024. As milícias não são apenas grupos criminosos: são formas de controle territorial que combinam violência, exploração econômica e, em muitos casos, legitimidade social construída por meio de assistência e “proteção”. A Bala, portanto, expressa mais do que um lobby empresarial. Expressa uma disputa sobre como o Estado deve exercer sua função coercitiva, contra quem e para preservar qual ordem social. É nesse ponto que Boi e Bala se encontram novamente. A propriedade produz uma determinada ordem territorial. A coerção contribui para protegê-la. Mas nenhuma ordem social se sustenta apenas pela força. É preciso produzir consenso.
Bíblia: consenso, mídia e moral
A terceira letra introduz uma dimensão diferente da coerção. A Bíblia não deve ser compreendida simplesmente como religião. O que interessa politicamente é a transformação de determinadas organizações religiosas em forças sociais capazes de produzir identidade, pertencimento, organização comunitária, representação política e consenso. Isso exige uma precaução fundamental. Não existe um único «evangelismo» politicamente homogêneo. Existem diferentes denominações, teologias, igrejas, lideranças e posições políticas. Há setores conservadores, mas também experiências religiosas vinculadas a diferentes formas de organização popular. A questão não é transformar milhões de fiéis em uma categoria política homogênea. É compreender quais organizações, quais lideranças e quais forças sociais conseguem converter a experiência religiosa em capacidade política.
Os dados do Censo 2022, divulgados pelo IBGE, revelam a magnitude do fenômeno. Os evangélicos representam 26,9% da população brasileira — cerca de 47,4 milhões de pessoas. Em 2010, eram 21,6%. O crescimento foi de 5,2 pontos percentuais em doze anos, embora haja sinais de desaceleração em relação à década anterior. Pela primeira vez na história do país, mais de um quarto da população se declara evangélica. Esse crescimento não é apenas religioso: é político. A bancada evangélica no Congresso Nacional é uma das mais influentes, com 219 deputados e cerca de 20 senadores. Em 2025, a bancada viveu um racha inédito, com a eleição de Gilberto Nascimento (PSD-SP) para a presidência por votação, quebrando uma tradição de escolha por consenso. A maioria é conservadora, mas a heterogeneidade interna revela que não se trata de um bloco monolítico. A partir das décadas finais do século XX, o crescimento das igrejas evangélicas alterou profundamente o mapa religioso brasileiro. O fenômeno avançou pelas grandes cidades, periferias e regiões do interior, adquirindo enorme capacidade de organização social. É justamente essa capacidade que produz sua importância política. Uma igreja pode ser um lugar de culto. Mas também pode ser uma rede de sociabilidade. Pode ser um lugar onde se constrói identidade, onde se formam lideranças, onde circulam informações, onde se organizam campanhas e onde se estabelecem interpretações sobre família, trabalho, sexualidade, violência, propriedade e autoridade. Isso significa que a religião pode funcionar como força organizada na sociedade civil. Não se trata, portanto, de perguntar simplesmente se os evangélicos são conservadores. A pergunta historicamente relevante é outra: quais igrejas? quais lideranças? quais organizações? quais alianças? quais recursos? quais pautas? Somente assim é possível transformar a denúncia em análise.
A produção de consenso não se dá apenas nos templos. A mídia desempenha papel central na difusão de representações que naturalizam a propriedade, legitimam a coerção e moralizam a desigualdade. O cenário midiático brasileiro é marcado por alta concentração de propriedade privada, com uma relação estreita entre poder político, econômico e religioso. Os cinco maiores grupos — Globo, Record, SBT, Bandeirantes e Folha — dominam a audiência e a opinião pública. O grupo Record, pertencente à Igreja Universal do Reino de Deus, é um ator central nessa configuração. A emissora opera RecordTV e RecordNews na TV aberta, além do portal R7, e se tornou um veículo de difusão da visão de mundo evangélica conservadora. A “guerra santa” entre Globo e Record, as duas maiores redes de televisão do país, é também uma disputa pela direção cultural e política da sociedade brasileira. A hegemonia BBB não se sustenta apenas pela força e pela fé. Ela produz seus próprios intelectuais orgânicos: think tanks, mídias especializadas, cursos de formação, pastores-intelectuais. Organizações como o Instituto Millenium (IMIL), o Instituto Mises Brasil (IMB), o Instituto Liberal e o Instituto Atlas articulam-se com empresas e produtoras de conteúdo como a Brasil Paralelo para difundir uma visão de mundo ultraliberal e conservadora. A Brasil Paralelo, embora negue vínculos formais, é associada a esses think tanks e produz documentários e conteúdos que mobilizam narrativas históricas e políticas alinhadas à direita.
Uma ordem social não precisa convencer todos os seus membros de que ela é justa. Precisa produzir representações capazes de torná-la aceitável, inevitável ou natural. É nesse ponto que determinadas formas de moral religiosa podem adquirir uma função política. A família, a autoridade, a propriedade, o trabalho, a sexualidade e a segurança deixam de aparecer como relações historicamente construídas e passam a ser apresentadas como expressões de uma ordem natural. A desigualdade pode aparecer como mérito. A autoridade, como necessidade. A propriedade, como direito absoluto. A pobreza, como fracasso individual. A violência, como resposta legítima ao inimigo. É nesse processo que a disputa econômica se transforma em disputa cultural. E a disputa cultural pode voltar a reforçar a estrutura econômica. Essa circularidade é fundamental. O Boi precisa de uma ordem social que naturalize determinadas formas de propriedade e desigualdade territorial. A Bala precisa de uma sociedade que aceite a expansão da coerção como resposta ao conflito. A Bíblia, em determinados setores conservadores, pode contribuir para produzir uma linguagem moral capaz de legitimar essa ordem. Nenhuma dessas funções é absoluta. Nenhuma delas é exclusiva. Mas, quando se articulam, produzem uma força política maior do que a soma mecânica das três.
É também nesse terreno que aparece a disputa sobre a família e o lugar social das mulheres. O crescimento das denúncias e dos registros de violência contra as mulheres não pode ser atribuído diretamente ao crescimento do evangelicalismo ou à existência da bancada BBB. Há múltiplos fatores envolvidos: mudanças na capacidade de denúncia, legislação, políticas públicas, transformações culturais, condições econômicas e permanências patriarcais. Mas reconhecer essa complexidade não significa retirar a questão da disputa política. Determinados setores conservadores disputam permanentemente a definição do que deve ser a família, qual deve ser o lugar social das mulheres, como deve ser tratada a sexualidade e quais políticas públicas podem ser desenvolvidas para enfrentar a violência contra as mulheres. A questão é material. As mulheres participam da reprodução social, sustentam famílias, realizam trabalho doméstico e de cuidado e, em milhões de casos, assumem praticamente sozinhas a responsabilidade pela reprodução da vida. A violência não acontece fora dessa estrutura. Ela se articula com a divisão sexual do trabalho, com a dependência econômica, com o abandono paterno e com a precariedade das políticas de proteção. A desigualdade racial produz efeitos ainda mais profundos. Mulheres negras estão submetidas simultaneamente a relações de exploração, opressão racial e desigualdade entre homes e mulheres. A reprodução social também é uma relação de força. Por isso, a disputa sobre a família não é uma questão secundária ou meramente cultural. Ela participa da disputa sobre quem realiza, em que condições e com quais custos, o trabalho necessário para reproduzir a sociedade.
Três forças, uma articulação
Chegamos então ao ponto central. O Boi, a Bala e a Bíblia não são a mesma coisa. Possuem bases sociais diferentes. Organizações diferentes. Recursos diferentes. Interesses que podem entrar em contradição. Mas podem convergir. O Boi organiza interesses vinculados à propriedade, ao território e às formas contemporâneas de valorização do capital agrário e agroindustrial. A Bala organiza uma determinada concepção da coerção, da segurança e da administração dos conflitos sociais. A Bíblia, em determinados setores, organiza comunidades, identidades, valores e formas de consenso. Propriedade. Coerção. Consenso. Não são três funções perfeitamente separadas. São dimensões que se cruzam. A propriedade precisa de proteção. A coerção precisa de uma legitimidade social. O consenso pode naturalizar a propriedade e legitimar a coerção. É nessa circulação que a articulação se torna politicamente relevante.
Não existe uma direção central ordenando cada movimento. Não é necessário. A hegemonia não depende de uma conspiração. Depende da capacidade de organizar interesses diferentes sob uma determinada direção política.
A disputa pelo Estado
O Congresso não é um espaço exterior à sociedade. É uma instituição atravessada pelas relações de força que existem fora dela. Por isso, a presença de ruralistas, setores armamentistas e grupos religiosos conservadores no Parlamento não deve ser tratada como uma anomalia do sistema político. Ela expressa a capacidade de determinadas forças sociais de transformar recursos econômicos, capacidade organizativa, valores e mobilização social em representação institucional. O Estado capitalista não pertence mecanicamente a uma única classe ou a uma única fração. Ele organiza, media e condensa conflitos. Isso não significa que o Estado esteja acima das classes. Significa que a dominação não se realiza pela simples ocupação direta de todos os seus aparelhos por um único sujeito. Diferentes forças disputam instituições, políticas, orçamento, legislação, nomeações e decisões administrativas.
O orçamento público é um dos principais mecanismos de conversão de força social em força política. No governo Lula 3, as emendas parlamentares consumiram até 78,9% da verba discricionária de ministérios em 2025. De cerca de R47,3 bilhões empenhados, mais de R 25,7 bilhões foram executados na Saúde O governo cedeu ao Centrão e pagou 65% das emendas antes da eleição. A governabilidade do Executivo depende, em grande medida, da capacidade de atender às demandas do Congresso — e, portanto, das forças sociais que o compõem. A BBB não é apenas uma articulação social: é uma articulação partidária. O PL, o PP, o Republicanos, o União Brasil e o PSD são veículos institucionais dessa convergência. Esses partidos, que compõem o Centrão, votaram contra a chamada “taxação BBB” (bancos, bets e bilionários) em 2025, rejeitando a Medida Provisória que aumentaria impostos sobre esses setores. O Republicanos, presidido por Hugo Motta (PB), que também comanda a Câmara, é um dos principais articuladores dessa bancada.
A disputa pelo Estado não se limita ao Executivo e ao Legislativo. O Judiciário é um espaço central dessa disputa. A judicialização da questão agrária, o lawfare contra lideranças indígenas e camponesas e a seletividade do sistema de justiça são mecanismos concretos pelos quais a BBB converte força social em força política. O Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu, em 2026, o julgamento conjunto das ações sobre o Marco Temporal, declarando inconstitucional a tese que condicionava a demarcação de terras indígenas à ocupação em 5 de outubro de 1988. A Lei 14.701/2023, que instituiu o Marco Temporal, teve trechos declarados inconstitucionais. No entanto, a disputa continua: em junho de 2026, o ministro Fachin pediu vista no julgamento dos recursos contra a decisão que barrou a tese, suspendendo o processo. A judicialização da questão agrária e indígena é um mecanismo concreto pelo qual a BBB converte força social em força política — e, ao mesmo tempo, um espaço onde essa força é contestada.
A questão central não é, portanto, saber se a BBB «controla» o Estado brasileiro. A questão é saber quanto de sua força social consegue transformar em força política e quanto dessa força consegue converter-se em política de Estado. Essa conversão possui mecanismos concretos: leis, orçamento, nomeações, políticas públicas, decisões administrativas, alianças partidárias, disputas eleitorais, discursos. A relação de força social chega ao Estado por diferentes caminhos. É assim que interesses particulares podem adquirir forma universal. Uma reivindicação de determinado setor pode aparecer como defesa da liberdade. Uma política de proteção da propriedade pode aparecer como defesa da ordem. Uma expansão da coerção pode aparecer como defesa da segurança. Uma determinada moral pode aparecer como defesa da família. É precisamente nesse deslocamento que a hegemonia se realiza: quando uma determinada direção social consegue apresentar interesses particulares como se fossem interesses gerais.
A unidade não elimina a contradição
Mas é preciso evitar outro erro. A BBB não é uma unidade perfeita. Os interesses do grande capital agrário não coincidem necessariamente com os interesses da indústria armamentista. As diferentes igrejas evangélicas não possuem a mesma agenda. Os parlamentares associados a essas bancadas disputam recursos, posições e territórios eleitorais. Existem conflitos. Existem contradições. Existem disputas pelo próprio significado da ordem que pretendem defender. Isso não enfraquece a análise. Ao contrário. É justamente porque existem diferenças que a articulação política precisa ser construída. Uma aliança não pressupõe identidade. Pressupõe a possibilidade de transformar diferenças em unidade política suficiente para uma determinada conjuntura.
Por isso, a pergunta marxista não deveria ser: «Quem está por trás da BBB?» Essa pergunta procura um sujeito oculto. A pergunta mais importante é: que relação de forças torna possível a convergência entre esses sujeitos? A diferença não é pequena. A primeira pergunta procura uma conspiração. A segunda procura uma estrutura.
Resistências e contra-hegemonia
A hegemonia BBB não é absoluta. Existem forças contra-hegemônicas que disputam território, consenso e instituições. Compreender a BBB exige também compreender o que se opõe a ela. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é uma das principais forças de resistência. Em 2025, o MST participou do 21º Acampamento Terra Livre (ATL) em Brasília, que reuniu 7 mil indígenas, e se solidarizou com a luta indígena contra a truculência policial. O movimento também lançou cartas políticas em encontros de agroecologia, denunciando a morosidade na regularização de terras indígenas, quilombolas e camponesas. A luta indígena é particularmente significativa. Em agosto de 2025, cerca de 100 indígenas e representantes de movimentos sociais protestaram em Cuiabá contra o Marco Temporal, o projeto da Ferrogrão e o avanço da soja sobre territórios tradicionais. Apenas no Mato Grosso, 33 indígenas foram assassinados, segundo o Cimi.
Nem todo cristianismo é conservador. As pastorais sociais e a Teologia da Libertação continuam ativas, embora com menos protagonismo do que nas décadas de 1970 e 1980. Em 2025, o Fórum Nacional da Comissão Sociotransformadora da CNBB reuniu-se para fortalecer ações em políticas públicas relacionadas à saúde, assistência social, direito à terra e ao território. As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e as pastorais populares, que foram protagonistas dos movimentos populares do final da década de 1950, continuam a criar condições de atuação política. A Teologia da Libertação foi confinada às margens. No entanto, sua existência demonstra que a Bíblia não é monopólio da direita e que a disputa religiosa é parte da disputa política.
O que as três letras escondem
A BBB é uma expressão contemporânea de uma sociedade marcada por relações históricas de propriedade, desigualdade, coerção e disputa pelo consenso. A concentração fundiária vem da formação social brasileira. A criminalização de populações negras e pobres possui raízes profundas na passagem da escravidão para o trabalho livre. O punitivismo contemporâneo atualiza formas antigas de construção do inimigo. A expansão de determinadas organizações religiosas produziu novas redes de sociabilidade e novas formas de intervenção política. Nada disso nasceu ontem. Mas também não permaneceu igual. A forma mudou. A relação de poder se transforma. É justamente por isso que não basta repetir que a terra, a polícia e a religião sempre existiram. É preciso compreender como suas funções sociais são reorganizadas em cada conjuntura e como forças diferentes conseguem construir novas formas de articulação política.
O capitalismo brasileiro não reproduz simplesmente estruturas herdadas. Reorganiza-as. A concentração da propriedade pode ser integrada a cadeias globais de valorização. A coerção pode incorporar novas tecnologias, discursos e dispositivos jurídicos. As instituições religiosas podem converter redes comunitárias em capacidade eleitoral e parlamentar. O passado não desaparece. É reorganizado no presente. É por isso que compreender a BBB exige olhar para além das três letras e para além do Congresso Nacional. É preciso olhar para a formação histórica do Brasil, para a estrutura de classes, para a propriedade da terra, para o racismo, para os aparelhos coercitivos, para a reprodução social, para as formas de produção do consenso e para a disputa pelo Estado. As três letras são apenas a superfície. Por baixo delas existe uma sociedade atravessada por relações de força. E é nessa sociedade que se disputa a propriedade, a coerção, o consenso e, em última instância, a direção do Estado. Boi, Bala e Bíblia não são três nomes para o mesmo interesse. São três formas diferentes de organizar forças sociais distintas em torno de uma determinada disputa: quem possui, quem manda e quem consegue fazer com que essa ordem pareça natural.
Referências:
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*** Lisando Cañon é historiador especializado na história contemporânea da América do Sul e do Caribe, com foco nos golpes de Estado e no terrorismo de Estado na segunda metade do século XX. Formou-se em História pela Universidad Nacional de Mar del Plata (Argentina, 2008), com distinção, e obteve o mestrado (2010) e o doutorado internacional (2014) em História Contemporânea pela Universidade de Santiago de Compostela. Recebeu o Prêmio Juana de Vega de pesquisa em 2011.
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