Golpe malfeito, parte dois: Boletim de um império descontrolado

Jair Bolsonaro e Donald Trump durante reunião no Salão Oval da Casa Branca, em Washington (EUA). Fonte: Agência Brasil

Por Vincent Bevins

O fato de que um playboy bilionário do mercado imobiliário, que gostava de estampar o próprio nome em bifes e vinhos, tenha se revelado um diplomata e um estrategista militar melhor do que todos os outros políticos e especialistas em política externa dos últimos 30 anos é um atestado tão devastador do fracasso do establishment de Washington que eu sinceramente não sei como eles se recuperam disso.” – William Wolfe, 2026, no dia em que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. 

Poder e violência são opostos; onde um reina de forma absoluta, o outro está ausente. A violência aparece quando o poder corre risco, mas, entregue ao próprio curso, termina por fazer o poder desaparecer.” — Hannah Arendt, 1970 

Direito internacional is fake and gay.” — Matt Walsh, 2026


Há uma história brasileira que gosto de contar e que, a meu ver, diz muito sobre o populismo de direita contemporâneo. Em 2018, pouco depois da surpreendente vitória de Jair Bolsonaro, o ex-capitão do Exército de extrema direita anunciou que extinguiria o Ministério do Meio Ambiente. É que sua campanha vinha repetindo — e acho que ele acreditava mesmo nisso — que a Amazônia guardava riquezas incalculáveis e intocadas, trancadas a sete chaves por ambientalistas e cientistas poderosos, politicamente corretos e comunistas. Bastaria se livrar dos burocratas chatos para entrar na floresta e voltar de lá com o pote de ouro. Só que, muito rapidamente, as lideranças do agronegócio brasileiro foram lhe dizer que estavam bastante satisfeitas com o arranjo que já tinham. Elas já exploravam a Amazônia. Destruir o Ministério do Meio Ambiente, avisaram, seria péssimo para a burguesia nacional. Botar fogo nas estruturas que mediavam a relação entre capitalistas, Estado e mercados globais prejudicaria muito mais do que ajudaria. Então todo mundo se limitou a botar fogo nas árvores, e o Ministério ficou de pé. 

Bolsonaro tinha muitas outras maneiras de guerrear contra a floresta e contra os povos indígenas, e de distribuir privilégios a seus apoiadores na fronteira sem lei: essa é uma outra história, e é uma história de morte. Mas nenhuma dessas violências gratuitas se converteu em ganho relevante para o PIB do país. Ganhar dinheiro de verdade com carne e soja exige participar de sistemas internacionais complexos. Não havia botão vermelho gigante com a inscrição EXTRAÇÃO, vigiado por dois ou três “abraçadores de árvores”, que bastasse apertar para fazer chover bilhões. 

Como hoje se sabe, Bolsonaro fez muito mal à economia brasileira. O episódio mais notório é a perda de apoio de boa parte das elites diante da forma como conduziu o país na pandemia. Se tivesse sido bom para o crescimento, desconfio que teria conseguido abolir a democracia, projeto político que alimentava havia décadas, e alguma de suas tentativas de golpe provavelmente teria vingado. 


Em 1970, Hannah Arendt publicou Sobre a Violência. Deixemos de lado o contexto do ensaio e minhas ressalvas para ficar com um único e poderoso ponto: a ameaça da violência pode estar à espreita por trás do poder. Entretanto, escreve ela, a violência à vista é prova da ausência de poder. Quando a violência aparece, é porque o poder está incompleto, ou porque está sendo contestado. E, no extremo oposto, a violência sem limites aniquila o poder. 

Um exemplo extremo talvez baste. Se o diretor de um presídio exerce controle total sobre os presos, eles estarão quietos nas celas, como ele quer, ou fabricando placas de carro. Uma briga entre detentos, uma rebelião, uma tentativa de fuga: nada disso lhe interessa. Claro que nesses momentos ele recorrerá à violência, para restabelecer a ordem e deixar no ar a ameaça de que virá mais. Mas um poder verdadeiramente total jamais teria precisado dela. E se ele matar todos os presos como represália, não sobra ninguém para fabricar as placas. 

Os Estados Unidos passaram anos matando milhões de pessoas no Vietnã, e isso era prova evidente de que lhes faltava poder no Sudeste Asiático. As bombas continuavam caindo porque os vietnamitas se recusavam a perder. O que Washington teria preferido é que, lá por 1956, o país inteiro tivesse se tornado confiavelmente anticomunista e aliado dos Estados Unidos. O que houve, em vez disso, foi o Vietnã ganhar a guerra.

Em outubro de 2025, escrevi aqui que o “colapso do regime” deveria ser lido como um objetivo oculto, ou de segunda ordem, de boa parte das operações americanas. Sonhando ou fingindo sonhar com uma Líbia, um Líbano ou uma Cuba democráticos e prósperos, sucessivos governos se mostraram muito à vontade para aceitar a destruição pura e simples de sociedades “inimigas”. 

Depois do ataque surpresa à Venezuela em janeiro e da prisão de Nicolás Maduro, Jeremy Shapiro cunhou a expressão “alteração de regime” para descrever o que Trump de fato conseguiu. Tiraram o homem do topo e agora têm no poder um parceiro mais dócil — ao menos na história que o MAGA conta a si mesmo. 

O que já é difícil lembrar hoje, poucos meses depois, é que o aparente êxito em Caracas encorajou governo Trump . O Irã não foi o único alvo. Começaram a matar Cuba de fome. Lembram quando os Estados Unidos ameaçaram invadir a OTAN e conquistar a Groenlândia? Foi no começo deste ano. Em Davos, lançaram o fisiológico “Conselho da Paz”, para tentar colocar as Nações Unidas de escanteio. 

No fim de janeiro, tentei batizar essa ofensiva de cima para baixo de autogolpe imperial — uma forma de nomear os ataques articulados que a potência hegemônica desfechava contra o próprio sistema que havia moldado. (Posso continuar me citando; isto aqui é só um blog.) A analogia é com o autogolpe em escala nacional, quando o chefe do Executivo destrói as estruturas de mediação do próprio Estado para concentrar mais poder.1 Era assim que Trump e o MAGA agiam, no início de 2026, em escala internacional. Estavam convencidos de que arrancariam mais poder e mais riqueza do sistema mundial saindo por aí matando gente e ameaçando todo mundo. 

oi então que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. A operação inteira, e sobretudo a conduta de Pete Hegseth, revelou uma incompreensão bizarra de como o mundo funciona. O secretário da Guerra dos Estados Unidos saiu gritando que cometeríamos atrocidades e crimes contra a humanidade, e que era justamente por isso que venceríamos. Aquilo assustou até os defensores mais fervorosos do império americano. O paralelo com Bolsonaro salta aos olhos. Esses caras achavam que havia um botão vermelho gigante com a inscrição VIOLÊNCIA, vigiado por dois ou três professores de estudos queer, e que bastava esmagá-lo para subjugar países à vontade. Como se ninguém jamais tivesse tentado.2 Como se a República Islâmica nunca tivesse imaginado um ataque vindo de Washington.

Num filme de máfia, Hegseth seria o jovem cabeça-quente que sai por aí batendo em pequeno comerciante e matando gente que nem estava no caminho dele. Aí o chefão, velho e sábio, precisa puxá-lo num canto: “Que diabos você está fazendo? A gente tinha um esquema bom aqui. Isso está atrapalhando os negócios. A gente precisa ser temido, mas também respeitado.” Lá pelas tantas, o cabeça-quente costuma acabar morto. 

O objetivo deste post é registrar uma atualização: Donald Trump fracassou, e isso é óbvio. A tentativa de autogolpe em escala mundial do primeiro semestre de 2026 não deu certo. O Irã a barrou. É cedo para dizer se a guerra realmente acabou, ou se o Irã propriamente “venceu”, mas é evidente que Trump não conseguiu o que queria. Não haverá mudança de regime, colapso de regime nem alteração de regime favorável a Washington. E o fracasso não se limita ao Irã: alguém consegue sustentar que os Estados Unidos estão mais poderosos na Europa, ou na Ásia, do que estavam em 1º de janeiro? Mesmo na América Latina, o melhor que o MAGA tem a oferecer é um ponto de interrogação. 

São, portanto, duas tentativas de golpe fracassadas na conta de Trump. Deixemos de lado a discussão sobre se o 6 de janeiro foi mesmo uma tentativa de golpe — ninguém vira governo só por ocupar prédio público, claro; basta perguntar aos nepaleses. Mas é certo que Trump tentou se manter no poder depois de perder a eleição de 2020. Fiel ao seu estilo, não sabia, nem fazia questão de saber como fazer aquilo direito; limitou-se a pedir, com certa preguiça, que os militares, o Congresso e os tribunais fizessem o serviço por ele (na América Latina, onde há mais palavras para essas coisas, isso se chamaria golpe militar, golpe parlamentar e golpe judicial, respectivamente). Uma guatemalteca me disse, à época, que chamaria Trump de autogolpista fracassado. Vai ver ele fique na memória sobretudo por esses dois (auto)golpes frustrados, separados por cinco anos: 2021 e 2026. 

O mais impressionante é que essa gente achava mesmo que ia funcionar. Matt Walsh, comentarista conservador, escreveu: “A única lei internacional é que país grande e poderoso faz o que bem entende.” Certo. E quem escreveu essas leis internacionais? Os países maiores e mais poderosos do pós-Segunda Guerra, com os Estados Unidos à frente de todos. O arranjo serviu muito bem ao país de Walsh. Os Estados Unidos terminaram o século como a nação mais poderosa da história da humanidade. O sistema atual foi moldado em profundidade pelo poder americano, e Washington quebrou as regras sempre que lhe convinha. A meu ver, o direito internacional é mais do que a expressão rudimentar da realpolitik: ele limita, mas também produz. Esses caras, porém, parecem convencidos de que as regras existem apenas para restringir os Estados Unidos. Logo, bastaria fazer exatamente o oposto do que manda o direito internacional para virar rei do planeta. 

Por fim, é triste lembrar que uma tentativa de golpe fracassada não deixa de ter consequências. Iranianos morreram. Cuba segue sob cerco. O mundo saiu abalado. Se Bolsonaro não tivesse intencionalmente privado o governo de recursos na Amazônia, acredito que meu amigo Dom Phillips estaria vivo hoje. 

  1. Nos comentários, em janeiro, houve quem pedisse, com razão, exemplos concretos de autogolpe na história. Um caso clássico é o de Alberto Fujimori, cuja filha espera assumir a presidência do Peru em julho. ↩︎
  2. Não por acaso, Lily Lynch batizou isso de governança do “you can just do things” — a ideia de que dá para simplesmente sair fazendo as coisas. ↩︎

**** Este artigo foi publicado originalmente na North South Notes, a nova newsletter de Vincent Bevins, dedicada ao jornalismo investigativo de qualidade sobre questões globais.

*** Vincent Bevins foi correspondente do Los Angeles Times no Brasil, de 2011 a 2016, e editor do blog From Brazil da Folha de S.Paulo, de 2012 a 2016. Jornalista premiado, cobriu o Sudeste asiático para o Washington Post, dedicando especial atenção ao legado do massacre de 1965 na Indonésia – tema do seu livro O método Jacarta: a cruzada anticomunista e o programa de assassinatos em massa que moldou o nosso mundo (Autonomia Literária, 2022). Antes disso, trabalhou para os jornais Financial Times, de Londres, e The Daily Journal, de Caracas. Graduado em economia política pela Universidade da Califórnia, Berkley, e mestre em economia política internacional pela London School of Economics, escreveu para diversas publicações, tais como The AtlanticThe EconomistThe GuardianForeign PolicyThe New York Review of BooksThe New RepublicThe New InquiryThe AwlThe BafflerNew York MagazineThe Nation, The New York Times e n+1. Nasceu e foi criado na Califórnia. Desde que se mudou para o Brasil, em 2010, passou a maior parte de seu tempo morando em São Paulo.


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