O último guerreiro do bolsonarismo? André Mendonça e as atuais expectativas da extrema direita 

Fonte: Agência Brasil

Por André Castro, André Kanasiro, Jayder Roger,
Samuel Araújo e Rilton Filho

O imaginário inflável das manifestações

Entre tantas outras coisas, Junho de 2013 fixou no imaginário político contemporâneo a imagem da grande manifestação, como uma Avenida Paulista tomada de ponta a ponta. As fotografias de milhões de pessoas ocupando a avenida forneceram a régua com que os atos seguintes seriam medidos: manifestações tornaram-se comparáveis pelos quilômetros percorridos ou preenchidos e pela multidão concentrada diante do MASP. Revistas hoje, aquelas imagens parecem vir de outro mundo. Não há nelas grandes estruturas, trios elétricos ou bonecos infláveis; há sobretudo pessoas, cartazes e máscaras. Desde então, porém, passamos a viver de manifestação em manifestação, e, a cada novo ato, coisas, símbolos e aparatos foram se acumulando sobre a multidão.

Um dos itens que parece ser indispensável para uma boa manifestação são os bonecos infláveis. Ao que parece, o primeiro grande êxito nas manifestações foi o Pixuleco, de 2015, que consistia em um desenho do, à época, ex-presidente Lula, com uma “roupa de presidiário”, que foi ganhando alterações. O sucesso foi nacional, as redes ditas sociais fizeram o boneco famoso e ele foi sendo levado para diversas cidades onde os manifestantes ocuparam as ruas. Não passou muito tempo para que outros revoltosos fizessem outros personagens. Ainda nos segundos anteriores ao golpe de 2016, o Pato da Fiesp e a Pixuleca, com a imagem da então presidenta Dilma com um nariz grande de pinóquio mentiroso e com sangue na roupa. Versões de mão do pixuleco foram distribuídas até no congresso nacional. Um fenômeno.

O inflável gigantesco qualifica, à primeira vista, a razão daquela manifestação, seja para quem está ali presente, para quem o vê pela foto ou que passa desapercebido por perto. Talvez o primeiro sujeito a ter um inflável próprio como forma de apoio tenha sido Sergio Moro, não por acaso, era o juiz que tinha realizado aquilo que os infláveis anteriores almejavam. Os formatos e modelos dos infláveis de Moro variavam a depender da quantidade de dinheiro acumulada pelas vaquinhas — sim, boa parte desses infláveis eram produzidos a partir de dinheiro doado por pequenos empresários, e da força dos braços dos manifestantes de carregar tanto plástico. Mas a média foi o “super Moro”, com um corpo de Superman e cabeça do ex-juiz.

Em algum sentido, era também a primeira figura a encarnar positivamente os anseios de mudança que vinham se acumulando nas diversas manifestações que davam o tom da então nascente extrema direita, entre o golpe de 2016 e a prisão de Lula. Nesse mesmo período, o então ministro Ricardo Lewandowski e o procurador-geral da República Rodrigo Janot também foram representados em infláveis, críticos, é claro. Depois de Moro, porém, foi Bolsonaro quem passou a ocupar o centro desse repertório visual, multiplicando-se em bonecos e caricaturas de diferentes formas por todo o país, se constituindo como a representação de um “outro Brasil”, apresentado como aquele que deveria ser batalhado. Em 2018, consolidou-se a imagem do “Bolsonaro mito”, frequentemente acompanhada de óculos que remetiam ao meme Turn Down for What, inseridos após alguma de suas respostas abruptas ou declarações de efeito que viralizavam facilmente.

Os infláveis foram se repetindo, assim como as manifestações foram se tornando rotina. Em 2021, no auge do governo Bolsonaro, o 7 de Setembro se tornou o momento de grande mobilização para os manifestantes de extrema direita. E quem era o grande vilão a ser derrotado pelo projeto encabeçado pelo mito? Alexandre de Moraes, que desde 2019 — quando deflagradas as operações da polícia federal no âmbito do inquérito das Fake News — julgava militantes da extrema direita. É claro que com a crescente dos acirramentos e as sequenciadas derrotas judiciais da extrema direita, o monstro se tornou demoníaco. A coisa chega a outro nível quando Bolsonaro é preso, fica inelegível e os envolvidos nos atos de 8 de Janeiro são responsabilizados. Em algum sentido, eles (a militância da extrema direita) se sentiram desassistidos. Ninguém pode segurar o Ministro. O grande sonho de Brasil, que parecia ter tido um primeiro ensaio com a vitória de 2018, encaminhava-se para o ocaso.

Enquanto a extrema direita demonizava Alexandre de Moraes, a esquerda passou a tratá-lo como um lutador do republicanismo e da democracia. Em Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa1, isso fica explícito quando o Ministro tem uma aparição e suas falas insistem na defesa da democracia, e o enquadramento o apresenta como uma espécie de bastião de um Estado que conseguiu deter as ameaças golpistas de Jair Bolsonaro. A imagem ganha outra dimensão quando lembramos que, no 7 de setembro de 2021, Bolsonaro, ao lado do pastor Silas Malafaia, gritava para seus apoiadores: “Sai, Alexandre de Moraes! Deixa de ser canalha!”. A guerra em torno de Moraes acabou produzindo uma curiosa distribuição das posições. Diante da ameaça de ruptura, a esquerda e o progressismo foram levados a ocupar, mais uma vez, o lugar da defesa das instituições — justamente as instituições de um Estado cuja crise se prolonga e que há muito parece incapaz de formular e realizar um projeto minimamente redistributivo.

Nas manifestações do 7 de setembro deste ano os infláveis voltaram à cena. Três deles chamam atenção por não terem sido bancados por candidatos, mas, ao que tudo indica, por vaquinhas coletivas. Um deles é Bolsonaro — já sem a indumentária típica dos memes, sem os oclinhos e sem a arminha feita com as mãos —, vestido com a faixa presidencial onde se lê “MITO”, um inflável melancólico, com uma faixa sobre a boca, clamando por mobilização: “Falem por mim”. Mas, são outros dois bonecos que talvez digam mais: Donald Trump aparece segurando pelos cabelos um pequeno Pixuleco, enquanto, em tamanho ainda maior, surge outro ministro do STF, André Mendonça, de braços cruzados. É a primeira vez que um ministro tem um inflável celebrativo. Cifrado aí, as expectativas atuais da extrema direita: de um lado, a esperança de uma intervenção imperialista; de outro, a aposta numa batalha institucional conduzida pelo ministro contra aquele que foi responsável pela prisão de Bolsonaro.

Enquanto a autoridade de Moraes se sustenta naquilo que ainda resta das instituições diante da ameaça da extrema direita; a de Mendonça está na promessa de uma autoridade que parece vir de fora delas, defendendo exatamente onde o movimento parecia estar desprotegido. Moraes, guardião de uma ordem em crise, e Mendonça, o batalhador que vai dar o troco. A contragosto, a direita mobiliza seus símbolos sem medo de ofender quem quer que seja – ou serem acusados de entegristas por hastearem bandeiras dos Estados Unidos de Donald Trump. O corpo individual de Mendonça, restrito às sessões do Supremo e às imagens das telas, torna-se público, enorme e reconhecível à distância. O ministro é inflado na mesma medida em que nele se inflam as esperanças de um movimento acuado por derrotas eleitorais e judiciais. É essa desproporção que a imagem torna sensível: um único ministro precisa carregar a expectativa de todo um povo que se imagina abandonado dentro das instituições.

Ministro, do supremo e da palavra

André Mendonça é ministro em duas acepções. Brincando de/com Agamben, o ministro existe para operar a separação da práxis da oikonomia da glória soberana. Em outras palavras, no mais alto escalão da teologia cristã pré-moderna, a figura do ministro surge da necessidade de separar o ser de Deus da sua ação governamental. O poder supremo funda-se na máxima de que o rei reina, mas não governa. Para que o mundo possa ser regido sem que o monarca absoluto perca sua transcendência, a execução efetiva das decisões gerais é sempre delegada a agentes subalternos. Agamben sugere que a angelologia cristã funcionou como o primeiro grande paradigma de uma burocracia administrativa. Os anjos foram divididos entre os que apenas assistem e contemplam a divindade e aqueles enviados para administrar o mundo, tendo sido criados especificamente para o exercício prático do ministério. Progressivamente, a própria noção de ministerium (o encargo administrativo profano) passou a se fundir com o mysterium (o mistério sagrado), sacralizando definitivamente a hierarquia executiva.2

O Estado moderno herda as duas faces do governo divino do mundo, desdobrando-se tanto como um Estado-providência quanto como um Estado-destino. A Providência, outrora divina, assume a forma impessoal, legislativa e soberana da Lei, que dita regras universais, enquanto o Destino se materializa no aparelho administrativo e judiciário que executa minuciosamente esses ditames sobre os cidadãos. Como o Estado de direito moderno substitui a figura de Deus e a lei não se aplica por si mesma, a máquina governamental exige a manutenção da separação originária entre a titularidade do poder e o seu exercício. Os juízes de uma corte suprema atuam com os antigos anjos administradores secularizados. Eles integram a hierarquia de executores que aplicam a providência abstrata da ordem legal aos casos contingentes e particulares.

No ambiente evangélico, a passagem é um tanto diferente. A soberania divina deixa de repousar na mediação objetiva e transcendente de um sacramento para se realizar na imanência da própria vida do ministro. Desprovido do escudo do clero medieval, o pastor é administrador contínuo de sua própria credibilidade. Não basta apenas agir corretamente; é preciso também corresponder, em sua própria forma de desejar, aos padrões que legitimam essa atuação. Pastor é aquele que sustenta sua autoridade sobre o rebanho ao demonstrar publicamente que é capaz de conciliar sua existência particular com as exigências da fé que anuncia. O cargo de ministro do STF, a disciplina da conduta pessoal e a reputação tornam-se, assim, elementos centrais dessa lógica3 .

Mendonça é assim Ministro entre dois sentidos4. Na prática, ele não elimina a distância entre essas duas acepções de sua atuação; ele faz dela a fonte de sua autoridade. É ministro dos homens e ministro de Deus, ocupa o centro da instituição e fala como alguém posto à margem, exerce poder e apresenta-se como fraco. Depois do vazamento das conversas de Moraes, voltou a circular nas redes bolsonaristas uma de suas pregações do ministro5.

Na ocasião, afirmou: “A cova que às vezes cavam para nós é a cova em que eles mesmos vão cair.” A frase reaparece agora investida de uma espécie de confirmação retrospectiva. Denunciaria uma antecipação da própria disputa no interior da Corte. Mendonça se apresenta como alguém que não depende da “luz dos homens”. A expressão condensa uma distinção familiar à gramática evangélica: de um lado, aquilo que pertence aos homens e ao mundo; de outro, aquilo que vem de Deus e não se deixa medir pelos critérios “mundanos”:

“[…] às vezes sai a notícia nos jornais. O André, segundo ministros do Supremo, não tem estofo. E eu falo sabe o quê? Glória a Deus! Porque o meu estofo não vem dos homens. Porque à luz dos homens, eu sou o fraco mesmo. À luz dos homens, eu sou um crente” (transcrição nossa).”

A frase é estranha porque “crente” aparece como sinônimo de fraqueza. Mendonça não diz apenas que, apesar de fraco, continua sendo crente. Diz que é fraco precisamente “à luz dos homens” porque pertence a outra luz. A crítica à sua falta de estofo pode então ser recebida como confirmação de que sua autoridade não depende daqueles que o julgam. O ministro deixa de precisar demonstrar que possui o estofo exigido pelo Supremo: o descrédito dos outros passa a provar a fidelidade daquele que foi escolhido por Deus. Forma-se assim uma cena conhecida do imaginário evangélico: o homem desacreditado, cercado por adversários e aparentemente sozinho, que justamente por isso se torna o lugar da ação divina. Não é apesar da cova, do deserto e da fraqueza que ele será escolhido. É por meio dessas imagens que sua escolha poderá ser reconhecida. É nesse ponto que a condição de minoria — pelo ponto de vista da imaginação religiosa — deixa de ser apenas uma posição de fraqueza e passa a funcionar como prova de escolha. O escolhido precisa ser desacreditado para que possa ser reconhecido como escolhido. “Deus escolheu os que são loucos para o mundo a fim de envergonhar os sábios e os que são fracos para o mundo a fim de envergonhar os fortes” (1 Coríntios 1:27. NVI) é sempre citado aí.

A indicação ao Supremo lhe forneceu o cargo, mas foi Deus que deu o chamado. Sua presença na Corte deixa de ser explicada pela indicação presidencial e passa a ser lida como mais um capítulo na longa história da ação de Deus no mundo. A voz que vem do recôndito do divino e chama os indivíduos para cumprir a sua função para o Reino. Antes de narrar a “perseguição” que sofre, ele havia dito “A nossa vocação é estar num deserto e ver Deus fazer um oásis. Nossa vocação é ver todos contra nós e nós sozinhos, mas com Deus junto conosco”. Depois de dar essa afirmação geral, vem a demonstração da sua perseguição como ministro do STF. A sua atuação no supremo não é, então, um “trabalho qualquer”, mas sua vocação. E ela já estava inscrita no próprio projeto de sua indicação, tal como formulado por Bolsonaro. Ao justificar a escolha de um evangélico, o ex-presidente não falava simplesmente da necessidade de representação de uma identidade, mas da capacidade de fazer dessa identidade uma força política capaz de operar dentro da instituição:

“Quando falavam que tem que ter um negro, uma mulher ninguém falava nada. Quando fala que tem que ter um evangélico… Mas não é porque é evangélico apenas, tem que ter conhecimento de causa, tem que transitar em Brasília, conhecer gente no Supremo, no Parlamento. Quero colocar uma pessoa lá que não é para votar certas coisas e perder por 10 a 1, tudo. Quero que essa pessoa vote de acordo com suas convicções, interesses dos conservadores, mas que busque maneiras de ganhar alguma coisa lá também”.6

A escolha por um “terrivelmente evangélico” se daria pelo fato de ele ter a capacidade imaginativa de converter e convencer os seus pares. O que Bolsonaro queria mesmo era alguém capaz de pastorear o Supremo. E, ao pastorear o Supremo, conseguisse pastorear o Brasil. Já é possível observar o gozo da grande mídia por vê-lo movimentar as telas e as manchetes, como quem cavuca alguma coisa para agitar as águas da eleição; como também entre os evangélicos que se encorajaram novamente em um lavajatismo 2.0.

Divisão espiritual do trabalho militante

Nesse mesmo 7 de setembro, Valdemiro Santiago, pastor da Igreja Mundial do Poder de Deus (SP), exibiu para sua congregação lotada um vídeo de apoio do então ministro Mendonça7. No culto, estavam presentes o atual candidato Flávio Bolsonaro e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Antes de passar o vídeo, o pastor Valdemiro disse que alguém da membresia havia pedido que orassem pelo ministro. Na gravação, Mendonça parabeniza a igreja por seus anos de atuação e relembra que foi acolhido por ela no momento em que enfrentou a sabatina para ingressar no STF. “Deus abençoe, ministro. Vá em frente!”, exclama o pastor, diante dos aplausos. O vídeo havia sido gravado em março de 2026, por ocasião da comemoração do aniversário da igreja. Com a reposição da figura de Mendonça como o mais novo batalhador do Brasil a atualidade do vídeo se refez. Silas Malafaia e Estevam Hernandes  também declararam apoio ao Ministro desde o dia 3 de setembro. Em reação a tantas mensagens e declarações, o ministro agradece o apoio aos “irmãos e irmãs” que estão orando por ele.

Há um jogo curioso nesse movimento. Essa imaginação religiosa em torno de Mendonça pode ampliar a legitimidade daquilo que ele faz diante do público evangélico, o que não se traduz em mobilização nas manifestações, vide a esvaziada Paulista deste 7/9. Mas lá onde a imaginação religiosa pisa, nas correntes de oração, nos grupos de WhatsApp, nas pregações dominicais, essa disputa influi no nível consciente do projeto de Brasil da extrema direita como algo crível. Não que o apoio dessas lideranças faraônicas ecoem tão fortemente nos recônditos campos do evangelicalismo em todo o país, a questão é que essa é a posição das lideranças que entraram, mesmo que somente como apoiadores não declarados, no projeto da extrema direita. Mendonça está no centro do jogo agora.

O jogo, contudo, é feito de muitas posições, que por vezes ganham maior e menor relevância em cada combate, mas está longe de ser um grande plano de poder centralizado. Os termos do encontro entre André Mendonça e Daniel Vorcaro são quase uma imagem da presença dos evangélicos no estado. O advogado Ciro Rocha tentou realizar o encontro, vão na alfaiataria de luxo, mas o ministro não encontra Vorcaro. Meses depois, com a mediação de Cezinha de Madureira, o encontro acontece. Um ministro de tradição presbiteriana, um deputado pentecostal (Cezinha) e um empresário pentecostalizado. Como vem sugerindo há algum tempo Bruno Reikdal8, uma divisão espiritual do trabalho militante entre pentecostais e históricos que dá corpo a atuação do campo evangélico na política. O termo é piegas, mas não despropositado. Enquanto agentes ligados a igrejas históricas (Presbiterianas, Metodistas, Luteranas e algumas Batistas) ocupam predominantemente posições de indicação no Executivo e nos cargos do Judiciário, que normalmente carecem de uma formação, os pentecostais (Assembleias de Deus, Neopentecostais) encontram maior presença no Legislativo. E ainda os “históricos pentecostalizados” como a Igreja Batista da Lagoinha, da qual Vorcaro é membro e seu comparsa Fabiano Zettel é pastor, e que é um dos melhores exemplos da capacidade das igrejas de conectar interesses pessoais e institucionais.

Sujeitos disputando sua posição dentro de uma sociedade de classes e que encontram nessa estrutura eclesial alicerces para os seus projetos. Se o Estado pode ser compreendido simultaneamente como destino da ação política e como instrumento de realização de determinados fins, a passagem entre o campo religioso, o mercado e as instituições estatais deixa de parecer uma transgressão de fronteiras e passa a ser parte de uma mesma racionalidade de atuação — fazer o Estado operar em favor de uma finalidade que o antecede e que, em última instância, justifica a própria flexibilização dos meios empregados para alcançá-la. Chamar de sociedade racket ainda diz alguma coisa?

Assim também, uma “Dualidade Constitucional” parece vigorar na cabeça de parte dos ministros do STF. Ora se aplica a norma constitucional e o ordenamento jurídico, ora se distorce ou mesmo se contraria a “letra da lei” para chegar ao seu espírito, que seria a efetividade da norma jurídica, sua aplicação rápida à vida prática. Tanto para “pautas progressistas” como conservadoras. Obviamente com muito mais efetividade para as segundas, que vão desde prisões preventivas a vazamentos seletivos para que a população saiba “o que realmente acontece no Brasil”, sendo esse expediente usado para alegrar a torcida da vez. Quem consegue ser mais efetivo, ganha. Em alguns momentos, os progressistas ganharam. Há mais ou menos uma semana, quem tem levado a melhor são os bolsonaristas. De qualquer forma, fica escancarado o limite da Constitucionalidade de 1988, sendo sua defesa apenas uma fantasmagoria.9 Por outro lado, um programa político radical se abre, mais como fardo do que como possibilidade, já que nesse mar de exceções a extrema direita sabe nadar de braçada e tem uma estética político-teológica pronta para tal; nós, sem povo e sem futuro, temos o presente nas mãos mas parece que nem conseguimos segurá-lo, imagina dotá-lo de um horizonte político. Só um milagre.

Notas

  1. Para melhor entendimento sobre a relação do filme: André Castro, Jayder Roger e João Marcos Duarte. Melancolia Tropical, em Eis aí, o povo brasileiro. 1. ed. São Paulo: Galáxia, 2026. ↩︎
  2. Giorgio Agamben. O reino e a glória: uma genealogia teológica da economia e do governo. Tradução de Selvino J. Assmann. São Paulo: Boitempo, 2011. ↩︎
  3. Termos aqui tomados de empréstimo da tese recém defendida de Samuel Araujo: ARAÚJO, Samuel Jônatas Garcia de. “[Oito] homens e um segredo”: cartografias de sexualidade pastoral. 2026. Tese (Doutorado em Ciência da Religião) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2026. ↩︎
  4. Desde a Lava Jato, a aproximação entre o mundo pastoral evangélico e o do Judiciário parece ter produzido seus próprios herdeiros no Brasil. A operação deixou de habitar apenas os tribunais e os meios de comunicação e passou a ocupar também o imaginário religioso evangélico brasileiro. Sobre essa dimensão, ver Jayder Roger, “O procurador Ungido: Sobre a liturgia da Lava Jato e seus herdeiros”, Sinal de Menos, n. 19, p. 215–224, jul. 2026. ↩︎
  5. A pregação do Ministro André Mendonça ocorreu em 25 de abril de 2026, durante a 6ª Conferência da GPAMDA (Grupo Presbiteriano de Apoio a Mães de Atípicos). O vídeo, originalmente disponibilizado no canal da Igreja Presbiteriana de Pinheiros, foi posteriormente tornado privado. ↩︎
  6. https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/10/01/bolsonaro-confirma-kassio-para-stf-e-diz-que-2-vaga-sera-de-evangelico ↩︎
  7. https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2026/09/07/em-culto-com-flavio-e-tarcisio-apostolo-valdemiro-transmite-video-de-mendonca-gravado-em-marco.htm ↩︎
  8. Bruno Reikdal. A guerra santa dos irmãos de terno. Revista Zelota, 2026. Disponível em: https://revistazelota.com/a-guerra-santa-dos-irmaos-de-terno/ ↩︎
  9. BELLO, Enzo; BERCOVICI, Gilberto; LIMA, Martonio Mont’Alverne Barreto. O fim das ilusões constitucionais de 1988? Revista Direito e Práxis, Rio de Janeiro, v. 10, n. 3, p. 1769-1811, 2019. ↩︎

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Membros do Seminário da Dialética do Brasil Avivado.  

* André Castro nasceu em Pernambuco, mas cresceu na Bahia. Graduado em Teologia (FLAM) e mestre em Ciências da Religião (UMESP), atua como editor e colunista na Revista Zelota. É autor de Eis aí, o povo brasileiro (Galáxia, 2026), A luta que há nos deuses (Machado, 2024) e Breve história da teologia da libertação protestante (Recriar, 2022). Pesquisa os nexos entre imaginação religiosa e processo social na América Latina entre a Teologia da Libertação e o Brasil avivado.

* André Kanasiro é editor-chefe e idealizador da Revista Zelota. Correspondente internacional para a Spectrum Magazine. É biólogo e mestre em Letras estrangeiras e Tradução pela Universidade de São Paulo (USP).

* Jayder Roger é psicólogo, mestrando em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA. Membro do Seminário Interdisciplinar de Psicanálise (SIPSI) e Design na Revista Zelota

* Samuel Araújo é graduado em teologia, mestre e doutorando em ciência da religião pela PUC-SP. Sua pesquisa versa sobre religião, sexualidade e política. Membro dos grupos de estudos do Protestantismo e Pentecostalismo (GEPP/PUC-SP) e Religião e Política (Repol/PUC-SP).

* Rilton Filho é formado em Teologia e em História, é pós-graduando em Filosofia Contemporânea pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Atua como pastor batista e professor.

O reino e a glória, autoria de Giorgio Agamben.

A intricada relação entre poder e glória, explorando as origens litúrgicas do governo desde os primeiros séculos da história da Igreja. Ao conectar a glória à mídia, lança uma nova luz sobre a democracia contemporânea, mostrando como a aclamação e a opinião pública permanecem fundamentais.

Fascismo tardio: raça, capitalismo e política da crise, autoria de Alberto Toscano

Em um mundo tomado por crises ecológicas, econômicas e políticas, as forças do autoritarismo têm saído na frente. Como nomear e responder a esse estado de coisas? Em Fascismo tardio: raça, capitalismo e política da crise, Alberto Toscano critica a associação do fascismo unicamente com o tipo de violência política dos regimes europeus de meados do século XX. Em vez de procurar analogias históricas, ele entende o fascismo como um processo mutável, ancorado no capitalismo racial e colonial, que antecede e sobrevive às suas encarnações na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler.

Por que gritamos golpe?, autoria de Kim Doria e Murilo Cleto

Coletânea de análises inéditas e multidisciplinares sobre o impeachment de Dilma Rousseff e a crise política no Brasil. Mais de 30 autores, incluindo pesquisadores, ativistas e jornalistas, abordam as ameaças à democracia e aos direitos conquistados. Uma voz de resistência em tempos difíceis.


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