O que é fascismo para a Teoria Crítica?  

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Por Bruna Della Torre

“Não quero entrar na discussão a respeito das organizações neonazistas. Considero a sobrevivência do nacional-socialismo na democracia como potencialmente mais ameaçadora do que a sobrevivência de tendências fascistas contra a democracia. A corrosão por dentro representa algo objetivo, e as figuras ambíguas que efetivam o seu retorno só o fazem porque as condições lhes são favoráveis.”
— Theodor W. Adorno, “O que significa elaborar o passado” (1959)

Um fenômeno não muda se o chamarmos por outro nome. No entanto, nomeado de modo diverso, ele pode incidir imediatamente sobre o que é decisivo: o modo como o enfrentamos. Aqueles que, a esta altura, fazem os mais diversos malabarismos linguísticos, semânticos e metodológicos para negar que estamos diante de uma ascensão do fascismo em escala planetária em diferentes níveis, ou seja, dos governos ao corpo social, não apenas cometem um erro teórico ou metodológico, mas, sobretudo, um erro político e estratégico. 

No interior do marxismo, a Escola de Frankfurt constitui a tradição que se dedicou de maneira mais prolongada e sistemática, inclusive no plano empírico, ao estudo do fascismo. Enquanto diversos autores abordaram individualmente o tema, de Clara Zetkin, Antonio Gramsci, Nicos Poulantzas e Ernest Mandel a formulações mais recentes e situadas em polos distintos, como as de Domenico Losurdo e Enzo Traverso, a Teoria Crítica fez dele um objeto de investigação coletiva que se estendeu da década de 1930 à de 1970. O corpus teórico produzido nesse debate é imenso e permanece insuficientemente lido. 

Na década de 1930, Max Horkheimer, Erich Fromm e Herbert Marcuse investigaram a formação do caráter autoritário na Europa, combinando a crítica da família e de suas estruturas de autoridade com as transformações do capitalismo. O principal resultado coletivo desse período foi Estudos sobre autoridade e família (1936), mas a questão também está presente em ensaios como “A luta contra o liberalismo na concepção totalitária de Estado” (1934), de Marcuse, e “Os judeus e a Europa” (1939), de Horkheimer. Franz Neumann e Otto Kirchheimer analisaram a corrosão do Estado de direito, a transformação autoritária das instituições jurídicas e o processo pelo qual a democracia liberal preparava as condições para sua própria supressão. Ademais, a participação de Adorno no Projeto de Rádio de Princeton, entre 1938 e 1941, acrescentou a esse programa de investigação a análise empírica dos meios de comunicação de massa e das novas formas de padronização da cultura. 

Na década de 1940, a pesquisa ampliou-se e adquiriu um caráter ainda mais coletivo – o exílio nos Estados Unidos havia reunido o Instituto de Pesquisa Social em torno de um programa de pesquisa. Nessa década, foram escritos textos fundamentais a respeito da economia política do fascismo e sua relação com o capitalismo monopolista. Horkheimer examinou, em “O Estado autoritário” (1940, publicado em 1942), a tendência das sociedades capitalistas a substituir as mediações do mercado e da democracia liberal por formas centralizadas de administração e dominação. Essa reflexão dialogava diretamente com a hipótese apresentada por Friedrich Pollock em “Capitalismo de Estado: suas possibilidades e limitações” (1941) e outros textos, segundo a qual a primazia do poder econômico estaria sendo substituída pela primazia do comando político, tanto nas democracias quanto nas sociedades totalitárias. A tese foi contestada por Franz Neumann em Behemoth (de 1942, ampliado em 1944). Contra a ideia de que o fascismo seria uma ordem estatal unificada, Neumann o descreveu como uma estrutura instável de compromissos e conflitos entre o Partido Nazista, as Forças Armadas, a burocracia estatal e o grande capital, cuja expansão monopolista é central para a discussão. É nesse período que surge a teoria sobre os rackets e como o fascismo é uma forma de capitalismo mafializado. Ainda nesse período, Neumann, Marcuse e Kirchheimer trabalharam na seção europeia do Setor de Pesquisa e Análise do Escritório de Serviços Estratégicos, produzindo relatórios sobre a estratificação social alemã, os cartéis industriais, a administração pública e o sistema jurídico nazista, além de elaborarem propostas para a desnazificação, a punição dos crimes de guerra e a reconstrução democrática da Alemanha depois da guerra. A Dialética do Esclarecimento, publicada pela primeira vez em 1944 e republicada em nova edição em 1947, reúne esses debates, mas sua ênfase filosófica acabou ofuscando os debates econômicos que lhe eram subjacentes. 

O Instituto também realizou, nesse período, com financiamento do Comitê Judaico Americano, o programa “Estudos sobre o preconceito” (1949–1950), dirigido por Horkheimer, para investigar as disposições psicológicas, sociais e ideológicas que tornavam possível a adesão ao preconceito e aos movimentos antidemocráticos nos Estados Unidos. Entre seus resultados mais importantes estiveram Profetas do engano (1949), de Leo Löwenthal e Norbert Guterman (em colaboração com Adorno) e A personalidade autoritária (1950), de Adorno, Else Frenkel-Brunswik, Daniel Levinson e Nevitt Sanford. O programa de pesquisa conjungava, assim, múltiplos planos de análise: as transformações do capitalismo liberal, a estrutura econômica e institucional do regime nazista,  a estrutura do preconceito, as técnicas de agitação política da extrema direita, a indústria cultural e as condições subjetivas de receptividade à propaganda fascista. 

Na década de 1950, após a reabertura do Instituto em Frankfurt, Adorno, Horkheimer e Pollock voltaram-se para a sobrevivência do nacional-socialismo no interior da democracia recém-estabelecida na Alemanha. O “Experimento de Grupo” (1955), realizado com mais de 1600 participantes e publicado por Pollock, investigou atitudes relativas à culpa alemã, à perseguição aos judeus, à ocupação aliada e à democracia. Outras pesquisas examinaram a opinião pública, a consciência política dos estudantes (e dos militares – uma pesquisa ainda não publicada pelo IfS), as atitudes antidemocráticas e as formas latentes de preconceito. Ao mesmo tempo, o estudo de Pollock sobre a automação (1956) ampliou o diagnóstico do capitalismo monopolista ao investigar as consequências sociais e políticas da transformação tecnológica da produção. 

Durante a década de 1960, Adorno continuou a examinar o que significaria elaborar o passado, tendo em vista a transformação das condições objetivas e subjetivas que o haviam produzido. Textos como “O que significa elaborar o passado” (1959), “Educação após Auschwitz” (1966) e “Aspectos do novo radicalismo de direita” (1967) debruçavam-se sobre a permanência do potencial fascista no interior da democracia alemã. Nessa década, Marcuse escreveu seu livro mais influente sobre o caráter autoritário da sociedade estadunidense, O homem unidimensional (1964). Ele e Adorno debateram o diagnóstico da época como “sociedade industrial avançada” (Marcuse) ou “capitalismo tardio” (Adorno) e suas relações com a democracia em crise permanente que caracteriza esse modo de produção. 

Na década de 1970, Marcuse deu continuidade a esse programa em Contrarrevolução e revolta (1972), interpretando a reação política ao ciclo de lutas dos anos 1960 como uma contrarrevolução preventiva, e em “O destino histórico da democracia burguesa” (1972–1973), no qual analisou a possibilidade de uma erosão autoritária interna à democracia. Seu diagnóstico antecipava a recomposição conservadora que se consolidaria no rescaldo de 1968, sem reduzir o neofascismo a uma mera repetição das formas políticas da década de 1930. Alfred Sohn-Rethel, que não era membro do Instituto, mas próximo de sua tradição, publicou Economia e estrutura de classes do fascismo alemão (1973), reunindo análises elaboradas desde os anos 1930 sobre as divisões internas do capital alemão e a recomposição de seus interesses sob o nazismo. 

Com a passagem para a sua assim chamada segunda geração, entretanto, o fascismo deixou de ocupar a posição central que havia mantido no programa teórico e empírico da Escola de Frankfurt durante aproximadamente quatro décadas. Sob a influência crescente do paradigma habermasiano, o eixo da investigação deslocou-se para os problemas da legitimação, da comunicação e da reconstrução normativa da democracia. 

Ainda assim, a despeito desse imenso legado teórico e empírico (termos que, para a Escola de Frankfurt, de modo algum constituem uma antinomia), persiste, em diversos debates contemporâneos sobre a pertinência dessa tradição para a compreensão do presente, a ideia de que sua interpretação do fascismo seria excessivamente psicologizante ou filosofante, centrada na comunicação e na tecnologia e, por fim, imprecisa quanto à própria definição do fenômeno. Já é mais do que tempo de que as demais tradições marxistas se desvencilhem desses estereótipos e estabeleçam um diálogo efetivo com a Teoria Crítica para que o debate possa avançar. Para defender isso, apresento abaixo alguns aspectos da teoria do fascismo, com ênfase em seus principais eixos,  para tentar desfazer algumas dessas preconcepções e mostrar a complexidade e importância dessas reflexões para o presente. Vale começar pelo problema fundamental apontado hoje pelo debate. 

Uma definição de fascismo? 

Às vezes, quem procura não acha. Quem procura uma definição unívoca de fascismo, de fato, vai se decepcionar ao se deparar com esse imenso corpus textual e de pesquisa produzido pela Escola de Frankfurt.  

Em primeiro lugar, isso se deve ao fato de que, por terem vivido esse momento histórico, esses autores não se dedicaram a buscar outro nome ou definição para ele. Em certa medida, era óbvio o que o fascismo era.  

Em segundo lugar, porque essa pesquisa coletiva do fenômeno sob diversos prismas, ou melhor, em uma constelação, impede uma definição imediata do termo. Embora alguns textos apresentem definições mais diretas (como o ensaio de Marcuse sobre o neofascismo dos anos 1970, “O destino histórico da democracia burguesa” (1972), no qual o fascismo é caracterizado como uma resposta autoritária à crise econômica, orientada para a erosão da democracia e dos direitos que lhe são associados, a suspensão das liberdades civis, a perseguição da oposição e sua conversão em um inimigo a ser eliminado, bem como para a militarização e a manipulação totalitária da população), não são esses os momentos mais profícuos e pertinentes de sua análise. Da mesma forma como precisamos, em Marx, de três volumes para entender o que significa dizer que o capitalismo é um modo de produção cujo resultado é a própria sociedade (e para compreender um conceito como o “fetichismo”, por exemplo), precisamos de todos os escritos da Teoria Crítica para compreender como o fascismo é parte da reprodução do capitalismo e de sua manutenção. 

Na Teoria Crítica, assim como em Marx, qualquer definição é provisória e instável. Trata-se mais do movimento do capital  como forma e processo  social (e das formas políticas que ele produz), em suas mutações e tendências, do que de uma leitura presa a definições fechadas e a-históricas (aqui, o método se sobrepõe à ortodoxia). Além do mais, é parte fundamental do programa de pesquisas da Teoria Crítica problematizar a relação da teoria com seu objeto, isto é, segui-lo em sua complexidade e em seu caráter multifacetado – a luta contra o positivismo, inclusive no interior do marxismo, era um dos elementos distintivos dessa linhagem de pensamento. Ao invés de definir, esses autores estavam interessados em perguntar: será que precisamos de uma definição fechada do fascismo? Ou será que uma teoria do fascismo, como a leitura do capitalismo de Marx, precisaria ser aberta e complexa o suficiente para abarcá-lo em suas múltiplas determinações: do Estado à burocracia, da objetividade à subjetividade – também ela uma forma de objetividade, da cultura à organização política, das massas aos partidos, da propaganda à economia? E ainda: o que as definições do fascismo (do bonapartismo ao capitalismo de Estado) deixam de fora? 

Por fim, mais importante do que as razões anteriores, a Teoria Crítica estava interessada nas convergências entre fascismo e democracia burguesa e, ademais, no fascismo como processo social mais amplo (e não apenas como sistema político), e não numa definição que o colocasse em estado de diferença total em relação ao status quo burguês. Talvez por ter levado às últimas consequências um traço presente em diversas teorias do marxismo (i.e., a tese de que o fascismo não constitui mera interrupção externa em relação ao chamado capitalismo liberal, mas é um fenômeno gerado pelas próprias contradições da sociedade burguesa), a Teoria Crítica seja, de fato, culpada de não diferenciar entre capitalismo e fascismo – mas é justamente aí que reside seu maior ganho. A conhecida formulação de Horkheimer, segundo a qual quem não quiser falar do capitalismo deve calar-se também sobre o fascismo, sintetiza essa perspectiva. 

A Teoria Crítica faz do fascismo o que Marx faz do valor. Depois de se deparar com a sua forma histórica mais desenvolvida, volta-se à sua pré-história. Assim como Marx volta-se à Antiguidade e a Aristóteles para discutir a história pregressa do valor em O Capital, Adorno e Horkheimer voltam-se ao Esclarecimento (pensado como processo social) de trás para a frente: do fascismo às origens da civilização que nele iria desembocar. A perda em termos de “definição” é um ganho político. Ao ampliar o conceito de fascismo, em vez de diferenciá-lo da democracia burguesa, a Teoria Crítica revela seus limites e particularidades. Por isso, para quem se considera parte da tradição da Teoria Crítica, “tudo é fascismo”, como dizem nossos detratores. Quando devem definir o que não é fascismo, no entanto, várias correntes do marxismo nos deixam na mão e atenuam determinados fenômenos por sua inadequação ao que se considera “fascismo histórico”. Ao não se pensar o fascismo como processo ou forma social, mas como evento histórico ou sistema político, aqueles que ignoram a Teoria Crítica abandonam seu maior mérito: a capacidade de identificar as tendências fascistas antes de elas se tornarem, mais uma vez, dominantes. E esse é tanto um problema teórico quanto político. 

A exceção e a regra 

O problema imediato decorrente do problema descrito acima, de nomear e definir o fascismo (dois problemas separados, mas que se esbarram no debate atual), é que seria preciso delimitar o fascismo para que se avalie também a sua relação com a história. Conforme destaquei acima, Habermas contribuiu para circunscrever o nazismo à condição de exceção alemã e, portanto, não extensível a outros processos, como o colonialismo. A primeira geração da Teoria Crítica já havia aberto esse caminho comparativo com outros fenômenos, embora não o tivesse percorrido até suas últimas consequências. Em “Os judeus e a Europa”, por exemplo, Horkheimer pergunta como as classes dominantes, “judaicas e arianas”, poderiam recobrar a razão diante da perseguição aos judeus alemães, se haviam permanecido complacentes com “o empobrecimento de outros grupos sociais e nacionais, a pobreza em massa nas metrópoles e nas colônias e as condições vigentes nas prisões e nos manicômios”. Horkheimer adianta, assim, em duas décadas a tese depois melhor desenvolvida por Aimé Césaire em “Discurso sobre o colonialismo” (e demonstra o caminho que Michel Foucault poderia ter seguido para estudar as instituições de clausura no capitalismo, cuja forma máxima é o campo de concentração). As formas de violência que, no melhor dos casos, são categorizadas como “acumulação primitiva” inclusive pelo marxismo, mas não como fascismo, são identificadas por Horkheimer como elementos de sua pré-história.  

Ao interromper essa possibilidade de generalização histórica, Habermas levou a Teoria Crítica a partilhar o tabu que persiste, constrangendo e enrijecendo a vida política alemã. Ainda hoje, surpreendentemente, sua leitura do nazismo como experiência de exceção é muito mais partilhada pelo marxismo do que parece. Essa associação entre os processos de acumulação primitiva e o fascismo ainda não foi, salvo engano, plenamente teorizada. Quantos marxistas, nos últimos anos, não procuraram evitar a palavra fascismo para não banalizá-la, como se a violência no mundo – contra mulheres, imigrantes, populações originárias, LGBTQIA+ e o chamado precariado nas últimas décadas –  não justificasse o uso de uma palavra como essa?  

O problema da definição do fascismo, diante do qual parte da esquerda ainda está paralisada, então, parte de definições baseadas nas experiências concretas da Alemanha, da Itália e, em menor grau, ao menos nas teorias ocidentais, do Japão. Tudo o que se afasta disso, como as atualizações do fenômeno e suas mutações, passa a receber nomes que mais confundem do que explicam: populismo, conservadorismo, extremadireita (como não identificar extrema-direita e fascismo? Quais seriam as diferenças entre eles?), etc.  O fascismo passa a ser definido segundo características históricas que se tornam critérios formais e variam de um autor a outro. E aqui, a história, em vez de ajudar, atrapalha.  A historicização, necessária para impedir que o conceito se torne abstrato e indiferenciado, inverte-se ao fixar o fascismo em suas manifestações pretéritas e locais, impedindo que se reconheça tanto sua continuidade quanto sua capacidade de mutação. Um experimento curioso em teoria social seria: e se pensássemos o fascismo como a verdade última do capitalismo? O que aconteceria com nossa leitura de Marx, do capitalismo e da própria história? E se o fascismo fosse a regra e não a exceção (a exceção parece ter sido os trinta gloriosos no centro do capitalismo que continuam a servir de referência teórica e histórica – e de utopia – para uma parcela significativa do marxismo). 

A economia política do fascismo 

Horkheimer, Marcuse, Neumann, Pollock, Otto Kirchheimer e Alfred Sohn-Rethel  investigaram as mudanças institucionais e econômicas que tornaram possível o regime fascista. Apesar de divergirem quanto a conceitos como “capitalismo de Estado”, concordavam que o fascismo estava fortemente relacionado ao processo de monopolização do capital. A passagem para o capitalismo liberal que Marx havia descrito em suas obras deu lugar a uma concentração de capital nunca antes vista. 

Em seu texto “Reflexões sobre a teoria de classes” (1942), que condensa parte desse debate da década sobre o capitalismo monopolista, Adorno identificava que este compunha a economia política do fascismo, uma vez que a concentração de poder decorria da concentração de capital. Mais do que isso, Adorno afirma explicitamente que o fascismo é a forma de governo típica do capitalismo monopolista (é notável a atualidade da tese). A monopolização, conforme mostra Adorno, transforma a morfologia da sociedade de classes: 

A crença de ainda sequer poder conduzir a luta de classes enquanto classe organizada desmorona para os expropriados junto com as ilusões liberais, de maneira não muito diferente das associações revolucionárias de trabalhadores que outrora quiseram escarnecer da estilização da burguesia como estamento. Entre os ideais, a luta de classes é banida e tem-se que contentar com a tolerância à humanidade como lema nos discursos dos líderes sindicais. Os tempos em que ainda era possível construir barricadas estão quase tão mortos quanto aqueles em que era possível ganhar a vida com o trabalho manual. A onipotência da repressão e sua invisibilidade são a mesma coisa. […] A tensão aumentou tanto que não há absolutamente mais nenhuma tensão entre os polos incomensuráveis. A pressão incomensurável da dominação dissociou as massas de tal modo que até a unidade negativa da condição de ser oprimido, que as transformou em classe no século XIX, é dilacerada. Por isso, elas são imediatamente confiscadas pela unidade do sistema que as atrai. A dominação de classe está prestes a sobreviver à forma anônima e objetiva da classe. […] Isso torna necessário considerar o próprio conceito de classe tão de perto a ponto de ser simultaneamente retido e transformado. Retido: porque seu fundamento, a divisão da sociedade em exploradores e explorados, não apenas continua a existir de modo não atenuado, mas porque está aumentando em termos de coerção e consistência […] porque os oprimidos, segundo o prognóstico da teoria, hoje a enorme maioria dos seres humanos, não conseguem experienciar a si mesmos enquanto classe. 

Há concentração de capital e de poder, e essa alta concentração tem efeitos tanto objetivos quanto subjetivos na base da sociedade. Quanto maior o poder de um lado, maior a sensação de impotência do outro. Quanto maior a concentração de um lado, maior a atomização do outro. As classes dominadas se fragmentam (um dos temas da Teoria Crítica, para além da tese mais conhecida da “integração do proletariado”, diz justamente como o capitalismo monopolista implode a classe trabalhadora enquanto tal). É essa combinação entre concentração no alto e desagregação na base (como classe) que constitui uma das condições sociais do fascismo para a Teoria Crítica. A monopolização não produz apenas grandes conglomerados econômicos capazes de subordinar o Estado aos seus interesses. Ela também dissolve formas intermediárias de autonomia, incluindo a própria definição negativa das classes. A concentração do capital resulta na concentração do poder na medida em que reorganiza simultaneamente o Estado e a sociedade, intensificando as forças de dominação e enfraquecendo as organizações capazes de oferecer resistência a eles. 

Uma tese fundamental para a Teoria Crítica é a de que o fascismo pode não depender da abolição imediata das instituições democráticas, mas se desdobrar em seu interior à medida que a concentração do poder econômico corrói as condições de funcionamento da democracia burguesa.  A economia política do fascismo não começa, portanto, com a tomada do Estado por um movimento autoritário, embora também possa fazê-lo, mas com uma transformação anterior da sociedade ligada à concentração de poder, de um lado, e à atomização social, de outro. O processo de monopolização envolve a generalização, para a própria burguesia, da lógica de exploração do capitalismo, praticada pelos mais fortes sobre os destituídos. A burguesia possui, segundo Adorno, um duplo caráter de classe: sua unidade formal garante a dominação comum sobre o proletariado, enquanto encobre sua desigualdade interna. Esta última, no entanto, é aprofundada pela monopolização, que subordina a maioria dos proprietários aos detentores do grande capital, de modo que “a igualdade de interesses reduz-se à participação no butim dos grandes”. 

 O fascismo organiza politicamente essa assimetria e converte essa impotência dos indivíduos em identificação com o poder que os produz como impotentes (o papel da indústria cultural nesse processo é fundamental). Por fim, o fascismo, como forma de governo, para Adorno, consiste numa solução autoritária para as contradições decorrentes da monopolização. Ele conserva a desigualdade econômica cada vez mais ampliada, destrói as organizações autônomas dos trabalhadores e apresenta a submissão a esses poderes concentrados como integração à comunidade nacional. 

Uma vez que a concentração de capital continua a produzir concentração de poder e que esse diagnóstico é central para a Teoria Crítica, a questão da atualidade do fascismo não pode ser respondida apenas por meio da comparação entre partidos e movimentos contemporâneos e os movimentos da década de 1930. Seria preciso, antes de tudo e de uma perspectiva materialista, examinar se as transformações do capitalismo atual voltam a produzir a assimetria que a Teoria Crítica identificou, em sua origem, entre economia e sociedade. Haveria muito mais a dizer sobre isso, mas o que vale ressaltar aqui é que há toda uma discussão sobre as mutações da estrutura de classes, do Estado e da burocracia que acompanha os debates da Teoria Crítica a respeito do capitalismo monopolista e que não é levada em conta quando se diz que essa tradição de pensamento não tem uma reflexão materialista sobre o fascismo. 

Irracionalidade racionalmente aplicada 

A presença da Escola de Frankfurt nos Estados Unidos permitiu-lhe absorver as técnicas de pesquisa mais recentes e avançadas em ciências sociais da época. Ali, os estudos sobre autoritarismo, que partiram principalmente de uma base freudiana na década de 1930, ganham uma nova configuração. A ideia de analisar a subjetividade estava ligada a um pressuposto que ganha contornos mais definidos a partir desse período, a saber, que o indivíduo e sua subjetividade são produtos sociais do capitalismo e que investigar sua psique é investigar também o funcionamento desse sistema. Os estudos sobre propaganda e preconceito que acompanham a formulação do conceito de indústria cultural buscavam solucionar um problema que permanece presente na discussão do fascismo. Afinal, a adesão ao fascismo é uma resposta racional de setores da população ou trata-se de irracionalidade? Para a Teoria Crítica, nem um nem outro. Trata-se, como Adorno formulou inúmeras vezes em seus escritos, de irracionalidade socialmente aplicada. Isto é, de uma irracionalidade produzida não só pela razão instrumental, mas, mais do que isso, de uma produção social da irracionalidade, via aparatos de socialização que configuram, de alguma forma, essa subjetividade receptiva ao fascismo. A indústria cultural como forma é uma extensão da reflexão a respeito da economia política do fascismo. Para Adorno e Horkheimer, conforme já escrevi nessa coluna inúmeras vezes, ela é a forma da nova organização fascista (não apenas porque substitui o partido, mas porque cria as condições para a adesão a esse tipo de movimento). 

Foi com base nesses pressupostos que o Instituto desenvolveu, a partir de 1940, uma série de estudos sobre a agitação fascista nos Estados Unidos. Em vez de tomar as declarações dos agitadores como expressão imediata de suas convicções ou avaliar isoladamente a verdade de suas afirmações (ou seja, tomando o fascismo menos como uma questão de conteúdo do que de forma), essas pesquisas examinaram a propaganda como uma mediação entre o mal-estar social e sua elaboração política. Para Löwenthal e  Guterman, era evidente que esses agitadores não inventavam a insegurança, o sentimento de impotência e o medo do rebaixamento social que se encontravam em seu público (a análise do fascismo também por sua psicologia não dispensa o reconhecimento de sua base econômica real). O que faziam os agitadores, para os autores, era apropriar-se dessas experiências, impedir que suas causas objetivas fossem reconhecidas e traduzi-las em ressentimento contra inimigos personalizados: judeus, estrangeiros, comunistas, negros, intelectuais, burocratas ou quaisquer outros grupos disponíveis para ocupar o lugar do inimigo. Uma importante descoberta desse período, obtida por meio das pesquisas empíricas supracitadas, diz respeito a quão rapidamente essas técnicas de propaganda podem mudar o alvo dessa propaganda. Como a estrutura do preconceito é a mesma independentemente dos alvos escolhidos (a Escola de Frankfurt sempre salientou que a explicação do fascismo residia na subjetividade dos perpetradores e não das vítimas), era necessário conhecer as suas determinações psíquicas e, portanto, sociais. 

Em seus estudos sobre as intervenções radiofônicas de Martin Luther Thomas, Adorno demonstrou que a propaganda fascista caracterizava-se não por argumentos (como vimos nos últimos anos em todo o mundo), mas por alusões, insinuações, estereótipos e pela construção de uma espécie de cumplicidade com o ouvinte. Essa ideia é amplamente desenvolvida em Profetas do engano, na qual Löwenthal e Guterman mostraram que o agitador transforma as ansiedades sociais em crença e ação políticas, por meio de uma série de técnicas diversas: interpreta os conflitos sociais como sinais de decadência; atribui suas causas à ação coordenada de forças ocultas (teorias da conspiração); representa o inimigo como poderoso o bastante para ameaçar a coletividade e abjeto o bastante para justificar sua eliminação; e apresenta o movimento fascista como agente de restauração da ordem. Por isso é difícil conversar com pessoas com disposição fascista, pois o discurso fascista é produto dessa dinâmica de irracionalidade racionalmente aplicada. A repetição, a ausência de encadeamento argumentativo, a indistinção entre ameaças reais e projetivas à vida social e a substituição da explicação pela nomeação obsessiva de inimigos desse tipo de discurso não prejudicam em nada a eficácia dessa propaganda porque ela não visa a convencer o público de uma doutrina coerente, mas a estabelecer com ele uma cumplicidade/identificação. O agitador diz em voz alta aquilo que seus ouvintes desejam dizer mas não têm coragem – Löwenthal e Guterman falam desse discurso em termos de “lubrificantes para a violência”. Daí a importância das piadas, das obscenidades, das alusões preconceituosas, da agressividade calculada e da encenação da perda de autocontrole (que visa produzir o mesmo efeito entre o público). A transgressão performada pelo agitador autoriza uma liberação vicária dos impulsos reprimidos, sem que essa liberação se dirija contra seu objeto real: o capitalismo. A aparente revolta contra o sistema reconduz, assim, à identificação com o poder. 

Os estudos sobre a agitação examinavam os procedimentos pelos quais insatisfações produzidas por contradições sociais objetivas eram desviadas de suas causas e reorganizadas, mas a ideia geral era pensar os dois lados desse processo: emissão e recepção. Por isso, esses estudos não são compreensíveis sem A Personalidade Autoritária. Essa pesquisa não pretendia identificar um tipo fascista imediatamente reconhecível por opiniões políticas declaradas, ou estabelecer uma relação mecânica entre determinados traços psicológicos e a adesão inevitável ao fascismo, como também se costuma dizer quando o assunto é a relação de Frankfurt com a psicanálise. Seu objeto era o indivíduo potencialmente fascista, cuja formação social e familiar havia sedimentado disposições como a submissão à autoridade, a agressividade contra grupos considerados inferiores, o convencionalismo, o pensamento estereotipado, o culto da força e a projeção sobre os outros de impulsos que o próprio sujeito não admitia como seus. Para apreender empiricamente essa estrutura latente, a pesquisa construiu escalas de antissemitismo, etnocentrismo, conservadorismo político-econômico e de tendências fascistas, além de realizar entrevistas clínicas e análises qualitativas. O objetivo foi demonstrar que os preconceitos contra grupos distintos não constituíam opiniões independentes (esse tema da opinião transsubjetiva permaneceria sendo estudado até a década de 1960), mas expressões de uma configuração relativamente coerente de alguns tipos de personalidade (e de socialização), capaz de permanecer latente em circunstâncias democráticas e de ser ativada por movimentos autoritários em condições históricas favoráveis. Horkheimer sempre dizia que a eficácia do agitador em tempos de paz e prosperidade não era a mesma que em tempos de crise, mas, nestes últimos, era preciso reconhecer como essa propaganda atingia seus alvos e o que, nas subjetividades, facilitava a penetração desses discursos. 

O capitalismo, como afirmam Adorno e Horkheimer em Dialética do Esclarecimento, reduz a humanidade a dois polos: empregados e consumidores. A Teoria Crítica procurou compreender a forma específica assumida por essa divisão sob o fascismo. Os estudos sobre a propaganda e o preconceito investigavam, nesse sentido, a dinâmica entre oferta e demanda política sob o fascismo. A analogia econômica não é fortuita. Do lado da oferta, tratava-se de analisar a produção do fascismo no corpo social, isto é, as técnicas pelas quais o agitador se apropria de um mal-estar gerado pelas contradições do capitalismo, mas que ele direciona (ou redireciona), apoiando-se numa base material real de insatisfação, para grupos específicos, sejam eles os comunistas, os judeus, os muçulmanos, os palestinos. Do lado da demanda, os autores visavam compreender como a própria sociedade produzia indivíduos dispostos a aceitar essa falsa ou pseudo-elaboração de seu sofrimento. A adesão ao fascismo não é, portanto, nem uma resposta racional a interesses objetivos, nem a irrupção de uma irracionalidade puramente psicológica, sem qualquer relação com a estrutura social. Ela é uma resposta muitas vezes racional, mas racionalmente direcionada à irracionalidade, ou seja, socialmente produzida, estimulada e administrada por aparelhos capazes de transformar a impotência em agressividade e submissão. Sendo assim, não é possível abandonar nenhum dos argumentos: nem que o fascismo seja uma resposta racional, nem que seja uma resposta irracional (afinal, ele sempre representa os interesses do grande capital). O objetivo de Frankfurt sempre foi compreender a dialética entre uma coisa e outra. 

Os estudos sobre propaganda e preconceito, bem como a respeito da indústria cultural, compõem, portanto, um único programa de investigação. A relação da indústria cultural com o fascismo não se reduz ao fato (evidente) de que o rádio, o cinema e a imprensa atuam como instrumentos de propaganda e organização. Também não se trata de afirmar que todo produto da indústria cultural possui, imediatamente, um conteúdo fascista (embora a maioria o contenha). A questão é outra e diz respeito à forma. Conforme também já afirmei aqui, a indústria cultural organiza seus produtos antes mesmo que eles cheguem ao público, antecipa as reações que devem provocar, distribui os indivíduos em categorias e oferece como escolha aquilo que já foi previamente decidido. A mesma lógica vale para a propaganda fascista. Ela repete o mesmo repertório (em termos de forma, limitado e padronizado), adapta as mesmas fórmulas a públicos distintos, oferece respostas antes que as perguntas possam ser formuladas – aqui o “esquematismo” da indústria cultural captura a própria rebeldia, como não se cansava de ressaltar Adorno, e apresenta como manifestação espontânea das massas aquilo que foi produzido e organizado pelo próprio aparato.  

A indústria cultural não cria sozinha o fascismo, mas cria algumas das condições subjetivas sem as quais sua propaganda não poderia funcionar. Ela não precisa ensinar diretamente uma doutrina autoritária. É suficiente que habitue os indivíduos a confundir adaptação com realismo, repetição com verdade, sucesso com legitimidade e escolha entre alternativas previamente estabelecidas com liberdade. Mais importante ainda, ela contribui para que o sofrimento socialmente produzido seja experimentado de maneira privada. O indivíduo percebe que algo não funciona, mas já não consegue relacionar sua experiência à organização da sociedade como um todo. Por isso, a indústria cultural, como sistema (tornada possível apenas pelo processo de monopolização do capital), implode a classe. A perda da capacidade de referir o sofrimento a suas raízes sociais torna o indivíduo disponível para explicações falsas da realidade (ainda que com base em contradições materiais verdadeiras, conforme destaquei anteriormente). A propaganda fascista não encontra, portanto, um público vazio sobre o qual inscreve arbitrariamente seus conteúdos. É também nesse sentido que a indústria cultural pode assumir funções antes desempenhadas pelos partidos. Não apenas porque oferece meios de difusão da propaganda, mas também porque organiza politicamente indivíduos que permanecem socialmente atomizados. A massa fascista é a forma política assumida pela atomização quando os indivíduos, incapazes de reconhecer sua impotência como experiência socialmente compartilhada, são reunidos por sua identificação comum com o líder. Concentração econômica e organização autoritária da subjetividade constituem momentos do mesmo processo. Não se trata, portanto, de uma explicação psicologizante sobre o fascismo, mas de uma análise sobre como a psicologia torna-se uma vulnerabilidade ao tornar-se objeto desse sistema de socialização. 

Elaborar o passado? 

Em seu texto sobre a elaboração do passado, que normalmente é lido como uma espécie de representante das políticas de memória na Alemanha (cuja ineficácia hoje já é mais do que explícita), Adorno questiona o mote “elaborar o passado”, em moda à época. Para ele, essa noção é ideológica no sentido mais imediato possível. Elaborar o passado significaria reconhecer que o nazismo havia ficado para trás – o que não era o caso da Alemanha no momento em que escreveu o texto. O que os chamados “Experimentos de Grupo” mostravam era que o nazismo estava completamente vivo no corpo social alemão. A atitude de defesa das pessoas que foram entrevistadas pela pesquisa, sua ânsia em negar ou minimizar o que aconteceu, a ideia de que a maioria da população não sabia o que se passava na Alemanha sob Hitler, e a justificativa sempre na manga de que as vítimas devem ter feito algo para merecer o que receberam revelaria, segundo Adorno, que o esfacelamento da memória não é produto da fraqueza da consciência diante de forças inconscientes (como uma interpretação de fato psicologizante poderia argumentar), mas o produto de uma consciência alerta a serviço das forças sociais dominantes. E a sobrevivência do fascismo no interior da democracia é muito pior, diz Adorno, do que as ameaças que vêm de fora porque a aparência democrática as torna mais opacas. O passado não pode ser elaborado porque ainda não terminou. Essa é a lição que Frankfurt lega ao marxismo. 


Este ensaio busca responder algumas questões levantadas no debate “Cartografias do neofascismo: economia política, escatologia, extermínio” (em conjunto com Eduardo Altheman, Virginia Helena Ferreira da Costa e Tales Ab’sáber), ocorrido na Conferência Historical Materialism no Rio de Janeiro 2026, e é um sumário de minha aula no curso “Marxismo e Crítica do Fascismo” organizado por Marxismo 21 e disponível aqui:


Referências

Adorno, Theodor W. Aspekte des neuen Rechtsradikalismus: Ein Vortrag. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2019. 

Adorno, Theodor W. Erziehung nach Auschwitz. In: Heydorn, Heinz-Joachim; Simonsohn, Berthold; Hahn, Friedrich; Hertz, Anselmus (orgs.). Zum Bildungsbegriff der Gegenwart. Frankfurt am Main: Moritz Diesterweg, 1967. p. 111–123. 

Adorno, Theodor W. The Psychological Technique of Martin Luther Thomas’ Radio Addresses. In: Adorno, Theodor W. Gesammelte Schriften. Band 9.1: Soziologische Schriften II. Organizado por Susan Buck-Morss e Rolf Tiedemann. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1975. p. 7–141. 

Adorno, Theodor W. Reflexionen zur Klassentheorie. In: Adorno, Theodor W. Gesammelte Schriften. Band 8: Soziologische Schriften I. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1972. p. 373–391. 

Adorno, Theodor W. Schuld und Abwehr: Eine qualitative Analyse zum Gruppenexperiment. In: Pollock, Friedrich (org.). Gruppenexperiment: Ein Studienbericht. Frankfurt am Main: Europäische Verlagsanstalt, 1955. p. 278–478. 

Adorno, Theodor W. Was bedeutet: Aufarbeitung der Vergangenheit? In: Deutscher Koordinierungsrat der Gesellschaften für Christlich-Jüdische Zusammenarbeit (org.). Was bedeutet: Aufarbeitung der Vergangenheit? Bericht über die Erzieherkonferenz am 6. und 7. November 1959 in Wiesbaden. Frankfurt am Main: Moritz Diesterweg, 1959. p. 12–23. 

Adorno, Theodor W.; Frenkel-Brunswik, Else; Levinson, Daniel J.; Sanford, R. Nevitt. The Authoritarian Personality. New York: Harper & Brothers, 1950. 

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Sohn-Rethel, Alfred. Ökonomie und Klassenstruktur des deutschen Faschismus: Aufzeichnungen und Analysen. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1973. 

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Bruna Della Torre é pesquisadora de pós-doutorado no Centro Käte Hamburger de Estudos Apocalípticos e Pós-apocalípticos da Universidade de Heidelberg, onde também edita a revista Apocalyptica. Integra o comitê editorial da revista Crítica Marxista e o conselho científico de Constelaciones: Revista de Teoría Crítica (Madrid). Em 2023, foi Horkheimer Fellow no Instituto de Pesquisa Social em Frankfurt (Otto Brenner Stiftung). Realizou pós-doutorado no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP sob a supervisão de Jorge de Almeida (2018-2021), com estágio de pesquisa na Universidade Humboldt (anfitriã: Rahel Jaeggi) e no Departamento de Sociologia da Unicamp sob supervisão de Marcelo Ridenti (Fapesp). Doutora em Sociologia (bolsista Capes), mestra em Antropologia Social sob a orientação de Lilia Katri Moritz Schwarcz (bolsista Fapesp) e bacharel em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo. Durante o doutorado, realizou estágio de pesquisa na Universidade Goethe, em Frankfurt e no Departamento de Literatura da Universidade de Duke (anfitrião: Fredric Jameson), com bolsa da Capes. Tem experiência de pesquisa em e organização de arquivos. Com bolsa do DAAD, conduziu pesquisa no Arquivo Walter Benjamin/Theodor W. Adorno da Akademie der Künste, em Berlim, em 2014 e em 2019 e no arquivo de Oswald de Andrade (CEDAE/Unicamp) em 2011 com bolsa Fapesp. Em 2024, fez parte do projeto da International Herbert Marcuse Society de organização dos arquivos de Douglas Kellner, abrigado pela Universidade de Columbia. Foi, entre 2017 e 2018 e em 2021, professora visitante na UNB. É autora do livro Vanguarda do atraso ou atraso da vanguarda? Oswald de Andrade e os teimosos destinos do Brasil. É membra da coletiva “marxismo feminista“.


Trabalho intelectual e manual, de Alfred Sohn-Rethel
Qual a relação entre dinheiro e conhecimento? Nesta genealogia da separação entre trabalho intelectual e manual, Alfred Sohn-Rethel revela as afinidades estruturais e estruturantes entre as abstrações conceituais do pensamento ocidental e a forma mercadoria. Um dos principais textos da teoria marxista do pós-guerra, Trabalho intelectual e manual exerceu influência decisiva sobre os principais autores da chamada Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno e Walter Benjamin.

Sohn-Rethel desenvolve a tese ousada de que a análise marxiana da mercadoria é chave não só da crítica da economia política, mas também da origem histórica do próprio pensamento conceitual ocidental e da divisão entre “cabeça e mão” que dele decorre: “a separação entre trabalho intelectual e manual é tão imprescindível para a dominação da classe burguesa quanto a propriedade privada dos meios de produção.” Ao cunhar o conceito de “abstração real” e reposicionar as discussões sobre ciência, técnica e epistemologia no campo marxista, a obra de Sohn-Rethel apresenta fertilidade duradoura para a filosofia crítica contemporânea, inspirando autores como Slavoj Žižek, Anselm Jappe, Antonio Negri e Giorgio Agamben, entre outros.

“Alfred Sohn-Rethel foi o primeiro a chamar a atenção para o fato de que na atividade universal e necessária do espírito, se esconde incondicionadamente trabalho social.”
Theodor W. Adorno

Fruto de mais de cinquenta anos de elaboração e reelaboração, Trabalho intelectual e manual chega pela primeira vez às livrarias brasileiras com tradução direta do alemão feita por Elvis Cesar Bonassa a partir da edição mais recente da obra, consolidada após detalhada revisão do autor. Com prefácio de Olgária Matos e orelha de Vladimir Safatle, a edição da Boitempo vem incrementada de preciosos anexos que documentam a rica interlocução de Sohn-Rethel com Adorno e Benjamin.




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