A hora do incêndio

Emil Hesse-Burri, Walter Benjamin, Bertolt Brecht, Wilhelm Speyer e Marie Speyer na praia de Le Lavandou (1931). Imagem: WikiCommons.

Por Thyago Marão Villela

Nem os mortos estarão em segurança…

“Nem os mortos estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”. A célebre sentença de Walter Benjamin (2020[1940], p.70), registrada ao modo de um epílogo em seu último texto, é lapidar. Como se percebe facilmente, ela poderia ser atribuída posteriormente à sua própria obra, sujeita àquilo que Terry Eagleton caracterizou, no início dos anos 1980, como uma apropriação por um “[…] establishment crítico que considera seu marxismo um pecado leve e eventual ou excentricidade tolerável” (apud Querido, 2026, p. 7); num diagnóstico que foi desdobrado anos depois por Susan Buck-Morss (2001), que tematizou uma espécie de mudança paradigmática na recepção de Benjamin, tornado, de avant-garde, em “moda acadêmica”.

Fábio Mascaro Querido abre seu novo livro, que constitui uma introdução à obra de Benjamin, com essa preocupação. Trata-se, portanto, de evocar a necessidade de um resgate da obra benjaminiana dos escombros em que reiteradamente a cobrem – noutros termos, trata-se de “refuncionalizá-la” (segundo a expressão de Brecht) ante os perigos postos pela ascensão vertiginosa das extremas direitas. O que Querido opera, então, nas páginas que seguem, é uma espécie de (re)construção de um Benjamin cujas ideias são perigosas, em suas ambivalências e conflitos produtivos, oriundos da formação de um pensamento multifacetado e composto por diversos influxos – do messianismo ao surrealismo e ao marxismo.

Imagens do passado

Querido circunscreve a obra benjaminiana em quatro períodos, ou ciclos produtivos: 1) os anos de formação, marcados pela passagem de Benjamin pelas ligas estudantis e pelo trauma da Grande Guerra, quando se exilou em Berna; 2) o período de Weimar, após Benjamin defender seu doutoramento sobre o conceito de crítica de arte no romantismo alemão e estabelecer suas primeiras relações com o marxismo, por meio de Ernest Bloch e da leitura do jovem Lukács; 3) o processo de construção de seu projeto das Passagens, a partir de 1927, assim como os seus desdobramentos reflexivos após a ascensão do nazismo em 1933, consubstanciados em textos como “Experiência e pobreza” (1933) e “O narrador” (1936); e 4) as teorizações pós-1936, atravessadas pelas mudanças no processo de investigação das Passagens e por uma espécie de reflexão cada vez mais tétrica sobre as concepções de progresso e de modernidade, que desembocaram em suas famosas teses “Sobre o conceito de história” (1940). Grosso modo, a cada um destes quatro “ciclos reflexivos” benjaminianos corresponde um dos capítulos do livro em questão.

Em todos eles, o que se pode observar é a agudeza crítica de Querido ao redimensionar historicamente as operações reflexivas de Benjamin frente ao debate da época e aos conflitos sociais que então os estruturavam – escapando, portanto, das ondas especulativas em torno de sua obra, que a pretendem a-histórica e, assim, despolitizada. Assim, por exemplo, Querido adota como fio condutor para ler a atuação de Benjamin nos movimentos juvenis alemães o conflito geracional e intelectual entre os nacionalistas conservadores e o fenômeno chamado por Enzo Traverso de “modernidade judaica” (p. 23). Analogamente, nas que talvez possam ser tidas como as páginas mais fulgurantes deste livro, o autor lê as teses “Sobre o conceito de história como parte do movimento intelectual geral de Benjamin após 1936 e que, motorizado pelo mal-estar vindo do pacto germano-soviético, de 1939, lançou-o numa crítica radical da noção de progresso. Conforme acentua Querido, esse movimento passou pelo aprofundamento do estudo de Baudelaire e pela reflexão sistemática em torno da “dimensão fantasmagórica da cultura burguesa” (p. 64).

Além disso, cabe destacar a espécie de “constelação” montada por Querido entre Benjamin, Asja Lacis, Brecht e o debate surrealista, que acaba por posicionar Benjamin como protagonista decisivo das discussões em torno das vanguardas artísticas – ao lado, portanto, de suas vertentes mais avançadas, como o dadaísmo, o surrealismo e, especialmente, o construtivismo russo, que pretenderam destruir a autonomia estética burguesa em prol da reconexão, noutras bases, entre arte e vida social – conforme já argumentou também Peter Burger, no célebre Teoria da vanguarda (2008[1987]). Nesse sentido, e por conta desse redimensionamento histórico operado por Querido, fica explícito como Benjamin se opunha objetivamente à teoria estética lukácsiana dos anos 1930, centrada na defesa da “forma romance” e da noção de “representação”, numa operação que acabava por naturalizar aquilo que o construtivista Sergei Tretiakov (1923/2006) nomeou como a cisão social entre o grupo daqueles “que criam” e o grupo “daqueles que contemplam”.

Lampejo

Walter Benjamin: uma introdução é, assim, uma porta de entrada de primeira importância para o pensamento benjaminiano. É, para seguir Benjamin, uma espécie de lampejo – num momento de perigo. É por isso, também, uma porta de saída – uma delas –, necessária aos processos de recomposição da esquerda numa chave antistalinista.

Conforme nos lembra Querido, é o tempo de agora que está em questão – mas apenas na medida em que “[…] há o presente do presente, mas também o presente do passado e o presente do futuro” (p. 108-109). Assim, por meio dessa temporalidade benjaminiana (de extração freudiana, vale lembrar) é possível pensar que são os conflitos travados agora que poderão rearticular o passado vivido e pensado por Benjamin – assim como, é claro, salvar-nos de uma nova “meia-noite do século”. Este livro é uma pedra a ser atirada nesse sentido – agora, na hora do incêndio.

Referências

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. Edição crítica organizada e traduzida por Adalberto Muller e Márcio Seligmann-Silva. São Paulo: Alameda, 2020.

BUCK-MORSS, Susan. Walter Benjamin: between academic fashion and the avant-garde. Pandaemonium Germanicum, São Paulo, n. 5, p. 73-88, 2001.

BÜRGER, Peter. Teoria da vanguarda. Tradução de José Pedro Antunes. São Paulo: Cosac Naify, 2008.

QUERIDO, Fábio Mascaro. Walter Benjamin: uma introdução. São Paulo: Boitempo, 2026.

TRETIAKOV, Sergei. Art in the Revolution and the Revolution in Art (Aesthetic Consumption and Production). October, Cambridge, n. 118, p. 11-18, 2006.

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Thyago Marão Villela é Pós-Doutorando em Sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Pesquisador em História da Arte e História da Psicanálise. Psicanalista.


Walter Benjamin: uma introdução, de Fabio Mascaro Querido
Muito comentado e pouco compreendido, Walter Benjamin ganha, pela primeira vez, uma espécie de manual para não iniciados. Neste livro, Querido segue um “fio vermelho” que atravessa a obra de Benjamin, revelando a unidade profunda de um pensamento ao mesmo tempo experimental e radical. O leitor tem em mãos um retrato sucinto de um intelectual difícil de definir, mas marcado por uma coerência fundamental: a crítica ao capitalismo moderno nas mais diversas frentes – econômica, social, cultural e mesmo ecológica. 


Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin
Um diálogo extremamente atual entre duas grandes mentes do século XX. Uma coletânea única de ensaios sobre a obra dramática e poética de Bertolt Brecht. O filósofo conceitua o teatro épico, discute Marx e sátira, e revela trechos de sua intensa correspondência com Brecht exilado na Dinamarca.

O capitalismo como religião, de Walter Benjamin
Uma seleção reveladora dos escritos do filósofo, abordando desde o romantismo alemão até a crítica do capitalismo como religião, numa perspectiva que desafia a melancolia e busca indícios de transformação na história. Crítica radical da civilização capitalista-industrial moderna.

Walter Benjamin: aviso de incêndio, de Michael Löwy
Uma análise erudita das teses de Walter Benjamin sobre o conceito de história, revelando sua riqueza de ideias e influências. O autor destrincha a complexidade das ideias de Benjamin, que articulou influências contraditórias e construiu uma síntese das relações da humanidade com o tempo.

Em torno de Marx, de Leandro Konder
Refletindo sobre a vitalidade do pensamento marxiano, aborda a dimensão filosófica muitas vezes subaproveitada de Marx. O autor, figura central no marxismo brasileiro, dialoga sobre moral, religião, história e dialética, incluindo reflexões sobre Lukács, Adorno, Gramsci e outros.


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2 comentários em A hora do incêndio

  1. Como estudioso (autodidata) de Filosofia, agora com quasse oitenta anos, percebo que, no livro “O Livro da Filosofia (As grandes ideias de todos os tempos.)” Globo Livros,2016) utiliza apenas uma página, 258, para Walter Benhamin. Nigel Warburton, em seu “Uma Breve História da Filosofia”, Porto Alegre, 2014, não cita Walter Bejamin, então, quando passei por esse filósofo, não senti a necessidade de me aprofundar sobre ele. Através dos artigos da Boitempo, como esse, de Thyago Marão Villela e, de outros, incluindo Querido, sinto que preciso rever. Porisso, e pela riqueza dos artigos, gosto muito do Blog da Boitempo. Obrigado!

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    • Nós que agradecemos a leitura, camarada! Ficamos felizes em contribuir com seus estudos e aproveitamos para recomendar a leitura dos excelentes Ensaios sobre Brecht, que são uma excelente porta de entrada ao pensamento de Walter Benjamin e suas articulações entre arte, política e filosofia da história.

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