As (im)possibilidades diante do trauma atômico: seis filmes sobre o tema

Cena de Oppenheimer (2023), de Christopher Nolan. Imagem: divulgação
Por Alysson Oliveira
Oppenheimer pode ter se tornado uma espécie de marco (polêmico, é claro) na figuração da bomba atômica e suas consequências. O cinema, no entanto, já foi muito além disso, ao dar perspectivas diversas a esse trauma. Do poético ao suspense, filmes sobre o assunto materializam um apocalipse que está sempre acontecendo – seja de forma real ou figurada.
“O nada não imaginado. O perigo do apocalipse no qual vivemos atinge o auge de sua dimensão ameaçadora pelo fato de não estarmos preparados para ele, isto é, pelo fato de sermos incapazes de imaginar a catástrofe”, escreve Günther Anders em sua oitava tese para a Era Atômica, traduzido por Felipe Catalani em O inimigo do apocalipse. A ideia vai ao encontro daquilo que Fredric Jameson aponta como nossa limitação cognitiva histórica das contingências de nossa imaginação.
Ainda assim, o cinema pensa, mesmo em sua limitação histórica e cultural, em mundos que sobrevivem – ou se reconstroem – depois da catástrofe. Abaixo, algumas dessas possibilidades.
Hiroshima, meu amor (1959), de Alain Resnais

Cena de Hiroshima, meu amor. Imagem: divulgação
O realismo poético de Alain Resnais, na direção, e de Marguerite Duras, no roteiro, investiga trauma e memória do pós-Segunda Guerra, num mundo ainda horrorizado pelo fracasso escancarado da civilização, capaz de usar bombas atômicas. A impossibilidade do envolvimento amoroso entre uma atriz francesa (Emmanuelle Riva) e um arquiteto japonês (Eiji Okada) é a figuração de um mundo sem futuro, e o diálogo da abertura do filme ecoa:
“– Você não viu nada em Hiroshima. Nada.
– Eu vi tudo. Tudo. […] Os hospitais, eu os vi. Como não vê-los?”
Disponível na Mubi
Dr. Fantástico (1964), de Stanley Kubrick
Cena de Dr. Fantástico. Imagem: divulgação
Um dos maiores clássicos da Era Nuclear, o longa de Kubrick atende pelo título completo de Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, e se tornou a sátira mais ácida sobre o tema. Como não se lembrar de falas como “Mein Führer…! Consigo andar!!” ou “Senhores, vocês não podem brigar aqui! Esta é a sala de guerra!”? Fora a obsessão formal do cineasta, a genialidade do longa, adaptado do romance Alerta vermelho, de Peter George, está em olhar a Guerra Fria, então em curso, nos olhos – e rir dela.
Disponível para compra e aluguel em plataformas de streaming como Google Play e YouTube
A síndrome da China (1979), de James Bridges
Cena de A síndrome da China. Imagem: divulgação
A ideia de uma “síndrome da China” tem a ver com a possibilidade teórica do derretimento de um reator nuclear que atravessaria todo o centro da Terra, indo da China até os Estados Unidos. O filme estrelado por Jane Fonda, que interpreta uma jornalista, se vale desse cenário de paranoia e das ansiedades tecnológicas e políticas dos anos de 1970 para explicitar tensões reais. Curiosamente, poucos dias depois da estreia, um acidente aconteceu numa usina nuclear na Pensilvânia, aumentando ainda mais o interesse pela obra.
Disponível para compra e aluguel em plataformas de streaming como Prime Video e YouTube
O sacrifício (1986), de Andrei Tarkovsky

Cena de O sacrifício. Imagem: divulgação
O último filme dirigido pelo cineasta russo, lançado alguns meses antes de sua morte, é seu réquiem para um mundo à beira da destruição, sedimentando em si muito da estrutura de sentimento da década, com a ascensão do neoliberalismo e o iminente “fim da história”. O protagonista (Erland Josephson) é um ex-ator que abandonou os palcos para trabalhar como jornalista e professor de estética, mas quando são anunciados na televisão a Terceira Guerra Mundial e um possível holocausto nuclear, ele, sua família e seus amigos entram num estado de paralisia, incapazes de fugir ou buscar a salvação.
Disponível na Mubi
A estrada (2009), de John Hillcoat
Cena de A estrada. Imagem: divulgação
Baseado no premiado romance de Cormac McCarthy, o longa se dá nos Estados Unidos destruídos depois de uma tragédia nunca explicitada – muito provavelmente, uma bomba atômica. Pai e filho (vividos por Viggo Mortensen e Kodi Smit-McPhee) vagam por uma estrada no país destruído, rumo ao sul, onde imaginam que o frio seja menor. A travessia, no entanto, é marcada por horrores, incluindo canibais.
Disponível na HBO Max
Godzilla Minus One (2023), de Takashi Yamazaki

Cena de Godzilla Minus One. Imagem: divulgação
Um dos melhores filmes sobre o réptil gigantesco, o premiado longa não explicita o trauma da bomba atômica, mas isso é uma questão central à vertente nipônica da franquia – que já conta com mais de 30 longas, e Godzilla Minus Zero está previsto para estrear ainda este ano. O protagonista (Ryunosuke Kamiki) é um ex-piloto kamikaze que sofre com o peso da culpa por ter sobrevivido sem cumprir o “sacrifício de honra” exigido pelo império. Nesse cenário, o longa materializa as consequências sociais e emocionais da devastação de um país.
Disponível na Netflix
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Alysson Oliveira é jornalista e crítico de cinema no site Cineweb, membro da ABRACCINE – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e escreve sobre livros na revista Carta Capital. Tem mestrado e doutorado em Letras, pela FFLCH-USP, nos quais estudou Cormac McCarthy e Ursula K. Le Guin, respectivamente. Realiza pesquisa de pós-doutorado, na mesma instituição, sobre a relação entre a literatura contemporânea dos EUA e o neoliberalismo, em autores como Don DeLillo, Rachel Kushner e Ben Lerner, sob orientação de Maria Elisa Cevasco.
APROFUNDE-SE NO ASSUNTO
O inimigo do apocalipse: uma leitura das “Teses para a Era Atômica”, de Günther Anders, de Felipe Catalani
Com o fim da Guerra Fria, a ameaça nuclear parecia ter sido neutralizada. Nos últimos anos, o mundo se lembrou de que esse perigo ainda existe. Na verdade, ele nunca desapareceu. Afinal, esse é um dos dramas principais da Era Atômica: o fato de que ela possui algo de irreversível. Em O inimigo do apocalipse, Felipe Catalani apresenta uma introdução à obra do alemão Günther Anders que a situa no coração dos impasses políticos da nossa atualidade apocalíptica.
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