O marxismo surrealista de Walter Benjamin
Leia um trecho de "Walter Benjamin: uma introdução", novo lançamento da coleção Pontos de Partida.
Recorte da capa de Sasha Stone para primeira edição alemã de Rua de mão única. Imagem: WikiCommons.
Por Fabio Mascaro Querido
O fato de Benjamin ter se tornado marxista e admirador dos surrealistas quase simultaneamente é digno de nota. Trata-se de aspecto bastante revelador do caráter singular de seu marxismo, tanto quanto das críticas e das incompreensões de que seria objeto. Além de libertário e messiânico, seria um marxismo na contramão da confiança no progresso da razão – que lhe é geralmente associada. Para Benjamin, assim como para os surrealistas, a razão e o progresso não somente não levam, de modo inevitável, ao paraíso socialista, como, ao contrário, podem empurrar a humanidade na direção das guerras, violências e catástrofes.
A única maneira de fazer frente a essa situação não é, portanto, o resgate da razão aviltada pela burguesia decadente, como Lukács proporia notadamente a partir dos anos 1930, mas a subversão da racionalidade de um progresso cuja concretização intensifica, em vez de aliviar ou superar, as contradições do capitalismo. No ensaio de 1929 em que qualifica o surrealismo como “o último instantâneo da intelligentsia europeia”, o reparo mais significativo feito por Benjamin, aqui mencionado de passagem, refere-se ao menosprezo do movimento pela “disciplina revolucionária”, necessária para transformar a revolta em revolução, a imaginação em realidade – ou, como ele diria no projeto das Passagens (“Paris, capital do século XIX”), para “despertar” os oprimidos do pesadelo da história. Assim como fizera Naville no ensaio sobre a “revolução e os intelectuais”, Benjamin advoga a necessidade de o pessimismo ser transformado em pessimismo revolucionário, quer dizer, “organizado”.
Para alcançar tal objetivo, “não basta que todo ato revolucionário comporte, como sabemos, uma parte de embriaguez. Esta se confunde com o componente anarquista. Mas insistir nisso de maneira exclusiva seria negligenciar inteiramente a preparação metódica e disciplinar da revolução em benefício de uma prática que oscila entre o exercício e a celebração antecipada. Ao que se soma uma concepção muito estreita, não dialética, da natureza da embriaguez”.1
O interesse de Benjamin no estado de “embriaguez”, assim como sua paixão por Baudelaire e seus Paraísos artificiais, levou-o a fazer experimentos com ópio, mescalina e, sobretudo, haxixe entre 1927 e 1934. Seu objetivo, como chegou a anunciar a Gershom Scholem, era escrever “um livro muito interessante sobre o haxixe”, projeto que, nem é preciso dizer, não foi adiante2. Apenas em 1972 as notas e os textos preparatórios foram publicados em livro na Alemanha3. Em vida, Benjamin publicou somente o fragmento “Haxixe em Marselha”. Algumas das sessões com a substância foram realizadas na companhia de Ernst Bloch e de médicos amigos como Ernest Joel e Fritz Frankel. Em Marselha, Benjamin relata a “felicidade profunda” sentida em suas deambulações pela cidade. A euforia aguçava sua percepção do tempo e do espaço, e era como se com isso alcançasse a “iluminação profana” suscitada pelos surrealistas. Em suas palavras, “as pretensões espaciais e temporais típicas do comedor de haxixe […] são absolutamente próprias de um rei. Para quem comeu haxixe, Versalhes não é suficientemente grande, nem a eternidade suficientemente longa”4.
A marca surrealista se faz presente naquele que seria o primeiro livro marxista de Benjamin, Rua de mão única, publicado em 1928, mas escrito nos anos anteriores. Além do apelo à imaginação, ao sonho, essa inspiração se faz valer na fascinação pelo espaço urbano da cidade moderna – em especial, é claro, de Paris, mas não apenas, no caso de Benjamin. Os surrealistas sustentavam que a busca pelo “maravilhoso no cotidiano”, como diria Louis Aragon, passava pelas “deambulações” em meio à paisagem urbana, por meio das quais são produzidos “acasos objetivos” que ressignificam o sentido das coisas, ou melhor, de suas imagens. Benjamin, por sua vez, através de Baudelaire e dos próprios surrealistas, toma a cidade como um texto imagético a ser decifrado por aquele que, de dentro da multidão, mantém uma espécie de distanciamento estranhado em relação a ela, tal como um camponês em plena Paris. Como ele diria no início dos anos 1930, em Infância em Berlim por volta de 1900 (texto dedicado a seu filho, “meu querido Stefan”): “Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução […]. Essa arte aprendi tardiamente; ela tornou real o sonho cujos labirintos nos mata-borrões
de meus cadernos foram os primeiros vestígios”5.
No total, Rua de mão única apresenta sessenta pequenos “fragmentos em prosa” que, juntos, configuram uma coleção de “imagens de pensamento”. É na “rua de mão única” que o intelectual vai recolhendo os trapos do espaço urbano, à procura de seus significados inauditos. Mais que enxergar por um ato teórico a totalidade da floresta, Benjamin visualiza nas árvores, ou melhor, em seus galhos, as alegorias que, na especificidade, apontam para uma interpretação possível da vida social em seu conjunto. Rua de mão única é dedicado, como não poderia deixar de ser, a Asja Lacis. “Esta rua chama-se rua Asja Lacis, em homenagem àquela
que, na qualidade de engenheiro, a rasgou dentro do autor”6, escreve ele. Melhor demonstração de quanto a dramaturga letã habitava seu imaginário afetivo, intelectual e político naqueles anos, impossível.
É compreensível, portanto, a perplexidade que o marxismo de Benjamin causou entre seus contemporâneos, incluindo aí os próprios marxistas. À parte do exagero de quem não se identificava com essa tradição política, Hannah Arendt não deixou de captar uma sensação mais ou menos comum quando afirmou que “Benjamin foi provavelmente o marxista mais singular já produzido por esse movimento que, sabe Deus, teve seu quinhão completo de excentricidades”. De fato, é difícil encontrar na história dos marxismos, no plural, um autor tão inclassificável, tão ambivalente na sua incorporação da obra de Marx e de outros marxistas, como Benjamin. Marxista e messiânico? Defensor do “machado afiado da razão” à procura do “maravilhoso no cotidiano”? Dialético fascinado pela imagem/imaginação e que se desinteressa da tarefa de buscar a essência por trás da aparência?
Há certo consenso, assim, sobre como a incorporação do marxismo provocou mudanças significativas no pensamento de Benjamin. A controvérsia gira em torno das avaliações distintas sobre os rumos tomados pelo autor após essa inflexão, tanto entre seus contemporâneos quanto na recepção posterior à sua morte. Enquanto alguns, na linha de Scholem, idealizam o jovem Benjamin anarquista/teológico, aquele de antes da deturpação marxista, seus leitores marxistas não raro simplesmente desconsideram essa fase inicial, vendo ali não mais que a confusão de um autor ainda à procura de um norte adequado, o que viria a ocorrer a partir de 1924.
Assim, cada um enxerga seu próprio Benjamin, operação facilitada pelo caráter fragmentado da obra do crítico alemão, como se cada texto ou “imagem de pensamento” pudesse levar a caminhos infinitos – não raro em sentido contrário aos de outros manuscritos do autor. O resultado é que, no fim das contas, observa-se pouca disposição entre seus interlocutores contemporâneos, a despeito das diferenças interpretativas, em buscar os possíveis nexos que entrelaçam os distintos momentos da trajetória e da reflexão intelectual de Benjamin, movimento que – com algumas exceções, como a de Michael Löwy – é reproduzido nas principais vertentes interpretativas que marcaram a recepção de sua obra.
Talvez o mais importante, aqui, seja o dimensionamento das rupturas e das continuidades resultantes da virada marxista de Benjamin. Mais que escolher o “jovem” em detrimento do “velho” Benjamin, ou vice-versa – como amiúde se faz também com Lukács, com a diferença de que o corte estabelecido é entre duas interpretações do marxismo, entre História e consciência de classe e os ensaios redigidos a partir do fim dos anos 1920 –, trata-se de verificar se e em que medida as inspirações teóricas e políticas do Benjamin “pré-marxista”, por assim dizer, continuam presentes no Benjamin “marxista”. E, além disso, se e como elas foram reformuladas após a incorporação do marxismo.
Notas
- Walter Benjamin, “Le Surréalisme: le dernier instantané de l’intelligentsia européenne”, em Œuvres II (trad. Maurice de Gandillac, Rainer Rochlitz e Pierre Rusch, Paris, Gallimard, 2000), p. 130. ↩︎
- Carta de Walter Benjamin a Gershom Scholem, Nice (França), 26 jul. 1932, em Correspondência (trad. Geraldo de Souza, Natan Norbert e Jacó Guinsburg, São Paulo, Perspectiva, 1993), p. 27. ↩︎
- Ver Walter Benjamin, Über Haschisch Novellistisches, Berichte, Materialien (Frankfurt, Suhrkamp Taschenbuch, 1972). ↩︎
- Walter Benjamin, “Haxixe em Marselha”, em Rua de mão única (trad. Rubens Torres Filho e José Carlos Martins Barbosa, São Paulo, Brasiliense, 2000, série Obras Escolhidas, v. II), p. 249. ↩︎
- Idem, “Infância em Berlim por volta de 1900”, em Rua de mão única, cit., p. 73. ↩︎
- Ibidem, p. 9. ↩︎
***
Fabio Mascaro Querido é professor livre-docente do Departamento de Sociologia da Unicamp. Pela Boitempo, publicou Lugar periférico, ideias modernas: aos intelectuais paulistas as batatas (1958-2000) (2024) e Walter Benjamin: uma introdução (2026).
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Walter Benjamin: uma introdução, de Fabio Mascaro Querido
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