O complexo universo da migração
Leia o epílogo de "Fronteiras do trabalho: migração decasségui e reprodução social", de Mariana Shinohara Roncato, e conheça a história por trás do livro do mês do Armas da Crítica – o clube do livro da Boitempo.

Entrada do conjunto habitacional Homidanchi, casa de muitos brasileiros decasségui no Japão. Imagem: Wikimedia Commons
Por Mariana Shinohara Roncato
Além da análise de um objeto de estudo e de meu desejo de contribuir com a sociologia em geral, incluindo a sociologia do trabalho, das migrações e os estudos de gênero e raça, esta pesquisa tem também uma outra origem.
Ela atravessa a minha própria trajetória de vida. Sou, inteiramente, fruto e partícipe desse universo que procurei analisar. Nasci no Brasil, cursei até o segundo ano do primário e emigrei ao Japão na década de 1990. Em alguns estudos que pude ler sobre o assunto, encontrei reflexões sobre a limitada autonomia de filhos de imigrantes, levados a atravessar fronteiras por decisões tomadas por seus pais. Sabe-se que, nesse processo, muitas crianças enfrentam o sentimento de deslocamento no novo contexto e, não raro, experiências de bullying e discriminações raciais e xenofóbicas que deixam marcas duradouras. Meu caso não foi diferente no que diz respeito ao peso da escolha migratória de meus pais. Ainda assim, considero-me afortunada por essa decisão. Por uma série de fatores, tive uma infância e adolescência que considero privilegiadas, sem lembranças de discriminações graves e marcadas como um período feliz.
Emigramos não apenas como núcleo familiar menor. Tios, tias, primos e primas também partiram. Ao todo, éramos quase vinte pessoas da mesma família que migraram naquela mesma época. Meu pai trabalhou todos esses anos em fábricas automobilísticas, submetido a jornadas e condições de trabalho semelhantes às apresentadas nesta pesquisa. Minha mãe também passou alguns anos na fábrica e, posteriormente, tornou-se cuidadora de filhas e filhos de decasségui como forma de complementar a renda. Ela vive com artrite reumatoide desde os dezoito anos de idade. Durante o tempo em que trabalhou na fábrica, o esforço físico agravou a doença, que evoluiu para um quadro de inflamação severa nas articulações, acompanhado por crises intensas de dor ao longo de muitos anos. Hoje, já no Brasil, a doença progrediu a ponto de comprometer significativamente os movimentos das articulações, causando a ela limitações na locomoção e nas atividades do dia a dia.
Ainda assim, é curioso perceber que, mesmo diante dessa condição, e embora eu a reconheça como alguém bastante crítica à exploração capitalista, nossas trajetórias não são avaliadas ou calculadas a partir de uma dimensão única. Malgrado as condições de trabalho, permanecem como aspectos valiosos a experiência de viver em um país que remete às origens de seus pais, o contato com a rica e diversa cultura japonesa, a receptividade de parte da população, as amizades construídas, a sensação de segurança e o amplo acesso aos serviços públicos e ao transporte. Tudo isso compõe, para ela e para muitos de nós, uma bagagem positiva. Hoje, minha mãe, assim como muitos decasséguis retornados, afirma que não voltaria ao país, mas ainda assim não se arrepende da migração, pois a considera uma experiência de vida profundamente marcante.
No meu caso, por ter emigrado ainda muito criança, tive a sorte de poder aprender o idioma japonês com facilidade. Na época, diferentemente do nicho de brasileiros que apresentei na investigação, por ter sido o início desse fluxo, residia em um local com pouquíssimos brasileiros. Na escola primária em que estudei, de crianças imigrantes só havia eu e um primo. Por sorte, a escola pública foi muito receptiva e nos proporcionou um atendimento especial para que pudéssemos aprender o idioma. Ademais, por sermos muito pequenos, essa aprendizagem foi muito rápida, diferentemente do que ocorre com filhos de imigrantes que chegam ao país na adolescência.
Já no ensino fundamental e médio, acabei traçando um caminho diferente do das demais filhas de decasséguis. Por incentivo de meus pais, ingressei em uma escola privada, cujo ensino tinha um caráter muito mais libertário do que o das tradicionais e conservadoras escolas japonesas, em um ambiente internacionalizado que se assemelha ao das escolas estadunidenses. É interessante notar que, embora meu pai fosse operário, seu rendimento permitia a manutenção dos meus estudos, situação que seria bastante difícil para um operário no Brasil. Como a escola se situava na cidade de Toyota, a maioria das minhas colegas era filha de engenheiros da Toyota Motors que haviam passado parte da infância nos Estados Unidos, especialmente na região de Kentucky, para onde seus pais haviam sido transferidos. Por não conseguirem se adaptar aos moldes conservadores da escola japonesa tradicional, elas ingressaram na mesma instituição de ensino em que estudei por seis anos. Era uma escola frequentada unicamente por estrangeiros, filhos de japoneses que já tinham vivido no exterior ou filhos de pais estrangeiros nascidos no Japão. Das contradições da vida: embora a escola fosse, na prática, muito libertária, o diretor era um padre católico dos Estados Unidos.
Todo esse percurso acabou por me levar a uma boa adaptação, imersa na cultura japonesa. Durante os dez anos em que ali vivi, só me comunicava em japonês, e quase todas as minhas amizades e relações eram com pessoas japonesas. Costumava ir aos mesmos lugares que qualquer adolescente japonesa frequentaria, embora meu fenótipo sempre denunciasse minha condição não japonesa. Talvez por isso eu não guarde muitas recordações de discriminação. Ainda assim, lembro de um episódio com nitidez. Em certa ocasião, eu e uma amiga com fenótipo não japonês fomos doar sangue, e o responsável pelo hemocentro começou a apresentar uma série de justificativas que não faziam sentido, nos impedindo de realizar a doação. Era evidente que nos discriminava por não sermos japonesas. Apesar disso, de modo geral considero positivo o saldo de minha experiência no Japão, embora essa avaliação possa ser minha memória seletiva, assim como talvez tenha ocorrido com as pessoas que entrevistei.
Sempre residi no conjunto habitacional Homidanchi. Meus pais e toda a minha família moravam lá, e praticamente todos eram e continuam sendo operários. As condições materiais de minha família eram muito distintas das da classe média japonesa que frequentava o mesmo colégio em que eu estudei. Por razões que escapam a determinações simples, apesar da diferença de classe, lá construí fortes amizades que perduram até hoje. Ainda assim, esse amálgama entre ter sido uma imigrante brasileira e, ao mesmo tempo, ter me inserido de maneira relativamente “bem-sucedida” no Japão constitui uma contradição interna que permanece conflituosa e não totalmente resolvida em meu mundo interior até hoje.
No ano 2016, retornei ao Japão para a pesquisa de campo que sustenta este livro. Embora estivesse vinculada a uma universidade em Tóquio e lá residisse no período de sanduíche, fiz inúmeras visitas, quase mensais, a Toyota e ao Homidanchi. Algumas paisagens locais mudaram, a cidade cresceu, mas seu núcleo duro continuou o mesmo: um polo industrial com muitos imigrantes trabalhando em fábricas. Quase toda a minha família, cerca de vinte pessoas, ainda residia no Japão. Quase todos continuavam a trabalhar no mesmo setor da indústria e, na época da pesquisa, moravam no Homidanchi. Entre meu retorno ao Brasil e a pesquisa deste livro, passaram-se quinze anos.
Por outro lado, na ocasião de meu período de sanduíche, reencontrei todas as minhas amigas da infância e adolescência. Quase todas haviam deixado a província de Aichi, todas cursaram o ensino universitário e algumas, inclusive, estudaram no exterior. Apesar de possuírem diploma universitário, muitas abandonaram as suas carreiras e hoje se dedicam integralmente ao trabalho doméstico, como donas de casa. Algumas já têm filhos e dedicam-se em tempo integral ao trabalho reprodutivo. Como mencionado ao longo deste livro, esse tipo de trajetória é bastante comum na classe média japonesa. O salário familiar, via remuneração do cônjuge, sustenta a casa, enquanto as mulheres permanecem no espaço doméstico e no trabalho reprodutivo, mesmo aquelas que chegaram a consolidar suas carreiras.
Outras amigas que não se casaram vivem em grandes centros, como Tóquio. Entre elas, as que optaram por seguir a carreira profissional conseguiram, ainda que de forma bastante tímida, ascensão no mundo corporativo. Contudo, devido à opressão de gênero típica do país, essas mulheres com alto nível profissional enfrentam menores chances de encontrar parceiros para se relacionar.
Nesse meu retorno ao Japão, uma das facetas que mais chamou minha atenção foi a diferença entre a situação de minha família e a realidade de meu grupo de amigas. Minha família, imigrante, que esperava fluxo e mobilidade, permanecia nos mesmos postos de trabalho, na mesma moradia e com condições materiais de vida bastante semelhantes às de sempre. Cabe ressaltar que essa situação não resultou em relatos de insatisfação ou infelicidade pela trajetória migratória. Como já observei no caso de minha mãe, a valoração da vida e os sentidos positivos ou negativos que atribuímos a ela excedem nossas condições materiais imediatas.
Por outro lado, o grupo de minhas amigas, ao longo desses quinze anos, seguiu um caminho radicalmente distinto do de minha família. A noção da mobilidade (que, afinal, trazia também certa liberdade) esteve sempre muito presente para elas. Elas saíram de suas cidades de origem, cursaram universidade em diferentes regiões, tiveram profissões em diversas províncias japonesas, algumas atuaram no exterior, fizeram viagens internacionais e vivem o mesmo Japão de forma diversa.
Apesar da felicidade em reencontrar tantas pessoas queridas que são partes de mim, essas duas situações me trouxeram desconforto. O que separa minha família de minhas amigas, afinal, são diferenças de classe e etnia. Diferenças que definem o rumo e a trajetória de vida de maneira desigual, e que, tenho consciência, não se restringem ao universo que observei, mas moldam a vida de todas as pessoas num mundo em que a exploração e a opressão ainda imperam.
Por fim, reproduzo a conversa que tive com um dos entrevistados. No primeiro capítulo do livro, descrevi um episódio de 1999, quando ocorreu um conflito entre a extrema direita nacionalista e os imigrantes no Homidanchi. Na ocasião, eu estava presente e morava perto do local. Recordo com nitidez de quando o grupo nacionalista percorreu de ônibus o conjunto habitacional com frases anti-imigrantes e discursos de ódio propagados por um megafone. Sobre o episódio, comenta o nosso interlocutor:
“É. Se você for contar essas histórias desses caras do Homi[danchi], dessa época aí, não acaba mais não. Hoje tem racismo, mas não é tanto como antigamente. No Homi tinha pessoal que era muito unido. Começou a se unir e tipo assim, japonês falava alguma coisa, todo mundo ia lá e descia o couro nesse japonês. Tinha um, aqui tem um pessoal japonês que eles ficam fazendo palestra contra estrangeiro no Japão. Foram no Homi. Então. Eles foram com ônibus lá. Numa época, tacaram fogo nesse ônibus aí. Essas pessoas todas eu conheço. O que tacou fogo no ônibus ele morreu esses dias, ele pulou do prédio.”
Essa fala ilustra bem o registro do episódio emblemático que ficou na memória da população decasségui. Conhecer o destino de uma pessoa envolvida nesse evento, após mais de vinte anos, revela um pouco do universo complexo que é a migração.
NÃO PERCA
Lançamento de Fronteiras do trabalho: migração decasségui e reprodução social, com a autora, Mariana Shinohara Roncato, Yumi Garcia e mediação de Gabriel Akira. Terça-feira, 14 de julho de 2026, às 19h. Ao vivo na TV Boitempo.
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Mariana Shinohara Roncato é socióloga, professora da UFPB e pesquisadora colaboradora da Unicamp. É doutora e mestra em sociologia pela Unicamp e graduada em ciências sociais pela UEL. Foi pesquisadora visitante da Universidade de Sophia/Tóquio, Japão, entre 2016 e 2017. É integrante do grupo de pesquisa Mundo do Trabalho e suas Metamorfoses sob a coordenação do professor Ricardo Antunes e membra do Grupo de Estudos sobre Teoria da Reprodução Social. Pela Boitempo, publicou Trabalho em plataformas: regulamentação ou desregulamentação? O exemplo da Europa (2024), com Christina Hiessl, Marco Gonsales, Murillo van der Laan e Ricardo Antunes.
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Os trabalhadores imigrantes no Japão são conhecidos como decasséguis, que significa algo como “sair para trabalhar”. A comunidade brasileira que vive no arquipélago nessas condições contabiliza mais de 200 mil pessoas, em 30 anos de fluxo migratório.
Em Fronteiras do trabalho: migração decasségui e reprodução social, nova obra da coleção Mundo do Trabalho, Marina Shinohara Roncato investiga o fenômeno migratório sob as lentes de classe, gênero, raça e etnia, entrelaçados à teoria da reprodução social.

A autora, que viveu dez anos como imigrante no Japão, retorna à cidade de Toyota para uma pesquisa in loco sobre as condições de trabalho dos brasileiros que trabalham nas fábricas da montadora de mesmo nome e em outros empreendimentos.
A carência da força de trabalho japonesa, somada à questão econômica, conflitos étnicos e de gênero, gera contradições visíveis que se manifestam no país por meio da exploração e opressão.
“Em média, um decasségui trabalha seis dias por semana, com uma jornada diária de trabalho de dez, doze horas, podendo chegar a mais horas dependendo da produção.
Diferentemente de trabalhadores com contratos por tempo indeterminado – os japoneses –, o decasségui recebe por hora, por isso a necessidade de cumprir horas extras para assegurar sua subsistência e, se possível, constituir uma poupança”.

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