Rememorando Walter Benjamin

Emil Hesse-Burri, Walter Benjamin, Bertolt Brecht, Wilhelm Speyer e Marie Speyer na praia de Le Lavandou (1931). Imagem: WikiCommons.

Por Gabriel S. Figueiredo

Um livro introdutório tem por finalidade expor, para um público não especialista, algum assunto relativamente particular. Se conseguir fornecer as linhas gerais, aproximando quem lê de um tema que lhe é mais ou menos estranho, sua função está cumprida. Uma boa introdução, entretanto, frequentemente transborda essa tarefa, constituindo-se como um trabalho de interesse também para aqueles e aquelas já versados no assunto em questão. O livro aqui resenhado, o mais recente da coleção Pontos de Partida, da editora Boitempo, faz parte desses casos.

Fabio Mascaro Querido já publicou vários artigos sobre Walter Benjamin, além de ter analisado, em sua tese de doutorado, as obras e trajetórias de Michael Löwy e Daniel Bensaïd a partir de suas “afinidades benjaminianas”. Agora, fornece-nos um livro dedicado integralmente ao crítico alemão. A perspectiva teórico-metodológica subjacente a Walter Benjamin: uma introdução, nutrida por uma sociologia crítica dos intelectuais ou das ideias, já experimentada em trabalhos anteriores do autor, é um dos aspectos que o constituem como um caso feliz tanto de introdução (para “fora”) quanto de contribuição (para “dentro”). Isso porque as dimensões histórico-sociais das ideias benjaminianas, cuja explicitação a orientação sociológica do livro pressupõe, auxiliam sobremaneira os leitores e as leitoras que visam aclimatar-se ao pensamento desse intelectual singular, de difícil enredamento e caracterização, ao mesmo tempo que, para os já aclimatados, o livro fornece uma abordagem pouco usual de Walter Benjamin.

O que é pouco usual não é uma ou outra referência à vida e ao contexto de produção de suas ideias – é quase regra nos trabalhos sobre Benjamin a menção, por exemplo, ao seu trágico suicídio na fronteira franco-espanhola, quando fugia do avanço das tropas nazistas, ou à rejeição de sua tese de habilitação, dimensões que contribuem para a “aura” que se construiu em torno dele –, mas sim uma análise mais sistemática de sua trajetória, que explora sua obra como um todo de modo relacional ao contexto histórico e à sua vida. Orientando-se dessa maneira, Fabio Querido apresenta um percurso cronológico em quatro capítulos, que visa apreender, num mesmo movimento, os contextos, as obras e a vida do crítico alemão – o que confere maior significação mesmo aos eventos mais frequentemente mencionados em sua fortuna crítica.

O primeiro capítulo do livro apresenta a infância e o início da atividade intelectual de Benjamin. Perpassa, assim, pelos seus estudos universitários, pela sua militância na Associação dos Estudantes Livres (Freie Studentenschaft) e discute textos como “A vida dos estudantes” (1915), O conceito de crítica de arte no romantismo alemão (1919), tese de doutorado do autor, e “Sobre a crítica do poder como violência” (1920-1921). Querido enfatiza nesse capítulo a inclinação romântica, libertária e messiânica da juventude de Benjamin – a qual, como o desenvolvimento do texto mostra, nunca será abandonada por ele, mas sim relida e ressignificada a partir do seu contato com o marxismo.

O segundo dedica-se à “inflexão mais decisiva de sua trajetória”1, operada entre 1924 e 1925, quando Benjamin inicia o processo de incorporação do marxismo. O capítulo trata também do momento determinante em que é convidado pela Universidade de Frankfurt, em 1925, a retirar a postulação de sua tese de habilitação, a Origem do drama barroco alemão, um pré-requisito para se alcançar estabilidade no espaço acadêmico da Alemanha de então. Também apresenta o impacto da descoberta do surrealismo, por volta de 1926-1927, movimento que se tornou uma inspiração para Benjamin, manifesta, por exemplo, no importante livro Rua de mão única (1928).

O terceiro capítulo versa sobre alguns importantes resultados advindos da inflexão marxista na trajetória benjaminiana, marcados pela impossibilidade da carreira acadêmica: o início do projeto das Passagens, bastante inspirado no surrealismo, mas que também demarca as suas reservas e diferenciações em relação ao movimento, e os textos mais “brechtianos” de Benjamin, como “O autor como produtor” (1934) e “A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica” (1935 – primeira versão).

O quarto e último capítulo continua lidando com as Passagens, mas agora a partir das mudanças de rumo no projeto, iniciadas em 1936, quando Benjamin “parece retomar uma visão mais crítica em relação ao progresso e à modernidade”2. Esse é o período em que são escritos seus célebres ensaios sobre Baudelaire e que se encerra com os enigmáticos fragmentos “Sobre o conceito de história”, escritos por Benjamin poucos meses antes de seu suicídio, em 1940.

No interior desse quadro geral, Querido delineia um Walter Benjamin devidamente complexo, rejeitando as leituras que isolam textos específicos do autor, “como se uma abordagem de conjunto fosse impossível, dadas as diferenças significativas entre eles”3. Ele esboça uma trajetória na qual, embora não haja uma “coerência linear”, é possível encontrar “uma unidade na diversidade, ou uma diversidade na unidade, na esteira de um pensamento elaborado num período – entre as décadas de 1910 e de 1930 – marcado por uma crise permanente”4. E isso sempre às voltas com os problemas relativos aos modos de engajamento intelectual e, portanto, às possíveis relações entre teoria e prática, trabalhados a partir de perspectivas contrastantes ao longo da obra benjaminiana, como Querido pontua no decorrer de seu texto e enfoca no subcapítulo “Figuras do intelectual”, o qual convém destacar como um dos pontos altos do livro.

Vê-se, então, que a sociologia dos intelectuais realizada por Querido está longe de ser uma abordagem “sociologizante”, cuja tendência é a redução das produções intelectuais aos contextos históricos e/ou à trajetória do autor, relegando a segundo plano as próprias ideias expostas nos textos. Distante de uma perspectiva reducionista, o que está em jogo é o necessário trabalho de recuperação das camadas contextuais – histórico-sociais e biográficas – que, dadas imediatamente no momento de composição dos textos, deles se alienam no decorrer do tempo. No trabalho em questão, essa recuperação parte, para além de questões teóricas, de uma intenção eminentemente política, benjaminiana mesmo: “Talvez tenha sido esta”, escreve Fabio Querido, “uma das principais motivações deste trabalho: tomar a trajetória e a obra de Benjamin ‘a contrapelo’, inscrevendo-as nas várias gerações de vencidos da história. Não se trata de uma romantização da derrota, mas de salvar Benjamin do conformismo que dele tenta se apoderar”5.

Nesse sentido, o livro enfatiza a perspectiva política revolucionária do autor, muitas vezes minimizada em sua recepção geral, e também aponta a atualidade do pensamento benjaminiano no que diz respeito, por exemplo, à sua utilização da ampla e aberta noção de “oprimidos”, à dimensão ecológica de sua intransigente crítica do progresso e aos problemas relativos à luta contra o fascismo6. Sobre esse último aspecto, Querido não deixa de enfatizar que a postura de muitos “progressistas” contemporâneos é bastante próxima à dos criticados por Benjamin, cuja falha política na luta contra o fascismo residia substancialmente em afrontá-lo como “exceção” e “em nome do progresso”, “como se este fosse uma norma histórica”7. Não menos problemático que outrora, hoje “o resultado” dessa postura diante da ascensão da extrema direita “é a pouca disposição para a avaliação concreta de uma situação em que, para os oprimidos, norma e exceção já não se distinguem com nitidez há algum tempo”8.

Por essas e outras, os leitores e as leitoras encontrarão nesse trabalho mais até do que uma excelente apreciação sociológica da obra e trajetória benjaminianas: encontrarão um Walter Benjamin para o tempo do agora.

Notas

  1. Fabio Mascaro Querido, Walter Benjamin: uma introdução. São Paulo, Boitempo, 2026, p. 10. ↩︎
  2. Ibidem, p. 11. ↩︎
  3. Ibidem, p. 7. ↩︎
  4. Ibidem, p. 9. ↩︎
  5. Ibidem, p. 121. ↩︎
  6. Ibidem, p. 114-5. ↩︎
  7. Walter Benjamin, “Sobre o conceito de história”. In: LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das teses “Sobre o conceito de história”. São Paulo, Boitempo, 2005, p. 83. ↩︎
  8. Fabio Mascaro Querido, Walter Benjamin: uma introdução, cit., p. 115. ↩︎

***
Gabriel S. Figueiredo é doutorando em Sociologia na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).


Walter Benjamin: uma introdução, de Fabio Mascaro Querido
Muito comentado e pouco compreendido, Walter Benjamin ganha, pela primeira vez, uma espécie de manual para não iniciados. Neste livro, Querido segue um “fio vermelho” que atravessa a obra de Benjamin, revelando a unidade profunda de um pensamento ao mesmo tempo experimental e radical. O leitor tem em mãos um retrato sucinto de um intelectual difícil de definir, mas marcado por uma coerência fundamental: a crítica ao capitalismo moderno nas mais diversas frentes – econômica, social, cultural e mesmo ecológica. 


Ensaios sobre Brecht, de Walter Benjamin
Um diálogo extremamente atual entre duas grandes mentes do século XX. Uma coletânea única de ensaios sobre a obra dramática e poética de Bertolt Brecht. O filósofo conceitua o teatro épico, discute Marx e sátira, e revela trechos de sua intensa correspondência com Brecht exilado na Dinamarca.

O capitalismo como religião, de Walter Benjamin
Uma seleção reveladora dos escritos do filósofo, abordando desde o romantismo alemão até a crítica do capitalismo como religião, numa perspectiva que desafia a melancolia e busca indícios de transformação na história. Crítica radical da civilização capitalista-industrial moderna.

Walter Benjamin: aviso de incêndio, de Michael Löwy
Uma análise erudita das teses de Walter Benjamin sobre o conceito de história, revelando sua riqueza de ideias e influências. O autor destrincha a complexidade das ideias de Benjamin, que articulou influências contraditórias e construiu uma síntese das relações da humanidade com o tempo.

Em torno de Marx, de Leandro Konder
Refletindo sobre a vitalidade do pensamento marxiano, aborda a dimensão filosófica muitas vezes subaproveitada de Marx. O autor, figura central no marxismo brasileiro, dialoga sobre moral, religião, história e dialética, incluindo reflexões sobre Lukács, Adorno, Gramsci e outros.


Descubra mais sobre Blog da Boitempo

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário